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06 agosto 2012

Brasil para exportação. E daí? *

Meses atrás, um escândalo (mais um) era alardeado pela TV: contêineres de lixo hospitalar chegavam dos Estados Unidos, comprados por comerciantes do norte do Brasil e transformados em bolsos para calças jeans, revendidas a todo o País. Esse é apenas um lado perverso da economia global e sua lei simples: a mercadoria chega, pelo menor preço possível, aonde há procura – mesmo que seja lixo. A cultura de massa do século XXI segue a mesma lógica.

A música americana é consumida na Europa desde o fim da 2a Guerra Mundial. No pós-guerra, o jazz – o melhor produto cultural americano – lá encontrou sua plateia mais encorajadora. Os beboppers eram vistos como malucos nos EUA, mas o existencialismo francês e sua filosofia de liberdade radical adoraram as experimentações harmônicas do jazz moderno.

Já o mercado cultural brasileiro sempre foi um grande fã das tendências francesas – desde 1900 a 1960, tudo era copiado de Paris. Mas passamos a consumir música popular americana desde que Elvis Presley chegou pela TV e conquistou a juventude bossa-nova. Do rock da Jovem Guarda nos anos 60 ao hip-hop e às bandas indies nos anos 2000, consumimos por anos a fio a música de massa dos EUA,  superproduzidíssima para aparecer bem na telinha do canal jovem de videoclipes. E mesmo assim, as rádios, as novelas de TV e os programas de auditório nunca deixaram de tocar música feita aqui. Talvez isso mostre a força da nossa cultura, mas ao custo de uma certa perda da inocência, da criatividade, e do elã antropofágico e tropicalista exibido por grupos baianos, mutantes, secos e molhados – haja visto o surgimento de estilos de origem regional que foram adaptados à grandiloquência da cultura de massa, como o axé, o pagode romântico e o sertanejo universitário.

As técnicas para se produzir um sucesso, entretanto, continuaram tão antigas como a das marchinhas de carnaval: basta criar uma dancinha, um trocadilho de apelo sexual, um refrão-pílula, que pode ser um “tchê”, um “tcha”, e esperar que a música pegue. Apesar de achar que a música pode ser mais que um eterno baile de carnaval regado a “vou te pegar” e “dar uma fugidinha”, não vejo problema algum nesse tipo de diversão ligeira. A perversidade está mesmo é no aparato de comunicação e marketing voltado a espalhar essa música, oferecendo a nossos ouvidos apenas um canto monótono de vibratos em terça e rebolismos vulgares.

A verdade é que, de tanto consumir fast-foods culturais, hoje o Brasil aprendeu a fazer sua própria cultura enlatada. Os megashows brasileiros não devem nada ao showbusiness americano – igualmente povoado por artistas apelativos e cheios de rimas fáceis. Por isso, agora somos nós que mandamos para o mundo contêineres cheios de “produtos” musicais. E a Europa, em plena crise econômica, canta e dança ao som do vanerão brasileiro dos neo-sertanejos Gustavo Lima e Michel Teló – música bem mais leve e divertida que o jazz refinado do pós-guerra.

As plateias mais requintadas dos Estados Unidos e Japão até que consumiam a música brasileira, com suas sofisticadas composições da bossa-nova, chorinho e samba-jazz. O que não se via – desde Carmem Miranda, mantidas as proporções – era um artista brasileiro bombando nas pistas, nos programas de auditório, em aeroportos, rádios e até em escolas, como acontece com Michel Teló e Gustavo Lima – feito digno de uma Shakira ou Ricky Martin, artistas latinos que conquistaram as paradas mundiais.

Ok, então somos “exportadores” de cultura. Os americanos, que começaram toda essa história de globalização econômica, serão os próximos a receber nossos contêineres. Mas eles têm um patrimônio cultural protegido e valorizado: o jazz, ensinado em faculdades e até em escolas públicas. Na Europa, a arte de Mozart e Beethoven é tratada como disciplina escolar há séculos. Esses povos sabem a diferença entre música de verdade e mero entretenimento. Enquanto isso, no Brasil, o lixo cultural importado encontra ouvidos despreparados e um mercado consumidor em franco crescimento. A continuar assim, seremos apenas uns infelizes orgulhosos vendedores de nosso refugo musical, mas dançando ao som do baile americano e vestindo nossas calças jeans com bolsos feitos de lixo.

* texto originalmente publicado pela revisa Bleit (Boa Leitura), edição n1, julho/2012.

15 março 2012

Kombis e política*

















Passou o Carnaval, acabou o horário de verão, daqui ao fim do ano é um pulo. O calendário passará ainda mais rápido porque é ano de eleições municipais. O mercado publicitário já se mobiliza desde o fim do ano passado para captar clientes e realizar suas campanhas políticas. De arrasto vem o mercado da música, responsável pelos jingles – as famosas musiquinhas que ajudam a fixar na memória os nomes daqueles que poderão (ou não) estar no nosso foco na hora de apertar os botões da urna.

Os estúdios e produtoras musicais estão por aí a inventar soluções para chamar a atenção dos eleitores. Preparem as kombis com suas horrendas cornetas de som, pois os jingles vêm aí. O recurso da “musiquinha que vende” existe no mundo desde 1926 – no Brasil, desde 1932. A fórmula do sucesso é conhecida: letra fácil, com um bom refrão, harmonia simples, melodia econômica, tudo se desenvolvendo em um ritmo que faça não só o corpo, mas também as idéias “dançarem” na cabeça de quem escuta. A música como um conceito “cantável”, o discurso do candidato materializado no som, prontamente identificado pelo ouvinte.

A criatividade de marqueteiros e produtores musicais atinge níveis realmente estratosféricos – assim como o valor das campanhas. Basta lembrar alguns cases de sucesso. “São Paulo é Paulo porque Paulo é trabalhador”. “Lula lá”. “Ey, Ey, Ey-Mael”. “Alô, alô, quatro, cinco, um.” Pronto, você já sabe. Lembrou-se de cada candidato em uma foto sorridente, em um terno impecável, mãos acenando vitoriosas. O jingle publicitário é isso aí: tem justamente a função de emoldurar um retrato, acompanhar uma imagem, engrandecendo virtudes e ajudando até a esquecer defeitos.

No ramo do marketing, costuma-se dizer que propaganda não vende mercadoria ruim, porque não há produto que resista ao teste máximo de qualidade: o teste do consumidor. No ramo da política, o uso do marketing para maquiar um “candidato ruim” tem conseqüências mais graves. Depois de votado, o produto (ops, o candidato) só pode ser devolvido quatro anos depois. Portanto, ele dura sim, resiste aos mais diversos escândalos, denúncias e intempéries políticas. Igualzinho a outro case clássico da sabedoria popular, o do vaso ruim que não quebra. E então, caro eleitor, o que você vai fazer? Só restará esperar mesmo esperar as kombis voltarem, quatro anos depois, e ouvir as novas musiquinhas que tentarão, mais uma vez, embalar seu voto.

*texto publicado com cortes na revista Perfil Araraquara, março/2012

06 março 2012

O caso dos celulares sem fone de ouvido*



 















Estimo que já fiz o trajeto Araraquara-Londrina de ônibus cerca de 150 vezes em 10 anos. Posso dizer tranquilamente que, nesse período, observei uma modificação nos tipos de som que escutamos dentro do ônibus.

Antes havia mais barulho sendo produzido por pessoas do que por coisas. Conversas de madrugada, malas sendo acomodadas, pacotes abrindo, o terrível amassamento dos sacos de salgadinho, crianças gritando – todos ruídos incômodos, mas que interrompiam o silêncio por pouco tempo, até que alguém pedisse para baixar a conversa, que controlasse a criança, etc. Mas percebo que hoje há nos ônibus mais sons eletrônicos do que de gente, devido aos notebooks, videogames portáteis, mp3 players e devido a eles, os famigerados celulares sem fone de ouvido.

O celular mudou a forma das pessoas se comunicarem. É um aparelho que propicia um elo individual, atomizado, ultrapessoal do indivíduo com o resto do mundo. E essa extrema personalização parece ter mudado também a percepção dos seus usuários em relação às outras pessoas que estão em volta. Se antes o toque do celular só atrapalhava concerto de música clássica, hoje são suas músicas em formato mp3 que causam estrago.

Aposto que, com a exceção dos boomboxes (aqueles sound-systems portáteis que algumas turmas usavam no final dos anos 80 para levar suas músicas para a rua), você nunca viu ninguém ouvindo rádio em público sem fone do ouvido (desconte os radinhos de pilha em dias de futebol). Pois é, o celular que toca músicas é o novo boombox. O povo está à vontade para usufruir de suas canções favoritas e dividi-las com todos em volta, sem se preocupar o gosto musical alheio. E mesmo quando o repertório é de nosso agrado, quem quer ouvir um Beethoven, um samba de Paulinho da Viola ou um solo frenético de John Coltrane às duas da manhã num elevador? Ou num avião? Ou ônibus?

Cada estilo musical tem seu público específico, mas já fiz viagens inteiras sendo “platéia forçada” de música sertaneja, pagode, música eletrônica, música evangélica, e outras mais, via celular. O triste é que poucas vezes vi outras pessoas reclamando disso. Se uma criança chora, imediatamente há pessoas fazendo queixas. Se alguém ronca, sempre há alguém para dar cotoveladas. Mas, por incrível que pareça, são poucos os que se incomodam com os terríveis agudos da música dos celulares. O que está acontecendo com os ouvidos dessas pessoas?

Poderíamos arriscar várias explicações para esse fenômeno. Poderíamos brigar por nosso direito ao silêncio no ônibus, mas quase todas as tentativas que levei a cabo não surtiram efeito (aliás, nunca conte com o motorista como um árbitro justo nestas questões de convivência civil). Prefiro aqui dar uma dica valiosa. Contra a invasão dos celulares sem fone de ouvido, me armei com um aparelho eletrônico muito eficaz: um celular, com fone de ouvido. Afinal, meu gosto musical não é melhor do que o de ninguém, mas é só meu e eu respeito o ouvido do outro. Mesmo que o outro não respeite o dele próprio.

*Texto publicado na Revista Perfil Araraquara (fev/2012)

08 fevereiro 2012

Ouvidos e História*

Um pesquisador musical do século XX, o francês Pierre Mariétan, disse: “a música acontece no ouvido de quem escuta”. Tal afirmação, nos dias de hoje, nos faz pensar nas consequências de um fenômeno bastante corriqueiro, que é o fato de a música “bater à porta” dos ouvidos constantemente, chegando pelos mais diversos meios: carros de som passando na rua, televisão ligada, mp3 players, celulares, internet.

Com tanta música disponível, é importante refletir sobre o “como ouvir”, pois isso determina também o “o quê” e o “por quê” ouvir. Tentemos entender isso em uma breve história da tecnologia musical e sua relação com a escuta.

O antigo hábito de ouvir rádio proporcionava que os sons produzidos por grupos musicais eliminassem a distância até os ouvintes. Antes disso – e antes mesmo dos discos –, música só se ouvia em shows, bailes, ou em lares onde alguém tocava algum instrumento, por meio de uma partitura escrita – a música tinha que ser “lida”, num papel!

A indústria musical dos anos 50 até os 90 apostou no ouvido “sedentário” – ouça seu ídolo em sua própria casa - e fez de tudo para garantir altas vendagens de seu principal produto: o disco de vinil. A preocupação era de encantar o ouvido, mas também vender música, por meio de um suporte plástico chamado disco. O long-play levou aos bares, casas noturnas (quem não se lembra das jukeboxes que tocavam vinis a troco de uma moeda) e lares o fascínio da música gravada.

Possuir uma vitrola era um luxo, pois dava ao ouvinte o poder de tocar sua música preferida a qualquer hora. O rádio, principal veículo de comunicação de massa até os anos 50,  amplificava essa escuta, com programas musicais que veiculavam teatro, radionovelas e shows ao vivo – que mais tarde foram substituídos pela execução dos próprios LPs pelos recém-surgidos disc-jockeys.

Os discos evoluiram com novas tecnologias, e surgiram as fitas K-7, depois os CDs. Nos anos 2000, a digitalização pulverizou a indústria fonográfica com uma nova possibilidade: substituir o plástico pelo virtual, com o simples download de músicas. A principal consequência para a escuta é a explosão de consumo musical, pois temos a música em nossos bolsos, dentro de players digitais, celulares, e até acompanhada do videoclipe lançado na MTV, depois baixado do Youtube.

Música lida, música ouvida, música comprada, música baixada. Em meio século de história, os jeitos de se ouvir música foram mudando, pois os suportes foram se transformando. A pergunta é: nesses cinquenta anos, será que assumimos o papel de ouvintes ativos ou fomos apenas consumidores passivos de música? Escute o que te diz o seu ouvido.

*publicado na revista Perfil Araraquara, edição 20, janeiro de 2012. Versão integral, difere do publicado.

27 janeiro 2012

O jazz e a competição musical





















Um aspecto importante da sociedade norteamericana é a competitividade, na qual homens e mulheres têm que provar que conquistarão o mundo com seu trabalho duro, talento e dedicação, e honrarão a "terra dos bravos e da liberdade" mostrando que são os melhores em suas áreas. Há os winners e os losers. Vencer é a meta. Todos escolhem seu alvo, cada um em sua área, e saem todos em busca do objetivo. A criança é colocada na melhor escola, para que possa ter as melhores notas no SAT (exame igual ao Enem) e poder entrar na melhor faculdade, que os pais terão de pagar com economias que fizeram a vida toda pensando na educação do filho - afinal, é assim que se cria vencedores.

No processo educacional, mais competição. Competem para ver quem será a rainha do baile, quem será o presidente do grêmio estudantil, quem é o mais popular, quem soletra melhor, quem vende mais chocolates na gincana. As escolas competem para definir quem tem o melhor time (de vários esportes), quem tem a melhor equipe de cheerleaders, quem tem a melhor banda. Sim, há educação musical nas escolas, que eventualmente formam bandas, que sempre competem. Competição musical.

O filme "Drumline" (EUA, 2002, Charles Stone III), ao qual assisti dia desses numa sessão da tarde (sim, janeiro é meio parado para a música então, que diabos!, assisti mesmo), mostra bem esse clima de disputa que há na música no meio escolar. Traz cenas incríveis como essa abaixo, onde as bandas de duas faculdades se desafiam num duelo de baquetas. As coreografias e a sincronicidade são incríveis, mas há músicos que dizem que, na vida real, essas bandas fazem coisas ainda mais impressionantes do que o filme mostrou. Mas vale a pena conferir:


Nos EUA, os músicos do jazz passam por esse processo tentando ingressar em boas escolas, fazendo provas para ganhar bolsas de estudo em instituições como New England Conservatory, Berklee, Julliard. Estudam para ganhar concursos de saxofone, piano, guitarra, violino, performance, etc. Portanto, jazzistas - em sua maior parte - são resultado da soma de talento, um ambiente positivamente carregado de música, e competitivade.

Juntando talento nato e muito, muito trabalho duro, o estudante de música têm ao seu dispor inúmeras escolas, bandas e cursos de verão para aprimorar seu talento. Oportunidades disponíveis, concorrência dura, esperando a livre-iniciativa dos candidatos ao sucesso: é a própria essência do capitalismo industrial, a mão invisível do mercado exercendo a seleção "natural" e separando os bons dos muito bons, onde vencem os dedicados - típicos "self-made man" da música, que constroem suas carreiras artísticas à custa de muito sacrifício e trabalho. 

Após enfrentar anos de estudos, inúmeros testes, provas e audições, horas e horas de prática, ensaio e preparação, o jazzista está pronto. Ironicamente, uma das artes mais livres e espontâneas depende de uma disciplina estrita e compromissos sérios com grades curriculares e notas. Para os jazzistas, principalmente os que surgiram desde os anos 80, quando explodiu o número de escolas de jazz e performance nos EUA, estar no palco de um jazzclub é, em grande parte, receber os louros pela vitória que conquistaram antes de estar ali.




09 janeiro 2012

Michel Teló pegou os editores da Época

Já falaram muito sobre o assunto, mas eu também não podia deixar de me manifestar sobre algo que envolve música e jornalismo, justamente um dos pilares que sustentam esse blog, se é que se sustenta.





















A capa da revista Época da primeira semana de janeiro foi, no mínimo, equivocada. Confundiram a superexposição na mídia do cantor (e compositor também??? não sei...) Michel Teló com a emergência de um novo símbolo cultural nacional, que representa o gosto musical de toda uma classe social brasileira. Se isso fosse a verdade, a falsa capa abaixo, satirizando Beethoven e sua presença marcante nos caminhões de gás e esperas telefônicas do Brasil inteiro, poderia muito bem ser publicada.





















Adorei o raciocínio dos humoristas de plantão nas redes sociais. Não importa se é Michel Teló. Não importa se é Beyoncé, Lady Gaga ou se é Beethoven. Apenas espanta o fato de jornalistas confundirem todo o turbilhão midiático em torno de uma música (que vai passar, assim como passou o "Rebolation" e o "Créu", lembram?) com uma nova ordem social, merecedora de análises antropológicas sobre o Brasil e sua nova classe trabalhadora emergente. Para os editores elitistas da Época, Michel Teló é o carimbo que lhes faltava para atestar, de boca cheia, que o povão não sabe mesmo nada de música - "não falei que essa nova classe C não tinha gosto? Michel Teló é o máximo que eles têm pra nos mostrar."

E também nem vou falar do uso errôneo da expressão "cultura popular" no subtítulo, em lugar de algo mais apropriado para definir a música de Teló, "cultura de massa". A chamada foi uma pegadinha. O fenômeno Michel Teló "pegou" os editores. Afinal, se uma música está tocando em tudo que é lugar, pode até ser adjetivada como "popular", mas isso não é o mesmo que dizer que é fruto da cultura popular.

Cultura popular é justamente o lugar das manifestações espontâneas, ligadas a uma tradição oral, a um folclore e a priori não mediatizadas (com algumas exceções, pois eventos como o Carnaval e o Bumba-meu-boi já se tornaram produtos culturais de massa em certa medida). O termo é usado, portanto, com parcimônia. Nem Rolando Boldrin, que tem um programa na TV educativa paulista há décadas sobre músicas, literaturas e manifestações culturais populares, se dá o direito de dizer o que é ou não cultura popular. Ou os editores da Época acham que Beethoven é cultura popular porque é o hit dos caminhões de gás do Brasil?

24 dezembro 2011

Música e concretude





















Às vezes me pego sendo enganado pela música. Na televisão, filmes, na rua, no rádio. A música, sendo nada mais que uma organização de sons, barulhos, ruídos, vozes, etc, às vezes investe-se também de uma intencionalidade. Um construto que tem um fim além de ser apenas belo, apenas agradável, apenas arte -, tornando-se um conceito aplicado, uma mensagem, até mesmo uma arma. Armadilha. Armação.

O autor, o compositor, o produtor, qualquem um deles pode agir como um manipulador. Assim como a propaganda de perfume tenta traduzir um aroma por meio de imagens e sons (tradução intersemiótica, já que a televisão ainda não tem a capacidade de estimular o olfato), a música tem a propriedade de sinalizar uma coisa que não existe literalmente, ou de emprestar um significado a algo, ou de simular uma ação - como se narrasse sem palavras. Drama. Comédia. Aventura. Farsa.


O tempo para ou corre. Eterniza o beijo. Emoldura o encontro. Quem assiste a seriados americanos como "Friends" ou "Seinfeld" entende a capacidade da música de marcar a cena - quando, por exemplo, aparece o exterior do prédio, a fachada do restaurante, a panorâmica noturna de Nova York, sempre acompanhadas de uma curta e bem característica vinheta, antes dos atores começarem os diálogos. Prelúdios.

A música também acelera o fluxo da vida, faz tudo acontecer mais rápido. Rocky Balboa ("Rocky", 1976) se prepara para a luta decisiva, que o confirmará campeão mesmo contra um inimigo aparentemente imbatível - a aberração russa Drago ou o negro impiedoso Apollo. Enfrenta a rotina pesada de exercícios e o descrédito da mulher. Mesmo assim, pontuando as cenas de sofrimento, suor e dor, o famoso "Rocky Theme" dá esperança de vencer. Tudo passa rápido. Basta a música, e três meses passam em três minutos. Interlúdios.

Quando a música entra no lugar de alguma coisa, vemos a música "sendo", "existindo" concretamente. Figurando. Lembro do filme "Contatos imediatos em terceiro grau" ("Close encounters of the third kind", 1977) e a famosa sequência de notas usada pelos alienígenas para se comunicar com os humanos. Alguém já ouviu algum som extraterrestre? E música de outro planeta? A verdade é que o compositor John Willians inventou para os ETs uma assinatura sonora, usando notas de uma escala pentatônica. E não deve ter sido por acaso: com sua força ancestral, telúrica, sendo uma das mais antigas escalas musicais utilizadas por vários povos humanos, a escolha produziu um efeito primal, estabelecendo uma poderosa ponte sonora que dá um sabor especial a este filme de ETs (e olhe que eu morro de medo desses bichos verdes...). Desenvolve-se a trama, a música é a própria personagem. Coda.




Além de ter a capacidade de concretizar algo que teoricamente nem existe - afinal, ainda não provaram que os tais homenzinhos verdes estão de fato entre nós - a música também tem o poder de representar sonoramente algo que não tem som. Como o gás de cozinha (preciso comentar?). Ou então bancos. Sim, bancos, essas instituições que nos pedem dinheiro para guardá-lo pra gente. Bancos fazem propaganda. Muita. E não sei se repararam, mas todos encerram seus vídeos promocionais com um pequeno jingle - uma assinatura, uma audiomarca - que ajuda na identificação e fixação do nome do dito-cujo. Tem até gente fazendo cover de jingle de banco. Finale.

08 novembro 2011

Tempo pra música












Não tá dando tempo pra escutar música. Entre um trabalho e outro, entre uma esfiha e outra de almoço, entre uma noite mal dormida e uma manhã de ensaio, não há tempo pra outra coisa senão respirar. Vida dura? Não sei, talvez a vida seja mais dura ainda com quem nem tem a consciência de que não tá dando tempo pra ouvir música. Esse pessoal sim, sofre.

Esse pessoal - uma maioria esmagadora da população mundial - se acostumou tanto a comer as migalhas de música que ocupam todos os pequenos espaços do cotidiano que não sabe mais diferenciar carniça de filé mignon. Na algazarra dos sons que batem na porta do ouvido a todo instante, feliz é aquele que pode tomar uma cervejinha ouvindo o CD de hits em mp3 que comprou pessoalmente na banca do camelô por R$ 10 a dúzia. Graças dão a Deus por conseguem arrumar um tempo pra ligar o radinho enquanto lavam o carro na calçada de manhã. Dão vivas por terem comprado um ingresso na internet pra levar a filha no show do Justin Bieber. Oxalá a loja dê lucro e eles consigam viajar no final do ano com a nova Tucson equipada com home-theater, assistindo o último DVD da Ke$ha. Ou do Luan Santana. Ou do Michel Teló. Esse pessoal merece mesmo a felicidade.

Esse pessoal não tem nome, classe social, cor, nada disso. Esse pessoal tem em comum apenas o fato de não ter tempo pra curtir a vida e descobrir toda a música que há por aí. Esse pessoal, pelo pouco tempo que tem, tem apenas tempo pra se enganar. O operário se contenta com seu churrasquinho de fim de semana regado à música sertaneja; o office-boy se sente a última bolacha do pacote porque conseguiu baixar no computador da firma uma coletânea de funk carioca; o gerente da mesma empresa já planeja estrear o novo som do carro no happy-hour de sexta, tocando sua coleção de DJs dos melhores night-clubs da Europa em plena praça ou em algum posto de gasolina; o universitário se alegra com a festa na república na "semana do saco cheio" regada ao último sucesso de alguma dupla de "sertanejo universitário"; o dono da confecção se delicia com a voz doce de Paula Fernandes na festa de aniversário das crianças, enquanto a mulher do dono da confecção arrisca uma coreografia da Claudia Leitte no fim da festa.

Eu tô triste por não ter mais tempo pra música. Mas e esse pessoal, como é que faz?

17 julho 2011

Caminhos da harmonia
















No jazz só há uma regra: seguir a forma da música. Mesmo quando não há forma, segue-se uma direção comum, um rumo, ditado pela sensação, pelo clima, pela vibração do momento. Ouve-se como um reflexo, reflete-se sobre o que se ouve, um contexto se desenha, então responde-se. A música então nasce, e nesse processo já amadurece e cresce, e continua nascendo até morrer.

A Garota de Ipanema, de Jobim e Vinícius, tem uma forma conhecidíssima (AA-B-A) e progressões harmônicas maravilhosas. Porém, quase 50 anos após sua composição, seus acordes já foram autopsiados em vários livros e manuais de análise musical. Até por isso, muitas de suas interpretações em jam sessions ou mesmo gravações de música popular soam enfadonhas, desinteressantes, por ser muito difícil fazer algo novo com ela - no máximo, obtém-se alguma interpretação elegante.

Para uma grande parte de músicos que improvisam sobre o tema da Garota, não há desafios técnicos ou harmônicos. Os acordes vão acontecendo de forma mais que previsível e, compasso após compasso, muitos não conseguem mais ouvir atrativos nas harmonias mais que repisadas e acabam tocando sem pensar muito, criando solos burocráticos ou apenas corretos.

Nem por isso o guitarrista Fábio Leal deixou a música de fora de seu repertório. Ao contrário, propôs um novo arranjo para a Garota, com uma rearmonização ousada, densa, inovadora e interessantíssima. Não que Tom Jobim precise de correção; são nossos ouvidos que precisam de novos desafios, e o genial Fábio percebeu isso. Em seu arranjo, cada um dos "A" tem uma harmonia diferente, e a parte "B" se inicia com um acorde menor [Bbm7(b13) em vez de Gbmaj7] que parece dar um significado mais sombrio à letra (talvez o "Ah, porque estou tão sozinho" soasse com muito mais "solidão" desse jeito...).

O arranjo realmente inspira. O resultado, após um ensaio e uma jam session, foi registrado nesse vídeo abaixo, gravado no último Janela Jazz - evento realizado no Instituto Cultural Janela Aberta, em São Carlos (SP) - com Fabiano Nunes no baixo, Paulo Almeida na bateria e eu no teclado.

03 junho 2011

A música e a desnecessidade do homem





















Há todo um conjunto de coisas, atos, fatos, afetos e percepções que nos levam a acreditar que, no mundo de agora, acabaram-se as grandes narrativas. Dizem que tudo se funde em pequenas conectividades banais. Lemos na internet uma notícia sobre um tsunami de proporções catastróficas, ao mesmo tempo acompanhamos o twitter do Ashton Kutcher dizendo alguma bobagem sobre o mesmo assunto, ao mesmo tempo em que um vídeo supercomentado na internet também vira pauta pro telejornal, que fecha o dia com o resumo da tragédia ou o comentário sobre a mais "nova banda na internet". Pronto, página virada, esperamos amanhã para flanar pela web mais uma vez, flutuando sobre os acontecimentos mais comezinhos e os mais aterradores enquanto aguardamos que alguém faça um comentário no tópico que abrimos no Facebook.

Alguns dizem que isso se chama comunicação na era pós-moderna. E há ainda alguns que dizem que, por trás de milhares narrativas despretensiosas e sem-graça como essa, a grande narrativa que resta é a que descreve a desnecessidade do homem. Não frente à natureza, mas frente a seu próprio desejo. De tanto desejar expandir-se, ultrapassou-se. O homem descreveu, criou, modificou, intensificou, reordenou, atualizou tantas coisas que, em meio delas, tornou-se obsoleto.

Sendo assim, o mote agora é: o que não tem utilidade é descartável. A jovem britânica que se matou por não conseguir emprego percebeu (e não suportou) sua obsolescência em um mundo onde as pessoas devem ter um apelo comercial semelhante ao de um produto - prático, rápido, agradável e, de preferência, barato. O fato (que querem nos fazer acreditar) é que o homem se tornou obsoleto. Fazer música pra quê, então?

A escuta musical, fonte do prazer da música, segue a mesma tendência decadente. A música do século XX, radicalmente diferente das músicas anteriores, nos mostrou que não interessa o que se faz na partitura, no palco, nos instrumentos: a música acontece no ouvido de quem escuta (acho que quem disse isso foi o Pierre Mariétan). Todo o jogo estrutural, de silêncios, contrapontos, harmonias ou ruídos presente numa composição só se realiza um único momento: quando está na cabeça do compositor e viaja até a cabeça do ouvinte. Fora isso, só há "teatro" musical, que nos ajuda a absorver a música por outros buracos do corpo, como a pele e os olhos, mas não é o essencial.

Acho que naquele livrinho simples e interessante  "O que é música?", daquela coleçãozinha "Primeiros Passos", o pianista Jota Moraes fala sobre os três jeitos de ouvir - ouvir com o corpo, ouvir com o coração, ouvir com o cérebro - e como essas três escutas se integram no sujeito (por via da educação musical, talvez). Talvez hoje, na teia complexa de relações entre mídias e sujeitos, onde a informação musical praticamente invade nossos corpos por vários meios disponíveis, esses três "ouvires" tenham se convertido numa coisa só, plana e desintegrada, focada seletivamente apenas na utilidade da música e em sua identificação com um gosto musical acanhado ou subdesenvolvido. "Essa é pra dançar, então eu gosto", dirão alguns. "Essa outra é pra cantar junto e chorar, então acho bonito", talvez, ou ainda, "essa é pra pensar", portanto "não gosto muito".

Na música popular, a percepção musical foi sendo paulatinamente desviada para o "teatro" da música. Porque todo o prazer da escuta - de desvendar conexões entre sons, compreender conceitos por trás das redes de sons das composições e permitir uma imersão completa na música -, foi sendo acompanhado e, aos poucos, substituído pelo refrão fácil, pelo megashow, pelo videoclipe (primeiro na MTV, agora é direto no youtube, como é o caso da tal Banda Mais Bonita da Cidade e sua música de seis minutos de um refrão só). Tudo o que foi criado para reforçar a experiência musical acabou ultrapassando-a. Portanto, escutar hoje já não basta - tem que ver, sentir, interagir. O homem, para ver-se reconhecido na arte, precisa ser parte da obra, e não mais um ouvinte ou espectador.

Ver, ver de novo, fazer download, cantar junto. A música se realiza no ter ("baixei" no iPod), no twittar ("linkei" o vídeo), e no seu gesto corporal, no dançar, no "tira o pé do chão". Voltamos aos primórdios, quando só havia o homem, sua voz e seu tronco de árvore, fazendo sons pra outros homens com seus troncos e vozes - nenhuma linguagem envolvida, nenhuma arte, nada a dizer, só criar movimento.

Talvez essa nova postura frente à arte seja a forma de reagir à presença quase agressiva da tecnologia, como se as "extensões" do homem (como descreveu brilhantemente McLuhan as novas tecnologias comunicacionais) tivessem se tornardo tentáculos com vontade própria. Talvez essa nova escuta seja uma reação para tentar afirmar a função ritualística e social que a música tinha na era das cavernas e ainda tem nas tradições musicais folclóricas. Talvez seja apenas uma simples fuga e busca de consolo em uma arte fácil, descompromissada, despojada, pronta também para consumo, como um capuccino quentinho numa noite fria ou um tarja preta "light" pra permitir o sono.

Seja o que for, é sinal de que a tecnologia produziu um efeito contrário à promessa que nos havia feito. Em vez de nos levar ao crescimento e desenvolvimento como humanidade, nos encaminhou à barbárie, à vida compartimentada, corrida e sem graça que busca o mero utilitarismo imediatista para satisfazer suas demandas de prazer, até mesmo quando se fala em arte. Para esquecer a dor, rave. Para enganar a dor, sertanejo. Para pular, axé. Pra cantar junto, pagode. Pra seduzir, funk. Pra ajudar a pensar, estudar ou malhar, iPod. Música igual remédio. Tudo o que se construiu na arte musical nos últimos dez séculos foi jogado no lixo em nome de quê?

Se não há mais grandes narrativas, jogue-se fora toda a música nova, música de invenção, música improvisada, jazz, vanguardas estéticas, barroco, neoclassicismo, e todas as outras linguagens, estéticas ou gêneros musicais que ativam a "escuta com o cérebro", e passemos a consumir somente a música de agora, entregue via internet acompanhada de videoclipes caseiros e refrões desafinados. A teoria da não-existência das grandes narrativas - e da narrativa que diz que o homem é obsoleto - só serve para justificar esse estado pobre e caótico de coisas, onde o homem é apenas mais um objeto que interage com outros objetos esperando alguma retribuição, carinho ou consolo.

Começou a guerra entre o homem dito "obsoleto" e o pós-humano. Solução (utopia)? Ainda acho o homem necessário. Talvez só tenhamos que descobrir como usar as tecnologias para promover o humanismo, e não usar o homem para promover a tecnologia.

31 março 2011

O lugar da arte (1)














Espaço: uma delimitação de área que pode conter algo ou não. Espaços culturais surgiram como alternativas à falta de prédios especializados para a promoção de atividades culturais. Faltavam teatros para a música - também para a dança e para o próprio teatro -, faltavam salas de cinema, faltavam galerias e museus para as artes visuais. O que fazer?

Criaram-se então dezenas de salas, galpões, barracões, porões, mezaninos, sótãos, estações de trem, caixas d´água, túneis, entre outras arquiteturas públicas várias, para se abrigar shows, obras e performances. Com baixo investimento, inteligência e boas intenções, o Poder Público "salvou" as artes de ficar debaixo de chuva, sem platéia, no escuro. Qual a verdadeira política cultural aqui? Gastar pouco e iludir o contribuinte de que as míseras esmolas do orçamento destinadas à cultura estão sendo utilizadas na "democratização" da arte e diversificação dos "equipamentos culturais" do patrimônio da cidade. Investir em educação artística, construção de teatros, auditórios, cinemas - de verdade, não de lona - dignos para uso de toda a população, disso nem se fala.

Os governos passaram a oferecer arte ao público em suas repartições públicas mofadas e prédios sem a mínima adequação. Como um desdobramento desse pensamento, diversos espaços privados também passaram a adaptar suas dependências para as artes. Restaurantes com "foyer", bares com intervenções teatrais, clínicas médicas com galerias, supermercados e até padarias com palcos para músicos. Sob a chancela do marketing cultural ("eu promovo a arte, portanto sou um bom empresário"), uma miríade de artistas novos à disposição, loucos por uma oportunidade de mostrar seus trabalhos, não deixaram faltar pinturas, esculturas, grupos teatrais e músicos de primeira viagem a encher esses espaços.

O empresário esperto passou a ter facilmente a sua disposição uma nova "mais-valia cultural", espécie de diferencial competitivo com verniz de mecenato - a virtuosa boa intenção de acolher e apoiar as artes. Também surgiram pessoas, ligadas às artes de alguma maneira (nem sempre de forma profissional), se oferecendo como "curadores culturais freelancer", que organizam os tais eventos artísticos nesses novos espaços.

Em uma primeira análise, tendemos a ver como positivas essas transformações na forma como se oferece a arte - "democratização" do acesso à cultura. Mas, pensando melhor, será que essa verdadeira "pulverização" da cultura por todos os lugares não parece fazer com que a arte fique igual a qualquer banalidade que nos apareça no cotidiano? Lembram os banners de propaganda piscando na tela do computador enquanto navegamos na internet, os anúncios barulhentos que irrompem na programação televisiva, jingles tocados a máxima velocidade no rádio. Tudo misturado, tudo a mesma coisa (qualquer relação com a tese do desencantamento da arte de Walter Benjamin é mera coincidência...).

À parte obras de arte que são pensadas para se intrometer mesmo no dia a dia e causar algum espanto no incauto cidadão que flana pela cidade no piloto automático, não há mais lugar para apreciação ou fruição estética. Nem mesmo há o prazer do artista na elaboração de suas obras em casos assim. Tudo é entretenimento, apenas. Vá ao dentista e arranque um dente ouvindo um violinista tocando ao vivo. A espera no consultório médico é longa e humilhante, mas você está cercado de agradáveis quadros e esculturas de algum novo grande artista anônimo. Logo cedo tome um café na padaria enquanto piano e gaita tocam um blues como se a noite ainda não houvesse acabado. Um poeta intervém e declama um decassílabo que você já ouviu ontem na entrada do cinema. Faça as compras no supermercado ouvindo algum tecladista desfiar os últimos sucessos sertanejos que você já ouviu por osmose de alguma rádio que tocava em algum alto-falante em frente a alguma loja em alguma rua do centro da cidade.

Não há mais lugar para a arte. Lugar físico e mental para a arte. Como artistas, somos todos malabares desesperados tentando ganhar nosso mirrado cachê em sinais de trânsito. Como respeitável público, estamos todo no circo. E aos artistas que perceberam todo esse estado de coisas - artistas não reconhecidos e marginais, diante de um público atônito e maltrapilho - o poder público oferece a opressão como forma de evitar que a classe artística se aproprie de outros lugares que não aqueles designados pelos caciques da cultura.

Teatro Municipal sendo convertido em salão de baile de formatura? Pode, com alvará e tudo, carimbado e assinado em três vias pelos burocratas das secretarias afins. Porão de prédio sendo utilizado para uma infinidade de eventos culturais - a maioria com lotação esgotada - por coletivos de marginais (ops, de artistas) sem espaços disponíveis para mostrar sua arte? Não, não pode. E o resto da história virá no próximo post...

27 dezembro 2010

Dave Brubeck, patrimônio cultural do jazz

A música encontrou um novo jeito de ser tocada quando foi experimentada pelos primeiros jazzistas. Eram negros roucos debatendo suas gargantas em field hollers nos campos de algodão do sul; pianistas ingênuos que trocaram as sisudas polcas e mazurcas pelo sapeca ragtime que invadia os salões de dança; eram  trovadores que entoavam suas canções blues pelas linhas tortas das escalas tristes e versos tragicômicos; cornetistas sátiros que enterravam seus mortos com melodias sentimentais e logo explodiam em síncopes coletivas junto aos clarinetistas e trombonistas de plantão.

Um pequeno conjunto de atitudes, gestos, sensibilidades, em meio a um quadro histórico e cultural efervescente do início do século XX, que marcava a formação da moderna sociedade industrial norteamericana, então em pleno desenvolvimento econômico e começando sua transição de valores racistas e puritanos para valores igualitários e liberais, sem ignorar todos os impactos que as mudanças econômicas e sociais causaram nas artes. Tudo isso foi determinante para fazer germinar uma estética, uma nova expressão artística, que evoluiu em inúmeras outras formas musicais dentro de um novo gênero chamado jazz.

O gênero também foi impulsionado pela própria estrutura social norteamericana, que confere ao indivíduo a plena liberdade de iniciativa - pelo menos em sua Constituição, na famosa emenda do "direito à busca da felicidade" -, reconhecendo e premiando a da presença do "self made man", esse indivíduo mítico que vence por seus próprios méritos, disciplina, dedicação e ousadia. O artista de jazz é sempre um "self made man", em diferentes graus e figurações. Seja o músico estudioso, o gênio incompreendido, seja o excluído, o pobre, o negro, o bêbado, os jazzistas são sempre metáforas de suas próprias superações. São "vencedores" da arte, por realizarem-se ou como criadores, ou improvisadores, produtores, entertainers, estetas, professores, bandleaders, entre outros títulos.  

Nos EUA, o jazz é talvez o patrimônio imaterial - termo que alguns estudiosos da cultura tanto empregam atualmente no Brasil - mais cultuado no país, que proporciona dezenas de prêmios, bolsas de estudos, cursos de formação ou apoio institucional aos grandes músicos que se destacam no gênero, ajudando a desenvolver e a manter viva essa música por meio de suas personalidades criativas.

Esse é o motivo pelo qual o pianista Dave Brubeck (Concord, Califórnia, 1920), que completou 90 anos no último dia 06/12,  recebeu essa homenagem mostrada no vídeo abaixo.





Era aniversário de 89 anos de Brubeck, pianista que compôs alguns dos maiores hits do jazz chamado west coast, fazendo uma fusão da sonoridade blues com ritmos exóticos em compassos compostos - 7/4, 5/4, 6/4, 9/8. O disco "Time Out" (1959) foi um sucesso de público, sendo um dos discos de jazz mais vendidos até hoje, mas a crítica chegou a acusar o disco de "anti-swing" devido ao uso ostensivo de figuras rítmicas inovadoras. 

As obras de Brubeck sobreviveram às críticas e encantam até hoje. No vídeo, músicos do primeiro escalão do jazz contemporâneo interpretam uma espécie de suíte das principais composições que marcaram a carreira do pianista: "Unsquare Dance", "Blue Rondo à la turk" e "Take Five". Brubeck se delicia ao escutar suas peças interpretadas lindamente arranjadas e interpretadas pelas feras Bill Stewart (bateria), John Faddis (trumpete), Bill Charlap (piano), Christian McBride (baixo) e Miguel Zenón (sax tenor). Justo ele, que teve seus arranjos para big band enxovalhados por Schoenberg, que acusou o pianista de "não saber o porquê de cada nota em sua pauta". 

"As tradições são inventadas", segundo o historiador Eric Hobsbawn. Prefiro dizer que as tradições são vivenciadas. Uma tradição pode até ser inventada para servir ou legitimar um sistema ou um modo de vida, mas é preciso lembrar que antes de inventar, o homem vivencia suas tradições, seus sonhos, suas narrativas. O patrimônio imaterial - que pode muito bem servir a tradições inventadas, conveninentes ao status quo - se reinventa quando se materializa em homenagens assim, onde o patrimônio é colocado frente-a-frente com sua história, seu presente e seu futuro.

Time Out - The Dave Brubeck Quartet (1959)

Dave Brubeck – piano; Paul Desmond – alto saxophone; Eugene Wright – double bass; Joe Morello – drums

1. "Blue Rondo à la Turk" (6:44); 2. "Strange Meadow Lark"  (7:22); 3. "Take Five" (5:24); 4. "Three to Get Ready" (5:24); 5. "Kathy's Waltz" (4:48); 6. "Everybody's Jumpin' "(4:23); 7. "Pick Up Sticks" (4:16)

05 novembro 2010

A bossa suingada


Doralice - Canja com Bia Mestriner

Murilo Barbosa | Myspace Music Videos


Nesse show da querida amiga e grande cantora Bia Mestriner, realizado no SESC Ribeirão Preto no começo de 2010, tive a honra de ser convidado pra "dar uma canja". O combinado era que fosse em "Desafinado" (Jobim/Newton Mendonça), mas no embalo do show ela se esqueceu de me chamar... Então me convocou na próxima, que foi o gracioso sambinha "Doralice" (Dorival Caymmi). Fiquei feliz de ter tocado essa música com a Bia e do momento ter sido registrado, pois a banda estava muito afiada: Carlinhos Machado na guitarra, Tiago Alves no baixo e Paulinho Vicente na bateria.

Doralice é um samba, mas virou um marco da bossa nova por causa da releitura sóbria, minimalista e requintada de João Gilberto no disco Getz/Gilberto (tá lá embaixo pra quem quiser). Pra mim, é o encontro absoluto do jazz com um dos melhores gêneros da música brasileira, a bossa. Dois mundos se complementando, se reconfigurando.

Sempre gostei do improviso do Stan Getz nesse tema, ele tem um som redondo, lúcido, tão meticulosamente estruturado como a bossa tem que ser: simples e despojada, mantendo a eficiência da cadência do samba sem a "gordura" da marcação exagerada. E a Bia tem a voz da bossa, econômica na emissão e ricamente ornamentada na melodia e divisão. Como o sax de Stan Getz, como a batida de João.


Getz/Gilberto feat. Antonio Carlos Jobim (1964)
João Gilberto: violão, voz; Stan Getz: sax tenor; Antonio Carlos Jobim: Piano, violão; Astrud Gilberto: voz; Milton Banana: bateria; Sebastião Neto: baixo (no crédito original vem erroneamente denominado Tommy Willians...)
01 - The Girl From Ipanema; 02 - Doralice; 03 - Para Machuchar Meu Coracao; 04 - Desafinado (Off Key); 05 - Corcovado (Quiet Night of Quiet Stars);
06 - So Danco Samba; 07 - O Grande Amor; 08 - Vivo Sonhando (Dreamer)

09 julho 2010

“Já Volto”, de Thiago Carreri

O violonista e guitarrista são-carlense Thiago Carreri – não por acaso também meu amigo – acaba de lançar seu primeiro CD instrumental, com nome que anuncia que já veio pra ficar: “Já volto”, disco que conta com oito singelas músicas, mostrando influências fortes da canção brasileira e do jazz fusion.

Músico de mão cheia, daqueles que acompanham qualquer música em qualquer tom, com suíngue e musicalidade à flor da pele, Thiago busca um caminho diferente no jazz brasileiro. Um jeito manso, inocente, de buscar a melodia essencial em cada uma de suas composições. Dosando os improvisos com parcimônia, investindo na força das linhas melódicas e nos contornos harmônicos, o guitarrista acaba criando uma obra delicada e sutil, que resulta em um disco gostoso de escutar.

Dá pra ouvir algumas influências guitarrísticas de George Benson, Helio Delmiro e Mike Stern; e a mão violonística lembrando Romero Lubambo e Raphael Rabelo. A identidade de Thiago surge das superposições de todas essas e outras sonoridades, somadas à experiência de anos tocando nas mais diversas formações musicais. Um “nego véio”, que já bebeu de várias fontes e domina a “malandragem” de fazer música que agrada desde a primeira nota.

Canção brasileira, com gosto de terra e cheiro de samba; valsa americana, com sofisticado tecido de saudade blues; violão de roda, envolto pelo colorido do choro; groove de funk, jeito de baião, um tango-rock. Mistura que agrada como uma notícia boa, uma canção de ninar, uma nuvem serena, um sonho feliz. Tudo com a sonoridade da pureza, simplesmente música, puramente som.

Tive a felicidade de participar de duas músicas do disco, assim como a honra de ser convidado para participar da banda que fará os shows de lançamento do CD. O primeiro acontece agora em julho, no SESC Araraquara, dia 23. Além de mim, participam do quarteto o baixista Ricieri Nascimento e o baterista Bruno Bernini.


Thiago Carreri (guitarra, violão); Ricieri Nascimento (baixo); Bruno Bernini (bateria); Murilo Barbosa (piano, 2,6); Maurício Ribeiro (teclado 3,4); Gustavo Camillo (teclado, 8); Fernando Mumu (trombone, 3); Emílio Martins (percussão, 3); Thadeu Romano (sanfona, 4); Lucas Melo (bandolim, 5); Ailton de Jesus (Flügelhorn e trumpete, 3)

1. Nina; 2. Já Volto; 3. Primeiro Filho; 4. Bango; 5. Para o bandolim; 6. Valsa n1; 7. Partido; 8. Chão

29 junho 2010

O paradoxo do bar com música ao vivo















O papel da música na sociedade mudou. As mudanças culturais e tecnológicas transformaram a experiência musical. Se antes só havia música em ocasiões ritualísticas ou comunitárias, onde ela ocupava lugar central – ritos sagrados em torno de uma fogueira, noites de viola e causos, concertos em cortes ou teatros, bailes populares, festas típicas, reuniões em botecos, capoeiras, carnavais – hoje a música disputa espaços cotidianos onde ninguém pensaria em ouvi-la: estações de metrô, esquinas de cidades, palcos improvisados em shopping centers, mezzaninos de padarias, portarias de prédio, supermercados e... bares.

O leitor pode estranhar a inclusão dos bares entre os estabelecimentos considerados “amusicais” que hoje abrigam manifestações musicais, mas há uma razão simples para tal classificação: bar é lugar de encontro, não de música. De encontros musicais às vezes, sim, mas apenas algumas vezes. Alguém trazia um pandeiro, um violão, um acordeon, ou tinha um bom cantor que se exibia para as outras mesas, mas nada planejado. Tinha um piano no canto esperando por um tocador. Via de regra, bar é lugar para consumir bebidas e jogar conversa fora, e tudo o mais que acontecer a partir daí. Música no bar costumava ser consequência de um encontro – entre uma conversa e outra, surgiam as afinidades para tocar, as disposições para ouvir. E pronto.

A sistematização desses “encontros” musicais pelos bares gerou a demanda pela contratação de artistas para se apresentar regularmente – pianobares, por exemplo. Novos palcos para os artistas, novos espaços disponíveis para o público. Mas o modelo “bar com música ao vivo” se banalizou, e levou a uma situação lamentável: clientes que entram no bar e não sabem quem está tocando, e artistas executando o mesmo repertório que já ouvimos em outro bar na semana passada. Ao invés de acontecer uma retomada das velhas formas de se vivenciar a música – como artigo de ritual, de celebração, de senso de comunidade -, o bar promoveu apenas a música como um produto, um acessório na noite, assim como serviço de manobrista. O encanto do encontro da arte com a platéia já não existe.

Só há música se alguém escuta. No bar, alguém realmente escuta alguma coisa que não seja a conversa? O modelo “bar com música ao vivo” surgiu de um equívoco, pois os bares abandonaram o conceito de show. O show é um momento mágico, em que a arte nasce a partir de uma confluência de disposições, interesses comuns, trocas. Para ser mágico, o show precisa ter um contorno. Um início, um meio, um fim – o que significa que tem que ter roteiro, produção, estrutura, senão não tem força, não tem fôlego.

Pra começar, a maioria dos bares não tem palco. Quando tem, não tem som (o artista leva). Se tem som, não tem luz (e o artista não leva porque não tem dinheiro pra bancar essa produção). E quando tem tudo isso, o bar não coloca nem uma placa na frente para informar aos clientes o que vai acontecer por ali. O artista sobe no “palco” e tem que se virar para chamar a atenção. O show começa com total desconhecimento da platéia, e o único recurso pra chamar a atenção é aumentar o som do P.A. Mas também não pode, porque atrapalha a conversa e incomoda os vizinhos do bar.

O paradoxo começa: músicos tocando alto, platéia conversando mais alto. Ninguém se escuta. No final saem todos infelizes com o resultado, pois tem gente que sai do bar sem pagar – alegando que não foi ao bar pra ouvir música, e sim pra comer ou beber – e o músico vai embora sem ouvir nem um aplauso, porque teve que impor sua música aos ouvidos dos clientes, sem conseguir estabelecer empatia nem com o garçom.

Sou contra a música ao vivo? Negativo. O que precisa mudar urgentemente é o formato desse tipo de apresentação. Afinal, todos os músicos têm o objetivo de vender sua música e receber reconhecimento, assim como os bares querem agradar seus clientes e oferecer novidades. O que falta é arriscar novos modelos. Infelizmente, o público ainda suporta as apresentações “meia-boca”, por isso os donos de supermercados, shoppings, padarias e bares não investem em outros tipos de apresentação musical mais séria em seus estabelecimentos. E nem os músicos mudam sua postura. Tudo segue meio “acochambrado”, limitado a esse paradoxo do “eu finjo que toco e vocês fingem que escutam”, banalizando a arte, desrespeitando o público, ignorando a música.

* publicado no dia 24/6, na coluna ETC&Jazz do caderno de cultura Moitará, da Folha de São Carlos.

24 junho 2010

O jazz saiu pra passear com Herbie Hancock e...

Neste mês de junho de 2010 saiu o novo disco do pianista de jazz mais importante ainda vivo. Herbie Hancock (Chicago, 1940) é o elo perdido - ou achado - entre o jazz tradicional, a música contemporânea e o universo pop. Se há algum músico no mundo hoje capaz de dizer que toca funk, música eletrônica, música erudita, world music, música improvisada e jazz, é ele.

Hancock fez de sua música um reflexo de sua vida: livre, sem preconceitos, aberta, mas sempre objetiva, plena de caráter e personalidade. Quando criança, aos onze anos foi solista da Sinfônica de Chicago tocando Mozart por puro divertimento. Na adolescência, aprendeu a linguagem do jazz sem professores, apenas ouvindo discos de Bill Evans, George Shearing e os arranjos de Clare Fischer para grupos vocais. Ou seja, absorveu o melhor da música sem se importar com a fonte.

Neste último trabalho, "The Imagine Project", Hancock convidou vários artistas dos cinco continentes para, em cada faixa, criar uma concepção, um arranjo, uma abordagem para as canções - algumas icônicas da "mensagem global de paz" que o disco quer passar, como "Imagine" (Jonh Lennon) e "The Times, They Are A'Changin" (Bob Dylan). Improvisos sobre ragas indianas, tablas e cítaras; percussão malinesa, ritmos afrocaribenhos, vozes do oriente, guitarras distorcidas. Canção pop com harmonia outside. Improvisos sobre acordes básicos de rock. O resultado é interessantíssimo, até porque soa estranho pra quem gosta de jazz e estranho também para quem curte música pop. Um "estranho bom".


Não sei se são os solos tortos de Hancock em cima da harmonia certinha das composições, ou se é o clima cool com ritmos mais complexos e abstratos emoldurando as vozes mais comerciais, mas tudo nos faz ouvir o disco com um pouco mais de cuidado do que os críticos - a patrulha do jazz -, que se "horrorizaram" com o trabalho anterior de Hancock que seguia essa mesma linha ("Possibilities", de 2005, que trazia duetos com os mais variados artistas). Até porque as possibilidades abertas por este novo projeto são mais ousadas que a do anterior.

Apesar das misturas, a personalidade de Herbie Hancock prevalece, dando unidade ao trabalho. Personalidade que ele mostra desde que despontou na cena do jazz, no começo dos anos 60, quando tocava em clubes de bebop e destacava-se no grupo de Donald Byrd. Logo o legendário trumpetista Miles Davis convidou-o para integrar seu grupo - o maravilhoso quinteto que contava ainda com Wayne Shorter (tenor), Ron Carter (baixo) e Tony Willians (bateria).

Com Miles, o grupo perseguia um tipo novo de improvisação, sem se importar com as mudanças de acordes dos temas, e sim com o fluxo rítmico e melodias subliminares. Foi também com Miles que Hancock entrou em contato com o piano elétrico Fender Rhodes. Começava sua navegação pelo jazz experimental, funk elétrico e África. Ao sair do grupo de Miles, começou a explorar mais os sons eletrônicos de sintetizadores, produzindo discos com improvisação livre e técnicas eletroacústicas de composição.

No início dos anos 70, passou a procurar uma sonoridade mais simples, em que conseguiu sintetizar toda a sua experiência de improvisação, conhecimento dos ritmos e da cultura negra em um disco pop conceitual: "Head Hunters", lançado em 73, que causou um verdadeiro abalo nas estruturas do que até então se chamava jazz. Se a fusion de Miles Davis havia desafiado as hostes mais conservadoras do jazz, "envenenando-a" com sonoridades elétricas, ela agora parecia "bagunça" perto dessa versão mais "funkeada" criada por Hancock, que atingiu em cheio a cultura pop norte-americana.

Hancock criou ainda nos anos 70 seu grupo V.S.O.P., em que explorava a linguagem jazzística post-bop com verve e criatividade impressionantes. Portanto, passeava tranquilamente pelas veredas mais obscuras e vanguardistas do jazz, enquanto também chacoalhava o gênero com suas incursões pelo funk e música pop. Não foi à toa que, nos anos 80, após o lançamento de "Future Shock" (1983), Hancock tenha se tornado o primeiro artista de jazz a ter um videoclipe premiado na MTV (quem lembra desse hit, "Rockit", em que os robôs é que são os personagens?).

Seguiu ganhando Grammys, produzindo trilhas sonoras (inclusive aquela do inesquecível "Por volta da meia-noite", em que tudo é tocado ao vivo), jingles (a pérola "Mayden Voyage" foi criada para um comercial de perfume, acreditem se quiser) e gravando de tudo. Discos experimentais, duetos de piano, saxofone, guitarra, música eletrônica, música pop... até chegar a discos como este "The Imagine Project", que simplesmente passeiam por todos os territórios da música e, no caminho, derrubam algumas cercas.


Herbie Hancock - The Imagine Project (2010)


1. Imagine (apresentando India.Arie, Jeff Beck, Pink e Seal); 2. Don´t Give Up (com Pink e John Legend); 3. Tempo de Amor (com Céu); 4. Space Captain (com Susan Tedeschi e Derek Trucks); 5. The Times, They Are A'Changin' (com The Chieftans e Lisa Hannigan); 6. La Tierra (com Juanes); 7. Tamitant Tilay/Exodus (com K'Naan, Los Lobos e Tinariwen); 8. Tomorrow Never Knows (com Dave Matthews Band); 9. A Change is Gonna Come (com James Morrison); 10. The Songs Goes On (com Chaka Kahn, Anoushka Shankar e Wayne Shorter).

11 junho 2010

Voz e nada

Improviso puro. Musica improvisada. Encontro sem hora marcada.

Pés descalços, almas puras, mentes abertas. Pra contar uma história. Inventar uma. Juntos. Jazz?

No palco, Bobby McFerrin e Maria João. Vozes dando forma à improvisação total, despojada de qualquer referência. Território sonoro desconhecido. Nas nuvens, quem sabe.

07 junho 2010

Gonzalo, tocando Jobim

A homenagem pra Tom Jobim no último Free Jazz Festival, em 1994, deu aos standards da Bossa Nova uma cara mais novaiorquina. Mais post-bop. O cubano Gonzalo Rubalcaba era um dos convidados. Assim, os improvisos ganharam também um sotaque latino, com o fraseado potente e assertivo do pianista contagiando todo o time.

No teclado, Herbie Hancock mediu bem os acordes, sem correr o risco de interferir na abordagem exótica e quase "ceciltayloriana" de Rubalcaba, cuja (piro)técnica rouba a cena - mas não a música. Ao contrário, a selvageria do pianista só faz elevar ainda mais a temperatura e deixa a geralmente morninha "Água de Beber" (Jobim/Vinícius de Moraes) praticamente em ebulição.

 

Nos anos 90, Gonzalo foi tão festejado na cena jazzística quanto a queda de um meteoro de ouro em plena Wall Street. E a primeira impressão que causou foi a de um furacão pianístico, de técnica exuberante e musicalidade indômita. Um cubano "caliente", renovando a vanguarda jazzística com imbatível rítmica afro e rajadas de montunos sobre compassos compostos. Mas não era só isso. Rubalcaba é inesquecível também pela interpretação impressionista, mínima e pungente, de baladas complexas, transformando-as em delicados poemas sonoros. É quando seu toque romântico, envernizado por harmonias surpreendentes, transcende o rótulo latin jazz e passa ser simplesmente música.


Essa sua faceta mais introspectiva e poética foi aproveitada pelo baixista e bandleader Charlie Haden no disco "Nocturne" (Verve, 2001), em que convidou o pianista cubano e outros músicos que tinham alguma relação com a música latina para criar uma atmosfera densa e charmosa ao interpretar canções da cultura afrocaribenha (boleros como "Contigo en la distancia", "Noche de Ronda" e "Tres palabras", por exemplo). Uma obra-prima, em que a linguagem jazzística refina as melancólicas e dolorosas melodias hispânicas, enquanto o colorido das canções dá fôlego a este soberbo noturno jazzístico.

Nocturne (2001) (pt.1) (pt.2)
 


Gonzalo Rubalcaba (piano); Ignacio Berroa (bateria); Joe Lovano, David Sanchez (tn sax); Pat Metheny (violão); Frederico Ruiz (violino)
1. En la Orilla del Mundo; 2. Noche de Ronda; 3. Nocturnal Marroquin; 4. Moonlight; 5. Yo Sin Ti;  6. No Te Empeñes Mas; 7. Transparence; 8. El Ciego; 9. Nightfall; 10. Tres Palabras; 11. Contigo en la Distancia 

04 junho 2010

Arroz com feijão... e mais o quê?


















Arroz e feijão é a base da alimentação da grande maioria de nós, brasileiros. Combinação do arroz, trazido pelos portugueses, com o feijão dos índios e a feijoada dos escravos africanos, a mistura se consolidou na mesa das famílias. É aprovada por nutricionistas, que elogiam a presença de ferro, vitaminas e aminoácidos importantes no prato.

É uma comida tão popular que virou adjetivo para coisa corriqueira, simples, sem “dor de cabeça”. Como música “arroz com feijão” - aquela que não tem grandes surpresas, tem letra simples, refrão fácil, trata de assuntos afetivos não muito complexos ou só faz dançar.
O cotidiano prato de arroz com feijão tem a função de fornecer a energia, a “substância” para o dia a dia. A música “arroz com feijão” exerce papel semelhante: estabiliza e dá suporte às inúmeras e pequenas variações emocionais que sofremos durante o dia, mantendo o humor e o bem-estar psicológico ao cantarolar, assobiar ou mesmo dançar ao som dessas canções. Canções que ouvimos no rádio, na TV, no aparelho celular e outros meios, que nos causam comoção e algum efeito positivo.
Só que os médicos advertem: apenas arroz com feijão não é um alimento completo. Faltam dezenas de complementações minerais, de vitaminas e de proteínas que só são encontrados em outros alimentos. O cardápio tem que variar. Da mesma forma, o “menu” musical dos indivíduos precisa conter mais opções, pois o arroz e feijão musical que nos é servido hoje não é só insuficiente - é nocivo, faz mal à saúde, porque vem na forma do exagero. Overdose de duplas sertanejas, de danças baianas, de pagodes lacrimosos, de calcinhas pretas. É preciso “comer” música de outras origens, outras influências, para balancear a “dieta”. Como? 

O chef de cozinha inglês Jamie Oliver, 35, é uma celebridade no mundo gastronômico por popularizar os segredos da boa comida. Numa entrevista nas páginas amarelas de Veja, ele desfaz o mito de que só se alimenta bem quem entende de alta gastronomia e frequenta restaurantes caros. “Cozinhar e comer bem é para todos”, diz ele. Basta um pouco de paciência e boa vontade para aprender sobre ingredientes, técnicas simples de preparo e temperos. O resultado é sentido na forma de melhora do bem-estar, saúde e da própria satisfação em desfrutar de um bom prato. 

Música boa, que vai além do arroz com feijão, não é para poucos. É para todos que quiserem. Assim como quem come coisas diferentes, quem ouve o diferente amplia sua base de referência e percebe que pode ir além daquilo que é sempre igual. Só não é tão fácil quanto na cozinha, pois mudar hábitos de escuta não traz tantos benefícios imediatos ou práticos quanto mudar as preferências culinárias. 

Ir além da música “arroz com feijão” significa expandir a sensibilidade para um mundo de possibilidades expressivas, questionadoras, revolucionárias, iluminadoras. Experiência nem sempre agradável. Novos sabores sonoros – gostosos ou não, mas passíveis de ser experimentados. Novos temperos, temperamentos. Música não só como distração, consolo, trilha sonora romântica, ou como dança, mas como vivência. Aprender a extrair vida das diferentes músicas do mundo. Aprender a ouvir na música as muitas vidas, filosofias, comportamentos e culturas que existem. 

Arroz e feijão é bom, mas tem que ir além. Porém não adianta radicalizar: comer lagosta todos os dias também enjoa.

*publicado no jornal A Folha, de São Carlos, no caderno de cultura Moitará, na coluna ETC&Jazz, no dia 3/6.

02 junho 2010

A sétima verdade do jazz

O pensamento jazzístico é maior do que o jazz. Aspectos da linguagem do jazz - tema, improviso, forma, blue note, swing, instrumentação, arranjo característico - se ampliam quando sobrepostas a novos materiais musicais, novas culturas, novos territórios sonoros.

A pianista e cantora azerbaidjana Aziza Mustafa Zadeh, 40, traz as escalas exóticas do sudeste europeu para os palcos do jazz, mesclando improvisações ao estilo mugam (música tradicional do Azerbaidjão, de origem persa) a standards como Take Five (Paul Desmond) ou Manhã de Carnaval (Luis Bonfa).




Sua técnica vocal e habilidade pianística fazem dela uma força única no jazz, alimentando-o de novas possibilidades expressivas. Saindo das escalas dóricas, passeia pelos semitons da música oriental, pelos modos tristes e dançantes da música mugam, atacando em uníssino com o piano, criando assim um instrumento único, capaz de nos levar à longínqua Pérsia, à Alemanha de Bach, ou à Nova York multicultural de um Chick Corea. Tudo em menos de um compasso.

World Music? Música étnica? Sim, mas com marcas do jazz, presentes em detalhes como performance (a atitude "jazzmen cool", explicada por Carlos Calado). Aziza chama seus shows de concertos. Geralmente é só ela e o piano. Em um vestido chique, porém simples, a silhueta magra só se movimenta de acordo com as tensões e sobressaltos de seu próprio improviso. Com fraseado suingado, cria contracantos ou mesmo dobras harmônicas com seu scat singing, criando melodias com alto grau de liberdade (onde a improvisação modal, feita sobre uma tonalidade única, se encontra com o free jazz), entre outras.

Aziza mora na Alemanha desde os 18 anos, quando a mãe cantora a ajudou a assumir sua carreira musical e a levou para disputar o famoso concurso de talentos do Thelonious Monk Institute, nos EUA, no qual ficou em terceiro lugar. Três anos depois, em 1991, lançou seu primeiro disco e hoje já vendeu 15 milhões de cópias de seus nove álbuns.

No disco Seventh Truth (1996), Aziza toca piano, canta e também toca percussão, assistida apenas por um percussionista indiano. Jazz não-ortodoxo, para ouvidos não-ortodoxos.


 Seventh Truth (1996)
Aziza Mustafa Zadeh: piano , piano, vocals & congas [1-4-10-11-12]; Ramesh Shotam: drums [4], indian percussion [1-4-11]
01. Ay Dilber (5:25); 02. Lachin (3:43); 03. Interlude I (2:06); 04. Fly with Me (7:07); 05. F# (4:18); 06. Desperation (6:21); 07. Daha... (Again) (4:53); 08. I am Sad (4:55); 09. Interlude II (00:27); 10. Wild Beauty (4:34); 11. Seventh Truth (4:40); 12. Sea Monster (8:12);