Dedos de bebop. Significa a capacidade de articular uma frase musical quase como se o cara estivesse falando, gritando, dando bronca, perguntando, respondendo, murmurando, resfolegando, rindo, gaguejando. Não importa quais as notas, qual a harmonia, qual a letra; importa é o arco, a linha, o ponto, a trama que a melodia do solista desenha no ar, rabiscando as segundas intenções, cravadas no suíngue corrente, dialogando com o vai e vem do baixo, pique-escondendo com a bateria, indo e ficando nas ondas da harmonia, cortando o caminho, achando a porta do céu da expressão.
O bebop do pianista Stefano Bollani fala italiano, que nem ele. Frases correntes, mas cheias de altos e baixos, risonhas e chorosas, bocachiusas ou desbocadas, estrondosas ou delicadas. No show que ele fez em 2006 no Tim Festival, com um quinteto de músicos italianos, quase roubou a noite que era de Ahmad Jahmal e Herbie Hancock, pois mostrou uma abordagem originalíssima, quase selvagem, mas musicalmente e tecnicamente impecável.
No disco "I´m in the mood for love" (2007), Bollani mostra que tem o swing do jazz americano na veia, mas também a irreverência bruta, a comédia farsesca e o drama teatral que os italianos têm. Assim, o disco é romântico como o título sugere, mas também cômico, poético, trágico, vigoroso e sublime.
Formando um trio mais do que arrojado com o baixista Ares Tavolazzi e o soberbo baterista Walter Paoli, Bollani ataca um repertório de "músicas de amor" com uma dose extra de criatividade e virtuosismo. Os arranjos transformam os já repisados standards da dor de cotovelo chic em uma fonte inesgotável para os vibrantes contorcionismos fraseológicos do bebop. Os tempos e contratempos soltam faíscas com as intervenções do baixo e da bateria no fluxo "one-TWO-three-FOUR", enquanto as melodias de Bollani correm fluidas pelo teclado.
Stefano Bollani Trio - I'm in the mood for love (2007) (1) (2)
Stefano Bollani (piano); Ares Tavolazzi (baixo); Walter Paoli (bateria)
1. Makin' Whoopee; 2. Cheek To Cheek; 3. I'm In The Mood For Love; 4. Puttin' On The Ritz; 5. How Long Has This Been Going On?;. 6. Margie; 7. Moonlight Serenade; 8. It's Only A Paper Moon; 9. A Kiss To Build A Dream On; 10. Honeysuckle Rose; 11. But Not For Me
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12 novembro 2010
06 outubro 2010
Crítica do jazz, uma linguagem em transformação
O jazz é elástico. O termo ganhou definitivamente o poder de conferir ao objeto denominado por ele o status de música de nível, música cabeça, música boa. E é elástico porque cabe em muitas músicas. Os limites entre um gênero e outro estão cada vez mais tênues, e os críticos vêm tendo dor de cabeça para enquadrar certas bandas ou músicos neste ou naquele estilo de jazz.
Sim, sempre houve os guetos, rótulos como progressive jazz, easy-listening jazz, soul jazz, NUjazz, etc, mas estão cada vez mais dispensáveis (ou inúteis) para certas frentes do jazz. Aliás, "frentes" é um termo mais adequado devido ao próprio caráter de transformação que parece ser inerente ao gênero, sempre em movimento rumo a novas formas de expressividade musical, como gramáticas e sintaxes que se vão imiscuindo em uma linguagem.
Fazer a resenha de um CD de jazz significa avaliá-lo dentro de alguns aspectos que dizem respeito às especificidades e qualidades que uma gravação de jazz deve ter. A pergunta é: quais são elas? Improviso? Sonoridade pessoal? Padrão "pergunta-resposta"? Forma? Escala blues? Swing? Devoção à tradição? Creio que tudo isso junto, e mais o senso de que se "o que se quer fazer é jazz", uma intencionalidade, uma certa tendência a querer unir todos esses aspectos em um estilo musical e buscar uma voz expressiva que se aproxime de todos esses conceitos.
Escrevo isso após ouvir meu quarto programa que acabou de ir ao ar agora. Tentando traçar uma certa linha "evolutiva" na escolha do repertório, selecionei na seqüência dois artistas que se enquadrariam no que pode se chamar de jazz fusion: "Westchester Lady" (de Bob James, do álbum "Two"), seguida de "The song goes on" (de Herbie Hancock, de seu último "The Imagine Project", com Wayne Shorter, Chaka Khan e Anoushka Shankar). E ao ouvir as duas canções, fiquei pasmo. Como pode ser? Duas músicas tão díspares, com concepções estéticas tão distintas, sendo "engolidas" pelo mesmo rótulo?
As "vozes" musicais de Bob James e Herbie Hancock (ambos pianistas, ambos encantados pela instrumentação eletroacústica, ambos cheios de influências da black music e do funk) são nitidamente a maior diferença. Enquanto Bob James filtra a intensidade do black e do funk pelo seu toque leve e seus arranjos magistrais para cordas e orquestra - atenuando o calor da expressão e chamando atenção para as sutilezas e interações entre groove e fraseado - Herbie Hancock potencializa a expressividade pura, importando-se apenas em interagir com o sax de Shorter e com as vozes de Khan e Shankar, sob uma "pseudo" raga indiana produzida por tablas e cítaras mixadas a programação eletrônica. Se fôssemos levar em conta os aspectos acima citados, teríamos uma tabela assim:
Bob James Herbie Hancock
Improviso? OK OK
Sonoridade? OK OK
Pergunta e resposta? OK OK
Forma? OK OK
Swing? OK OK
Blue note? OK OK (e outras "notes" também...)
Tradição? ? ? (qual tradição?...)
Se formos pensar na tradição como uma seqüência do jazz pós-Coltrane, pós-Miles, e na devoção aos cânones do bebop, swing era ou hard-bop, aí fica difícil... mas se pensarmos na tradição da black music, do funk, da música pop, acho que também é um "OK" pros dois. E é tudo fusion. Tudo jazz.
21 janeiro 2010
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