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19 novembro 2011

Afinal, quem é o mestre?


 Vi o violonista Robson Miguel pela primeira vez há alguns anos, dando entrevista para o Jô Soares. Ele chamava a atenção da platéia por conversar com o Jô ao mesmo tempo em que tocava, sem parar de falar nem de tocar. Autodenomina-se "mestre" das cordas dedilhadas. Eu nunca vi mestre algum - de verdade - se chamar de mestre.

O cara mora num castelo cheio de troféus e prêmios em sua homenagem. Diz que o construiu para lembrar das origens do violão, que "apareceu nos castelos da Europa", "sendo tocado para reis e rainhas". Robson Miguel gaba-se de ocupar a primeira posição no "ranking mundial de violonistas", de acordo com um certo Círculo Guitarrístico Europeu.

Miguel se mostra mesmo muito virtuoso ao instrumento. Toca com velocidade, exuberância, com muitas firulas, emendando uma atrás da outra. Mais parece um prestidigitador musical. De uns dias pra cá, as façanhas musicais do violonista vêm sendo questionadas por internautas em grupos de discussão na web. Tudo começou quando alguém mais atento ouviu algo estranho na videoaula "O Jazz em suas mãos", DVD lançado por Miguel.

Vejam esse trecho onde o "mestre" dá dicas para improvisar no tema "Summer Night" (Aaron Gardner). Com apenas alguns segundos, percebemos que trata-se de dublagem, pois seus movimentos e o de seus acompanhadores não estão totalmente sincronizados com o som (e não é problema de atraso, note que o baixista simplesmente não sabe os breaks e a linha de condução).



Mas isso não é o pior. Saibam que, apesar do "mestre" dizer que vai ensinar como "buscar a improvisação dentro de um mesmo acorde", este solo não é uma improvisação dele, Robson Miguel, e sim do grande guitarrista (esse sim, mestre) Joe Pass. A gravação é do disco "Summer Nights" (Pablo), de 1989. Podem checar na gravação abaixo: Miguel baixou o andamento e o tom da gravação e simplesmente dublou a performance. E não esclarece que se trata de um solo que não é dele - pelo menos no vídeo.




Logo a suposta "fraude" se espalhou entre músicos em redes sociais. Antes de simplesmente postarmos os vídeos aqui, nosso blog enviou um email à produção de Robson Miguel. A resposta veio rápida, gentil e - inesperadamente -  positiva. A produção do "mestre" informa que sim, o solo do vídeo é realmente de Pass e que, sim, está sendo dublado. Segundo o email, o "mestre" teria feito isso a pedidos de alunos para que pudessem ver uma transcrição do solo de Pass sendo tocada, para facilitar o aprendizado. E diz ainda que no próprio Youtube consta a informação de que "o Mestre Robson Miguel com seu Grupo de Jazz apresenta uma improvisação do grande guitarrista Joe Pass sobre o tema "Summer Night" (de Aaron Gardner) do seu curso em DVD O JAZZ EM SUAS MÃOS". Ou seja, confirma que realmente trata-se de uma dublagem.

O assunto rendeu - e rende ainda - muita discussão na internet, por isso já apareceram outros vídeos "suspeitos". Um outro link mostra toda uma big band dirigida por Robson Miguel dublando um arranjo do violonista virtuose Earl Klugh para "Take it from the top".



O original é esse aqui, do disco "Wishful thinking", de 1984.



A big band tocou o mesmo som, o solo saiu igualzinho. Mas vale perguntar como isso foi possível, já que nem baixo acústico tem na banda de Robson Miguel, e esse é o som que ouvimos na gravação. Talvez nem precisemos esperar a confirmação da produção do "mestre" de que, sim, trata-se de dublagem.

A única dúvida que resta mesmo é quem é o mestre. Pois tocar como Joe Pass ou Earl Klugh já seria suficiente para garantir o título a qualquer músico. Dublá-los é apenas macaquice. Mas peço aos leitores deste blog que não se deixem levar pelos fatos: perguntem ao tal Círculo Guitarrístico Europeu o que acham do "primeiro do ranking" dublando uma gravação de um simples guitarrista que nem se enquadra em ranking nenhum...

17 novembro 2010

ETC & jazz - Programa 9



Do "rag ao rock", a nona edição do ETC& Jazz tenta traçar um pequeno panorama do mundo musical jazzístico em 55 minutos. Neste programa tem releitura de Jelly Roll Morton, o autoproclamado "Rei do Rag", com o pianista Joe Sample; tem o quinteto do saxofonista israelense Eli Degibri; Art Farmer e Tommy Flanagan bebopeando; Joe Pass bricando sozinho na guitarra; o lado latino de Miles Davis com o trombonista e bandleader Conrad Herwig; o dueto pungente de Chet Baker com o pianista Enrico Pierannunzzi; hardbossa com Joyce Moreno e banda; a popflauta de Dave Valentin; e o instrumental brasileiro do violonista e guitarrista são-carlense Thiago Carreri. Baixe do meu folder no 4shared pra ouvir o programa quando e onde quiser.

16 junho 2010

Serenata, em várias versões

Todas as nações têm seu cancioneiro básico, espécie de arcabouço de sons e melodias a que todos os compatriotas se referem com saudosismo ou ternura. Músicas que, apesar de terem sido compostas por gente de carne e osso, parecem fazer parte do próprio ar, trazidas por vento, soando em tardes de carnaval, no assobio do guarda em noturnas boemias, perdidas no alto-falante de algum radinho AM em alguma rodoviária.

Essas músicas estão sempre nos trazendo emoções que nos são familiares, constituindo ilhas de terra firme em meio a oceanos de sons caóticos e muitas vezes agressivos da vida urbana. Essas canções parecem sempre ter feito parte de nossa existência, já estavam lá antes que Cabral pusesse os pés por aqui, sambas-enredo prontinhos antes mesmo de inventarem o Carnaval, bossas-novas falando da Garota de Ipanema antes que ela tivesse nascido, como trilha sonora difusa entre as cenas cotidianas vividas por cada um de nós.

"Brasil, meu brasil brasileiro", "Isso aqui ô ô", "Não posso ficar, nem mais um minuto com você, cas cari gudum, cascarigudum", "Felicidade, fooooooi simbora..." (respectivamente: "Aquarela do Brasil", "Isso aqui o que é" ambas de Ari Barroso; "Trem das onze", de Adoniram Barbosa; e "Felicidade", de Lupicínio Rodrigues). Canções que tiramos da cartola quando queremos embalar uma roda de cantoria, mesmo sem saber direito a letra, mas com a melodia mais do que decorada.

A mesma coisa fazem os artistas. Quantas versões já ouvimos pra "Lamentos" ou "Carinhoso" (ambas de Pixinguinha). Nos EUA também os cantores, instrumentistas, compositores e arranjadores recorrem a este cancioneiro onipresente e eterno para elaborar novas possibilidades de interpretação. Há uma canção, chamada "Serenata", composta por um desses autores prolíficos e universais, chamado Leroy Anderson (1908 - 1975).

Famoso por criar pequenas obras orquestrais, leves e com melodias inesquecíveis, Anderson foi o primeiro artista da música instrumental a vender 1 milhão de cópias, tamanha era a popularidade de suas peças.


A famosa cena do comediante Jerry Lewis datilografando foi elaborada sobre a música "The typewriter", de Leroy Anderson

Suas músicas tinham esse caráter simples, de extrema elegância e bom gosto, com aquela qualidade de "grudar" e não sair mais da cabeça. Ou então de parecer como uma dessas canções eternas, que sempre existiram antes mesmo de alguém ter pensado em compô-las. Resultado de uma sensibilidade para dar à melodia contornos surpreendentemente inovadores e belos dentro de uma estruturação harmônica por vezes previsível, mas nunca pobre ou simplista.

Uma de suas composições mais famosas - e mais tocadas por artistas de diferentes estilos nos EUA - é "Serenata", criada originalmente como um bolero de matiz espanhol em 1947. A música recebeu letra de Mitchell Parish em 1949. Desde que a ouvi pela primeira vez, há uns cinco anos, tocada por Wayne Shorter em um belíssimo arranjo para sopros, fiquei apaixonado por sua melodia. Fiz então um pequeno apanhado de várias 16 diferentes interpretações dessa canção por diferentes de artistas do jazz - com exceção da presença da cantora popularesca Julie Joy que, apesar do nome, é brasileira e canta a letra em uma versão romântica, em português -, mostrando como o arranjo pode ser modificado de mil maneiras diferentes, mas sempre destacando a força da melodia de Anderson.O arquivo contém ainda uma partitura do tema (lead sheet, retirada do livro "Jazz Ltd."), em formato PDF.

1) Leroy Anderson ("The Leroy Anderson Collection", 1988), regendo a versão original, com introdução e final que lembram um pasodoble espanhol, em tom menor;
2) Joe Pass ("Eximious", 1982), em versão trio, com muito suingue num arranjo meio "pseudobossa", mais rápido;
3) Nat King Cole ("Nat King Cole Sings, George Sharing Plays", 1962), acompanhado do lendário George Sharing ao piano, cantando em ritmo de bossa-bolero, com sua nitidez e elegância de sempre;
4) Quincy Jones e sua "Big Band Bossa Nova" (1962), puxando o tema num samba-canção com direito a pandeiro. Ele cita num interlúdio os acordes "espanhóis" da introdução original de Anderson;
5) Cannonball Adderley ("Takes Charge, vol.6", 1959), tocando o tema como um bom standard merece: com introdução estilosa, tema suingado e improvisações virtuosísticas;
6) Earl Klugh ("Naked Guitar", 2005), tocando o tema no violão, em versão solo. A clareza de cada nota, o timbre impecável do violão e as surpresas harmônicas que Klugh introduz na canção tornam essa gravação uma das melhores da seleção;
7) Stanley Turrentine e Shirley Scott ("Soul Shoutin'", 1963) tocam o tema com muita ginga - Stanley no tenor, Shirley no órgão Hammond B-3 são uma dupla imbatível no quesito suíngue;
8) George Sharing ("Latin Affair", 1958) tocando o tema com uma levada latina. Um pouco desconcertada, mas destacando os famosos "block chords" de Sharing na improvisação;
9) Larry Goldings ("Caminhos Cruzados", 1994) traz o tema novamente para o universo do órgão Hammond, passeando pela bossa-nova com sutileza impressionante;
10) Julie Joy ("Jóias de Julie Joy", 1958) foi uma das últimas cantoras da época de ouro do rádio a atingir algum sucesso. Nessa interpretação estilo "rumba" pra terceira idade, fica bem clara a intenção dramática, estética dominante na época pré-bossa nova. Vale pela curiosidade de ver a música cantada em português;
11) Alan Broadbent ("Round Midnight", 2005) faz um estrago na música. No bom sentido, é claro. Seu piano tem os voicings mais dignamente bem-executados desde Bill Evans, e seu improviso é tão límpido quanto a estética jazzística permite sem perder a essência "malandra" do jazz;
12) Cal Tjader ("A Fuego Vivo", 1981) imprime a latinidade nessa versão em que modifica a métrica (toca o tema num afro 6/8). Latin jazz fino;
13) Art Farmer e Benny Golson ("Meet the Jazztet", 1960) dão uma interpretação hard-bop ao tema, começando com um tipo de batida afro 12/8 e improvisando num andamento 4/4 rápido, típico da época;
14) Ray Barretto ("Contact!", 1997) transforma o tema em uma verdadeira explosão de latinidade, com a percussão e o arranjo de metais típico dos "conjuntos" cubanos;
15) Harold Vick e Herbie Hancock ("Watch What Happens", 1967), com sax tenor e rearmonização típica do mestre do piano. A levada de bossa-nova e o "corinho" na introdução deixam a gravação com uma cara meio brega, mas logo o jazz aparece nas improvisações;
16) Wayne Shorter ("Alegria", 2003) faz a melhor reinterpreção do tema, deixando-o com uma harmonia modal que impressiona pela beleza. O arranjo é, de longe, o mais elaborado de todos, com uma introdução de cair o queixo, usando o mesmo motivo da introdução "espanhola" de Anderson, porém num tempo desdobrado e nova moldura harmônica. O piano logo introduz um riff de acordes quartais que dá nova estrutura à música, que soa enigmática, fragmentada, leve e delicada. 

Serenata (Leroy Anderson) - 16 versões (arquivo .rar, 122Mb)