Estimo que já fiz o trajeto Araraquara-Londrina de ônibus cerca de 150 vezes em 10 anos. Posso dizer tranquilamente que, nesse período, observei uma modificação nos tipos de som que escutamos dentro do ônibus.
06 março 2012
O caso dos celulares sem fone de ouvido*
Estimo que já fiz o trajeto Araraquara-Londrina de ônibus cerca de 150 vezes em 10 anos. Posso dizer tranquilamente que, nesse período, observei uma modificação nos tipos de som que escutamos dentro do ônibus.
24 dezembro 2011
Música e concretude
Às vezes me pego sendo enganado pela música. Na televisão, filmes, na rua, no rádio. A música, sendo nada mais que uma organização de sons, barulhos, ruídos, vozes, etc, às vezes investe-se também de uma intencionalidade. Um construto que tem um fim além de ser apenas belo, apenas agradável, apenas arte -, tornando-se um conceito aplicado, uma mensagem, até mesmo uma arma. Armadilha. Armação.
O autor, o compositor, o produtor, qualquem um deles pode agir como um manipulador. Assim como a propaganda de perfume tenta traduzir um aroma por meio de imagens e sons (tradução intersemiótica, já que a televisão ainda não tem a capacidade de estimular o olfato), a música tem a propriedade de sinalizar uma coisa que não existe literalmente, ou de emprestar um significado a algo, ou de simular uma ação - como se narrasse sem palavras. Drama. Comédia. Aventura. Farsa.
O tempo para ou corre. Eterniza o beijo. Emoldura o encontro. Quem assiste a seriados americanos como "Friends" ou "Seinfeld" entende a capacidade da música de marcar a cena - quando, por exemplo, aparece o exterior do prédio, a fachada do restaurante, a panorâmica noturna de Nova York, sempre acompanhadas de uma curta e bem característica vinheta, antes dos atores começarem os diálogos. Prelúdios.
A música também acelera o fluxo da vida, faz tudo acontecer mais rápido. Rocky Balboa ("Rocky", 1976) se prepara para a luta decisiva, que o confirmará campeão mesmo contra um inimigo aparentemente imbatível - a aberração russa Drago ou o negro impiedoso Apollo. Enfrenta a rotina pesada de exercícios e o descrédito da mulher. Mesmo assim, pontuando as cenas de sofrimento, suor e dor, o famoso "Rocky Theme" dá esperança de vencer. Tudo passa rápido. Basta a música, e três meses passam em três minutos. Interlúdios.
Quando a música entra no lugar de alguma coisa, vemos a música "sendo", "existindo" concretamente. Figurando. Lembro do filme "Contatos imediatos em terceiro grau" ("Close encounters of the third kind", 1977) e a famosa sequência de notas usada pelos alienígenas para se comunicar com os humanos. Alguém já ouviu algum som extraterrestre? E música de outro planeta? A verdade é que o compositor John Willians inventou para os ETs uma assinatura sonora, usando notas de uma escala pentatônica. E não deve ter sido por acaso: com sua força ancestral, telúrica, sendo uma das mais antigas escalas musicais utilizadas por vários povos humanos, a escolha produziu um efeito primal, estabelecendo uma poderosa ponte sonora que dá um sabor especial a este filme de ETs (e olhe que eu morro de medo desses bichos verdes...). Desenvolve-se a trama, a música é a própria personagem. Coda.
Além de ter a capacidade de concretizar algo que teoricamente nem existe - afinal, ainda não provaram que os tais homenzinhos verdes estão de fato entre nós - a música também tem o poder de representar sonoramente algo que não tem som. Como o gás de cozinha (preciso comentar?). Ou então bancos. Sim, bancos, essas instituições que nos pedem dinheiro para guardá-lo pra gente. Bancos fazem propaganda. Muita. E não sei se repararam, mas todos encerram seus vídeos promocionais com um pequeno jingle - uma assinatura, uma audiomarca - que ajuda na identificação e fixação do nome do dito-cujo. Tem até gente fazendo cover de jingle de banco. Finale.
08 novembro 2011
Tempo pra música
Não tá dando tempo pra escutar música. Entre um trabalho e outro, entre uma esfiha e outra de almoço, entre uma noite mal dormida e uma manhã de ensaio, não há tempo pra outra coisa senão respirar. Vida dura? Não sei, talvez a vida seja mais dura ainda com quem nem tem a consciência de que não tá dando tempo pra ouvir música. Esse pessoal sim, sofre.
Esse pessoal - uma maioria esmagadora da população mundial - se acostumou tanto a comer as migalhas de música que ocupam todos os pequenos espaços do cotidiano que não sabe mais diferenciar carniça de filé mignon. Na algazarra dos sons que batem na porta do ouvido a todo instante, feliz é aquele que pode tomar uma cervejinha ouvindo o CD de hits em mp3 que comprou pessoalmente na banca do camelô por R$ 10 a dúzia. Graças dão a Deus por conseguem arrumar um tempo pra ligar o radinho enquanto lavam o carro na calçada de manhã. Dão vivas por terem comprado um ingresso na internet pra levar a filha no show do Justin Bieber. Oxalá a loja dê lucro e eles consigam viajar no final do ano com a nova Tucson equipada com home-theater, assistindo o último DVD da Ke$ha. Ou do Luan Santana. Ou do Michel Teló. Esse pessoal merece mesmo a felicidade.
Esse pessoal não tem nome, classe social, cor, nada disso. Esse pessoal tem em comum apenas o fato de não ter tempo pra curtir a vida e descobrir toda a música que há por aí. Esse pessoal, pelo pouco tempo que tem, tem apenas tempo pra se enganar. O operário se contenta com seu churrasquinho de fim de semana regado à música sertaneja; o office-boy se sente a última bolacha do pacote porque conseguiu baixar no computador da firma uma coletânea de funk carioca; o gerente da mesma empresa já planeja estrear o novo som do carro no happy-hour de sexta, tocando sua coleção de DJs dos melhores night-clubs da Europa em plena praça ou em algum posto de gasolina; o universitário se alegra com a festa na república na "semana do saco cheio" regada ao último sucesso de alguma dupla de "sertanejo universitário"; o dono da confecção se delicia com a voz doce de Paula Fernandes na festa de aniversário das crianças, enquanto a mulher do dono da confecção arrisca uma coreografia da Claudia Leitte no fim da festa.
Eu tô triste por não ter mais tempo pra música. Mas e esse pessoal, como é que faz?
02 abril 2010
Ouvidos de moitará
Moitará” é o nome escolhido para o caderno de cultura da Folha. É palavra indígena que designa um encontro de diferentes tribos para a realização de trocas. Trocas de bens materiais, mas também de conhecimentos e afetividades. Significa o momento de baixar armas, abrir a guarda, dar guarida a novas possibilidades.
13 julho 2009
Rádio sem tempo para escutar

pra me encontrar sem contratempo
durante algum tempo
José Miguel Wisnik / Jorge Mautner
O rádio FM de hoje é um retrato sonoro da falência da escuta. É feito para ouvir entre tarefas, alimentar-nos de sons afinados com as máquinas políticas, culturais e sociais hegemônicas. O rádio é como o som do nosso "inconsciente maquínico", conceito de Felix Guattari para explicar como a linguagem, o pensamento, o desejo e o self se interpenetram de acordo com sistemas que estão "fora" do indivíduo - o capitalismo, a gramática, a política, a ética.
O cérebro cria a linguagem, ou a linguagem cria o cérebro? O homem obtém seus objetos de desejo e consumo por meio dos negócios da economia capitalista, ou é a economia capitalista quem consome homens e negocia desejos em troca de sua existência infinita? Até que ponto o inconsciente pode ser entendido apenas pelos mecanismos descritos por Freud ou Lacan e não por Nietzsche, John Stuart Mill ou Hollywood?
Guattari nos mostra que a linguagem - por fim, o próprio pensamento e o inconsciente - recorre a signos ou significados que fluem em uma economia de poderes simbólicos, distribuídos na sociedade. Poderes do inconsciente, poderes da mídia, poderes da ciência, poderes da religião, cada um dominando partes da estrutura da linguagem, até que não se saiba mais o que pensa ("o que ou quem em mim pensa?") de forma independente.
O rádio FM é a materialização deste conceito de dominação da linguagem em forma de som. O rádio FM nos mostra um mundo sonoro vibrante, ágil, que tenta esticar sua dimensão linear ao máximo, elevando ao quadrado os volumes, massas, andamentos, fortíssimos, criando a ilusão da rapidez da informação. É som - conceito puro e abrangente -, porém marcado pelos signos do capitalismo pragmático ("time is money", cada segundo é cobrado pelo anunciante), da falsa objetividade jornalística (na voz pura e limpa do disc-jóquei que apresenta as notícias do showbizz com uma velocidade frenética), do consumo voraz (escute hoje o novo sucesso da hit parade que amanhã será esquecido). Sem silêncios.
Se o rádio FM apela para tais artifícios e jamais rompe essa estrutura - disc-jóquei, música, notícia, apresentador, vinheta, anúncio, "as dez mais" e etc -, é porque a palavra rádio que se reproduz no "inconsciente maquínico" de todos nós já se consolidou como tal. O rádio, que sempre teve a função de nos conectar, de nos religar (como a religião, que vem do latim religare) a todos por meio de seus sons, também passou a nos usar. Música? Claro, mas sempre com "um oferecimento de sabonetes Palmolive". Sempre nos dizendo o que está no topo das paradas. Informação? Lógico, pois sempre entre um anúncio e outro, entre a casa e o trabalho, entre o térreo e o décimo andar, dá tempo de ouvir a última fofoca sobre Any Winehouse.
Segundo Janete El Haouli, pesquisadora incasável do rádio, persiste a dúvida se precisamos limpar o rádio ou limpar a escuta. Assim como o inconsciente maquínico se refere ao rádio como uma "grade" de programas de música, anúncios, vozes sem corpo, também entende muito pouco de escuta. Inconscientemente, pensamos a escuta como um sentido menor, subordinado à visão.
O educador e filósofo Rubem Alves propõe oficinas de "escutatória" como medida para resgatar o sentido da escuta, em oposição às oficinas de oratória que ensinam todos apenas a falar.
Liberar a escuta pode liberar o rádio, fazer com que o religare passe a funcionar não apenas dessa maneira opressiva e barulhenta das FM´s, mas que traga novos afetos para a prática de ouvir/produzir rádio. Religare como valorização da reconexão entre os sons e seus territórios (desterritorializar e re-territorializar, como quer Guattari, deslocando sentidos para criar novos conceitos, artes, filosofias). Religare como a infantil brincadeira de “ligar os pontos” entre sons provocativos do rádio, descobrindo aos poucos um grande desenho infinito entre um tracinho e outro, um universo inteiro cabendo entre dois sons. Religare como religião (ou quase), como uma liturgia da escuta, transformando o ato de ouvir em ritual para os ouvidos, recuperando um certo sentido do sagrado que os sons perderam na sociedade pós-industrial. Religare como o reencontro entre o tempo da música, o tempo do poema, o tempo circular do rádio (ou seu tempo eterno), com o tempo do relógio, do cotidiano, como um reajuste de contas entre o tempo do ouvir e o tempo do viver.
27 março 2009
O mundo pede socorro e meus ouvidos também

(www.juniao.com.br)
Me parece um tempo muito longo para ficar na escuridão, pois encarei o desafio ontem (hoje a noite vou estar tocando) e vi que realmente não é tão fácil. Mas não porque deixei de ver televisão, ou porque fiquei sem computador, ou porque tive que tomar água morna da torneira pra não abrir a porta do refrigerador. Foi porque comecei a escutar demais.
Sem o estímulo visual, passei a dar mais atenção para o ambiente sonoro. E fiquei incomodado com o que ouvia. Televisões em volume alto, o constante "vruuummm" do trânsito da cidade, alguns gritos de crianças brincando fora de hora. Não ouvi grilos, água, estrelas - só ruidos de gente e máquinas.
Pessoas e seus cortadores de grama, DVD players portáteis, antenas parabólicas, caminhonetes movidas a diesel, freneticamente ocupando todos os espaços e encobrindo todos os silêncios. Enquanto isso, a TV do apartamento ao lado exibia o anúncio em que algumas celebridades "cool" pediam pra desligar as luzes. "Pare de consumir energia, seu, seu... consumidorzinho de merda", era isso que eu ouvia, já me sentindo culpado por ter ligado o notebook (usando a bateria, não a tomada...ufa!).
Sim, o mundo está esquentando. Geleiras derretendo, baleias encalhando, pingüins perdidos, chuvas excessivas em Santa Catarina, seca e incêndios na Austrália, nevascas na Espanha, furacões em New Orleans, conseqüências diretas ou não do aquecimento global causado pela ação humana. Tudo isso me assusta e me faz pensar que já não estamos mais em sintonia com nosso planeta. Mudamos o meio ambiente, e já não nos sentimos mais em casa. E eu, na minha própria casa, com um calor danado no escuro (porque Araraquara é quente mesmo e não liguei o ventilador para não desperdiçar energia elétrica), ouvia um mundo que já não parecia amigável.
Irritado, pensei em formas de mudar esse panorama. Ligar para a prefeitura e pedir que fiscais multassem todos os carros com escapamentos furados? Chamar a polícia para dar uma dura no vizinho com o som alto? Não, não sou encrenqueiro. Então, como "salvar" o ambiente sonoro? Corrijo: salvar o meu ambiente sonoro? Pensei em John Cage: "pare de tentar o mudar o mundo, você só tornará as coisas piores", sempre citado pela minha amiga-guru Janete El Haouli. Pensei então em mudar pequenas coisas ao meu redor. Não posso parar a poluição do mar, do ar, a queima da Amazônia, o buraco na camada de ozônio (há quanto tempo não se fala nele né?...). Mas posso tentar parar o excesso de barulho ao meu lado.
Criei a minha campanha. "Uma hora pelos ouvidos", com o objetivo simples de desligar, impedir, abafar, minimizar todas as fontes sonoras das casas por uma hora, em data a combinar. E isso inclui até as lâmpadas, pois fazem um barulho danado (no escuro se percebe). Pois alguns fatos mostram que, se o planeta está pegando fogo e precisamos parar de desperdiçar recursos naturais, os seres humanos estão à beira da loucura de tanto ruído que produziram:
- A escala decibel, que mede a intensidade sonora, é logarítmica - o que significa que, a cada aumento de 10dB, a força do som é multiplicada dez vezes. Assim, o menor som audível (quase que silêncio total) é de 0 dB. Um som 10 vezes mais forte tem 10 dB (10¹). Um som 100 vezes mais forte do que o próximo ao silêncio total tem 20 dB (10²), e assim por diante. Uma conversa tem 60dB. Qualquer som acima de 85 dB pode causar perda de audição, dependendo do tempo de exposição ao som.
- pesquisa de um engenheiro curitibano mostra que o nível de ruído dentro de ônibus urbanos pode chegar a 81 dB. Em São Paulo, os níveis de ruído em algumas das principais ruas ficam entre 88 e 104 dB. Nas áreas residenciais, variam de 60 a 63 dB, superiores portanto aos 55 dB dados como limite pela lei de Silêncio daquela cidade.
- um iPod ou walkman podem produzir um volume máximo equivalente ao de uma britadeira, algo em torno de 120 dB (só pra lembrar, isso é 10¹² vezes mais forte que uma sala silenciosa).
- uma pesquisa da Universidade do Califórnia, mostrou que diversos brinquedos americanos emitem sons que, aos ouvidos de uma criança, correspondem ao de um aspirador de pó (mais de 100 dB).
- Outra pesquisa, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, mostra que fetos submetidos a um som forte aumentou-lhes a freqüência cardíaca de 140 para até 170 batimentos por minuto. Na mesma linha, pesquisadores canadenses verificaram que crianças cujas mães trabalharam em lugares muito ruidosos durante a gestação ouvem três vezes pior do que outras crianças.
- Rio de Janeiro e São Paulo são, nessa ordem, as metrópoles mais barulhentas do mundo, principalmente devido ao intenso tráfego de veículos, responsáveis por 80% dos ruídos.
-Tóquio ocupava a primeira posição no ranking do barulho há dez anos. Mas os japoneses (sempre eles) começaram uma campanha de bom senso pedindo para que todos diminuíssem a produção de ruídos a partir das 22 horas. Isso desencadeou uma "convivência silenciosa" - e civilizada - que coloca a cidade hoje no décimo lugar entre as metrópoles mais barulhentas.
- a Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma categoricamente: o barulho faz 210.000 vítimas de infarto por ano no mundo. Não é de se estranhar, pois nosso organismo é afetado or qualquer som acima dos 60 decibéis (o equivalente a uma conversa). Como defesa, o cérebro dispara ordens para que as glândulas supra-renais liberem doses de cortisol e adrenalina, os hormônios do stress. Por isso sons altos estão no terceiro lugar no ranking de problemas ambientais que mais afetam populações do mundo inteiro.
- há barulho demais que chega a causar assombração. Um relato de um engenheiro inglês é curioso: perseguido por uma suposta aparição freqüente de fantasmas em seu laboratório na cidade de Coventry (Inglaterra), ele descobriu após uma série de investigações que as silhuetas cinzas que constantemente via eram resultado de uma exposição involuntária a uma frequência subgrave de um aparelho exaustor recém-instalado no local. Uma vibração de 18,9 Hz (um pouco abaixo do limiar de nossa escuta, de 20Hz) causava alterações visuais devido ao "tremor" do globo ocular exposto ao imperceptível som do aparelho.
- pesquisas mostram que os níveis de ruído no Reino Unido triplicaram desde o início de 1980. Imagine quantos fantasmas não estão aparecendo por lá...
Desligar a luz me fez realmente ver muita coisa. Não diminuí a temperatura global, mas consegui começar esse texto. Desligarei as luzes mais vezes. Novamente não provocarei nenhum milagre que restaure o equilíbrio ambiental, mas terei começado a modificar meus hábitos, na linha "troque sua novela por um livro", ou Seinfeld por um blog, e talvez isso já resulte em uma vida mais produtiva e ativa - e me faça menos culpado por gastar energia elétrica escrevendo enquanto derrubam a Mata Atlântica e meu vizinho usa seu George Foreman Grill para fazer churrasquinhos regados a funks e pagodes no último volume.
25 março 2009
Os sons que eles escolheram

No jazz, a escuta é essencial. Escutar é a base do criar, abrangendo as três pontas do triângulo da fruição estética: o ouvinte/espectador, que recria os sons levado pela sensibilidade dos intérpretes; por sua vez, os intérpretes recriam as sonoridades dos compositores das canções que estão tocando; por fim, os compositores elaboram suas obras com base em referências sonoras anteriores. Escutando, compondo e criando ao mesmo tempo. Público, músico e criador interagem a cada momento. Não foi à toa que o compositor e pesquisador francês Pierre Schaeffer dizia que a música começa nos ouvidos de quem escuta.
Ao ler a Downbeat de março, tive a certeza de que todos os criadores do jazz pararam, em algum momento de suas vidas, para exercitar a escuta. A matéria de capa traz vários artistas do gênero falando sobre seus álbuns favoritos pertencentes ao catálago do legendário selo Blue Note. Legal pra conhecer os gostos e influências dos caras - o que ouviram, como traduziram o que ouviram, e como aplicaram o que compreenderam em suas obras.
A foto de capa traz o saxofonista Joe Lovano segurando o vinil "Free For All", do baterista Art Blakey e seus "mensageiros do jazz". Eu não conhecia o disco. Corri atrás (santo Google) e vi que já tinha ouvido pelo menos a faixa-título, que é uma correria só, hard-bop da pesada, tem que ouvir. E dá até pra entender de onde Joe Lovano tirou a expansividade de seu som...
Além de Blakey, citado como favorito também pelo trumpetista Randy Brecker, três artistas parecem ter dominado as preferências gerais: discos de Wayne Shorter (citados pelos saxofonistas Branford Marsalis, Greg Osby e Chris Potter, pelo trumpetista Nicholas Payton e pelo vocalista Kurt Elling), Herbie Hancock (referidos pelos trumpetistas Sean Jones e Terence Blanchard e pelos pianistas Geri Allen, Kenny Werner e Uri Caine) e Horace Silver (comentados pelo pianista Bill Charlap, trumpetista Dave Douglas e cantora Dee Dee Bridgewater).
Não é de se espantar que tantos bons músicos tenham bebido das mesmas fontes, sensíveis às novas formas de compor e improvisar apresentadas pelas inesquecíveis bolachas da Blue Note, gravadora em sua plena forma nos férteis anos 60 - pré-fusion, pós-bebop, quasi-free. Esses discos são o puro reflexo de uma época revolucionária, em que os artistas procuravam novos caminhos, novas fusões, novas cores - e Herbie, Shorter e Silver eram realmente promissores nessa alquimia de misturas sonoras.
Hoje, não é tão importante ter as gravações - seja em vinil, CD, ou DVD - para se ouvir músicas diferentes. A internet se tornou um grande "distribuidor" de informação musical, disponível para quem quiser, muitas vezes de graça. Fuçando bem, se acha desde raridades do choro brasileiro da década de 20, passando pelas canções de rituais religiosos africanos, até a música eletroacústica avant-garde composta antes-de-ontem por algum novo Stockhausen digital.
Não é mais necessário mais buscar a música - esta é que nos acessa, nos assedia, "coloca nossos ouvidos para trabalhar a seu favor" (na teoria de Giuliano Obici) em iPods, podcasts, rádios digitais, sons prêt-a-porter compactados na nova panacéia digital chamada mp3. Portanto, mudam as tecnologias, mas a questão permanece a mesma: como permanecer sensível às músicas que nos rodeiam, tendo uma enorme quantidade de sons disponíveis?
O que esses artistas da Downbeat nos ensinam, ao comentar seus bolachões, não é a ter amor pelos discos - ou pela coleção de mp3 baixados da internet, ou pelo novo iPod com milhares de gigabytes de capacidade - e sim a ter cuidado com o que se escuta. Em uma época onde milhares de vinis da então vigorosíssima indústria musical invadiam as prateleiras com "o mais novo sucesso das paradas" - traduzindo, centenas de cópias mal-acabadas de grupos musicais de sucesso -, eles souberam escolher "poucas e boas" gravações, de onde extraíram a matéria-prima para criar seus universos musicais, seus próprios discos, seus próprios oásis de sons frescos em um deserto de mau-gosto e enfadonhas repetições barulhentas das FMs comerciais.
11 março 2009
Música, jornalismo e improviso

[do caos vem beleza,
ordem da leveza,
lírica sentença
fogo frio da incerteza
interroga o tempo
pára os fluxos do pensamento
e cria o vão
em que dá cria
a invenção]
Este blog nasce em meio a crises. A crise da música e dos sons é uma delas. Em que momento nasce a música e morre o ruído? Em que momento brota o som do silêncio? Há silêncio?
Fora a filosofia necessária, há as novas estéticas, novas escolas, novas mídias, enquanto continuam velhos esquemas de ensino/aprendizado, velhos esquemas de trabalho (OMB, couvert artístico, ECAD...), velhas indústrias fonográficas. É preciso manter os ouvidos limpos e abertos para perceber quais novas e velhas frequências queremos escutar. E quais delas não precisamos mais.
Outra crise é a do jornalismo. Longa demais para que possa valer a pena debater aqui. Só vale lembrar que, no velho - e errôneo - combate entre o front da grande imprensa e os bunkers das assessorias de comunicação das grandes corporações, resta a debilitada informação entre os mortos e feridos, influenciada cada vez menos pelos mal-informados jornalistas e cada vez mais pelos interesses extra-redação e extra-release que emanam dos gabinetes e escritórios dos executivos responsáveis pelos dois lados da notícia. Entre os escombros dessa guerra, alguns sobrevivem buscando alguma centelha de verdade ou apenas verossimilhança.
Duas crises que são potencializadas pela internet, torrente de informações que nos oferece a liberdade do conhecimento, mas numa prisão em que toda a experiência é unidimensional.
O improviso entre sobre esses dois temas, com pitadas de jazz e otras cositas mas, é o assunto e o modus operandi deste blog. De tons e modos diversos, frasear sobre acordes de filosofia, notas de cultura, linhas de fuga que vão das tradições ao contemporâneo. Versar sobre o som, soar ao inverso, silêncio sobretudo. E etc e jazz.


