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08 fevereiro 2012

Ouvidos e História*

Um pesquisador musical do século XX, o francês Pierre Mariétan, disse: “a música acontece no ouvido de quem escuta”. Tal afirmação, nos dias de hoje, nos faz pensar nas consequências de um fenômeno bastante corriqueiro, que é o fato de a música “bater à porta” dos ouvidos constantemente, chegando pelos mais diversos meios: carros de som passando na rua, televisão ligada, mp3 players, celulares, internet.

Com tanta música disponível, é importante refletir sobre o “como ouvir”, pois isso determina também o “o quê” e o “por quê” ouvir. Tentemos entender isso em uma breve história da tecnologia musical e sua relação com a escuta.

O antigo hábito de ouvir rádio proporcionava que os sons produzidos por grupos musicais eliminassem a distância até os ouvintes. Antes disso – e antes mesmo dos discos –, música só se ouvia em shows, bailes, ou em lares onde alguém tocava algum instrumento, por meio de uma partitura escrita – a música tinha que ser “lida”, num papel!

A indústria musical dos anos 50 até os 90 apostou no ouvido “sedentário” – ouça seu ídolo em sua própria casa - e fez de tudo para garantir altas vendagens de seu principal produto: o disco de vinil. A preocupação era de encantar o ouvido, mas também vender música, por meio de um suporte plástico chamado disco. O long-play levou aos bares, casas noturnas (quem não se lembra das jukeboxes que tocavam vinis a troco de uma moeda) e lares o fascínio da música gravada.

Possuir uma vitrola era um luxo, pois dava ao ouvinte o poder de tocar sua música preferida a qualquer hora. O rádio, principal veículo de comunicação de massa até os anos 50,  amplificava essa escuta, com programas musicais que veiculavam teatro, radionovelas e shows ao vivo – que mais tarde foram substituídos pela execução dos próprios LPs pelos recém-surgidos disc-jockeys.

Os discos evoluiram com novas tecnologias, e surgiram as fitas K-7, depois os CDs. Nos anos 2000, a digitalização pulverizou a indústria fonográfica com uma nova possibilidade: substituir o plástico pelo virtual, com o simples download de músicas. A principal consequência para a escuta é a explosão de consumo musical, pois temos a música em nossos bolsos, dentro de players digitais, celulares, e até acompanhada do videoclipe lançado na MTV, depois baixado do Youtube.

Música lida, música ouvida, música comprada, música baixada. Em meio século de história, os jeitos de se ouvir música foram mudando, pois os suportes foram se transformando. A pergunta é: nesses cinquenta anos, será que assumimos o papel de ouvintes ativos ou fomos apenas consumidores passivos de música? Escute o que te diz o seu ouvido.

*publicado na revista Perfil Araraquara, edição 20, janeiro de 2012. Versão integral, difere do publicado.

16 setembro 2011

A vida anda e a preguiça também




















Este blog não está sendo atualizado por pura preguiça. Preguiça do mundo. Preguiça da internet. Preguiça de fazer login. Preguiça de estar conectado. Preguiça de estar atualizado. Preguiça até de coisa boa, como ouvir novos discos, pesquisar novos lançamentos, redescobrir velhos CDs. Preguiça de me perder nos sons.

Preguiça de informação. Preguiça de fatos inúteis, como saber que Gerard Depardieu urinou no corredor de um avião. Preguiça dos fatos tristes, como lembrar que Joe Morello morreu nesse ano. Preguiça dos fatos que importam na música, como ouvir falar quem é a última nova grande estrela do jazz americano de acordo com a Downbeat (o trumpetista Ambrose Akinmusire foi o escolhido), ou de ouvir o bootleg da apresentação do Trio Corrente com Paquito d'Rivera, ou de ouvir o solo que Seamus Blake fez no disco de um grande guitarrista brasileiro em ascenção, Oliver Pellet.

Preguiça dos livros. Preguiça de ler em "O triunfo da Música" (Companhia das Letras, 2011, 424) que Mozart foi despedido por seu patrão príncipe a pontapés - mostrando que músico sempre foi uma profissãozinha ingrata. Preguiça de discutir essa tal profissãozinha, com suas OMBs, currículos escolares obrigatórios e coletivos alternativos. Preguiça de discutir coisas sérias, como os debates sobre a nova lei de Direitos Autorais, ou de dar opinião sobre a chamada "crise" no MinC - deflagrada por gente que tem interesses mais do que culturais nos "eixos" das rodas artísticas desse País.

Preguiça da televisão, preguiça do rádio, preguiça dos shows - dos que fiz, dos que não fui, dos que tenho que fazer -, preguiça até do meu programa de rádio - que já foi reprisado nas últimas duas terças-feiras por pura preguiça de gravar os roteiros, que já estão prontos desde o mês passado. A preguiça me pegou nos últimos tempos. Me deu preguiça mesmo até de postar aqui um texto decente, ou coisa que o valha.

02 agosto 2010

O que odiar no jazz

Achei muito engraçado ler isso no blog de um dos maiores trumpetistas de jazz, o americano Nicholas Payton (New Orleans, 1973): "o que odeio no jazz". Seu blog tem um humor negro e uma sabedoria impressionantes. Pra ler, tem que ter algum distanciamento, dispensar julgamentos ou preconceitos.

O cara é fera no trumpete e nas letras. Nesse post, que traduzo aqui livremente, ele brinca com uma série de fatos que acontecem em qualquer jam session do mundo (percebi que é do mundo meeesmo, porque algumas das gafes que ele cita acontecem em jams por aqui também...).

"Por favor, não leve a mal quando digo isso, mas eu ODEIO JAZZ!!! Me deixe dizer porque:
EU ODEIO acordes de nona aumentada...
EU ODEIO caras no palco olhando em volta tentando saber qual é o próximo tema...
EU ODEIO saxofonistas que gostam de tocar igual John Coltrane...
EU ODEIO pianistas que adoram tocar uma intro em cada tema...
EU ODEIO trumpetistas que param de tocar nos últimos 8 compassos só pra não tocar as notas agudas no final...
EU ODEIO jam sessions. A hora de ir embora é quando alguém começa "Blue Bossa"...
EU ODEIO versões funk de qualquer standard...
EU ODEIO cantores que sempre querem cantar "Summertime"...
Eu não sei o que odeio mais: a cara "raivosa" dos bateristas ou a clássica "cara de orgasmo" dos guitarristas...
Mesmo com todas essas coisas que EU ODEIO no jazz, é um mistério porque ainda assim eu o amo tanto..."


Depois de ler isso, fui procurar uns vídeos dele na internet e vejam o que eu achei - justamente uma jam session em que ele é convidado por dois guitarristas para dar uma canja. Pelo vídeo, dá pra ver porque Payton "odeia" tanto assim o jazz. Ele tenta tocar com os dois caras, que não são do ramo (ficam um tanto quanto inseguros e tímidos nas cordas), e é só na hora que Payton ataca que tudo acaba fazendo sentido. Ele é a cola que junta tudo num conjunto mais ou menos coeso. Uma furada, que só não ficou feia por causa da extrema competência do trumpetista (a música começa no 1'49"):

21 março 2009

Acordes de palavras















[Jazz ritornello

o som descascava
no centro, um ponto só
dentro de quem ouvia
uma rara sinfonia

no claro rarefeito
notas de efeito raro
de escura e fugaz harmonia
torcidas pelo eco surdo das paredes

sentidas na carne e nas têmporas
como um frenesi vulcânico
no espantoso silêncio dos olhares
na maré baixa dos copos vazios

eram quantas horas da manhã
de uma alegria amarga
de uma coda de aplausos sorridentes depois da aventura vivida
pelo saxofone feroz]

Duas jam sessions em Londrina na semana passada - uma no Estação Café Brasil, outra na casinha do Valentino - ajudaram a matar a saudade de alguns amigos e a curtir o doce sabor de aventura de apenas sentar no teclado e tocar por duas horas sem respirar, apenas jogando com os sons dos instrumentos. O que me levou a pensar que, talvez, um blog sobre jazz deveria ser escrito apenas em jam sessions. Durante.
Seria uma tentativa de "jazzificar" a escrita. Música imprevisível, texto idem. Cada palavra comentando cada acorde, cada sentença parafraseando uma frase de improviso, o ritmo do texto se alternando com o pulso da banda. Temas expostos e reexpostos, como argumentos de um roteiro, sendo construídos de forma livre porém coesa. De repente, pontes entre solos - intromissões do compositor na espontaneidade do tocar, como um texto entre travessões -, pausas freqüentes, feito vírgulas ou dois pontos; fortíssimos (!!!) e pianíssimos (...) pontuados com exagerada denotação ortográfica. Será?
A impossibilidade se verifica já no pensar, antes mesmo do simples ato de tentar escrever: a velocidade da comunicação entre os músicos seria muito maior do que a minha tacanha capacidade de compreensão das novas idéias sendo postas em prática a cada compasso. Os sons se espalhando pela sala de acústica perfeita, enchendo as três dimensões (há quem diga que o som é a quarta dimensão) com ondas provocantes, excitando os ouvidos, sendo reelaboradas nos labirintos do cérebro, ganhando formas e cores infinitas, enquanto as letras no papel seguem uma chata fila que termina na quebra de página, primeiro enfileirando-se, depois empilhando-se, num preto e branco terrivelmente frio e sem graça.
Mas o exercício de emular os mecanismos de produção de sentido do jazz em outro meio de expressão, como num texto, já foi realizado. Bem o fizeram os beatniks. Hunter Thompson e seus textos jornalísticos errantes, quase aleatórios, lembram bem os picos de euforia e silêncios introspectivos que transcorrem numa jam - ou numa viagem lisérgica. "Round About Midnight", filme-ícone do jazz do diretor Bertrand Tavernier, também contou com o improviso dos atores-músicos em várias cenas.
Criar um texto jazzístico, com técnicas jazzísticas? Quem sabe. Podemos tentar nos próximos posts. Ou nas próximas jam sessions.