Mostrando postagens com marcador Stravinsky. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Stravinsky. Mostrar todas as postagens

16 outubro 2010

Canções para alguém (ou "stravinskianismos jazzísticos")

A abertura do disco "10 Songs for Anyone", de Chris Potter, soa como se fosse composta por Scriabin, uma abertura sinfônica tensa e moderadamente dramática. Flauta, clarinete, fagote, violino e viola criam texturas sedosas para o sax tenor encorpado de Potter, que logo se vê acompanhado de uma seção rítmica discreta, concisa e muito arrojada formada por guitarra, baixo e bateria. Logo de cara se percebe que esse não é um disco de jazz comum, e consegue ser mais surpreendente que o que se espera de uma gravação de jazz.

O saxofonista produziu os arranjos quase camerísticos para essas suas dez composições, obtendo uma sonoridade grandiosa e elegante que não perde a fluência nem mesmo nos momentos em que a dinâmica do grupo sacode as paredes dos temas labirínticos de Potter.

Momentos mais introspectivos são harmonizados como pequenas serenatas debussianas, enquanto alguns temas ganharam arranjos já beirando o atonalismo lírico de Stravinsky (a pequena "cadenza" no meio de "Cupid & Psique" lembra até mesmo a eficiência serial de um quarteto de cordas shoenberguiano). E os improvisos nunca perdem o caráter jazzístico, sempre ampliando a gama de materiais sonoros utilizados e contando com extrema intercomunicação entre os músicos. Solos de violino, viola e flatua também estão presentes em alguns dos temas.

Com certeza o jazz que se escuta nesse disco é material para alguns anos de audição atenta, como requerem as grandes obras clássicas na qual esse gênio norteamericano obviamente se inspirou para criar esta obra-prima.

Albumcoverchrispotter-songforanyoneChris Potter - Songs for Anyone (2007)

Chris Potter (tenor sax), Erica Von Kleist (flute), Greg Tardy (clarinet), Michael Rabinowitz (bassoon), Mark Feldman (violin), Lois Martin (viola), David Eggar (cello), Steve Cardenas (guitar), Scott Colley (acoustic bass), Adam Cruz (drums, percussion)


1.Absence, The; 2.Against the Wind; 3.Closer to the Sun; 4.Family Tree; 5.Chief Seattle; 6. Cupid and Psyche; 7.Song for Anyone; 8. Arc of a Day, The; 9. Estrellas del Sur; 10.All by All

18 abril 2010

CATcerto, ou o retorno da orquestra

Esses caras malucos por gatos sempre postam videos de seus bichinhos fazendo arte. A gata Nora faz sucesso há alguns anos na web por seu vídeo no Youtube, onde toca piano (mal e porcamente, diga-se de passagem).

O compositor e maestro lituano Mindaugas Piečaitis criou em 2009 um concerto para orquestra de câmara no qual a tal gata pianista é a solista. A singela peça, chamada "Catcerto", dura cerca de cinco minutos e lembra composições de Stravinsky, de uma beleza poética, delicada e de sonoridade exótica.



A peça estreou com sucesso no ano passado e foi notícia em redes internacionais de televisão - BBC de Londres e First Baltic Channel, da Rússia. E logicamente é um vídeo muito popular no Youtube. E é esse justamente o aspecto que nos faz pensar: orquestras sendo sucesso?

Talvez na Europa ainda haja um certo fulgor, uma certa mobilização de ânimos em conversas, ao se falar em certas orquestras, maestros ou músicos eruditos: A Filarmônica de Berlim, o inglês maestro-revelação dos anos 90, Simon Rattlle, ou a violonista-prodígio alemã dos anos 80 Anne-Sophie Mutter. Provavelmente fora desse contexto - como no Brasil -, falar em orquestra é o mesmo que falar em museu ou conversar sobre latim - assuntos jurássicos.

Para que uma orquestra (e sua música) voltasse a ser o assunto do dia, o maestro teve uma idéia genial - um novo solista "fenômeno", uma nova celebridade, uma nova diva. E compôs para ela uma música especial, perfeita para destacar seus dotes artísticos e sensibilidade interpretativa fora do comum para a espécie: um gato. Um gato concertista.

Sim, um gato nos fez novamente ouvir as possibilidades sonoras de uma orquestra, nos causando impacto emocional com sua interpretação elegante, melodia cristalina e postura de total entrega à música, deitando-se sobre o teclado nos momentos mais pungentes da canção, embalados sobre os fluxos telúricos das cordas e sopros. Nos trechos de maior tensão, notas repetidamente tocadas sobre acordes dominantes, como se o pianista sentisse que é a hora certa de aumentar a dose de suspense e intensidade das dissonâncias propostas pelo compositor.

Um gênio. Um virtuose, nos dando um show de poesia e lirismo, nos trazendo de volta o sentimento perdido (ou roubado) de satisfação ao ouvir o espírito humano a interagir, modificar, transcender, transparecer através de melodias, harmonias, instrumentação. Satisfação ao se sentir participante da linguagem musical.

Quando a música de orquestra parou de nos encantar? Quando perdemos a vontade de tentar ouvir o que se passa naquele palco cheio de músicos e um doido balançando os braços na frente? As respostas fáceis logo aparecem, e sempre repetidas: televisão demais, trabalho demais, escola de menos, imposição do lixo pela mídia, música erudita cada vez mais hermética e chata, etc.

Todos esses motivos são, na verdade, sintomas de um único mal: a diluição do conceito de escuta desde o século XIX até os dias de hoje. A escuta é bombardeada constantemente por uma série de sons oriundos do sistema de coisas que inventamos para nos sustentar como seres humanos: fábricas, carros, sirenes, tiros, bombas, zumbidos, chiados, dessensibilizando o ouvido para os silêncios de outros contextos. Na escola, o professor grita para atingir os alunos. Em casa, gritamos para superar o barulho da TV. Na fila do banco, aprendemos a direcionar nossos ouvidos para o som da campainha que indica que temos a próxima senha. Nos restaurantes, a mesma prática defuntória, de aguardar mansamente o apito enquanto nosso prato ainda não ficou pronto, e qualquer tentativa de apreciar uma conversa atrapalha a iminente hora de encher a barriga.

Dezenas de outras situações assim nos mostram, inegavelmente, que nossos ouvidos se tornaram, assim como pinças, chaves de fenda, alicates, meras ferramentas de sobrevivência. Meros apetrechos que, ainda por cima, não estão a nossa disposição, mas sim prontos a responder a estímulos mecânicos produzidos por um sistema, uma sociedade, uma complexidade. Ouvidos assim não sabem mais a diferença entre o som de um oboé e de uma chaminé de fábrica. Ouvidos assim não sentem necessidade de orquestras, pois se contentam em reconhecer o toque do celular, a buzina apressada, a campainha burocrática da fila do açougue...