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09 março 2011
Zeros e uns e jazz grátis
Art Kane
Música é informação. No formato digital, a informação é apenas um punhado de zeros e uns. Música digital é um monte de zeros e uns. Compositores, músicos, produtores, executivos, revendedores, distribuidores, gravadoras, arranjadores e etc, todo o trabalho dessa gente é reduzido a zeros e uns. Para o bem e para o mal, é isso que a informática (informação + automática) fez com a música.
Se você conhece informática apenas ao nível de saber gravar/ouvir/transformar sua música (seja você o executante ou o consumidor, e eu me enquadro nessas duas categorias) em um arquivo MP3, você está só na metade do caminho para a liberdade. Quem conhece as combinações dos zeros e uns é que passa a ser o dono da música. Esse cara tem a chave na mão. A chave do seu bolso, inclusive.
Por isso curto coisas grátis na internet. Sites, redes, links, aplicativos que se sustentem tendo apenas a função de simplesmente proporcionar conhecimento. Sem pôr a mão no seu e no meu bolso. Eu tinha acesso a música digital em um canal personalizado na antiga rádio on-line Last.FM. Depois que os infelizes administradores começaram a cobrar dos usuários brasileiros, assim como faziam na Europa e EUA, fui atrás de outras opções. Afinal, tenho sede de conhecer sons do mundo todo, mas não tenho dinheiro como europeus ou americanos.
Encontrei várias rádios gratuitas, mas realmente adorei a AccuJazz.Com. Rádio grátis, simples como sintonizar uma rádio física no dial do seu carro ou do seu aparelho de som.
A rádio é especializadíssima em jazz e tem mais de 50 canais entre os mais variados e seletos possíveis para o estilo: "latin jazz", "cool jazz", "jazz from the 40's", "cutting edge", "trombone jazz", "pop composers", "women on jazz", e até mesmo um exótico "a great day in harlem", que toca apenas os sons dos artistas presentes na famosa foto de Art Kane de 1958, que reuniu em uma rua do Harlem (bairro da comunidade negra de Nova York) 57 artistas de três gerações do jazz - é a famosa foto que o Tom Hanks levava na latinha misteriosa do filme "O Terminal", lembram?
Não tem que pagar nada pra ouvir a AccuJazz, os anunciantes já pagam. E com uma boa dose de bom senso, os programadores não colocam intervalos comerciais enormes como nas FMs comerciais brasileiras, mas sim apenas um ou outro anúncio a cada 3 ou 4 músicas. E espero que continuem assim, respeitando os ouvidos de quem quer apenas ouvir música, sem usar a chave dos zeros e uns pra trancar esse acervo valioso.
13 julho 2009
Rádio sem tempo para escutar

Vê se encontra um tempo
pra me encontrar sem contratempo
durante algum tempo
José Miguel Wisnik / Jorge Mautner
pra me encontrar sem contratempo
durante algum tempo
José Miguel Wisnik / Jorge Mautner
O rádio FM de hoje é um retrato sonoro da falência da escuta. É feito para ouvir entre tarefas, alimentar-nos de sons afinados com as máquinas políticas, culturais e sociais hegemônicas. O rádio é como o som do nosso "inconsciente maquínico", conceito de Felix Guattari para explicar como a linguagem, o pensamento, o desejo e o self se interpenetram de acordo com sistemas que estão "fora" do indivíduo - o capitalismo, a gramática, a política, a ética.
O cérebro cria a linguagem, ou a linguagem cria o cérebro? O homem obtém seus objetos de desejo e consumo por meio dos negócios da economia capitalista, ou é a economia capitalista quem consome homens e negocia desejos em troca de sua existência infinita? Até que ponto o inconsciente pode ser entendido apenas pelos mecanismos descritos por Freud ou Lacan e não por Nietzsche, John Stuart Mill ou Hollywood?
Guattari nos mostra que a linguagem - por fim, o próprio pensamento e o inconsciente - recorre a signos ou significados que fluem em uma economia de poderes simbólicos, distribuídos na sociedade. Poderes do inconsciente, poderes da mídia, poderes da ciência, poderes da religião, cada um dominando partes da estrutura da linguagem, até que não se saiba mais o que pensa ("o que ou quem em mim pensa?") de forma independente.
O rádio FM é a materialização deste conceito de dominação da linguagem em forma de som. O rádio FM nos mostra um mundo sonoro vibrante, ágil, que tenta esticar sua dimensão linear ao máximo, elevando ao quadrado os volumes, massas, andamentos, fortíssimos, criando a ilusão da rapidez da informação. É som - conceito puro e abrangente -, porém marcado pelos signos do capitalismo pragmático ("time is money", cada segundo é cobrado pelo anunciante), da falsa objetividade jornalística (na voz pura e limpa do disc-jóquei que apresenta as notícias do showbizz com uma velocidade frenética), do consumo voraz (escute hoje o novo sucesso da hit parade que amanhã será esquecido). Sem silêncios.
Se o rádio FM apela para tais artifícios e jamais rompe essa estrutura - disc-jóquei, música, notícia, apresentador, vinheta, anúncio, "as dez mais" e etc -, é porque a palavra rádio que se reproduz no "inconsciente maquínico" de todos nós já se consolidou como tal. O rádio, que sempre teve a função de nos conectar, de nos religar (como a religião, que vem do latim religare) a todos por meio de seus sons, também passou a nos usar. Música? Claro, mas sempre com "um oferecimento de sabonetes Palmolive". Sempre nos dizendo o que está no topo das paradas. Informação? Lógico, pois sempre entre um anúncio e outro, entre a casa e o trabalho, entre o térreo e o décimo andar, dá tempo de ouvir a última fofoca sobre Any Winehouse.
Segundo Janete El Haouli, pesquisadora incasável do rádio, persiste a dúvida se precisamos limpar o rádio ou limpar a escuta. Assim como o inconsciente maquínico se refere ao rádio como uma "grade" de programas de música, anúncios, vozes sem corpo, também entende muito pouco de escuta. Inconscientemente, pensamos a escuta como um sentido menor, subordinado à visão.
O educador e filósofo Rubem Alves propõe oficinas de "escutatória" como medida para resgatar o sentido da escuta, em oposição às oficinas de oratória que ensinam todos apenas a falar.
Liberar a escuta pode liberar o rádio, fazer com que o religare passe a funcionar não apenas dessa maneira opressiva e barulhenta das FM´s, mas que traga novos afetos para a prática de ouvir/produzir rádio. Religare como valorização da reconexão entre os sons e seus territórios (desterritorializar e re-territorializar, como quer Guattari, deslocando sentidos para criar novos conceitos, artes, filosofias). Religare como a infantil brincadeira de “ligar os pontos” entre sons provocativos do rádio, descobrindo aos poucos um grande desenho infinito entre um tracinho e outro, um universo inteiro cabendo entre dois sons. Religare como religião (ou quase), como uma liturgia da escuta, transformando o ato de ouvir em ritual para os ouvidos, recuperando um certo sentido do sagrado que os sons perderam na sociedade pós-industrial. Religare como o reencontro entre o tempo da música, o tempo do poema, o tempo circular do rádio (ou seu tempo eterno), com o tempo do relógio, do cotidiano, como um reajuste de contas entre o tempo do ouvir e o tempo do viver.
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