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16 setembro 2011

A vida anda e a preguiça também




















Este blog não está sendo atualizado por pura preguiça. Preguiça do mundo. Preguiça da internet. Preguiça de fazer login. Preguiça de estar conectado. Preguiça de estar atualizado. Preguiça até de coisa boa, como ouvir novos discos, pesquisar novos lançamentos, redescobrir velhos CDs. Preguiça de me perder nos sons.

Preguiça de informação. Preguiça de fatos inúteis, como saber que Gerard Depardieu urinou no corredor de um avião. Preguiça dos fatos tristes, como lembrar que Joe Morello morreu nesse ano. Preguiça dos fatos que importam na música, como ouvir falar quem é a última nova grande estrela do jazz americano de acordo com a Downbeat (o trumpetista Ambrose Akinmusire foi o escolhido), ou de ouvir o bootleg da apresentação do Trio Corrente com Paquito d'Rivera, ou de ouvir o solo que Seamus Blake fez no disco de um grande guitarrista brasileiro em ascenção, Oliver Pellet.

Preguiça dos livros. Preguiça de ler em "O triunfo da Música" (Companhia das Letras, 2011, 424) que Mozart foi despedido por seu patrão príncipe a pontapés - mostrando que músico sempre foi uma profissãozinha ingrata. Preguiça de discutir essa tal profissãozinha, com suas OMBs, currículos escolares obrigatórios e coletivos alternativos. Preguiça de discutir coisas sérias, como os debates sobre a nova lei de Direitos Autorais, ou de dar opinião sobre a chamada "crise" no MinC - deflagrada por gente que tem interesses mais do que culturais nos "eixos" das rodas artísticas desse País.

Preguiça da televisão, preguiça do rádio, preguiça dos shows - dos que fiz, dos que não fui, dos que tenho que fazer -, preguiça até do meu programa de rádio - que já foi reprisado nas últimas duas terças-feiras por pura preguiça de gravar os roteiros, que já estão prontos desde o mês passado. A preguiça me pegou nos últimos tempos. Me deu preguiça mesmo até de postar aqui um texto decente, ou coisa que o valha.

29 novembro 2009

Caim, o avatar de Saramago



O novo livro de Saramago marca a volta do autor português a um de seus passatempos preferidos - cutucar a religião católica. Após o polêmico romance em que narrava o nascimento, vida e morte de Cristo - "O Evangelho segundo Jesus Cristo", que lhe valeu a excomunhão por parte do Santo Ofício -, "Caim" agora aumenta ainda mais o tom ácido e crítico de suas referências à religião. Talvez o Papa ordene uma nova excomunhão, ou então lhe providencie um passaporte para o inferno.

O livro é uma engraçada sátira do Velho Testamento, conjunto de textos da Bíblia que trata dos fatos religiosos ocorridos nos tempos antes do nascimento de Cristo. Lá estão descritas as grandes guerras, pestes, mortes, pragas, desgraças e episódios bizarros e sangrentos que se deram nesta Terra devido ao atrito entre a resolução divina e o comportamento humano. Um prato cheio para o agnóstico Saramago, que acusa todo tempo as injustiças e barbaridades cometidas pelo próprio Criador.

A história tem jeito de farsa teatral, bem construída em torno das andanças de Caim, o primogênito de Adão e Eva, pelos primórdios da humanidade pré-cristã. Humilhado e ofendido por ter sido preterido em favor do irmão, Caim recebe de Deus uma marca na testa que o protege das ações humanas - espécie de mea culpa divina, em compensação por ter testado a fé do assassino. O protagonista segue errático pelo deserto seco e solitário, mas vaga também avançando e retrocedendo no tempo, e acaba por testemunhar fatos como o quase-sacrifício do filho de Abraão, a queda de Sodoma e Gomorra, a construção da Torre de Babel, a matança dos adoradores do bezerro ordenada por Moisés, entre outros episódios bíblicos catastróficos.

Em todos os capítulos o autor questiona a ética e a moral das ações e ordens divinas, que provocam morte e sofrimento. Fica claro que é o próprio Saramago que se traveste de Caim para "descer o sarrafo" na violência e na arrogância de Deus. Com irreverência e um toque de "filosofia-ao-rés-do-chão", bem sofismático, Caim põe a nu a face diabólica de Deus. Mas perde um precioso tempo fazendo isso.

Talvez por isso o livro não iguale o fôlego e a envergadura que teve o "Evangelho", pois fica tempo demais a questionar e tempo de menos a contar uma boa história que desse razão a Caim. Ao passear por muitas passagens narradas no Antigo Testamento, fica a impressão de que o autor apenas sublinhou na Bíblia as partes que lhe interessava criticar, sem explorar com maior sabedoria as possibilidades narrativas que os episódios possuem. Sobra bom humor, mas sente-se a falta da humanidade rústica, da delicadeza bruta, da sinceridade onírica que fizeram do "Evangelho" uma das mais belas histórias que já se contou, incluindo a própria Bíblia.

07 abril 2009

Memórias musicais




Eu busco incessantemente saber porque gosto de jazz. É algo inusitado, pois uns 90% dos meus amigos não-músicos em torno dos trinta anos apenas conhecem "de longe" o estilo, ou o toleram, ou não dão a mínima. Não consigo me lembrar um motivo específico que me tenha tornado um amante de uma música tão peculiar.

Umberto Eco, em "A misteriosa chama da rainha Loana", cria um personagem que perde a memória após um acidente e precisa reconstruir sua história pessoal por meio de diários, livros, discos, fotos, revistas e anúncios antigos, guardados na casa de seus pais no interior da Itália. Tudo o que ele guarda no cérebro são informações objetivas como datas, nomes, trechos de poesias, mapas, mas sem conseguir relacioná-los a nenhum acontecimento afetivo - ele sabe, por exemplo, o nome de sua filha, mas não sabe porque lhe deu um apelido. Lembra do rosto de sua esposa, mas não sabe se fazia sexo com ela. Seus netos o chamam de "vovozinho", e ele só se sente aparentado porque sabe que são filhos de sua filha.

Na busca por informações do passado, velhas fotos de revista apenas provocam mais perguntas: reconhece a imagem de Flash Gordon em velhos gibis de aventuras, mas não lembra porque colecionava as revistas. Será que o herói o encantava porque tinha uma namorada bonita, ou porque empunhava um revólver e era violento? O que sentiu quando o olhar de Bette Davis no cartaz de "A malvada" o olhou fixamente envolto na lânguida fumaça de sua piteira? Tesão? Medo? Os signos diziam (e dizem) tudo, armadilhas que escondem inúmeros significados, mas qual significado fazia realmente sentido para o desconectado personagem?

Imerso em um mar de informações desconexas, só resta ao desmemoriado perseguir a origem de suas lembranças, indo buscar na casa onde passou a infância rastros de sua personalidade, de sua formação, de seu lugar no mundo.

Que eu me lembre, a música entrou na minha vida via toca-discos de vinil do meu pai, que tinhas umas bolachas do Roberto Carlos (lembro de uma capa em que ele tinha uma pena em cima da orelha... ou isso acontecia em todas as capas?!...), outras da Beth Carvalho, da Clara Nunes, umas trilhas sonoras de novelas, e um monte de discos da Turma do Balão Mágico. Quando tinha 7 anos, o toca-discos quebrou e fiquei um tempão sem me interessar por música.

Quando consertaram a radiola, eu já tinha uns 9 anos e começava a ouvir música instrumental, que vinha com os vinis de orquestras como Românticos de Cuba e cassetes de Billy Vaughn. Arranjos majestosos, alguns melosos, outros elegantes de tão simples e funcionais. Eu lembro de adorar as dinâmicas, cordas se revezando com o piano, breaks de bongos e congas, solos de trumpete. Depois vieram os discos de Ray Conniff, que fui comprando às baciadas. Me apaixonei pelos suingados temas da Broadway, pelos boleros universais, pelos classicões de Tchaikovsky arranjados à moda "that 70's show"... ah, as melodias, que paixão. Eu era um melômano.

Richard Clayderman era então um ícone do piano, aquele grande instrumento branco tendo as escalas escandidas em todas as oitavas nos arranjos do produtor e compositor Paul de Seneville (quem não lembra de Ballade pour Adeline? Até hoje me pedem pra tocar essa música nos restaurantes da vida...). Então caiu na minha mão o CD "Live", do Kenny G. Pronto, estava entrando no terreno perigoso do improviso. Entre lamuriosos solos de sax (os de soprano hoje me soam terríveis...), apareciam pra mim pela primeira vez os chorus de solo de bateria, de percussão, de baixo (com os slaps intermináveis de Nathan East), de teclado, e eu encantado com a possibilidade de fazer música daquele jeito. Como eles conseguiam?

Pelos discos, a música ia me mostrando um universo de possibilidades. Enquanto isso, aos doze já participava de rodinhas de violão com meu pai e amigos - o pandeiro de Ditinho dava o ritmo para os violonistas que se revezavam, e eu e já sentia o prazer de fazer a música em grupo só de pegar uma caixinha de fósforos pra acompanhar. Minhas primeiras jam sessions.

Lembro da noite em que minha performance no tique-tique-tique da caixinha foi tão boa que me deixaram tocar um par de bongôs desafinados no lugar de um dos bêbados que esfacelava o andamento. Fiquei com a mão inchada de tanto estapear os danados. Naquele momento não me lembro se queria ser Paulinho da Costa ou apenas tocar tão bem quanto Ditinho, mas os elogios no fim da noite me arrebataram. Até esqueci a dor nos dedos. Acho que até hoje esqueço. E só lembro de que fui me construindo na música enquanto ouvia e tocava.


12 março 2009

Jazz life




Acabei de ler "Improvisando Soluções" (Ed. Best Seller, 2008), do jornalista especializado em jazz Roberto Mugiatti. O livro conta a história pessoal de grandes músicos do estilo, mostrando como superaram dificuldades e desenvolveram ferramentas - seja no jeito de tocar, seja no modo de vender o peixe - para sobreviver e fazer sucesso no jazz. Uma espécie de "faça como eles fizeram", auto-ajuda que vem bem a calhar para um músico como eu, que acabou de deixar um emprego fixo no jornalismo para ganhar o pão na selva musical.
Ter a capacidade de transformar o "limão numa limonada" - ou de arpejar sobre os acordes revolucionários de "Giant Steps" (John Coltrane) em uma sessão de gravação sem nunca ter lido a partitura antes - é a grande lição do livro. Eis alguns fatos interessantes:

- John Coltrane estudava horas e horas todos os dias seu sax tenor, irremediavelmente descontente com seu som. Mesmo quando tocava ao lado de gigantes como Miles Davis. Até que no fim da vida descobriu o sax soprano e fez música até com um instrumento feito de plástico, dizendo que podia "tirar som até de um cadarço se fosse sincero". Gênio, mas também um batalhador incansável.

- Lester Young era escurraçado de grupos instrumentais porque achavam que seu som de sax era "mole", "sem vigor", "afeminado" até. Pois ele se eternizou nas gravações com Billie Holliday, onde seu sax sofisticado, sopro "cool" e bem colocado estabeleceu um novo tipo de sonoridade, que se tornou própria do jazz até os dias de hoje.

- Thelonious Monk tem exatas 71 composições. E em seus shows interpretava sempre os mesmos standards, pinçados de um escopo de pouco mais de 40 canções. Não conseguia ser um pianista comercial. E hoje todos os pianistas comerciais se interessam pelos voicings de seus acordes angulosos, indispensáveis para quem quer soar com um mínimo de ginga jazzística;

- Parece mentira, mas João Gilberto cantava num conjunto vocal nos anos 50, com direito a vozeirão e gravata borboleta. Até que encasquetou com a música que fazia no violão, tentando fazer um som que ninguém tirava na época. Passou dois anos sem trabalho, morando de favor na casa de amigos e parentes, até que foi internado num hospício no interior de Minas Gerais pra ver se tomava jeito na vida. Só depois, de volta ao Rio de Janeiro, é que perceberam que o som que ele procurava no violão era a revolucionária batidada da Bossa Nova, técnica de tocar que mudou a história da música mundial.

Tirar do jazz lições para a vida. O jazz, com seu jeito de brincar com os sons, explorar silêncios, criar ou derrubar expectativas, comunicar-se com outros músicos e ouvintes, é simplesmente um jeito de encarar a música. O que significa que a vida pode ser tão criativa e rica como uma jam session se for levada com mais leveza.