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27 janeiro 2012
O jazz e a competição musical
Um aspecto importante da sociedade norteamericana é a competitividade, na qual homens e mulheres têm que provar que conquistarão o mundo com seu trabalho duro, talento e dedicação, e honrarão a "terra dos bravos e da liberdade" mostrando que são os melhores em suas áreas. Há os winners e os losers. Vencer é a meta. Todos escolhem seu alvo, cada um em sua área, e saem todos em busca do objetivo. A criança é colocada na melhor escola, para que possa ter as melhores notas no SAT (exame igual ao Enem) e poder entrar na melhor faculdade, que os pais terão de pagar com economias que fizeram a vida toda pensando na educação do filho - afinal, é assim que se cria vencedores.
No processo educacional, mais competição. Competem para ver quem será a rainha do baile, quem será o presidente do grêmio estudantil, quem é o mais popular, quem soletra melhor, quem vende mais chocolates na gincana. As escolas competem para definir quem tem o melhor time (de vários esportes), quem tem a melhor equipe de cheerleaders, quem tem a melhor banda. Sim, há educação musical nas escolas, que eventualmente formam bandas, que sempre competem. Competição musical.
O filme "Drumline" (EUA, 2002, Charles Stone III), ao qual assisti dia desses numa sessão da tarde (sim, janeiro é meio parado para a música então, que diabos!, assisti mesmo), mostra bem esse clima de disputa que há na música no meio escolar. Traz cenas incríveis como essa abaixo, onde as bandas de duas faculdades se desafiam num duelo de baquetas. As coreografias e a sincronicidade são incríveis, mas há músicos que dizem que, na vida real, essas bandas fazem coisas ainda mais impressionantes do que o filme mostrou. Mas vale a pena conferir:
Nos EUA, os músicos do jazz passam por esse processo tentando ingressar em boas escolas, fazendo provas para ganhar bolsas de estudo em instituições como New England Conservatory, Berklee, Julliard. Estudam para ganhar concursos de saxofone, piano, guitarra, violino, performance, etc. Portanto, jazzistas - em sua maior parte - são resultado da soma de talento, um ambiente positivamente carregado de música, e competitivade.
Juntando talento nato e muito, muito trabalho duro, o estudante de música têm ao seu dispor inúmeras escolas, bandas e cursos de verão para aprimorar seu talento. Oportunidades disponíveis, concorrência dura, esperando a livre-iniciativa dos candidatos ao sucesso: é a própria essência do capitalismo industrial, a mão invisível do mercado exercendo a seleção "natural" e separando os bons dos muito bons, onde vencem os dedicados - típicos "self-made man" da música, que constroem suas carreiras artísticas à custa de muito sacrifício e trabalho.
Após enfrentar anos de estudos, inúmeros testes, provas e audições, horas e horas de prática, ensaio e preparação, o jazzista está pronto. Ironicamente, uma das artes mais livres e espontâneas depende de uma disciplina estrita e compromissos sérios com grades curriculares e notas. Para os jazzistas, principalmente os que surgiram desde os anos 80, quando explodiu o número de escolas de jazz e performance nos EUA, estar no palco de um jazzclub é, em grande parte, receber os louros pela vitória que conquistaram antes de estar ali.
03 junho 2011
A música e a desnecessidade do homem
Há todo um conjunto de coisas, atos, fatos, afetos e percepções que nos levam a acreditar que, no mundo de agora, acabaram-se as grandes narrativas. Dizem que tudo se funde em pequenas conectividades banais. Lemos na internet uma notícia sobre um tsunami de proporções catastróficas, ao mesmo tempo acompanhamos o twitter do Ashton Kutcher dizendo alguma bobagem sobre o mesmo assunto, ao mesmo tempo em que um vídeo supercomentado na internet também vira pauta pro telejornal, que fecha o dia com o resumo da tragédia ou o comentário sobre a mais "nova banda na internet". Pronto, página virada, esperamos amanhã para flanar pela web mais uma vez, flutuando sobre os acontecimentos mais comezinhos e os mais aterradores enquanto aguardamos que alguém faça um comentário no tópico que abrimos no Facebook.
Alguns dizem que isso se chama comunicação na era pós-moderna. E há ainda alguns que dizem que, por trás de milhares narrativas despretensiosas e sem-graça como essa, a grande narrativa que resta é a que descreve a desnecessidade do homem. Não frente à natureza, mas frente a seu próprio desejo. De tanto desejar expandir-se, ultrapassou-se. O homem descreveu, criou, modificou, intensificou, reordenou, atualizou tantas coisas que, em meio delas, tornou-se obsoleto.
Sendo assim, o mote agora é: o que não tem utilidade é descartável. A jovem britânica que se matou por não conseguir emprego percebeu (e não suportou) sua obsolescência em um mundo onde as pessoas devem ter um apelo comercial semelhante ao de um produto - prático, rápido, agradável e, de preferência, barato. O fato (que querem nos fazer acreditar) é que o homem se tornou obsoleto. Fazer música pra quê, então?
A escuta musical, fonte do prazer da música, segue a mesma tendência decadente. A música do século XX, radicalmente diferente das músicas anteriores, nos mostrou que não interessa o que se faz na partitura, no palco, nos instrumentos: a música acontece no ouvido de quem escuta (acho que quem disse isso foi o Pierre Mariétan). Todo o jogo estrutural, de silêncios, contrapontos, harmonias ou ruídos presente numa composição só se realiza um único momento: quando está na cabeça do compositor e viaja até a cabeça do ouvinte. Fora isso, só há "teatro" musical, que nos ajuda a absorver a música por outros buracos do corpo, como a pele e os olhos, mas não é o essencial.
Acho que naquele livrinho simples e interessante "O que é música?", daquela coleçãozinha "Primeiros Passos", o pianista Jota Moraes fala sobre os três jeitos de ouvir - ouvir com o corpo, ouvir com o coração, ouvir com o cérebro - e como essas três escutas se integram no sujeito (por via da educação musical, talvez). Talvez hoje, na teia complexa de relações entre mídias e sujeitos, onde a informação musical praticamente invade nossos corpos por vários meios disponíveis, esses três "ouvires" tenham se convertido numa coisa só, plana e desintegrada, focada seletivamente apenas na utilidade da música e em sua identificação com um gosto musical acanhado ou subdesenvolvido. "Essa é pra dançar, então eu gosto", dirão alguns. "Essa outra é pra cantar junto e chorar, então acho bonito", talvez, ou ainda, "essa é pra pensar", portanto "não gosto muito".
Na música popular, a percepção musical foi sendo paulatinamente desviada para o "teatro" da música. Porque todo o prazer da escuta - de desvendar conexões entre sons, compreender conceitos por trás das redes de sons das composições e permitir uma imersão completa na música -, foi sendo acompanhado e, aos poucos, substituído pelo refrão fácil, pelo megashow, pelo videoclipe (primeiro na MTV, agora é direto no youtube, como é o caso da tal Banda Mais Bonita da Cidade e sua música de seis minutos de um refrão só). Tudo o que foi criado para reforçar a experiência musical acabou ultrapassando-a. Portanto, escutar hoje já não basta - tem que ver, sentir, interagir. O homem, para ver-se reconhecido na arte, precisa ser parte da obra, e não mais um ouvinte ou espectador.
Ver, ver de novo, fazer download, cantar junto. A música se realiza no ter ("baixei" no iPod), no twittar ("linkei" o vídeo), e no seu gesto corporal, no dançar, no "tira o pé do chão". Voltamos aos primórdios, quando só havia o homem, sua voz e seu tronco de árvore, fazendo sons pra outros homens com seus troncos e vozes - nenhuma linguagem envolvida, nenhuma arte, nada a dizer, só criar movimento.
Talvez essa nova postura frente à arte seja a forma de reagir à presença quase agressiva da tecnologia, como se as "extensões" do homem (como descreveu brilhantemente McLuhan as novas tecnologias comunicacionais) tivessem se tornardo tentáculos com vontade própria. Talvez essa nova escuta seja uma reação para tentar afirmar a função ritualística e social que a música tinha na era das cavernas e ainda tem nas tradições musicais folclóricas. Talvez seja apenas uma simples fuga e busca de consolo em uma arte fácil, descompromissada, despojada, pronta também para consumo, como um capuccino quentinho numa noite fria ou um tarja preta "light" pra permitir o sono.
Seja o que for, é sinal de que a tecnologia produziu um efeito contrário à promessa que nos havia feito. Em vez de nos levar ao crescimento e desenvolvimento como humanidade, nos encaminhou à barbárie, à vida compartimentada, corrida e sem graça que busca o mero utilitarismo imediatista para satisfazer suas demandas de prazer, até mesmo quando se fala em arte. Para esquecer a dor, rave. Para enganar a dor, sertanejo. Para pular, axé. Pra cantar junto, pagode. Pra seduzir, funk. Pra ajudar a pensar, estudar ou malhar, iPod. Música igual remédio. Tudo o que se construiu na arte musical nos últimos dez séculos foi jogado no lixo em nome de quê?
Se não há mais grandes narrativas, jogue-se fora toda a música nova, música de invenção, música improvisada, jazz, vanguardas estéticas, barroco, neoclassicismo, e todas as outras linguagens, estéticas ou gêneros musicais que ativam a "escuta com o cérebro", e passemos a consumir somente a música de agora, entregue via internet acompanhada de videoclipes caseiros e refrões desafinados. A teoria da não-existência das grandes narrativas - e da narrativa que diz que o homem é obsoleto - só serve para justificar esse estado pobre e caótico de coisas, onde o homem é apenas mais um objeto que interage com outros objetos esperando alguma retribuição, carinho ou consolo.
Começou a guerra entre o homem dito "obsoleto" e o pós-humano. Solução (utopia)? Ainda acho o homem necessário. Talvez só tenhamos que descobrir como usar as tecnologias para promover o humanismo, e não usar o homem para promover a tecnologia.
31 março 2011
O lugar da arte (1)
Espaço: uma delimitação de área que pode conter algo ou não. Espaços culturais surgiram como alternativas à falta de prédios especializados para a promoção de atividades culturais. Faltavam teatros para a música - também para a dança e para o próprio teatro -, faltavam salas de cinema, faltavam galerias e museus para as artes visuais. O que fazer?
Criaram-se então dezenas de salas, galpões, barracões, porões, mezaninos, sótãos, estações de trem, caixas d´água, túneis, entre outras arquiteturas públicas várias, para se abrigar shows, obras e performances. Com baixo investimento, inteligência e boas intenções, o Poder Público "salvou" as artes de ficar debaixo de chuva, sem platéia, no escuro. Qual a verdadeira política cultural aqui? Gastar pouco e iludir o contribuinte de que as míseras esmolas do orçamento destinadas à cultura estão sendo utilizadas na "democratização" da arte e diversificação dos "equipamentos culturais" do patrimônio da cidade. Investir em educação artística, construção de teatros, auditórios, cinemas - de verdade, não de lona - dignos para uso de toda a população, disso nem se fala.
Os governos passaram a oferecer arte ao público em suas repartições públicas mofadas e prédios sem a mínima adequação. Como um desdobramento desse pensamento, diversos espaços privados também passaram a adaptar suas dependências para as artes. Restaurantes com "foyer", bares com intervenções teatrais, clínicas médicas com galerias, supermercados e até padarias com palcos para músicos. Sob a chancela do marketing cultural ("eu promovo a arte, portanto sou um bom empresário"), uma miríade de artistas novos à disposição, loucos por uma oportunidade de mostrar seus trabalhos, não deixaram faltar pinturas, esculturas, grupos teatrais e músicos de primeira viagem a encher esses espaços.
O empresário esperto passou a ter facilmente a sua disposição uma nova "mais-valia cultural", espécie de diferencial competitivo com verniz de mecenato - a virtuosa boa intenção de acolher e apoiar as artes. Também surgiram pessoas, ligadas às artes de alguma maneira (nem sempre de forma profissional), se oferecendo como "curadores culturais freelancer", que organizam os tais eventos artísticos nesses novos espaços.
Em uma primeira análise, tendemos a ver como positivas essas transformações na forma como se oferece a arte - "democratização" do acesso à cultura. Mas, pensando melhor, será que essa verdadeira "pulverização" da cultura por todos os lugares não parece fazer com que a arte fique igual a qualquer banalidade que nos apareça no cotidiano? Lembram os banners de propaganda piscando na tela do computador enquanto navegamos na internet, os anúncios barulhentos que irrompem na programação televisiva, jingles tocados a máxima velocidade no rádio. Tudo misturado, tudo a mesma coisa (qualquer relação com a tese do desencantamento da arte de Walter Benjamin é mera coincidência...).
À parte obras de arte que são pensadas para se intrometer mesmo no dia a dia e causar algum espanto no incauto cidadão que flana pela cidade no piloto automático, não há mais lugar para apreciação ou fruição estética. Nem mesmo há o prazer do artista na elaboração de suas obras em casos assim. Tudo é entretenimento, apenas. Vá ao dentista e arranque um dente ouvindo um violinista tocando ao vivo. A espera no consultório médico é longa e humilhante, mas você está cercado de agradáveis quadros e esculturas de algum novo grande artista anônimo. Logo cedo tome um café na padaria enquanto piano e gaita tocam um blues como se a noite ainda não houvesse acabado. Um poeta intervém e declama um decassílabo que você já ouviu ontem na entrada do cinema. Faça as compras no supermercado ouvindo algum tecladista desfiar os últimos sucessos sertanejos que você já ouviu por osmose de alguma rádio que tocava em algum alto-falante em frente a alguma loja em alguma rua do centro da cidade.
Não há mais lugar para a arte. Lugar físico e mental para a arte. Como artistas, somos todos malabares desesperados tentando ganhar nosso mirrado cachê em sinais de trânsito. Como respeitável público, estamos todo no circo. E aos artistas que perceberam todo esse estado de coisas - artistas não reconhecidos e marginais, diante de um público atônito e maltrapilho - o poder público oferece a opressão como forma de evitar que a classe artística se aproprie de outros lugares que não aqueles designados pelos caciques da cultura.
Teatro Municipal sendo convertido em salão de baile de formatura? Pode, com alvará e tudo, carimbado e assinado em três vias pelos burocratas das secretarias afins. Porão de prédio sendo utilizado para uma infinidade de eventos culturais - a maioria com lotação esgotada - por coletivos de marginais (ops, de artistas) sem espaços disponíveis para mostrar sua arte? Não, não pode. E o resto da história virá no próximo post...
18 abril 2010
CATcerto, ou o retorno da orquestra
Esses caras malucos por gatos sempre postam videos de seus bichinhos fazendo arte. A gata Nora faz sucesso há alguns anos na web por seu vídeo no Youtube, onde toca piano (mal e porcamente, diga-se de passagem).
O compositor e maestro lituano Mindaugas Piečaitis criou em 2009 um concerto para orquestra de câmara no qual a tal gata pianista é a solista. A singela peça, chamada "Catcerto", dura cerca de cinco minutos e lembra composições de Stravinsky, de uma beleza poética, delicada e de sonoridade exótica.
A peça estreou com sucesso no ano passado e foi notícia em redes internacionais de televisão - BBC de Londres e First Baltic Channel, da Rússia. E logicamente é um vídeo muito popular no Youtube. E é esse justamente o aspecto que nos faz pensar: orquestras sendo sucesso?
Talvez na Europa ainda haja um certo fulgor, uma certa mobilização de ânimos em conversas, ao se falar em certas orquestras, maestros ou músicos eruditos: A Filarmônica de Berlim, o inglês maestro-revelação dos anos 90, Simon Rattlle, ou a violonista-prodígio alemã dos anos 80 Anne-Sophie Mutter. Provavelmente fora desse contexto - como no Brasil -, falar em orquestra é o mesmo que falar em museu ou conversar sobre latim - assuntos jurássicos.
Para que uma orquestra (e sua música) voltasse a ser o assunto do dia, o maestro teve uma idéia genial - um novo solista "fenômeno", uma nova celebridade, uma nova diva. E compôs para ela uma música especial, perfeita para destacar seus dotes artísticos e sensibilidade interpretativa fora do comum para a espécie: um gato. Um gato concertista.
Sim, um gato nos fez novamente ouvir as possibilidades sonoras de uma orquestra, nos causando impacto emocional com sua interpretação elegante, melodia cristalina e postura de total entrega à música, deitando-se sobre o teclado nos momentos mais pungentes da canção, embalados sobre os fluxos telúricos das cordas e sopros. Nos trechos de maior tensão, notas repetidamente tocadas sobre acordes dominantes, como se o pianista sentisse que é a hora certa de aumentar a dose de suspense e intensidade das dissonâncias propostas pelo compositor.
Um gênio. Um virtuose, nos dando um show de poesia e lirismo, nos trazendo de volta o sentimento perdido (ou roubado) de satisfação ao ouvir o espírito humano a interagir, modificar, transcender, transparecer através de melodias, harmonias, instrumentação. Satisfação ao se sentir participante da linguagem musical.
Quando a música de orquestra parou de nos encantar? Quando perdemos a vontade de tentar ouvir o que se passa naquele palco cheio de músicos e um doido balançando os braços na frente? As respostas fáceis logo aparecem, e sempre repetidas: televisão demais, trabalho demais, escola de menos, imposição do lixo pela mídia, música erudita cada vez mais hermética e chata, etc.
Todos esses motivos são, na verdade, sintomas de um único mal: a diluição do conceito de escuta desde o século XIX até os dias de hoje. A escuta é bombardeada constantemente por uma série de sons oriundos do sistema de coisas que inventamos para nos sustentar como seres humanos: fábricas, carros, sirenes, tiros, bombas, zumbidos, chiados, dessensibilizando o ouvido para os silêncios de outros contextos. Na escola, o professor grita para atingir os alunos. Em casa, gritamos para superar o barulho da TV. Na fila do banco, aprendemos a direcionar nossos ouvidos para o som da campainha que indica que temos a próxima senha. Nos restaurantes, a mesma prática defuntória, de aguardar mansamente o apito enquanto nosso prato ainda não ficou pronto, e qualquer tentativa de apreciar uma conversa atrapalha a iminente hora de encher a barriga.
Dezenas de outras situações assim nos mostram, inegavelmente, que nossos ouvidos se tornaram, assim como pinças, chaves de fenda, alicates, meras ferramentas de sobrevivência. Meros apetrechos que, ainda por cima, não estão a nossa disposição, mas sim prontos a responder a estímulos mecânicos produzidos por um sistema, uma sociedade, uma complexidade. Ouvidos assim não sabem mais a diferença entre o som de um oboé e de uma chaminé de fábrica. Ouvidos assim não sentem necessidade de orquestras, pois se contentam em reconhecer o toque do celular, a buzina apressada, a campainha burocrática da fila do açougue...
O compositor e maestro lituano Mindaugas Piečaitis criou em 2009 um concerto para orquestra de câmara no qual a tal gata pianista é a solista. A singela peça, chamada "Catcerto", dura cerca de cinco minutos e lembra composições de Stravinsky, de uma beleza poética, delicada e de sonoridade exótica.
A peça estreou com sucesso no ano passado e foi notícia em redes internacionais de televisão - BBC de Londres e First Baltic Channel, da Rússia. E logicamente é um vídeo muito popular no Youtube. E é esse justamente o aspecto que nos faz pensar: orquestras sendo sucesso?
Talvez na Europa ainda haja um certo fulgor, uma certa mobilização de ânimos em conversas, ao se falar em certas orquestras, maestros ou músicos eruditos: A Filarmônica de Berlim, o inglês maestro-revelação dos anos 90, Simon Rattlle, ou a violonista-prodígio alemã dos anos 80 Anne-Sophie Mutter. Provavelmente fora desse contexto - como no Brasil -, falar em orquestra é o mesmo que falar em museu ou conversar sobre latim - assuntos jurássicos.
Para que uma orquestra (e sua música) voltasse a ser o assunto do dia, o maestro teve uma idéia genial - um novo solista "fenômeno", uma nova celebridade, uma nova diva. E compôs para ela uma música especial, perfeita para destacar seus dotes artísticos e sensibilidade interpretativa fora do comum para a espécie: um gato. Um gato concertista.
Sim, um gato nos fez novamente ouvir as possibilidades sonoras de uma orquestra, nos causando impacto emocional com sua interpretação elegante, melodia cristalina e postura de total entrega à música, deitando-se sobre o teclado nos momentos mais pungentes da canção, embalados sobre os fluxos telúricos das cordas e sopros. Nos trechos de maior tensão, notas repetidamente tocadas sobre acordes dominantes, como se o pianista sentisse que é a hora certa de aumentar a dose de suspense e intensidade das dissonâncias propostas pelo compositor.
Um gênio. Um virtuose, nos dando um show de poesia e lirismo, nos trazendo de volta o sentimento perdido (ou roubado) de satisfação ao ouvir o espírito humano a interagir, modificar, transcender, transparecer através de melodias, harmonias, instrumentação. Satisfação ao se sentir participante da linguagem musical.
Quando a música de orquestra parou de nos encantar? Quando perdemos a vontade de tentar ouvir o que se passa naquele palco cheio de músicos e um doido balançando os braços na frente? As respostas fáceis logo aparecem, e sempre repetidas: televisão demais, trabalho demais, escola de menos, imposição do lixo pela mídia, música erudita cada vez mais hermética e chata, etc.
Todos esses motivos são, na verdade, sintomas de um único mal: a diluição do conceito de escuta desde o século XIX até os dias de hoje. A escuta é bombardeada constantemente por uma série de sons oriundos do sistema de coisas que inventamos para nos sustentar como seres humanos: fábricas, carros, sirenes, tiros, bombas, zumbidos, chiados, dessensibilizando o ouvido para os silêncios de outros contextos. Na escola, o professor grita para atingir os alunos. Em casa, gritamos para superar o barulho da TV. Na fila do banco, aprendemos a direcionar nossos ouvidos para o som da campainha que indica que temos a próxima senha. Nos restaurantes, a mesma prática defuntória, de aguardar mansamente o apito enquanto nosso prato ainda não ficou pronto, e qualquer tentativa de apreciar uma conversa atrapalha a iminente hora de encher a barriga.
Dezenas de outras situações assim nos mostram, inegavelmente, que nossos ouvidos se tornaram, assim como pinças, chaves de fenda, alicates, meras ferramentas de sobrevivência. Meros apetrechos que, ainda por cima, não estão a nossa disposição, mas sim prontos a responder a estímulos mecânicos produzidos por um sistema, uma sociedade, uma complexidade. Ouvidos assim não sabem mais a diferença entre o som de um oboé e de uma chaminé de fábrica. Ouvidos assim não sentem necessidade de orquestras, pois se contentam em reconhecer o toque do celular, a buzina apressada, a campainha burocrática da fila do açougue...
22 março 2010
A crítica
Adorno
É muito difícil fazer críticas. A disposição para criticar não deve ser confundida com vontade de destruir. A crítica deveria estender a possibilidade de pensamento sobre o objeto criticado, e não aniquilá-lo. O assunto veio à tona após ler uma coluna do Zé Geraldo Couto na Folha sobre "como destruir um filme" - obviamente tratando da crítica de cinema.
No campo musical, isso me lembra a postura ranzinza do filósofo alemão Theodor Adorno quanto ao jazz americano dos anos 40, considerado por ele um lixo comercial que intoxicava o gosto musical dos ouvintes, infantilizando-os e, por fim, alienando-os da situação de exploração capitalista em que se encontravam. Sua crítica era contra o sistema, mas ele conseguiu encontrar na música argumentos para sustentar as teses sobre a dominação imposta pela Indústria Cultural, mostrados principalmente no texto "Filosofia da Nova Música".
O resultado, para ele, é que tanto músicos como público estavam irremediavelmente isolados um do outro: os compositores, devido à adesão extrema aos métodos vanguardistas seriais e atonais de composição; o público, devido à destruição da esctua pela massificação da música comercial por discos, rádios, filmes e televisões, levando à incompreensão de novas estruturas musicais que pudessem romper o ciclo de dominação cultural. Adorno não queria levar em conta que o ser humano ouve música com o corpo e com a emoção além do cérebro. Adorno não queria se permitir conceder ao jazz comercial dos anos 40 o status de "boa diversão", e espinafrava o clarinete melodioso e suingante de Benny Goodman (um dos maiores gênios do instrumento que já pisou neste planeta).
Adorno preferia analisar o fenômeno como uma consequencia do avanço do sistema capitalista sobre a cultura - o que não está totalmente errado. O erro é voltar-se contra o artista, contra a música, contra a expressão - destruindo o objeto para comprovar a tese.
Ao comparar a escuta de um concerto num teatro com a escuta de um disco 78 rpm na sala de jantar, Adorno frisava que a "compreensão" e "fruição" da música como conhecíamos fora modificada. Ele não soube separar a facilidade tecnológica - que é consequencia do próprio espírito empreendedor humano - da complexificação das relações entre informação-cultura-capitalismo, que "colocou preço" na música e na forma como adquirimos contato com ela. Seu materialismo dialético não permite que ele reconheça o status democratizador dos novos suportes musicais. Ele não percebe que o poder de dominação não se exerce pela presença ou não desses objetos, mas sim pelo estímulo exacerbado do consumo dos mesmos.
A música de Benny Goodman, definitivamente, não é a culpada pela infantilização da escuta, e sim a sua superexploração comercial. Foi música da moda sim, mas isso jamais ofuscou a grandeza do toque genial de Goodman (e de vários outros artistas do gêneno à época). O estímulo ao modismo sim, é a grande chave da questão - e aí suas análises da "Indústria Cultural" vêm a calhar, quando descrevem a onipresença do entretenimento nos momentos de lazer dos trabalhadores.
"Onipresença", aliás, é o status de certas canções em todas as mídias - fenômeno comum e, hoje, mais forte do que nunca, devido à miríade de conexões entre suportes tecnológicos, meios de comunicação de massa e internet - que verdadeiramente promove o nivelamento "por baixo" das condições de fruição estética. Portanto, caberia muito mais a crítica ao consumo - e às várias formas espúrias de apreciação musical como os histéricos fã-clubes, os diletantes colecionadores de discos, revistas, fotos de artistas, o culto à fama - do que ao artista em si, pois "esconder-se" na composição de vanguarda ou participar do mercado da música comercial (com dignidade, obviamente) não são mais do que estratégias que o artista tem para expressar sua verdade. Batalhar contra o sistema não é criticar a música, e sim mudar a escuta.
28 setembro 2009
Quanto custa o silêncio?

Há algumas décadas atrás, ao viajar de ônibus e avião, você era obrigatoriamente fumante passivo, pois a prática era permitida naqueles ambientes. Hoje, você não traga mais a fumaça dos outros nas viagens, mas pode se tornar um “ouvinte passivo”.
Os mp3 players e celulares com música são praticamente itens obrigatórios de viagem de boa parte dos viajantes. Contando agora, no ônibus a caminho pra São Paulo, tem 28 passageiros, e uns 9 estão usando fones de ouvido – cerca de um terço.
No banco do outro lado do corredor alguém escuta uma canção pop. Em um outro banco mais atrás, é uma música sertaneja. Eu não devia saber o que eles estão ouvindo, mas provavelmente eles têm fones de ouvidos ruins e não sabem onde está o botão de volume dos aparelhos, pois estão fortíssimos.
O chiado produzido produz uma espécie de “música incidental” na minha cena de passageiro em trânsito. Em geral isso teria me deixado um pouco irritado, pois seria obrigado a tentar ignorar o sonzinho pra tentar descansar um pouco nas quatro horas de trecho que me restam. Mas hoje tenho o notebook e também apelo para um fone de ouvido para ouvir um blues e escrever esse texto.
Mas se não tivesse o fone, o que poderia fazer? Será que algo ou alguém poderia me proteger do som do outro - som que esse outro não percebe que está extrapolando o seu espaço auricular e invadindo o meu?
Infelizmente o silêncio é um item de luxo. Mais luxuoso que qualquer caneta MontBlanc, ipod de ouro, carro Bentley, charutos Monte Cristo ou outra superfluidade dessas pelas quais se pagam pequenas fortunas por aí. Silêncio, meu amigo, é pra quem sabe apreciá-lo, e isso é raro. Mais raro que diamantes cor-de-rosa, que trufas negras, que caviar Beluga, que... enfim, o silêncio quase não existe mais, e é caro porque é um território que não está disponível para a “grilagem” da indústria do entretenimento, que invade os terrenos particulares dos indivíduos e oferece um baixo preço pelo tempo de uso da “terra”, ou seja, pelos pobres ouvidos de cada um.
Façam a conta de quanto custa à indústria do entretenimento o “aluguel” dos seus ouvidos pelo tempo de uma canção. Teoricamente, pra realizar essa operação de dominação ela necessita:
- de um canal: um celular, um mp3 player, um pen-drive, ou mídias como TV, rádio, internet.
- de conteúdo: ela deve oferecer uma extensa e variada (nem tanto) programação musical, e isso inclui descobrir, treinar (nem tanto), produzir, gravar e distribuir o artista (alguns não chegam a esse patamar, ficam mesmo na categoria entertainers);
- de suporte: ela deve ainda investir em pesquisas para tornar as tecnologias sonoras mais eficazes na “sedução” sonora – suportes mais atrativos, como CD, DVD,Blu-ray, mp3, mp4 surgem a todo momento para atender a essa necessidade.
Somando tudo isso, quando custaria? Não sei, mas um dado que dá uma pista é que, mesmo com a queda no faturamento das indústrias fonográficas (que fabricam discos), elas ganharam US$ 18,4 bi em 2008. No comércio de música digital, ganharam US$ 3,78 bi. Somando tudo, faturaram cerca de 22 bilhões de dólares. Imaginando que tiveram lucro, significa que toda essa parafernália promocional custa menos de 20 bilhões de dólares.
Divida isso por por 1 bilhão, que é o número de pessoas no mundo que efetivamente tem poder econômico para “bancar” esse lazer musical e que consiste em “público-alvo” dessa indústria. Dá mais ou menos uns 20 dólares por pessoa - valor gasto pela indústria para fazer com que cada indivíduo mantenha viva essa máquina de fabricar sons.
Vinte dólares pra fazer a moça do meu lado ouvir uma gororoba musical a um volume estressantemente alto em seu celular cor-de-rosa. É muito barato. E olha que essa pessoa fez umas outras cinco em torno dela forçosamente ouvir junto o mesmo som – um tipo de alcance “inadvertido” que a mídia possui, e que é previsto pelos projetistas da indústria, pois garante maior rendimento à canção, expondo o maior número possível de ouvintes ao produto. Portanto, os vinte dólares caíram pra cerca de quatro.
Não sei se meus cálculos estão certos. Talvez os economistas do Freakonomics saibam elaborar melhor do que eu esses custos, mas uma coisa é certa: é assustador o quanto é barato invadir os ouvidos das pessoas. Meus ouvidos não estão a venda, mas não sei quanto tempo vão resistir à fortíssima "especulação imobiliária" da música digital. Será que terei que transformar meus ouvidos em um "condomínio fechado" pra não virar latifúndio do mau-gosto? O meu silêncio será a última pepita de ouro da Serra Pelada dos ávidos por barulho?
13 julho 2009
Rádio sem tempo para escutar

Vê se encontra um tempo
pra me encontrar sem contratempo
durante algum tempo
José Miguel Wisnik / Jorge Mautner
pra me encontrar sem contratempo
durante algum tempo
José Miguel Wisnik / Jorge Mautner
O rádio FM de hoje é um retrato sonoro da falência da escuta. É feito para ouvir entre tarefas, alimentar-nos de sons afinados com as máquinas políticas, culturais e sociais hegemônicas. O rádio é como o som do nosso "inconsciente maquínico", conceito de Felix Guattari para explicar como a linguagem, o pensamento, o desejo e o self se interpenetram de acordo com sistemas que estão "fora" do indivíduo - o capitalismo, a gramática, a política, a ética.
O cérebro cria a linguagem, ou a linguagem cria o cérebro? O homem obtém seus objetos de desejo e consumo por meio dos negócios da economia capitalista, ou é a economia capitalista quem consome homens e negocia desejos em troca de sua existência infinita? Até que ponto o inconsciente pode ser entendido apenas pelos mecanismos descritos por Freud ou Lacan e não por Nietzsche, John Stuart Mill ou Hollywood?
Guattari nos mostra que a linguagem - por fim, o próprio pensamento e o inconsciente - recorre a signos ou significados que fluem em uma economia de poderes simbólicos, distribuídos na sociedade. Poderes do inconsciente, poderes da mídia, poderes da ciência, poderes da religião, cada um dominando partes da estrutura da linguagem, até que não se saiba mais o que pensa ("o que ou quem em mim pensa?") de forma independente.
O rádio FM é a materialização deste conceito de dominação da linguagem em forma de som. O rádio FM nos mostra um mundo sonoro vibrante, ágil, que tenta esticar sua dimensão linear ao máximo, elevando ao quadrado os volumes, massas, andamentos, fortíssimos, criando a ilusão da rapidez da informação. É som - conceito puro e abrangente -, porém marcado pelos signos do capitalismo pragmático ("time is money", cada segundo é cobrado pelo anunciante), da falsa objetividade jornalística (na voz pura e limpa do disc-jóquei que apresenta as notícias do showbizz com uma velocidade frenética), do consumo voraz (escute hoje o novo sucesso da hit parade que amanhã será esquecido). Sem silêncios.
Se o rádio FM apela para tais artifícios e jamais rompe essa estrutura - disc-jóquei, música, notícia, apresentador, vinheta, anúncio, "as dez mais" e etc -, é porque a palavra rádio que se reproduz no "inconsciente maquínico" de todos nós já se consolidou como tal. O rádio, que sempre teve a função de nos conectar, de nos religar (como a religião, que vem do latim religare) a todos por meio de seus sons, também passou a nos usar. Música? Claro, mas sempre com "um oferecimento de sabonetes Palmolive". Sempre nos dizendo o que está no topo das paradas. Informação? Lógico, pois sempre entre um anúncio e outro, entre a casa e o trabalho, entre o térreo e o décimo andar, dá tempo de ouvir a última fofoca sobre Any Winehouse.
Segundo Janete El Haouli, pesquisadora incasável do rádio, persiste a dúvida se precisamos limpar o rádio ou limpar a escuta. Assim como o inconsciente maquínico se refere ao rádio como uma "grade" de programas de música, anúncios, vozes sem corpo, também entende muito pouco de escuta. Inconscientemente, pensamos a escuta como um sentido menor, subordinado à visão.
O educador e filósofo Rubem Alves propõe oficinas de "escutatória" como medida para resgatar o sentido da escuta, em oposição às oficinas de oratória que ensinam todos apenas a falar.
Liberar a escuta pode liberar o rádio, fazer com que o religare passe a funcionar não apenas dessa maneira opressiva e barulhenta das FM´s, mas que traga novos afetos para a prática de ouvir/produzir rádio. Religare como valorização da reconexão entre os sons e seus territórios (desterritorializar e re-territorializar, como quer Guattari, deslocando sentidos para criar novos conceitos, artes, filosofias). Religare como a infantil brincadeira de “ligar os pontos” entre sons provocativos do rádio, descobrindo aos poucos um grande desenho infinito entre um tracinho e outro, um universo inteiro cabendo entre dois sons. Religare como religião (ou quase), como uma liturgia da escuta, transformando o ato de ouvir em ritual para os ouvidos, recuperando um certo sentido do sagrado que os sons perderam na sociedade pós-industrial. Religare como o reencontro entre o tempo da música, o tempo do poema, o tempo circular do rádio (ou seu tempo eterno), com o tempo do relógio, do cotidiano, como um reajuste de contas entre o tempo do ouvir e o tempo do viver.
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