24 dezembro 2011
Música e concretude
Às vezes me pego sendo enganado pela música. Na televisão, filmes, na rua, no rádio. A música, sendo nada mais que uma organização de sons, barulhos, ruídos, vozes, etc, às vezes investe-se também de uma intencionalidade. Um construto que tem um fim além de ser apenas belo, apenas agradável, apenas arte -, tornando-se um conceito aplicado, uma mensagem, até mesmo uma arma. Armadilha. Armação.
O autor, o compositor, o produtor, qualquem um deles pode agir como um manipulador. Assim como a propaganda de perfume tenta traduzir um aroma por meio de imagens e sons (tradução intersemiótica, já que a televisão ainda não tem a capacidade de estimular o olfato), a música tem a propriedade de sinalizar uma coisa que não existe literalmente, ou de emprestar um significado a algo, ou de simular uma ação - como se narrasse sem palavras. Drama. Comédia. Aventura. Farsa.
O tempo para ou corre. Eterniza o beijo. Emoldura o encontro. Quem assiste a seriados americanos como "Friends" ou "Seinfeld" entende a capacidade da música de marcar a cena - quando, por exemplo, aparece o exterior do prédio, a fachada do restaurante, a panorâmica noturna de Nova York, sempre acompanhadas de uma curta e bem característica vinheta, antes dos atores começarem os diálogos. Prelúdios.
A música também acelera o fluxo da vida, faz tudo acontecer mais rápido. Rocky Balboa ("Rocky", 1976) se prepara para a luta decisiva, que o confirmará campeão mesmo contra um inimigo aparentemente imbatível - a aberração russa Drago ou o negro impiedoso Apollo. Enfrenta a rotina pesada de exercícios e o descrédito da mulher. Mesmo assim, pontuando as cenas de sofrimento, suor e dor, o famoso "Rocky Theme" dá esperança de vencer. Tudo passa rápido. Basta a música, e três meses passam em três minutos. Interlúdios.
Quando a música entra no lugar de alguma coisa, vemos a música "sendo", "existindo" concretamente. Figurando. Lembro do filme "Contatos imediatos em terceiro grau" ("Close encounters of the third kind", 1977) e a famosa sequência de notas usada pelos alienígenas para se comunicar com os humanos. Alguém já ouviu algum som extraterrestre? E música de outro planeta? A verdade é que o compositor John Willians inventou para os ETs uma assinatura sonora, usando notas de uma escala pentatônica. E não deve ter sido por acaso: com sua força ancestral, telúrica, sendo uma das mais antigas escalas musicais utilizadas por vários povos humanos, a escolha produziu um efeito primal, estabelecendo uma poderosa ponte sonora que dá um sabor especial a este filme de ETs (e olhe que eu morro de medo desses bichos verdes...). Desenvolve-se a trama, a música é a própria personagem. Coda.
Além de ter a capacidade de concretizar algo que teoricamente nem existe - afinal, ainda não provaram que os tais homenzinhos verdes estão de fato entre nós - a música também tem o poder de representar sonoramente algo que não tem som. Como o gás de cozinha (preciso comentar?). Ou então bancos. Sim, bancos, essas instituições que nos pedem dinheiro para guardá-lo pra gente. Bancos fazem propaganda. Muita. E não sei se repararam, mas todos encerram seus vídeos promocionais com um pequeno jingle - uma assinatura, uma audiomarca - que ajuda na identificação e fixação do nome do dito-cujo. Tem até gente fazendo cover de jingle de banco. Finale.
03 junho 2011
A música e a desnecessidade do homem
Há todo um conjunto de coisas, atos, fatos, afetos e percepções que nos levam a acreditar que, no mundo de agora, acabaram-se as grandes narrativas. Dizem que tudo se funde em pequenas conectividades banais. Lemos na internet uma notícia sobre um tsunami de proporções catastróficas, ao mesmo tempo acompanhamos o twitter do Ashton Kutcher dizendo alguma bobagem sobre o mesmo assunto, ao mesmo tempo em que um vídeo supercomentado na internet também vira pauta pro telejornal, que fecha o dia com o resumo da tragédia ou o comentário sobre a mais "nova banda na internet". Pronto, página virada, esperamos amanhã para flanar pela web mais uma vez, flutuando sobre os acontecimentos mais comezinhos e os mais aterradores enquanto aguardamos que alguém faça um comentário no tópico que abrimos no Facebook.
Alguns dizem que isso se chama comunicação na era pós-moderna. E há ainda alguns que dizem que, por trás de milhares narrativas despretensiosas e sem-graça como essa, a grande narrativa que resta é a que descreve a desnecessidade do homem. Não frente à natureza, mas frente a seu próprio desejo. De tanto desejar expandir-se, ultrapassou-se. O homem descreveu, criou, modificou, intensificou, reordenou, atualizou tantas coisas que, em meio delas, tornou-se obsoleto.
Sendo assim, o mote agora é: o que não tem utilidade é descartável. A jovem britânica que se matou por não conseguir emprego percebeu (e não suportou) sua obsolescência em um mundo onde as pessoas devem ter um apelo comercial semelhante ao de um produto - prático, rápido, agradável e, de preferência, barato. O fato (que querem nos fazer acreditar) é que o homem se tornou obsoleto. Fazer música pra quê, então?
A escuta musical, fonte do prazer da música, segue a mesma tendência decadente. A música do século XX, radicalmente diferente das músicas anteriores, nos mostrou que não interessa o que se faz na partitura, no palco, nos instrumentos: a música acontece no ouvido de quem escuta (acho que quem disse isso foi o Pierre Mariétan). Todo o jogo estrutural, de silêncios, contrapontos, harmonias ou ruídos presente numa composição só se realiza um único momento: quando está na cabeça do compositor e viaja até a cabeça do ouvinte. Fora isso, só há "teatro" musical, que nos ajuda a absorver a música por outros buracos do corpo, como a pele e os olhos, mas não é o essencial.
Acho que naquele livrinho simples e interessante "O que é música?", daquela coleçãozinha "Primeiros Passos", o pianista Jota Moraes fala sobre os três jeitos de ouvir - ouvir com o corpo, ouvir com o coração, ouvir com o cérebro - e como essas três escutas se integram no sujeito (por via da educação musical, talvez). Talvez hoje, na teia complexa de relações entre mídias e sujeitos, onde a informação musical praticamente invade nossos corpos por vários meios disponíveis, esses três "ouvires" tenham se convertido numa coisa só, plana e desintegrada, focada seletivamente apenas na utilidade da música e em sua identificação com um gosto musical acanhado ou subdesenvolvido. "Essa é pra dançar, então eu gosto", dirão alguns. "Essa outra é pra cantar junto e chorar, então acho bonito", talvez, ou ainda, "essa é pra pensar", portanto "não gosto muito".
Na música popular, a percepção musical foi sendo paulatinamente desviada para o "teatro" da música. Porque todo o prazer da escuta - de desvendar conexões entre sons, compreender conceitos por trás das redes de sons das composições e permitir uma imersão completa na música -, foi sendo acompanhado e, aos poucos, substituído pelo refrão fácil, pelo megashow, pelo videoclipe (primeiro na MTV, agora é direto no youtube, como é o caso da tal Banda Mais Bonita da Cidade e sua música de seis minutos de um refrão só). Tudo o que foi criado para reforçar a experiência musical acabou ultrapassando-a. Portanto, escutar hoje já não basta - tem que ver, sentir, interagir. O homem, para ver-se reconhecido na arte, precisa ser parte da obra, e não mais um ouvinte ou espectador.
Ver, ver de novo, fazer download, cantar junto. A música se realiza no ter ("baixei" no iPod), no twittar ("linkei" o vídeo), e no seu gesto corporal, no dançar, no "tira o pé do chão". Voltamos aos primórdios, quando só havia o homem, sua voz e seu tronco de árvore, fazendo sons pra outros homens com seus troncos e vozes - nenhuma linguagem envolvida, nenhuma arte, nada a dizer, só criar movimento.
Talvez essa nova postura frente à arte seja a forma de reagir à presença quase agressiva da tecnologia, como se as "extensões" do homem (como descreveu brilhantemente McLuhan as novas tecnologias comunicacionais) tivessem se tornardo tentáculos com vontade própria. Talvez essa nova escuta seja uma reação para tentar afirmar a função ritualística e social que a música tinha na era das cavernas e ainda tem nas tradições musicais folclóricas. Talvez seja apenas uma simples fuga e busca de consolo em uma arte fácil, descompromissada, despojada, pronta também para consumo, como um capuccino quentinho numa noite fria ou um tarja preta "light" pra permitir o sono.
Seja o que for, é sinal de que a tecnologia produziu um efeito contrário à promessa que nos havia feito. Em vez de nos levar ao crescimento e desenvolvimento como humanidade, nos encaminhou à barbárie, à vida compartimentada, corrida e sem graça que busca o mero utilitarismo imediatista para satisfazer suas demandas de prazer, até mesmo quando se fala em arte. Para esquecer a dor, rave. Para enganar a dor, sertanejo. Para pular, axé. Pra cantar junto, pagode. Pra seduzir, funk. Pra ajudar a pensar, estudar ou malhar, iPod. Música igual remédio. Tudo o que se construiu na arte musical nos últimos dez séculos foi jogado no lixo em nome de quê?
Se não há mais grandes narrativas, jogue-se fora toda a música nova, música de invenção, música improvisada, jazz, vanguardas estéticas, barroco, neoclassicismo, e todas as outras linguagens, estéticas ou gêneros musicais que ativam a "escuta com o cérebro", e passemos a consumir somente a música de agora, entregue via internet acompanhada de videoclipes caseiros e refrões desafinados. A teoria da não-existência das grandes narrativas - e da narrativa que diz que o homem é obsoleto - só serve para justificar esse estado pobre e caótico de coisas, onde o homem é apenas mais um objeto que interage com outros objetos esperando alguma retribuição, carinho ou consolo.
Começou a guerra entre o homem dito "obsoleto" e o pós-humano. Solução (utopia)? Ainda acho o homem necessário. Talvez só tenhamos que descobrir como usar as tecnologias para promover o humanismo, e não usar o homem para promover a tecnologia.
17 abril 2011
O lugar da arte (2)
Aniversário de um ano do evento "Jazz na Coisa"
O Espaço A Coisa foi criado para ser um catalisador da vida cultural de Ribeirão Preto. Grupos de teatro, artistas plásticos e músicos que não têm tido chance de se apresentar em locais públicos apresentam-se na Coisa. A Coisa é uma alternativa para a existência artística de grupos com idéias inovadoras, com pouca visibilidade no mercado cultural.
O jazz é uma delas, e vêm tendo êxito as apresentações quinzenais com o nome "Jazz na Coisa", capitaneadas pelo Pó de Café Quarteto (Marcelo Toledo no sax, Bruno Barbosa no baixo, Leandro Cunha no piano e Duda Lazarini na bateria) juntamente com o DJ Kcond. Os shows têm lotação total e um clima alucinante de "inferninho" do jazz, com muita vibração em torno da música. Já tive a oportunidade de me apresentar lá, o vídeo abaixo mostra.
O Espaço A Coisa foi fechado e lacrado por uma fiscalização do Corpo de Bombeiros e da Polícia Militar após denúncias - não verificadas no local - de que haveria menores frequentando os eventos. Pediram identidade até para os músicos que estavam tocando. Não encontrando nada, os bombeiros então fecharam o local por não estar em exibição na parede algum alvará de funcionamento. O documento existe, mas estava no escritório do contador, e não poderia ser encontrado às 23 horas. O local foi reaberto logo depois, pois houve muita gritaria pelo Facebook, e até a prefeita da cidade tomou conhecimento da situação e declarou seu "apoio" ao funcionamento do local.
O fato tem várias interpretações - e fornece também várias lições -, mas a que eu prefiro é a de que a cultura sem governos, realizada pura e simplesmente por iniciativa livre e sustentada apenas pelas leis de mercado - a cultura preconizada pelos liberais de plantão -, é pura ideologia. Simplesmente porque cultura que se faz sem governos é território perigoso, insubmisso a controles, portanto nociva à própria noção de Estado (liberal ou não, pois Estado existe para justificar uma estrutura de poder e desigualdade). O Estado, mesmo que mínimo, quer estar presente nos espaços em que se faz cultura, ainda que apenas como ordenador jurídico ou regulador.
Assim, para o Estado, o problema do Espaço A Coisa não foram os motivos até legalmente pertinentes, como falta de estrutura anti-incêndio adequada, saída de emergência inexistente, entre outros. O problema era a falta de chancela de algum órgão de governo sobre aquele espaço, sobre a arte que se faz ali. E isso tem a ver com o post anterior.
Ninguém do Espaço A Coisa foi pedir ajuda ou beijar a mão de nenhum burocrata responsável pela cultura. Nenhum órgão de Estado havia permitido a existência da Coisa. Não houve inauguração oficial com corte da fita pelo governador ou pelo secretário da Cultura. Não tinha placa nenhuma na frente constando que aquilo era mais uma obra do "Brasil Para Todos". Não houve licitação fraudulenta pra contratação de serviços, estrutura ou equipamento superfaturado. Por isso a Coisa foi fechada.
A questão então, é outra: por que foi reaberta?
Em tese, o artista não precisa de governos para existir. A arte existe e os artistas estão sempre cheios de idéias. O que falta é espaços em boas condições de uso disponíveis para que os artistas possam realizar suas obras. Teatros, auditórios, anfiteatros ou salas em que o artista possa desenvolver seus trabalhos. Criar e manter espaços culturais para a arte, disponíveis para artistas locais, é coisa que não dá retorno financeiro muito menos rende votos. Por isso, o "apoio" demagógico dado ao espaço após o ocorrido mostra muito mais uma disposição para não criar inimigos do que efetivamente apoiar o local com ações concretas, como ajudar em uma reforma para adequar o local de acordo com as normas vigentes, por exemplo.
O que estava em jogo no ato do fechamento não era a segurança dos frequentadores, o controle dos níveis de barulho ou a suposta degeneração moral dos supostos menores presentes. O que estava em jogo era a ameaça do sistema de controle da cultura, de um estrutura oficial de poder de decidir quem pode e quem não pode fazer arte. A Coisa mostrou que a arte pode ir além dos assistencialismos culturais dos governos, que tendem a compreender a arte apenas como um instrumento de controle social (oficinas de hip hop e capoeira nas periferias, oficinas de artesanato para idosos), uma ótima moeda de troca para votos. E só foi reaberta para tentar afirmar o contrário.
31 março 2011
O lugar da arte (1)
Espaço: uma delimitação de área que pode conter algo ou não. Espaços culturais surgiram como alternativas à falta de prédios especializados para a promoção de atividades culturais. Faltavam teatros para a música - também para a dança e para o próprio teatro -, faltavam salas de cinema, faltavam galerias e museus para as artes visuais. O que fazer?
Criaram-se então dezenas de salas, galpões, barracões, porões, mezaninos, sótãos, estações de trem, caixas d´água, túneis, entre outras arquiteturas públicas várias, para se abrigar shows, obras e performances. Com baixo investimento, inteligência e boas intenções, o Poder Público "salvou" as artes de ficar debaixo de chuva, sem platéia, no escuro. Qual a verdadeira política cultural aqui? Gastar pouco e iludir o contribuinte de que as míseras esmolas do orçamento destinadas à cultura estão sendo utilizadas na "democratização" da arte e diversificação dos "equipamentos culturais" do patrimônio da cidade. Investir em educação artística, construção de teatros, auditórios, cinemas - de verdade, não de lona - dignos para uso de toda a população, disso nem se fala.
Os governos passaram a oferecer arte ao público em suas repartições públicas mofadas e prédios sem a mínima adequação. Como um desdobramento desse pensamento, diversos espaços privados também passaram a adaptar suas dependências para as artes. Restaurantes com "foyer", bares com intervenções teatrais, clínicas médicas com galerias, supermercados e até padarias com palcos para músicos. Sob a chancela do marketing cultural ("eu promovo a arte, portanto sou um bom empresário"), uma miríade de artistas novos à disposição, loucos por uma oportunidade de mostrar seus trabalhos, não deixaram faltar pinturas, esculturas, grupos teatrais e músicos de primeira viagem a encher esses espaços.
O empresário esperto passou a ter facilmente a sua disposição uma nova "mais-valia cultural", espécie de diferencial competitivo com verniz de mecenato - a virtuosa boa intenção de acolher e apoiar as artes. Também surgiram pessoas, ligadas às artes de alguma maneira (nem sempre de forma profissional), se oferecendo como "curadores culturais freelancer", que organizam os tais eventos artísticos nesses novos espaços.
Em uma primeira análise, tendemos a ver como positivas essas transformações na forma como se oferece a arte - "democratização" do acesso à cultura. Mas, pensando melhor, será que essa verdadeira "pulverização" da cultura por todos os lugares não parece fazer com que a arte fique igual a qualquer banalidade que nos apareça no cotidiano? Lembram os banners de propaganda piscando na tela do computador enquanto navegamos na internet, os anúncios barulhentos que irrompem na programação televisiva, jingles tocados a máxima velocidade no rádio. Tudo misturado, tudo a mesma coisa (qualquer relação com a tese do desencantamento da arte de Walter Benjamin é mera coincidência...).
À parte obras de arte que são pensadas para se intrometer mesmo no dia a dia e causar algum espanto no incauto cidadão que flana pela cidade no piloto automático, não há mais lugar para apreciação ou fruição estética. Nem mesmo há o prazer do artista na elaboração de suas obras em casos assim. Tudo é entretenimento, apenas. Vá ao dentista e arranque um dente ouvindo um violinista tocando ao vivo. A espera no consultório médico é longa e humilhante, mas você está cercado de agradáveis quadros e esculturas de algum novo grande artista anônimo. Logo cedo tome um café na padaria enquanto piano e gaita tocam um blues como se a noite ainda não houvesse acabado. Um poeta intervém e declama um decassílabo que você já ouviu ontem na entrada do cinema. Faça as compras no supermercado ouvindo algum tecladista desfiar os últimos sucessos sertanejos que você já ouviu por osmose de alguma rádio que tocava em algum alto-falante em frente a alguma loja em alguma rua do centro da cidade.
Não há mais lugar para a arte. Lugar físico e mental para a arte. Como artistas, somos todos malabares desesperados tentando ganhar nosso mirrado cachê em sinais de trânsito. Como respeitável público, estamos todo no circo. E aos artistas que perceberam todo esse estado de coisas - artistas não reconhecidos e marginais, diante de um público atônito e maltrapilho - o poder público oferece a opressão como forma de evitar que a classe artística se aproprie de outros lugares que não aqueles designados pelos caciques da cultura.
Teatro Municipal sendo convertido em salão de baile de formatura? Pode, com alvará e tudo, carimbado e assinado em três vias pelos burocratas das secretarias afins. Porão de prédio sendo utilizado para uma infinidade de eventos culturais - a maioria com lotação esgotada - por coletivos de marginais (ops, de artistas) sem espaços disponíveis para mostrar sua arte? Não, não pode. E o resto da história virá no próximo post...
10 novembro 2010
Traçados jazzísticos
"Aromas 1 - Vermelho"

"Aromas 1 - Papel reciclado"
A série "Café com Jazz" mostra a boa disposição de Lauro para lidar com o cotidiano, tornando um ato banal - a pausa para o cafezinho - em uma graciosa forma de arte. Assim como o jazzista se esforça para fazer com que cada nota em meio ao improviso não se perca e soe ímpar, plena de sentimento, Lauro busca a beleza dos atos mais simples, compreendendo o sentido estético de cada gesto. Simples papel, simples nanquim, simples café, o simples ouvir e brota uma cena, quase musical, quase sensorial.

"Aromas 1 - Papel Sépia"
Lauro estará fazendo uma exposição em São Carlos de 11 de novembro a 10 de dezembro de 2010, no Centro de Cultura Afro-Brasileira “Odette dos Santos” (Rua Dona Alexandrina, n° 844), de segunda a sexta das 14h às 21h.
02 julho 2010
Universos paralelos: jazz e Copa do Mundo
Estamos presenciando um dos campeonatos mundiais de futebol mais disputados dos últimos anos, com vários times que desequilibram a tradicional guerra entre seleções européias – que criaram e amadureceram o esporte e suas táticas – e os times sul-americanos – que deram ao mundo craques com extrema audácia e destreza no trato com a bola. A Copa do Mundo traz atuações surpreendentes de equipes que, há alguns anos, nem acreditaríamos ver em uma competição tão dura e difícil: Japão, Gana, Estados Unidos, África do Sul, entre outras, deram trabalho aos adversários mais tradicionais.
06 junho 2009
A arte e o trabalho tangencial

Trabalhar com arte significa manter o mínimo de disciplina para exercitar a técnica que leva a boa execução da obra criada. É aprender a gerenciar o tempo, dividido entre a dedicação à criação de um trabalho artístico próprio e à "produção" dos novos trabalhos que aparecem com outros artistas, gigs eventuais, projetos paralelos - que exigem um número absurdo de ensaios, reuniões, passagens de som, agendamento de horários... e lá se vão domingos e feriados. Estar envolvido em diversos trabalhos é importante para se manter no mercado, mas prescinde de um planejamento e jogo de cintura muito grandes.
Por isso, em intervalos de tempo entre um ensaio e uma gravação, entre uma apresentação e uma passagem de som, o ideal é que o artista encontre tempo para reflexões, leituras, exercícios e aulas para enriquecer sua técnica ou elaborar seus projetos artísticos autorais. Mas não é isso que acontece. Ao se deparar com atividades que se relacionam diretamente com o seu crescimento artístico, muitos tremem na base e acabam deixando pra depois. Nessa hora, aparece uma preguiça enorme e logo os seriados de televisão, a internet, o Nintendo GameCube e as sonecas vespertinas se tornam opções que podem parecer mais interessantes...
Ao invés do ócio criativo, o que verdadeiramente se passa é uma certa "vagabundagem depreciativa", que resulta em mais cansaço e uma tremenda culpa por não ter feito nada a favor de si. Era exatamente sobre isso que eu conversava com minha amiga e cantora Mariana Amaral há uns tempos atrás. Ela reclamava da enooooorme preguiça que tinha de organizar seu repertório - e eu obviamente concordava por sofrer da mesma doença - e dei uma dica a ela que costumava usar comigo mesmo. Batizei de "trabalho tangencial".
Trabalho tangencial é basicamente escolher realizar uma atividade que seja produtiva que possa substituir aquela que está te dando preguiça. Assim, você acaba não alcançando o alvo principal, mas sai pela "tangente" e fica um pouquinho mais próximo de realmente fazer o que é necessário. Se tem que transcrever umas músicas e está com preguiça, organize os arquivos antigos que estão há tempos esperando por uma melhor ordem. Se tem que escrever um arranjo e está sem forças, escute alguns discos para se inspirar.
A má notícia é que, no geral, o trabalho tangencial não traz resultados práticos tão valiosos. Pois se você tem prazos a cumprir, os perderá. Afinal, não terá realizado o trabalho principal, só rodeado o suficiente para não sentir culpa por não ter se mexido. A boa notícia é que, no mundo da arte, todo mundo sofre dessa preguiça. Mas não são todos que tentam superá-la.
11 março 2009
Música, jornalismo e improviso

[do caos vem beleza,
ordem da leveza,
lírica sentença
fogo frio da incerteza
interroga o tempo
pára os fluxos do pensamento
e cria o vão
em que dá cria
a invenção]
Este blog nasce em meio a crises. A crise da música e dos sons é uma delas. Em que momento nasce a música e morre o ruído? Em que momento brota o som do silêncio? Há silêncio?
Fora a filosofia necessária, há as novas estéticas, novas escolas, novas mídias, enquanto continuam velhos esquemas de ensino/aprendizado, velhos esquemas de trabalho (OMB, couvert artístico, ECAD...), velhas indústrias fonográficas. É preciso manter os ouvidos limpos e abertos para perceber quais novas e velhas frequências queremos escutar. E quais delas não precisamos mais.
Outra crise é a do jornalismo. Longa demais para que possa valer a pena debater aqui. Só vale lembrar que, no velho - e errôneo - combate entre o front da grande imprensa e os bunkers das assessorias de comunicação das grandes corporações, resta a debilitada informação entre os mortos e feridos, influenciada cada vez menos pelos mal-informados jornalistas e cada vez mais pelos interesses extra-redação e extra-release que emanam dos gabinetes e escritórios dos executivos responsáveis pelos dois lados da notícia. Entre os escombros dessa guerra, alguns sobrevivem buscando alguma centelha de verdade ou apenas verossimilhança.
Duas crises que são potencializadas pela internet, torrente de informações que nos oferece a liberdade do conhecimento, mas numa prisão em que toda a experiência é unidimensional.
O improviso entre sobre esses dois temas, com pitadas de jazz e otras cositas mas, é o assunto e o modus operandi deste blog. De tons e modos diversos, frasear sobre acordes de filosofia, notas de cultura, linhas de fuga que vão das tradições ao contemporâneo. Versar sobre o som, soar ao inverso, silêncio sobretudo. E etc e jazz.




