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17 setembro 2012

A vida passa e o blog fica...

A reflexão sobre as coisas do dia a dia não acontece na mesma velocidade que as tais coisas do dia a dia. Eu tenho um monte de idéias, argumentos, histórias, causos, metáforas, discursos e homilias sobre todas essas coisas do dia a dia, mas falta o tempo para escrevê-las aqui. Eu peço desculpas a todos os que de vez em quando passam por este blog, mas é que está difícil ter tempo pra falar sobre o tempo, tá difícil ter cultura pra falar sobre cultura, tá difícil achar a música dentro da música...

Partilho com vocês minha dificuldade, mas também partilho a sublimidade deste vídeo, quem sabe pra deixar menos difícil a tarefa de parar pra admirar as boas coisas da vida.




01 março 2011

Parem as máquinas!! Keith Jarrett no Brasil!!

Desculpem as exclamações no título. Contra todas as recomendações dos manuais de redação e estilo jornalísticos, o sinal é imprescindível na frase para representar a importância dessa bela notícia. Keith Jarrett, esse alienígena que finge ser um humano normal, fará um concerto na Sala São Paulo no dia 16 de abril desse ano.

Fiquei sabendo hoje cedo pelo Facebook, que linkou essa notícia do IG. Entrei no site para comprar ingressos e os mais baratos (R$ 200) já se foram. Comprei um de R$ 350, mais a escabrosa "taxa de conveniência" de R$ 63. Mas acho que vale.

Estou curtindo o som desse pianista há anos, desde que me deparei com um disco do Standards Trio "Live in Norway" (acho que é de 1992). Fiquei hipnotizado pelo fraseado límpido, objetivo, suingado, combinado com um toucher surpreendentemente erudito, sobriamente romântico. Pirei. Corri atrás de tudo o que podia, achava pouquíssimos CDs pra comprar, consegui ver os DVDs "Standards" I e II na casa de amigos. Um pianista inacessível, parecia. A internet banda larga logo reverteu esse problema, e agora não me canso de ouvir o clássico "The Köln Concert", de 1975.

Com essa gravação, Jarrett se tornou uma referência pianística tanto no mundo erudito quanto no universo do jazz, com ecos até mesmo nos círculos do rock. As improvisações desse concerto remetem a grooves de funk, impressionismo francês, sonatas românticas, arroubos chopanianos, polifonia barroca, gospel, stravinsky e dezenas de outras referências musicais, todas muito bem dosadas e equilibradas com incrível técnica. Em sua música há apenas motivos, sendo apresentados sobre acordes simples, seguidos de variações, ornamentos, recriações, fluindo com precisão, guiando a audição para o núcleo de sua expressividade, revelando a alma vívida e ilimitada desse artista único. 

A notícia desse show no Brasil coincidiu justamente com o momento em que estou redescobrindo esse concerto de Köln, em uma edição em que tudo foi remasterizado com altíssima qualidade de áudio. Estou acompanhando a audição com a partitura transcrita, publicada há alguns anos na Europa.

 "The Koln Concert" (1975) (HF) (FS)

piano - Keith Jarret;

1. "Part I" (26:01); 2. "Part IIa" (14:54); 3. "Part IIb" (18:13); 4. "Part IIc" (6:56)


"Piano Transcription"  
(pass: http://themusicianslibrary.blogspot.com/)

16 dezembro 2010

ETC & Jazz - Programa 11



Pessoal, essa é a edição 11 do ETC & Jazz, só entrou no blog hoje devido a alguns contratempos na edição e na transmissão do programa, mas está aí: 55 minutos de jazz para todos os gostos. George Russel Combo, Mel Thormé, Charlie Haden com Gonzalo Rubalcaba, Keith Jarrett, Wynton Marsalis, Gary Burton e Cedar Walton estão dominando o cenário nesse programa. Podem baixar aqui se preferirem.

26 maio 2010

A volta do romântico

Keith Jarrett (1945, Allentown, EUA) é um pianista cuja assinatura musical é o toque romântico, sutil, extremamente suingado e elegante. Sua interpretação é sempre delicada, destacando nuances jazzísticas em sua divisão, recriando os temas e sugerindo novos caminhos harmônicos com inteligência e extrema criatividade.

Jarrett é lírico. Seus improvisos sempre contam histórias simples, melodiosas, que se tornam complexas mas não herméticas. É sua alma que soa. E sua capacidade de envolver a música é tão marcante que ele chega a fazer isso com o próprio corpo. São notórias as apresentações ao vivo do artista, em que ele se contorce, levanta, debruça-se sobre o teclado, cantarolando e gemendo durante os solos.

Mesmo com tamanha entrega e superexpressividade, o som de Jarrett resulta paradoxalmente cristalino, de timbre impecável, coberto de texturas harmônicas sedosas que se sobrepõem às frases absolutamente límpidas de sua mão direita. Muitas vezes a extrema velocidade com que toca faz com que as notas soem ainda mais nítidas, quando se esperava que saíssem atropeladas.
 
Sempre muito exigente quanto à qualidade de seu som, Jarrett não toca em qualquer piano: tem que ser Steinway & Sons, de fabricação alemã (ultimamente o músico tem preferido o som dos Steinways americanos, e mandou modificar todos os martelos do piano que tem em seu estúdio caseiro). Também exige máximo silêncio da platéia, e já mandou parar concertos porque muitos espectadores tossiam na sala.

Jarrett superou uma doença que quase fez com que parasse de tocar. Em 1996, foi diagnosticado portador da Síndrome da Fadiga Crônica (SFC), que o deixava exausto só de pensar em música. Incapacitado para tocar, encontrou a cura dois anos depois e lançou um disco solo com canções simples que gravou durante o período de recuperação.  Desde então, voltou a produzir e já lançou vários discos com seu célebre Standards Trio (Jack DeJohnette na bateria e Gary Peacock no baixo). Deixo aqui o link para "Yesterdays", lançado em 2001, gravado ao vivo no Japão. A receita é a mesma: o pianista reinventa grandes temas do jazz e do cancioneiro americano ao seu estilo "romântico". Detalhe: a última faixa, "Stella By Starlight", resultou da passagem de som de um outro concerto, realizado dias antes. 



Keith Jarrett - Yesterdays (2001)

1.Strollin' (8:12); 2.You Took Advantage Of Me (10:12); 3.Yesterdays (8:55); 4.Shaw'nuff" (6:10); 5.You've Changed (7:55); 6.Scrapple From The Apple (9:01); 7.A Sleepin' Bee (8:17); 8.Intro / Smoke Gets In Your Eyes (8:47); 9.Stella By Starlight (8:04)

24 março 2010

Mozart no jazz, o jazz em Mozart


A maior prova de que o jazz é uma forma de pensamento musical e não um ritmo ou estrutura pré-definida são as gravações de jazzistas que releem os clássicos eruditos à luz do gênero jazzístico. 

Obviamente não basta improvisar sobre um tema de Mozart para se tornar jazz. Vários concertos do músico austríaco continham passagens improvisadas, chamadas cadenzas (cadências), em que o intérprete pode optar por seguir o que está escrito ou criar novas frases sobre a harmonia. O mestre Chick Corea improvisou todas as cadências no Concerto para Piano e Orquestra em Ré menor (K.466) e no Concerto para Piano e Orquestra em Lá maior (K.488) no disco "The Mozart Sessions". Continou sendo uma gravação maravilhosa, mas de música clássica. 

No disco "Jazz Mozart", o pianista novaiorquino John di Martino seguiu um caminho diferente. Acompanhado do baixista Boris Kozlov e do baterista Ernesto Simpson, Martino deixa a orquestra clássica de lado e dá um interpretação jazzística a músicas conhecidas de Mozart. Toques latinos, valsas sofisticadas, baladas serenas e incrível abordagem moderna das belas melodias mozartianas (como a Sinfonia #40) tornam o disco irresistível. 

Heitor Villa-Lobos utiliza a canção tradicional "Ciranda-Cirandinha" para escrever o "Polichinelo", uma das mais difíceis execuções pianísticas. John di Martino recria as obras de Mozart com um moderno trio de jazz. A genialidade não se encontra no material musical, mas em como se trabalha. O jazz é assim.

O que define o jazz? Discos como esse nos fazem pensar. "Jazz é tudo o que tem improviso". Será? Não pode ser, pois há músicas de origem judaica, africana e asiáticas que são puramente improvisadas e não têm nada da carga expressiva do jazz. Por outro lado, a adoção de uma instrumentação estilosa (piano-baixo acústico-bateria-guitarra acústica-saxofone) também não quer dizer nada se não há improviso, como é o caso de Norah Jones, uma boa cantora com um approach mais cool, mas que acrescenta pouco suíngue às canções. Ser negro - herdeiro das tradições negras devido à herança étnica - também não é condição sine qua non, ou os saxofonistas Michael Brecker e Joe Lovano - brancos como talco - não poderiam ser considerados os herdeiros naturais do trono de John Coltrane. 

Talvez uma das chaves para se compreender (e se fazer) o jazz esteja no blues. "You gotta get the blues", baby. O blues é uma das mais paradoxais formas de expressão artísticas. O bluesman canta a tristeza, o luar frio, a dor de cotovelo, o amor impossível, em melodias de indefínivel caráter. Ora soam tristes, ora soam alegres, devido à presença da famosa terça menor que veio das escalas pentatônicas africanas,  que não se afinam de acordo com a escala ocidental. Parecem sempre um pouqinho fora do tom, fora do contexto, trazem um elemento desconhecido, caótico, para o universo "quadrado" da harmonia tonal. Isso empresta um sabor sofisticado, nostálgico, pungente, energético e vital à música, e é a principal via de acesso para a compreensão do jazz. 

Toda uma forma de improvisação que foi sendo criada e moldada sobre esta sonoridade. A linguagem do jazz: essa se molda e se modifica desde então. Mais de 100 anos de história. Em alguns períodos dessa trajetória, vários artistas perceberam a possibilidade de reexaminar o repertório clássico europeu com as sonoridades fornecidas pelo jazz. Gunther Schuller, o alemão que inventou a Third Stream; Claude Bolling, o pianista que criou "jazz-concertos" para piano e flauta, piano e violão, piano e trumpete; o Modern Jazz Quartet, que abordava standards de jazz com tamanha delicadeza que só realizava shows em palcos de teatro; o pianista Keith Jarrett, que escreveu concertos para cordas e saxofone improvisado; o pianista Joe Sample, que fez versões disco para temas barrocos; e uma infinidade de outras aventuras semelhantes. 

A verdade é: se ninguém dissesse que é Mozart, você iria ouvir o disco como se fosse um excepcional disco de jazz moderno - ponto para di Martino, que caprichou nos arranjos. Só iria se surpreender com a extrema qualidade das melodias - ponto para o eterno Mozart.



 Jazz Mozart - John di Martino's Romantic Jazz Trio (Venus Records, 2007)


John di Martino (piano); Boris Kozlov (baixo);  Ernesto Simpson (bateria)



1. The Fire of Passion (Piano Concerto #24 in C minor, K491); 2. Soft, Like the Petals of a Rose (Piano Concerto #21 in C Major, K467); 3. Desert Journey; 4. I've Lost Her (The Marriage of Figaro, K492); 5. Fantasy in D minor, K397; 6. My Heart Needs to Know (Piano Concerto #27 in Bb Major, K595); 7. Lacrymosa (Requiem, K696); 8. The Willows Song (Concerto for Clarinet and Orchestra in A Major, K622); 9. Dance of the Wind (Symphony #40 in G minor, K550); 10. Arc of Love (Piano Concerto #23 in A Major, K488)

18 fevereiro 2010

Charles Lloyd, o doce xamã do post-bop













As várias tardes quentes em Memphis ao som das gravações do elegante e melodioso Lester Young, a viagem musical para Los Angeles aos 18 anos durante o florescimento do jazz "west coast", os sons misteriosos da cítara indiana e as múltiplas camadas rítmicas das tablas que invadiam o cenário nos loucos anos 60; tudo isso converge para a formação da personalidade musical de um dos mais importantes saxofonistas do jazz: Charles Lloyd, 72, músico que fez fama nos anos 60, passou por uma fase de obscuridade nos anos 70 e voltou lentamente aos holofotes desde os anos 80.

O toque aveludado e intenso de Charles Lloyd, aliado à sua atitude totalmente hipnótica no palco, confere uma aura lírica à audaciosa música produzida por ele. Apesar de ser tão intenso quanto Coltrane, tão caótico como Ornette Coleman, tão denso quanto Steve Lacy, a abordagem de Lloyd é de extrema sensibilidade quanto à dinâmicas, fraseados e climas. Isso torna suas interpretações verdadeiras jóias, transformando cachoeiras de acordes, rufos de tambores e sforzandos em lagoas de contemplação, planícies de frescor e deleite para os ouvidos.

Seu sopro no sax tenor é sereno, redondo, soa como condensações quentes de ar musical em todas as diferentes ondas e freqüências que emanam do banda que o acompanha: seja apenas um delicado contrabaixo, seja um quarteto arrojado, seja uma orquestra de sopros, seu som é sempre bem desenhado e intenso. Destaca-se também sua abordagem "etérea" da flauta transversal, que transforma-se num instrumento exótico em suas mãos.

Lloyd tem ainda uma certa predileção por ritmos caribenhos e africanos, flertando ainda com o rock progressivo e o funk de estirpe setentista. Por isso, seus concertos - que vão das baladas mais sentimentais ao free jazz mais aberto e vibrante - sempre apresentam nuances mais alegres e envolventes do que um show "comum" de jazz post-bop. Mesmo assim, suas composições não deixam de ter certa complexidade e desafiam os músicos a tocarem com grande precisão e senso de expressividade coletiva. Peças como "Prometheus" e "Migration of spirit" soam como se fossem pequenas suítes feitas para grande orquestra, com movimentos distintos e momentos de tensão que exigem atenção da banda.

Nos anos 60, seu quarteto formado com Keith Jarrett (piano), Ron McClure (baixo) e Jack DeJohnette (bateria) alcançou alta popularidade devido às adaptações de canções de rock e pop da época para a linguagem do jazz. LLoyd vestia batas coloridas e empunhava maracas, dançando como se estivesse possuído por espíritos xamânicos; um Keith Jarrett jovem e franzino, com cabelo à la black power, se aventurava no sax soprano e no pandeiro, balbuciando alguns sons enquanto se contorcia em solos mais exaltados (uma de suas marcas registradas, até hoje); enquanto isso, DeJohnette imprimia alguns grooves mais funkeados ao seu toque geralmente mais solto e requintado, em total sintonia com o baixo às vezes errático de McClure.

Em 2008, Charles Lloyd montou um novo quarteto e gravou um disco chamado "Rabo de Nube" (ECM), onde toca composições novas e antigas. Não faltam exemplos de sua veia funkeira, como a suingadíssima "Booker´s Garden", que conta com um groove de baixo e bateria contagiante. Assim como também há improvisações livres extremamente interessantes, como na introdução do hit de Jarrett "Sweet Georgia Bright". O momento de suave latinidade e grande introspecção é a composição "Rabo de Nube", bolero do cubano Silvio Rodrigues, que fecha o disco. O CD é uma boa mostra de como a música de Lloyd é extemporânea e, ao contrário de muitas gravações mais vanguardistas, soa como novidade extremamente agradável.


Rabo de Nube (ECM, 2008)


Charles Lloyd (sax tenor, flauta, taragato)
Jason Moran (piano)
Reuben Rogers (baixo)
Eric Harland (bateria)