Prestem atenção no som desse quarteto do guitarrista Fabio Leal. Misturando standards brasileiros e composições próprias, esse grupo faz um som límpido, fluente, que leva a música instrumental um passo adiante, sem se prender a tendências ou escolas - é jazz, é Brasil, é música. Nesse vídeo, que está com um áudio de excelente qualidade, gravado ao vivo no bar Jazz nos Fundos, dá pra ver que o grupo toca com muita consciência e se aventura em improvisos complexos sem a menor hesitação.
As composições de Fabio são muito melódicas, soam como pequenas suítes gismontianas, cheias de variações rítimicas e de dinâmica. Os arranjos para os standards são arrojados (o samba "Luz Negra", de Nelson Cavaquinho, virou um groove moderno em 10/8). O grupo é muito entrosado, com a bela interação do baixo de Felipe Maróstica com o baterista Paulo Almeida (com certeza esse é o Brian Blade brasileiro, toca com atenção voltada completamente à melodia, mantendo um groove indissolúvel, apesar de abstrato). O pianista André Grella reveste as belas canções de Fabio com extremo bom gosto nos voicings.
O grupo já tem um disco, lançado em 2005 pelo selo Unwritten.
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07 novembro 2010
05 novembro 2010
A bossa suingada
Doralice - Canja com Bia Mestriner
Murilo Barbosa | Myspace Music Videos
Nesse show da querida amiga e grande cantora Bia Mestriner, realizado no SESC Ribeirão Preto no começo de 2010, tive a honra de ser convidado pra "dar uma canja". O combinado era que fosse em "Desafinado" (Jobim/Newton Mendonça), mas no embalo do show ela se esqueceu de me chamar... Então me convocou na próxima, que foi o gracioso sambinha "Doralice" (Dorival Caymmi). Fiquei feliz de ter tocado essa música com a Bia e do momento ter sido registrado, pois a banda estava muito afiada: Carlinhos Machado na guitarra, Tiago Alves no baixo e Paulinho Vicente na bateria.
Doralice é um samba, mas virou um marco da bossa nova por causa da releitura sóbria, minimalista e requintada de João Gilberto no disco Getz/Gilberto (tá lá embaixo pra quem quiser). Pra mim, é o encontro absoluto do jazz com um dos melhores gêneros da música brasileira, a bossa. Dois mundos se complementando, se reconfigurando.
Sempre gostei do improviso do Stan Getz nesse tema, ele tem um som redondo, lúcido, tão meticulosamente estruturado como a bossa tem que ser: simples e despojada, mantendo a eficiência da cadência do samba sem a "gordura" da marcação exagerada. E a Bia tem a voz da bossa, econômica na emissão e ricamente ornamentada na melodia e divisão. Como o sax de Stan Getz, como a batida de João.

Getz/Gilberto feat. Antonio Carlos Jobim (1964)
João Gilberto: violão, voz; Stan Getz: sax tenor; Antonio Carlos Jobim: Piano, violão; Astrud Gilberto: voz; Milton Banana: bateria; Sebastião Neto: baixo (no crédito original vem erroneamente denominado Tommy Willians...)
01 - The Girl From Ipanema; 02 - Doralice; 03 - Para Machuchar Meu Coracao; 04 - Desafinado (Off Key); 05 - Corcovado (Quiet Night of Quiet Stars);
06 - So Danco Samba; 07 - O Grande Amor; 08 - Vivo Sonhando (Dreamer)
27 janeiro 2010
Samba vira tango
O show Elas por Elas, da cantora Regina Dias, estreou no último dia 20. O repertório é uma coleção das canções de intérpretes que mais influenciaram seu trabalho: os sucessos de Maysa, Márcia, Nana Caymmi e Elis Regina. Música de boa fonte.
Como diretor musical que fui, arregimentei os músicos e montei os arranjos, buscando dar um rumo jazzístico e delicado para as canções - muitas delas já eternas, imexíveis, como "Upa Neguinho". O desafio foi encontrar em cada uma delas uma pista, uma nuance, uma palavra, algo que pudesse sugerir um caminho.
"E daí" (Miguel Gustavo) era interpretada por Maysa como um samba-canção, com um acompanhamento de orquestra um tanto quanto arrastado e pomposo. Quando ouvi a música pela primeira vez, decidi na hora que o arranjo teria que ser bem diferente. Elis Regina já havia gravado a música em um arranjo mais arrojado, mas ainda "sambístico". Pra mim, o ritmo dolente do samba não servia pra emoldurar a canção, que sugere um contexto de opressão, onde o narrador-personagem encontra-se distante de seu objeto de desejo devido a uma proibição fortíssima ("proibiram", no plural, mostra a força do impedimento).
Ouvindo a melodia, pensei no vozeirão de Nelson Gonçalves entoando os primeiros versos ("proibiram que eu te amasse, proibiram que eu te visse, proibiram que eu saísse, e perguntasse a alguém por ti"). Pensei que poderia ser cantada em espanhol, como um bolero. Como seria? Pensei em destacar a forte negação e a presença incontornável do obstáculo que impede o personagem de se unir à sua amada utilizando a marcação "cerrada" do ritmo.
Bolero? Não. Tinha que ter mais "punch".
Por isso, no arranjo do show de Regina, a canção se transformou em um tango - ritmo quaternário caracterizado pela pulsação firme dos quatro tempos ao modo militar, onde as notas deslocadas do baixo é que dão um senso de latinidade. Além disso, a forma de acompanhamento harmônico - com células simples de habanera e acordes derivados da escala menor melódica - destaca a dramaticidade exagerada da letra. O amante enfrenta e desafia os obstáculos ao seu amor de peito aberto ("proibam muito mais, preguem avisos, tranquem portas, ponham guizos, nosso amor perguntará, e daí? e daí?").
Criei ainda um interlúdio que prolonga essa sensação de busca, exacerbando o teor trágico da situação. A segunda parte da letra é cantada em cima de acordes com baixo invertido, em cima da nota mi (Am/E, Bm7(b5)/E e E7b9), causando ainda mais tensão antes da resolução, que acontece após a repetição dos versos "ninguém pode parar meu coração, que é teu, todinho teu" sobre um turnaround I(m) - VI(m7b5) - II(m7b5) - V7(b9).
Além dessa explicação teórica do arranjo, a escolha do tango também levou em conta o fato de que o público brasileiro em geral gosta de tango. Tem aquela sensação de que tem algo diferente acontecendo no palco, mas não é algo que esteja fora do escopo de referência de ninguém - não é comum, mas também não é desconhecido ou estranho, o que às vezes acontece em um show de jazz. Portanto, o tango ia dar um toque especial ao show, do tipo "momento exótico". Você se lembra de quantos shows de MPB você foi e que tinham um tango? Poucos né. Mas aposto que, se tinha um tango, você se lembra.
Regina Dias - voz; Murilo Barbosa - piano; Tiago Carreri - violão; Fabiano Nunes - contrabaixo; Marquinhos Froco - bateria.
24 novembro 2009
O trumpete de Bidinho
Bidinho
Neste ano dei uma guinada na minha vida e decidi finalmente tornar-me músico profissional, mesmo sabendo que ganhar dinheiro tocando boa música é cada vez mais difícil. A grande sorte que tive neste ano foi poder tocar quase semanalmente no restaurante Os Ciprestes, em Ribeirão Preto (SP), acompanhando a cantora Bia Mestrinér e o trumpetista Bidinho.
Bidinho é um veterano da música - seu nome está no dicionário Cravo Albin de música brasileira, é mole? -, com ampla experiência musical com grandes nomes da MPB como Gal Costa, Elis Regina, Chico Buarque, Caetano Veloso, MPB-4, e Barão Vermelho. Ele concorda comigo quando o assunto é viver de música: "Você tem que topar o que aparece, fazer todo o tipo de trabalho, mas se você é bom, os caras bons vão te chamar pra tocar", diz ele, do alto de seus mais de 40 anos de carreira musical.
Começou tocando saxofones na orquestra de seu irmão, Amir Spínola, no interior de São Paulo, passando por diversas formações como a Orquestra Nélson de Tupã, Orquestra Laércio de Franca e News Boys. Natural de Pontal (30 km de Ribeirão Preto), mudou-se para o Rio de Janeiro em 1975, onde trocou os saxes pelo trompete.
Depois de anos no mercado fonográfico, voltou em 2006 para sua cidade natal e atua na noite ribeirão-pretana. E eu tenho o orgulho de poder acompanhá-lo todos os sábados tocando standards de jazz, bossas e música brasileira, juntamente com Paulinho Vieira na bateria e Zé Pereira no baixo. No último dia 14 de novembro gravei nossa apresentação usando um gravador Zoom H4n, stereo, 44,1Mhz/16 bit. O som ficou legal, então disponibilizo aqui algumas faixas para vocês escutarem este ícone do trumpete brasileiro.
Look to the Sky (Tom Jobim)
Cantaloup Island (Herbie Hancock)
20 julho 2009
Piano e violão, uma nova aventura

Algumas gigs eventuais podem dar origem a trabalhos mais sólidos. Foi o que aconteceu comigo ao tocar com o guitarrista são-carlense Thiago Carreri , que me convidou para fazer um som com ele em um coquetel. O contratante pediu músicas na linha César Camargo Mariano & Romero Lubambo, assim como alguém pede gelo e limão na coca-cola. Numa segunda-feira, pra tocar na quarta. Num estalar de dedos, assim, fácil. Como ele é meio louco e eu também, topamos o desafio.
Quem já ouviu as gravações da dupla, inclusive em DVD, sabe que de fácil a tarefa não tem nada. César Camargo dosa a expressividade de cada nota do piano, deixando os sambas mais ardentes de Djavan com cara de cool jazz, mas sem perder uma gota de suíngue. Ou reencontra a chama latina de um standard de jazz americano aplicando-lhe alguma síncope de samba. Redistribui o ritmo, desdobra o andamento, e às vezes o dobra, mistura boogie-woogie com partido alto e obtém um resultado surpreendente, que destaca o fraseado limpo e refinado do violão de Romero Lubambo. Dois mestres tocando juntos, recriando temas de jazz, sucessos da MPB e também composições próprias com as belas e amadeiradas tintas harmônicas de seus instrumentos, ambos de cordas.
Apesar de parecer simples e despojado, o dueto de piano e violão pede alguns cuidados. São dois instrumentos praticamente completos, que disponibilizam, sozinhos, múltiplas possibilidades de ritmo, melodia e harmonia. Imagine se combinados. Percebi isso quando sentamos, eu e Thiago, para o primeiro (e único) ensaio. Quem toca o tema? Quem acompanha o quem? Entrar de sola no samba ou fazer uma exposição em rubato? Usar os timbres mais agudos ou explorar os graves - pra não embolar tudo na região média, onde tanto o piano como o violão têm ótimo rendimento? Melhor deixar as dúvidas de lado e começar logo a tocar, e ver o que acontece. E não é que resultou em um ótimo dueto?
A expressividade é a marca do trabalho. Após buscarmos um repertório leve, bem brasileiro, mesclado com standards de jazz e sucessos da MPB, passamos a desenvolver uma história - um pequeno arranjo - pra cada um deles. Thiago é muito sensível e improvisa com ótimo senso de espaço, respirando entre frases, aproveitando cada deixa do acompanhamento para responder com um novo motivo. E sabe o momento certo de deixar de ser o solista para acompanhar o solo de piano, mudando para as regiões mais graves do violão. Isso permitiu um instantâneo entrosamento, criando um senso de cumplicidade entre os sons que transmite a alegria de cada acorde, a felicidade das notas certas, a gratidão pelas deixas provocativas que cada um lançava sobre o outro. Apesar de bem livre, o som tinha melhor acabamento que um simples jam session.
Durante a apresentação no coquetel, que aconteceu no SESC São Carlos, o técnico de som disse que ia tentar gravar com um aparelho de MD (Mini-Disc) que ele tinha sobrando, mas não demos muita bola. No final, ele nos entregou o disquinho, com quase 2 horas de som. Pra nossa surpresa, o áudio ficou muito bom. Um ótimo bootleg (termo utilizado pelos audiófilos para nomear gravações feitas ao vivo, sem a qualidade ideal de um estúdio móvel).
Divido com vocês essas 13 músicas, disponíveis para download (podem copiar e distribuir à vontade, contanto que citem a fonte), com todos os defeitos e virtudes que apresentam. Os defeitos, claro, estarão sempre presentes em trabalhos fechados assim de última hora, sem muito ensaio (é só notar como alguns temas como "A Paz" e "Tristeza do Jeca" apresentam algumas "notas na trave" bem aparentes). Nem se compara ao feito de CCM & RL. Mas também as virtudes se destacam, como a máxima espontaneidade dos improvisos, as inesperadas rearmonizações, algumas dinâmicas muito expressivas, que mostram que os músicos estavam se provocando, se comunicando, descobrindo juntos as possibilidades do novo trabalho.
A paz (João Donato)
All Blues (Miles Davis)
As rosas não falam (Cartola)
Chovendo na Roseira (Tom Jobim)
Encontros e Despedidas (Milton Nascimento/Fernando Brant)
Fotografia (Tom Jobim)
In a Sentimental Mood (Duke Ellington)
Nanã [Coisa n 5] (Moacir Santos)
Samba de uma Nota Só (Tom Jobim)
Stella by Starlight (Victor Young)
The Nearness of You (Hoagy Carmichael)
Tristeza do Jeca (Angelino de Oliveira)
Watermelon Man (Herbie Hancock)
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