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01 março 2011
ETC & Jazz - Programa 21
Esse programa foi ao ar no dia 15/2 e tinha um set list variadíssimo, já é a marca do ETC & Jazz. Johnny Alf com sua voz e piano de veludo, Sonny Rollins com seu sopro de diamante, o vigoroso Chris Potter com trio, cordas e sopros, a trumpetista Ingrid Jensen fazendo homenagem a John Coltrane, o lirismo da dupla Marc Copland e Gary Peacock além do suíngue latino de Gonzalo Rubalcaba. Atendendo ao pedido do baterista Fábio Farinha, lá de Londrina, tocamos ainda "African Skies", dos irmãos Brecker. Ouça direto no player acima ou baixe aqui.
26 maio 2010
A volta do romântico
Keith Jarrett (1945, Allentown, EUA) é um pianista cuja assinatura musical é o toque romântico, sutil, extremamente suingado e elegante. Sua interpretação é sempre delicada, destacando nuances jazzísticas em sua divisão, recriando os temas e sugerindo novos caminhos harmônicos com inteligência e extrema criatividade.
Jarrett é lírico. Seus improvisos sempre contam histórias simples, melodiosas, que se tornam complexas mas não herméticas. É sua alma que soa. E sua capacidade de envolver a música é tão marcante que ele chega a fazer isso com o próprio corpo. São notórias as apresentações ao vivo do artista, em que ele se contorce, levanta, debruça-se sobre o teclado, cantarolando e gemendo durante os solos.
Mesmo com tamanha entrega e superexpressividade, o som de Jarrett resulta paradoxalmente cristalino, de timbre impecável, coberto de texturas harmônicas sedosas que se sobrepõem às frases absolutamente límpidas de sua mão direita. Muitas vezes a extrema velocidade com que toca faz com que as notas soem ainda mais nítidas, quando se esperava que saíssem atropeladas.
Sempre muito exigente quanto à qualidade de seu som, Jarrett não toca em qualquer piano: tem que ser Steinway & Sons, de fabricação alemã (ultimamente o músico tem preferido o som dos Steinways americanos, e mandou modificar todos os martelos do piano que tem em seu estúdio caseiro). Também exige máximo silêncio da platéia, e já mandou parar concertos porque muitos espectadores tossiam na sala.
Jarrett superou uma doença que quase fez com que parasse de tocar. Em 1996, foi diagnosticado portador da Síndrome da Fadiga Crônica (SFC), que o deixava exausto só de pensar em música. Incapacitado para tocar, encontrou a cura dois anos depois e lançou um disco solo com canções simples que gravou durante o período de recuperação. Desde então, voltou a produzir e já lançou vários discos com seu célebre Standards Trio (Jack DeJohnette na bateria e Gary Peacock no baixo). Deixo aqui o link para "Yesterdays", lançado em 2001, gravado ao vivo no Japão. A receita é a mesma: o pianista reinventa grandes temas do jazz e do cancioneiro americano ao seu estilo "romântico". Detalhe: a última faixa, "Stella By Starlight", resultou da passagem de som de um outro concerto, realizado dias antes.
Keith Jarrett - Yesterdays (2001)
1.Strollin' (8:12); 2.You Took Advantage Of Me (10:12); 3.Yesterdays (8:55); 4.Shaw'nuff" (6:10); 5.You've Changed (7:55); 6.Scrapple From The Apple (9:01); 7.A Sleepin' Bee (8:17); 8.Intro / Smoke Gets In Your Eyes (8:47); 9.Stella By Starlight (8:04)
Jarrett é lírico. Seus improvisos sempre contam histórias simples, melodiosas, que se tornam complexas mas não herméticas. É sua alma que soa. E sua capacidade de envolver a música é tão marcante que ele chega a fazer isso com o próprio corpo. São notórias as apresentações ao vivo do artista, em que ele se contorce, levanta, debruça-se sobre o teclado, cantarolando e gemendo durante os solos.
Mesmo com tamanha entrega e superexpressividade, o som de Jarrett resulta paradoxalmente cristalino, de timbre impecável, coberto de texturas harmônicas sedosas que se sobrepõem às frases absolutamente límpidas de sua mão direita. Muitas vezes a extrema velocidade com que toca faz com que as notas soem ainda mais nítidas, quando se esperava que saíssem atropeladas.
Sempre muito exigente quanto à qualidade de seu som, Jarrett não toca em qualquer piano: tem que ser Steinway & Sons, de fabricação alemã (ultimamente o músico tem preferido o som dos Steinways americanos, e mandou modificar todos os martelos do piano que tem em seu estúdio caseiro). Também exige máximo silêncio da platéia, e já mandou parar concertos porque muitos espectadores tossiam na sala.
Jarrett superou uma doença que quase fez com que parasse de tocar. Em 1996, foi diagnosticado portador da Síndrome da Fadiga Crônica (SFC), que o deixava exausto só de pensar em música. Incapacitado para tocar, encontrou a cura dois anos depois e lançou um disco solo com canções simples que gravou durante o período de recuperação. Desde então, voltou a produzir e já lançou vários discos com seu célebre Standards Trio (Jack DeJohnette na bateria e Gary Peacock no baixo). Deixo aqui o link para "Yesterdays", lançado em 2001, gravado ao vivo no Japão. A receita é a mesma: o pianista reinventa grandes temas do jazz e do cancioneiro americano ao seu estilo "romântico". Detalhe: a última faixa, "Stella By Starlight", resultou da passagem de som de um outro concerto, realizado dias antes.
Keith Jarrett - Yesterdays (2001)
1.Strollin' (8:12); 2.You Took Advantage Of Me (10:12); 3.Yesterdays (8:55); 4.Shaw'nuff" (6:10); 5.You've Changed (7:55); 6.Scrapple From The Apple (9:01); 7.A Sleepin' Bee (8:17); 8.Intro / Smoke Gets In Your Eyes (8:47); 9.Stella By Starlight (8:04)
03 abril 2009
A primeira paulada a gente nunca esquece

Fuçando entre CDs, sozinho em casa, tentando organizar o arquivo musical, lembrei de quando passei a ser um comprador frenético de discos na adolescência. O dinheiro que ganhava aos quinze anos, quando eu já tocava teclado em jantarzinhos fajutos a troco de nada, era todo "aplicado" na criação do acervo.
Entre tantas escolhas disponíveis num mercado recém-aberto às importações (eram os anos 90 pós-Collor), eu ainda não sabia direito o que era jazz mas queria sentir o gosto da fruta. Foi então que passei por uma prateleira do Carrefour e vi um objeto que me encantou. Aquilo parecia traduzir meu abstrato conceito de música improvisada até então.
Com o título "Live in Montreaux", a capa do CD trazia uma ilustração estilizada de quatro músicos em círculo, a postos em seus coloridos instrumentos - um piano de cauda azul, um inédito baixo acústico branco, uma bateria dourada - além de um sax tocado por um corpulento corcunda, todos sobre um improvável palco amarelo cuja boca de cena dava para um vermelho infinito.
À parte o detalhe de que eu não conhecia o nome de nenhum dos quatro músicos ao lado do título, tinha a impressão de que tudo o que eu quisera saber sobre música e não conhecia poderia me ser mostrado por aquela pequena caixinha, disponível por 14,99 reais (uns cinquenta reais hoje), encapada naquele esquisito design "chique para as massas", em uma época onde ainda achávamos que CD era uma tecnologia alienígena (minha família tinha comprado um CD player a menos de um ano, e eu já estava ali querendo ouvir coisas sofisticadas e caras, que moleque abusado, agora só faltava essa, um esteta, um conoisseur, dentro de casa).
Ainda me lembro de enfiar o disco na gavetinha do três-em-um Sony (que durou uns bons 15 anos após passar pelas mãos de três adolescentes). A primeira faixa só continha aplausos e uma apresentação dos músicos pelo diretor musical do Festival de Jazz de Montreaux, Claude Nobs. Então começou um som despretensioso, os instrumentos entrando devagarinho, como se estivessem aquecendo os dedos. O piano de Chick Corea, dedilhado de uma maneira monkiana e pós-moderna, deu os acordes iniciais de "Hairy Canary", uma intrincada melodia cromática que foi tocada em uníssono logo em seguida por toda a banda. O som áspero e pungente do sax de Joe Henderson deu um choque de 10 mil volts no meu cérebro. Quando o baixo e a bateria entraram junto, fiquei tonto. Nunca havia ouvido nada parecido.
Era uma paulada atrás da outra. Eu estava sendo "massacrado" por aquela energia estranha, azul, densa, quente, numa noite de quinta-feira que mudou minha vida. A terceira faixa, "Folk Song", me conquistou pela latinidade embutida nas harmonias dissonantes de Corea e no ritmo inteligentíssimo do baterista Roy Haynes, que sabe conduzir e quebrar o swing de cada tempo como um verdadeiro melodista na percussão. Fiquei tão profundamente encantado pela melodia que persegui por anos a fio essa partitura para tentar entender o que deixava aquele tema tão alegremente triste. Depois de encontrá-la transcrita na internet, não saiu mais do meu repertório.
Longas palmas. Em seguida, a introdução de "Psalm", só de piano, fez desmoronar tudo o que eu sabia de teclado. Com virtuosismo criativo, Corea fica mais de quatro minutos em um universo paralelo em que mistura timbres e tintas harmônicas, ataques de meio-pedal e legatos, escalas e clusters de notas duras, modos frígios e acordes politonais, até repousar novamente no riff de introdução do tema, uma valsa de melodia sofisticada, baseada na harmonia quartal (outra novidade pra mim até então, que não fazia nem idéia de que se podiam montar acordes com notas dispostas em outros intervalos que não terças). Uma aula de hard-bop.
O tema complexo de "Trinkle Twinkle" (do mestre Thelonious Monk) permaneceu inalcançável pra mim ainda alguns anos depois daquela primeira audição. O baixo de Gary Peacock rodeia algumas notas do tema junto com o piano e o sax, acompanhando o conjunto sem deixar de conduzi-lo, redesenhando o papel do baixista dentro de uma formação, onde geralmente o instrumento só faz um "dum-dum-dum-dum" por trás da harmonia e melodia. Um gênio, de som encorpado e preciso.
Ouvi o disco inteiro em uma sentada só. Cole Porter, solos de bateria e uma balada ainda se seguiram, mas eu já estava nocauteado. Demorei anos pra curtir aquele disco inteiramente, me deliciando com a fluidez daquela música, decorando cada solo, entendendo como a interação do grupo é tão importante como o destaque individual do solista. São camadas sobrepostas de intenções, dinâmicas, tensões, disposições, onde não importa muito o que se está fazendo, e sim como se está fazendo.
Ouvir como cada músico estimula e é estimulado, como age e como reage, até o ponto em que se diluem os conceitos tradicionais de autor, composição, ritmo, melodia e harmonia e só se ouve a criação, pura e concreta, realizada enquanto é sentida, pensada enquanto é posta em prática - esse é o grande prazer que aprendi ao descobrir o jazz com "Live in Montreaux". Mesmo que tenha sido na porrada.
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