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27 janeiro 2012

O jazz e a competição musical





















Um aspecto importante da sociedade norteamericana é a competitividade, na qual homens e mulheres têm que provar que conquistarão o mundo com seu trabalho duro, talento e dedicação, e honrarão a "terra dos bravos e da liberdade" mostrando que são os melhores em suas áreas. Há os winners e os losers. Vencer é a meta. Todos escolhem seu alvo, cada um em sua área, e saem todos em busca do objetivo. A criança é colocada na melhor escola, para que possa ter as melhores notas no SAT (exame igual ao Enem) e poder entrar na melhor faculdade, que os pais terão de pagar com economias que fizeram a vida toda pensando na educação do filho - afinal, é assim que se cria vencedores.

No processo educacional, mais competição. Competem para ver quem será a rainha do baile, quem será o presidente do grêmio estudantil, quem é o mais popular, quem soletra melhor, quem vende mais chocolates na gincana. As escolas competem para definir quem tem o melhor time (de vários esportes), quem tem a melhor equipe de cheerleaders, quem tem a melhor banda. Sim, há educação musical nas escolas, que eventualmente formam bandas, que sempre competem. Competição musical.

O filme "Drumline" (EUA, 2002, Charles Stone III), ao qual assisti dia desses numa sessão da tarde (sim, janeiro é meio parado para a música então, que diabos!, assisti mesmo), mostra bem esse clima de disputa que há na música no meio escolar. Traz cenas incríveis como essa abaixo, onde as bandas de duas faculdades se desafiam num duelo de baquetas. As coreografias e a sincronicidade são incríveis, mas há músicos que dizem que, na vida real, essas bandas fazem coisas ainda mais impressionantes do que o filme mostrou. Mas vale a pena conferir:


Nos EUA, os músicos do jazz passam por esse processo tentando ingressar em boas escolas, fazendo provas para ganhar bolsas de estudo em instituições como New England Conservatory, Berklee, Julliard. Estudam para ganhar concursos de saxofone, piano, guitarra, violino, performance, etc. Portanto, jazzistas - em sua maior parte - são resultado da soma de talento, um ambiente positivamente carregado de música, e competitivade.

Juntando talento nato e muito, muito trabalho duro, o estudante de música têm ao seu dispor inúmeras escolas, bandas e cursos de verão para aprimorar seu talento. Oportunidades disponíveis, concorrência dura, esperando a livre-iniciativa dos candidatos ao sucesso: é a própria essência do capitalismo industrial, a mão invisível do mercado exercendo a seleção "natural" e separando os bons dos muito bons, onde vencem os dedicados - típicos "self-made man" da música, que constroem suas carreiras artísticas à custa de muito sacrifício e trabalho. 

Após enfrentar anos de estudos, inúmeros testes, provas e audições, horas e horas de prática, ensaio e preparação, o jazzista está pronto. Ironicamente, uma das artes mais livres e espontâneas depende de uma disciplina estrita e compromissos sérios com grades curriculares e notas. Para os jazzistas, principalmente os que surgiram desde os anos 80, quando explodiu o número de escolas de jazz e performance nos EUA, estar no palco de um jazzclub é, em grande parte, receber os louros pela vitória que conquistaram antes de estar ali.




19 novembro 2011

Afinal, quem é o mestre?


 Vi o violonista Robson Miguel pela primeira vez há alguns anos, dando entrevista para o Jô Soares. Ele chamava a atenção da platéia por conversar com o Jô ao mesmo tempo em que tocava, sem parar de falar nem de tocar. Autodenomina-se "mestre" das cordas dedilhadas. Eu nunca vi mestre algum - de verdade - se chamar de mestre.

O cara mora num castelo cheio de troféus e prêmios em sua homenagem. Diz que o construiu para lembrar das origens do violão, que "apareceu nos castelos da Europa", "sendo tocado para reis e rainhas". Robson Miguel gaba-se de ocupar a primeira posição no "ranking mundial de violonistas", de acordo com um certo Círculo Guitarrístico Europeu.

Miguel se mostra mesmo muito virtuoso ao instrumento. Toca com velocidade, exuberância, com muitas firulas, emendando uma atrás da outra. Mais parece um prestidigitador musical. De uns dias pra cá, as façanhas musicais do violonista vêm sendo questionadas por internautas em grupos de discussão na web. Tudo começou quando alguém mais atento ouviu algo estranho na videoaula "O Jazz em suas mãos", DVD lançado por Miguel.

Vejam esse trecho onde o "mestre" dá dicas para improvisar no tema "Summer Night" (Aaron Gardner). Com apenas alguns segundos, percebemos que trata-se de dublagem, pois seus movimentos e o de seus acompanhadores não estão totalmente sincronizados com o som (e não é problema de atraso, note que o baixista simplesmente não sabe os breaks e a linha de condução).



Mas isso não é o pior. Saibam que, apesar do "mestre" dizer que vai ensinar como "buscar a improvisação dentro de um mesmo acorde", este solo não é uma improvisação dele, Robson Miguel, e sim do grande guitarrista (esse sim, mestre) Joe Pass. A gravação é do disco "Summer Nights" (Pablo), de 1989. Podem checar na gravação abaixo: Miguel baixou o andamento e o tom da gravação e simplesmente dublou a performance. E não esclarece que se trata de um solo que não é dele - pelo menos no vídeo.




Logo a suposta "fraude" se espalhou entre músicos em redes sociais. Antes de simplesmente postarmos os vídeos aqui, nosso blog enviou um email à produção de Robson Miguel. A resposta veio rápida, gentil e - inesperadamente -  positiva. A produção do "mestre" informa que sim, o solo do vídeo é realmente de Pass e que, sim, está sendo dublado. Segundo o email, o "mestre" teria feito isso a pedidos de alunos para que pudessem ver uma transcrição do solo de Pass sendo tocada, para facilitar o aprendizado. E diz ainda que no próprio Youtube consta a informação de que "o Mestre Robson Miguel com seu Grupo de Jazz apresenta uma improvisação do grande guitarrista Joe Pass sobre o tema "Summer Night" (de Aaron Gardner) do seu curso em DVD O JAZZ EM SUAS MÃOS". Ou seja, confirma que realmente trata-se de uma dublagem.

O assunto rendeu - e rende ainda - muita discussão na internet, por isso já apareceram outros vídeos "suspeitos". Um outro link mostra toda uma big band dirigida por Robson Miguel dublando um arranjo do violonista virtuose Earl Klugh para "Take it from the top".



O original é esse aqui, do disco "Wishful thinking", de 1984.



A big band tocou o mesmo som, o solo saiu igualzinho. Mas vale perguntar como isso foi possível, já que nem baixo acústico tem na banda de Robson Miguel, e esse é o som que ouvimos na gravação. Talvez nem precisemos esperar a confirmação da produção do "mestre" de que, sim, trata-se de dublagem.

A única dúvida que resta mesmo é quem é o mestre. Pois tocar como Joe Pass ou Earl Klugh já seria suficiente para garantir o título a qualquer músico. Dublá-los é apenas macaquice. Mas peço aos leitores deste blog que não se deixem levar pelos fatos: perguntem ao tal Círculo Guitarrístico Europeu o que acham do "primeiro do ranking" dublando uma gravação de um simples guitarrista que nem se enquadra em ranking nenhum...

08 novembro 2011

Tempo pra música












Não tá dando tempo pra escutar música. Entre um trabalho e outro, entre uma esfiha e outra de almoço, entre uma noite mal dormida e uma manhã de ensaio, não há tempo pra outra coisa senão respirar. Vida dura? Não sei, talvez a vida seja mais dura ainda com quem nem tem a consciência de que não tá dando tempo pra ouvir música. Esse pessoal sim, sofre.

Esse pessoal - uma maioria esmagadora da população mundial - se acostumou tanto a comer as migalhas de música que ocupam todos os pequenos espaços do cotidiano que não sabe mais diferenciar carniça de filé mignon. Na algazarra dos sons que batem na porta do ouvido a todo instante, feliz é aquele que pode tomar uma cervejinha ouvindo o CD de hits em mp3 que comprou pessoalmente na banca do camelô por R$ 10 a dúzia. Graças dão a Deus por conseguem arrumar um tempo pra ligar o radinho enquanto lavam o carro na calçada de manhã. Dão vivas por terem comprado um ingresso na internet pra levar a filha no show do Justin Bieber. Oxalá a loja dê lucro e eles consigam viajar no final do ano com a nova Tucson equipada com home-theater, assistindo o último DVD da Ke$ha. Ou do Luan Santana. Ou do Michel Teló. Esse pessoal merece mesmo a felicidade.

Esse pessoal não tem nome, classe social, cor, nada disso. Esse pessoal tem em comum apenas o fato de não ter tempo pra curtir a vida e descobrir toda a música que há por aí. Esse pessoal, pelo pouco tempo que tem, tem apenas tempo pra se enganar. O operário se contenta com seu churrasquinho de fim de semana regado à música sertaneja; o office-boy se sente a última bolacha do pacote porque conseguiu baixar no computador da firma uma coletânea de funk carioca; o gerente da mesma empresa já planeja estrear o novo som do carro no happy-hour de sexta, tocando sua coleção de DJs dos melhores night-clubs da Europa em plena praça ou em algum posto de gasolina; o universitário se alegra com a festa na república na "semana do saco cheio" regada ao último sucesso de alguma dupla de "sertanejo universitário"; o dono da confecção se delicia com a voz doce de Paula Fernandes na festa de aniversário das crianças, enquanto a mulher do dono da confecção arrisca uma coreografia da Claudia Leitte no fim da festa.

Eu tô triste por não ter mais tempo pra música. Mas e esse pessoal, como é que faz?

16 setembro 2011

A vida anda e a preguiça também




















Este blog não está sendo atualizado por pura preguiça. Preguiça do mundo. Preguiça da internet. Preguiça de fazer login. Preguiça de estar conectado. Preguiça de estar atualizado. Preguiça até de coisa boa, como ouvir novos discos, pesquisar novos lançamentos, redescobrir velhos CDs. Preguiça de me perder nos sons.

Preguiça de informação. Preguiça de fatos inúteis, como saber que Gerard Depardieu urinou no corredor de um avião. Preguiça dos fatos tristes, como lembrar que Joe Morello morreu nesse ano. Preguiça dos fatos que importam na música, como ouvir falar quem é a última nova grande estrela do jazz americano de acordo com a Downbeat (o trumpetista Ambrose Akinmusire foi o escolhido), ou de ouvir o bootleg da apresentação do Trio Corrente com Paquito d'Rivera, ou de ouvir o solo que Seamus Blake fez no disco de um grande guitarrista brasileiro em ascenção, Oliver Pellet.

Preguiça dos livros. Preguiça de ler em "O triunfo da Música" (Companhia das Letras, 2011, 424) que Mozart foi despedido por seu patrão príncipe a pontapés - mostrando que músico sempre foi uma profissãozinha ingrata. Preguiça de discutir essa tal profissãozinha, com suas OMBs, currículos escolares obrigatórios e coletivos alternativos. Preguiça de discutir coisas sérias, como os debates sobre a nova lei de Direitos Autorais, ou de dar opinião sobre a chamada "crise" no MinC - deflagrada por gente que tem interesses mais do que culturais nos "eixos" das rodas artísticas desse País.

Preguiça da televisão, preguiça do rádio, preguiça dos shows - dos que fiz, dos que não fui, dos que tenho que fazer -, preguiça até do meu programa de rádio - que já foi reprisado nas últimas duas terças-feiras por pura preguiça de gravar os roteiros, que já estão prontos desde o mês passado. A preguiça me pegou nos últimos tempos. Me deu preguiça mesmo até de postar aqui um texto decente, ou coisa que o valha.

15 julho 2011

Músicos organizados contra OMB e pilantragem

Mais uma vitória de músicos de São Carlos contra a Ordem dos Músicos. A OMB tentou um golpe contra os profissionais da cidade nas últimas semanas, mas levou a pior. Um fiscal da dita "ordem", que sabe que não pode mais exigir carteirinha de músico pra ninguém, andou se dirigindo a donos de clubes, bares e cases noturnas com o seguinte argumento: se a fiscalização do Ministério do Trabalho trabalho aparecesse ali e os músicos estivessem tocando sem a nota contratual, poderia gerar uma multa trabalhista para o bar, pois estaria implícito o vínculo empregatício dos músicos com a casa.

Uma balela. Já há várias sentenças comprovando que a atividade musical não gera vínculo empregatício, pois caracteriza-se como prestação de serviço eventual. Além disso, já há três anos que uma ação civil pública protege os músicos residentes em São Carlos da ação da OMB, prevendo que os profissionais não precisam estar filiados a nenhuma ordem ou associação para exercerem sua atividade musical (a não ser para fins educacionais).

Sabendo disso, uma reunião organizada pelos músicos da cidade para conscientizar a todos dessas informações rendeu até matéria na TV. E pergunta se a OMB quis se manifestar...
 
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05 abril 2011

Novos talentos do jazz em festival





















São raros os incentivos a músicos dedicados ao jazz no Brasil, pois geralmente o estilo sofre preconceito - e duplo. Por um lado, jazz é considerado coisa de rico, cultura de burguês, modismo importado da elite - por isso não merece incentivos fiscais ou econômicos por parte de governo algum abaixo do equador, pois não se enquadra nas manifestações populares, comunitárias ou folclóricas que os dirigentes preferem apoiar com base na demagogia da "cultura popular legítima".

Por outro lado, o jazz é o primo pobre no meio musical brasileiro. Não é filho do mundo erudito, não é um clássico europeu que mereça alguma atenção dos conservatórios ou academias. E nem é parente da música popular brasileira, portanto está fora da "linha evolutiva" da MPB ou mesmo da música instrumental nacional  (mais dominada por choros, sambas, ritmos regionais ou hermetismos pascoais). Nacionalismo e preconceito juntos tornam quase impossível um bom instrumentista de jazz ser reconhecido no País, mesmo entre seus pares.

Mas há iniciativas que tentam mudar esse quadro. Uma delas é o Savassi Festival 2011, que revela novos talentos do jazz por meio de um concurso anual. Neste ano as bandas podem se inscrever até 10 de abril. Os 12 escolhidos farão parte do line-up e se apresentarão em shows realizados em São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. No ano passado, 85 bandas se inscreveram. Oito foram escolhidas, e o vídeo abaixo mostra quatro delas (Tiago Barros Quarteto, Drrovind Jazz, Diz que é Trio e Labanca).

13 janeiro 2011

O jazz em entrevista













Ontem, 12/01, eu e o baterista norte-americano radicado no Brasil Bob Wyatt demos uma entrevista na Rádio UFSCar (95,3 FM, São Carlos), no programa do gestor cultural, diretor de teatro e ex-cortador de cana Hélvio Tamoio (Programa Paracatuzum).



Entre perguntas vindas e ouvintes de Espanha, Alemanha, Holanda, Jaú e São Paulo, Bob contou sobre sua história musical, que começa em Baltimore (EUA), segue para Memphis, onde tocou blues, country e até funk com Isaac Hayes, e continua até se alistar na marinha, onde conheceu o jazz pelas big bands. Seguiu tocando aqui e ali, gravou um disco com muita dificuldade, até desembarcar no Brasil em 1981 onde tinha trabalho fácil em diversas casas que tinham boa música ao vivo. "Era impressionante, o eixo Rio-São Paulo tinha muito lugar pra trabalhar, bem diferente de hoje".

Na entrevista falamos também, obviamente, sobre jazz - assunto que Bob domina muito bem, sendo coordenador da área de música popular do curso de música da Faculdade Cantareira -, sobre a profissão da música, sobre estética musical, e também um pouco sobre o grupo Sancajazz, que formamos com o Bob aqui em São Carlos - os ensaios começam nessa semana com repertório novo, trocando os tradicionais standards por composições próprias.

Pode-se ouvir a entrevista no player acima ou baixar o programa aqui.

27 setembro 2010

Independentes no jazz

Espalhem aos músicos, produtores e selos de jazz e música instrumental: , além dos sons dos mestres já consagrados do jazz, o programa ETC & Jazz, semanalmente transmitido pela Rádio UFSCar (terças, 22h), também divulga o trabalho de novos artistas e músicos independentes. Mandem arquivos digitais, CDs e material escrito. As próximas edições do programa já vão mostrar músicas do baterista Bobby Wyatt, do trio Sui Generis e do guitarrista são-carlense Thiago Carreri.

Contato: etcjazz@gmail.com

29 junho 2010

O paradoxo do bar com música ao vivo















O papel da música na sociedade mudou. As mudanças culturais e tecnológicas transformaram a experiência musical. Se antes só havia música em ocasiões ritualísticas ou comunitárias, onde ela ocupava lugar central – ritos sagrados em torno de uma fogueira, noites de viola e causos, concertos em cortes ou teatros, bailes populares, festas típicas, reuniões em botecos, capoeiras, carnavais – hoje a música disputa espaços cotidianos onde ninguém pensaria em ouvi-la: estações de metrô, esquinas de cidades, palcos improvisados em shopping centers, mezzaninos de padarias, portarias de prédio, supermercados e... bares.

O leitor pode estranhar a inclusão dos bares entre os estabelecimentos considerados “amusicais” que hoje abrigam manifestações musicais, mas há uma razão simples para tal classificação: bar é lugar de encontro, não de música. De encontros musicais às vezes, sim, mas apenas algumas vezes. Alguém trazia um pandeiro, um violão, um acordeon, ou tinha um bom cantor que se exibia para as outras mesas, mas nada planejado. Tinha um piano no canto esperando por um tocador. Via de regra, bar é lugar para consumir bebidas e jogar conversa fora, e tudo o mais que acontecer a partir daí. Música no bar costumava ser consequência de um encontro – entre uma conversa e outra, surgiam as afinidades para tocar, as disposições para ouvir. E pronto.

A sistematização desses “encontros” musicais pelos bares gerou a demanda pela contratação de artistas para se apresentar regularmente – pianobares, por exemplo. Novos palcos para os artistas, novos espaços disponíveis para o público. Mas o modelo “bar com música ao vivo” se banalizou, e levou a uma situação lamentável: clientes que entram no bar e não sabem quem está tocando, e artistas executando o mesmo repertório que já ouvimos em outro bar na semana passada. Ao invés de acontecer uma retomada das velhas formas de se vivenciar a música – como artigo de ritual, de celebração, de senso de comunidade -, o bar promoveu apenas a música como um produto, um acessório na noite, assim como serviço de manobrista. O encanto do encontro da arte com a platéia já não existe.

Só há música se alguém escuta. No bar, alguém realmente escuta alguma coisa que não seja a conversa? O modelo “bar com música ao vivo” surgiu de um equívoco, pois os bares abandonaram o conceito de show. O show é um momento mágico, em que a arte nasce a partir de uma confluência de disposições, interesses comuns, trocas. Para ser mágico, o show precisa ter um contorno. Um início, um meio, um fim – o que significa que tem que ter roteiro, produção, estrutura, senão não tem força, não tem fôlego.

Pra começar, a maioria dos bares não tem palco. Quando tem, não tem som (o artista leva). Se tem som, não tem luz (e o artista não leva porque não tem dinheiro pra bancar essa produção). E quando tem tudo isso, o bar não coloca nem uma placa na frente para informar aos clientes o que vai acontecer por ali. O artista sobe no “palco” e tem que se virar para chamar a atenção. O show começa com total desconhecimento da platéia, e o único recurso pra chamar a atenção é aumentar o som do P.A. Mas também não pode, porque atrapalha a conversa e incomoda os vizinhos do bar.

O paradoxo começa: músicos tocando alto, platéia conversando mais alto. Ninguém se escuta. No final saem todos infelizes com o resultado, pois tem gente que sai do bar sem pagar – alegando que não foi ao bar pra ouvir música, e sim pra comer ou beber – e o músico vai embora sem ouvir nem um aplauso, porque teve que impor sua música aos ouvidos dos clientes, sem conseguir estabelecer empatia nem com o garçom.

Sou contra a música ao vivo? Negativo. O que precisa mudar urgentemente é o formato desse tipo de apresentação. Afinal, todos os músicos têm o objetivo de vender sua música e receber reconhecimento, assim como os bares querem agradar seus clientes e oferecer novidades. O que falta é arriscar novos modelos. Infelizmente, o público ainda suporta as apresentações “meia-boca”, por isso os donos de supermercados, shoppings, padarias e bares não investem em outros tipos de apresentação musical mais séria em seus estabelecimentos. E nem os músicos mudam sua postura. Tudo segue meio “acochambrado”, limitado a esse paradoxo do “eu finjo que toco e vocês fingem que escutam”, banalizando a arte, desrespeitando o público, ignorando a música.

* publicado no dia 24/6, na coluna ETC&Jazz do caderno de cultura Moitará, da Folha de São Carlos.

21 junho 2010

Couvert artístico: cliente paga, músico não recebe



Um bar é um local de convivência, sociabilidade, confraternização, encontro. Para se diferenciar, alguns deles preferem atrair clientes com o música ao vivo. Isso acontece há anos. Mas já faz tempo que os músicos estão muito insatisfeitos com a remuneração que recebem, devido à mudança na forma como os bares vêm pagando (ou não) os profissionais.

Em um primeiro momento, um bar que quisesse ter um músico tocando ao vivo tinha que pagar um cachê. Há inclusive sindicatos que estabelecem uma tabela para esses valores. Com o passar dos anos, o cachê foi ficando “caro” para os bares, e surgiu um tipo de remuneração diferenciada, chamada “couvert artístico”. Nesse tipo de cobrança, o dono do bar não paga o cachê, mas recebe dos clientes um valor pequeno que é destinado exclusivamente para o músico. Ou seja, quanto mais gente no bar, mais o músico ganha (e também o dono do bar, pois é maior o número de clientes).

Na teoria, funciona assim: os bares ganham um ar diferente, conseguem emular assim um clima de uma casa de shows, criando um novo “apelo” para chamar clientes, enquanto os artistas conseguem ampliar o alcance de seu trabalho, divulgando seu nome para um público seleto e com o qual pode interagir. Uma parceria que funciona para os dois lados.

Porém, esse modelo de negócio se deteriorou ao longo dos anos, por inúmeros motivos: concorrência entre bares, concorrência entre músicos, etc. Por isso, os bares passaram a praticar um novo tipo de cobrança: exigem o valor dos clientes, mas não repassam para os músicos – pagam, obviamente, um cachê menor do que o valor arrecadado. Uma “esperteza” possibilitada pelo extremo estado de desorganização dos músicos, que já não sabem mais quais são seus direitos e como exigi-los. Mas a situação também é permitida pela desinformação dos clientes, que não sabem que estão pagando para encher o bolso do dono do bar, e não do músico.

Couvert artístico é como se o músico “passasse o chapéu” entre os clientes com a permissão do dono do estabelecimento. É uma parceria, em que o músico atrai frequentadores para o bar, e ganha uma pequena gorjeta de cada um. É justo, portanto, que receba o valor integral.

Já há projetos de lei em alguns estados regulamentando a cobrança de couvert artístico, já que essa é uma forma de remuneração que altera inclusive as normas da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Na Câmara dos Deputados já tramita um projeto, aprovado na Comissão de Trabalho, Administração e Serviço Público, que disciplina a cobrança. Pela proposta, a contratação do músico profissional por parte dos bares poderá seguir dois modelos: existência de contrato de remuneração por horas de trabalho, ou contrato de remuneração variável, no qual o músico é ganha o valor integral pago pelos clientes que frequentarem o local durante a apresentação musical.

* publicado na coluna ETC&Jazz da Folha de São Carlos, no caderno de cultura Moitará, do dia 17/6.

21 maio 2010

Música e precariedade













Há algumas semanas atrás, um bar de São Carlos cancelou o show de uma banda da cidade poucos dias antes da data combinada para os músicos se apresentarem no local. Como foi desmarcado em cima da hora, a banda não teve a chance de marcar um novo show no mesmo dia em algum outro lugar. Ficaram sem tocar, sem a chance de mostrar o trabalho para os fãs, sem dinheiro no bolso.

O respeito a agenda é um direito que nem se cogita discutir em determinadas profissões. Se alguém cancela uma consulta médica na última hora, pelo motivo que for, tem que pagar a consulta. Na música, esse parece ser um direito não reconhecido. Tanto é que o episódio deu origem a uma troca de e-mails fervorosa entre vários músicos e profissionais da arte da cidade comentando o caso. “Não é a primeira vez que isso acontece”, “não é o único bar onde isso acontece”, “os músicos sempre perdem quando dependem de lugares pra tocar”, disseram muitos.

Há décadas que a atuação dos músicos em casas noturnas, bares e até mesmo festas particulares vem sendo cada vez mais marcada pela precarização das relações de trabalho. Os supostos contratantes dos serviços musicais parecem ter perdido a noção de que têm certos deveres como patrões.

Deveres básicos, como a simples garantia das condições materiais para a realização do show: tomadas elétricas devidamente posicionadas (vejam só, nem isso às vezes o músico encontra), equipamento de som funcionando, fornecimento de água e alimentação se necessário; compromisso com a realização da apresentação agendada e o cumprimento das condições de pagamento combinadas (se for couvert artístico, que o valor seja revertido integralmente aos músicos; se for cachê com base na entrada, que sejam transparentes na hora de fazer o “racha” da portaria).

Essa precariedade não é novidade no show business brasileiro. No livro “A Moderna Tradição Brasileira”, o sociólogo Renato Ortiz relata como as rádios, as televisões e o próprio mercado cultural tupiniquins se formaram nas décadas de 40 e 50 do século passado com base na improvisação, falta de profissionalismo e oportunismo.

Os artistas, sempre a postos para produzir e criar, conseguiram trabalhar e aprender muito nos novos empreendimentos culturais que surgiam (novidades como a criação de jingles publicitários, atuação em “filmes sem imagens” para rádio (!), adaptação de roteiros de teatro para a então recém-chegada televisão), mas também ficaram sujeitos a negociações salariais incertas, contratações irregulares, demissões sem justa causa. A “modernidade” da então emergente e poderosa burguesia brasileira contrastava com as tradicionais práticas paternalistas na relação patrão-empregado.

Hoje ainda é assim, mas já houve avanços. Nos grandes centros, a grande maioria dos artistas minimizou os efeitos maléficos do predatório mercado de trabalho da cultura com a criação de sindicatos e entidades de classe, que tentaram preservar os direitos mínimos dos trabalhadores, criando uma cultura de respeito ao artista. Tabelas de preço mínimo para determinados serviços, definição das atribuições de contratantes e contratados, clareza nas condições de pagamento, respeito a condições de trabalho, com um mínimo de segurança jurídica.

É lógico que isso não criou uma classe extremamente sindicalizada ou unida – aliás, muitos artistas nem conhecem seus respectivos sindicatos representantes – mas isso forçou o reconhecimento da existência desses trabalhadores da cultura, com direitos a serem garantidos. Direitos que nem se discutem, como o direito de ter a agenda respeitada, por exemplo.

*publicado na Folha de São Carlos, no dia 20/5, na coluna ETC & Jazz do caderno de cultura Moitará

30 abril 2010

Músicos, a ordem é: "liberdade!"












Por muitos tempo, ignorei-a. Mas a partir do ano passado, não pude mais. A OMB - Ordem dos Músicos do Brasil - passou a ser um problema, um entrave, um obstáculo na minha vida. Comecei a atuar profissionalmente na música desde 2009, após mais de 18 anos tendo-a apenas como hobby ou atividade secundária. E então surgiram convites pra tocar em SESCs, onde há certos procedimentos contratuais mais complexos. Um dos documentos pedidos é o "número da carteirinha da OMB". Nunca tive.

Pra minha salvação - e a de muitos músicos de São Carlos - é que o Ministério Público Federal da cidade processou o Conselho Regional da OMB em 2005. A decisão, em primeira instância, saiu em 2008, com resultado favorável aos músicos, que ficaram desobrigados de se filiarem à ordem para atuar profissionalmente em shows artísticos. A OMB recorreu, mas perdeu em segunda instância também.

A quem interessar, a ação civil pública que protege os músicos da cidade é a de número 2005.61.15.001047-2. O acórdão (decisão de tribunal) que estabelece a desobrigação com a OMB está disponível para download, bastando acessar o site do Tribunal Federal Regional da 3a Região (www.trf3.jus.br) e pesquisar pelo número do processo.

O MPF de São Carlos seguiu um caminho semelhante a dezenas de outras localidades. Amapá, Alagoas, Mato Grosso, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Paraná e Santa Catarina são estados onde, por ação de seus Ministérios Públicos Estaduais, a justiça permite a atuação como músico sem a necessidade de filiação à OMB.

A existência da OMB é um desvario. Uma ideia romântica: criar uma entidade que padronizasse a atividade musical, legitimando-a. É como dar ao músico um atestado de qualidade. Mas o que é qualidade? Um tocador de pífaro de Caruaru precisa saber História da Música pra tocar? Um cantor de banda de rock precisa ler partituras para saber o que está cantando (ou gritando?). Só podemos exigir um certo conjunto de conhecimentos dos músicos que se disponham a ensinar música, ou pesquisá-la, ou daqueles que estejam disputando uma vaga em algum concurso (vestibular, concurso público, orquestras, etc). Fora isso, cada um que saiba o quanto de conhecimento lhe é necessário para que possa fazer sua música com verdade, autenticidade e liberdade.

A OMB se propõe a proteger o músico e garantir condições de trabalho adequadas. Isso é maravilhoso, mas não é atribuição de uma ordem, e sim, de um sindicato - cuja filiação é de livre e espontânea vontade dos trabalhadores da classe, e não uma obrigação. Músicos unidos sim, o que é justo e necessário, mas não como escravos.

A OMB se propõe também a fiscalizar quem pode ou não tocar. "Com base em quê?". Conferindo o pagamento das anuidades, que deve estar em dia. "Com que objetivo se paga essa anuidade?". Manter a OMB funcionando, lógico. "Mas pra que manter a OMB funcionando?". Para fiscalizar quem toca. Entendeu?

Eu não entendo. Eu não me filio a uma entidade assim. Ainda bem que me mudei pra São Carlos, que tem liminar.

*publicado no jornal A Folha de São Carlos, no caderno de cultura Moitará, na coluna ETC & Jazz, no dia 29/4.

23 abril 2010

Jazz, uma poética

 









Joe Lovano, Diane Reeves, Cassandra Wilson

Me perguntam de vez em quando que tipo de música eu toco. Hesito um pouco, mas acabo dizendo “jazz”. “E MPB”, acrescento. “E bossa nova também”, digo. “Ah, uns sambas também, e músicas bonitas, com uns improvisos, vai”, arremato. Pra não perder o trabalho, falo que o repertório é de “música de noite”, ou “música de casamento”, “ou música ambiente”. Às vezes arrisco um “toco música instrumental”, mas aí complica.

O nome “jazz” assusta. Traz um estigma. Tem uma história por trás. Tem um lance de blues, de negro, de inferninho. Tem uma alma atormentada, de músico indo de bar em bar pra tocar notas difíceis e estridentes. Rola um negócio de algazarra, de platéia assoviando entre solos de um baterista tresloucado, cintilando os dentes de ouro num sorriso de esgar, o coração, as mãos, o suor, tudo a mil por hora. Tem bebops rimando com “on the rocks”, “on the road”, onde um pássaro saxofonista trafega entre as mesas e cadeiras de um bar numa noite na Tunísia, balouçando entre o último chorus de “Scrapple from the apple” e a primeira picada de heroína. Jack Kerouac, Jack Daniels. Tudo por volta da meia-noite.

Mas cabe tudo num retrato em preto e branco de Jimmy Katz. Criatividade e sofrimento, na cara de um Lester Young lânguido em fumaça. Poesia, como uma lágrima de Billy Holiday, um falsete de Sarah Vaughn, um inocente be-bap-boo-loo-bee de Ella Fitzgerald e a bochecha inflada de Louis Armstrong. O jazz também toca no lado ensolarado da rua. Tem vida. Tem caráter. Um joir de vivre. Tem Duke Ellington, um maestro negro e tão dândi quanto um Sinatra, magnífico no pôster autografado. Sim, o jazz tem também um glamour.

Uma estirpe de socialite. Sangue azul, de músicos de smoking tocando em coquetel regado a champanhe. Até uma dor de cotovelo amarga, no imprescindível balcão polido de um bar, é a coisa mais chique quando refletida no fundo de um copo de Johnny Walker, ao som de Chet Baker. Tem um eco de brilho gelado, azul, de um trumpete ao longe, e o tão desejado beijo de uma loira estonteante em vestido de gala. “You must remember this, a kiss is still a kiss”. Uma elegância de vinheta de Supercine.

O jazz, com suas ideias, conceitos e preconceitos, é mais que uma música. É um jeito de pensar a música. É uma poética, resultante de uma história social, econômica, intelectual – do século passado e deste. Música com cacife, pai certo, certidão de nascimento. No século XIX já havia resquícios dele no ragtime dos salões burgueses e nas bandinhas de rua de New Orleans, mas só foi se batizar mesmo nos anos 20, dos primeiros dixielands gravados. Tem os anos 30, das big bands e seus crooners. Tem os anos 40, com o pós-guerra e o bebop. Tem os anos 50, do cool jazz. Tem os anos 60, com Coltrane, ilimitado, free jazz. Tem os anos 70, lisérgicos, delirantes com a fusão de Miles Davis, funk, rock, Cuba e bossa nova. Tem os anos 80, da eletrônica e do videoclipe. Tem os anos 90, que vai do hip-hop à world music. E tem o século XXI, onde está tão diluído que está difícil dizer onde ele está (ou não está).

Eu continuo dizendo que toco jazz. Mas só quando não tem esse dilema de ter que explicar o que é jazz antes de tocar. Senão é muita coisa.

*publicado no dia 22/4, na Folha de São Carlos, na coluna ETC&Jazz do caderno de cultura "Moitará".

09 abril 2010

Sobre a profissão de músico


















“O que você faz?”. “Sou músico”, respondo. Logo vem a réplica: “Tá, mas quero saber no que você trabalha...”. Emudeço. De tristeza, de vergonha, de medo.

O mito de que músico tem “vida fácil” está relacionada com a visão romântica da profissão – a do ser que anda por aí com seu violão debaixo do braço, tocando nos bailes da vida em troca de pão, sem lenço sem documento. Por isso, é bom esclarecer alguns ditos atribuídos aos músicos:

1) - “Como toca bonito. Pra ele é tão fácil. Ser músico é um dom divino". É parcialmente correto. Talento é o começo de tudo. Mas saber desenvolvê-lo, e ter as condições materiais e técnicas para se atingir bons resultados, é importante. Assim, muitos ignoram que o músico profissional gasta muitas horas fazendo estudos teóricos e técnico-musicais, organização de repertório, ensaios em grupo, produção de shows, contatos comerciais, gestão de carreira e projetos. É trabalhoso.

2) - “Músico ganha bem: toca só umas horinhas por noite e já sai com o bolso cheio”. A frase é totalmente inverídica. Além do show propriamente dito, geralmente o músico teve que montar o equipamento de som (que muitos locais não oferecem, e às vezes nem uma tomada elétrica decente é encontrada no local), providenciar um controle de portaria (que muitos locais não oferecem), realizar a divulgação e chegar na hora certa pra começar o show com roupa bonita, penteado e perfumado. Quanto custa tudo isso? Resposta: em geral, muito mais do que uma noite movimentada no barzinho que cobra R$ 3 de couvert artístico consegue pagar. E olha que ninguém recolheu o INSS nem gerou benefício trabalhista algum para o músico.

3) - “Ser músico deve ser muito prazeroso e relaxante... sentar-se lá e tocar por horas e horas, se deliciando”. Depende. Há uma espécie de “vácuo” comportamental em certas situações que envolvem música nos dias de hoje que podem gerar desgaste para os artistas e, claro, para o público. Se estamos num bar com música ao vivo, qual é o comportamento esperado? Aplausos no fim de cada número? Ou um suspiro de alívio quando o som alto para e podemos conversar? Devemos pagar o couvert como um serviço de que desfrutamos, ou não devemos, assim como nos negamos a dar gorjeta para os flanelinhas que apareceram pra cuidar do carro sem ser requisitados? Se estamos em um show em local público, como praça ou clube, o músico deve parar o show a cada buzina ou grito de crianças correndo? Ou apenas aumentar o som do equipamento para se fazer ouvir a todo custo?

No entanto, o show deve continuar.

* publicado na Folha de São Carlos, no dia 8/4, na coluna ETC & Jazz do caderno "Moitará"

11 fevereiro 2010

Música - a profissão e o dom















"Pra ser músico, só precisa ter dom", dizem muitos. Alto lá. Precisa ser também muito profissional. Preocupar-se com equipamento, ter técnica razoavelmente em dia, agendar datas e ensaios, chegar na hora certa, apresentar-se com roupa bonita. Além disso, tocar sem saber quanto vai ganhar no fim da noite, pois o couvert artístico é variável e só vale a pena se for em um lugar de grande circulação, e se o músico também tiver feito a divulgação de sua apresentação (mais uma atribuição). Depois de tudo isso, o músico ainda se depara com enormes controvérsias em relação a sua atuação no mercado musical, em relação a questões como autoria e pagamento de direitos autorais, precária legislação trabalhista e indefinição de sua função em ambientes com música (música em bar é entretenimento ou é mero serviço, como o de um manobrista?).

Será que a única coisa que define o músico é apenas o talento artístico? Músicos talentosos há vários, mas são poucos os que têm o mesmo talento pra produção, divulgação, contabilidade, logística, negociação e marketing. O bom músico tem que ter sim uma qualificação mínima para tocar ou cantar, mas hoje ele ainda tem que ser bom em diversos outros saberes e funções. Junte-se a isso o fato de ninguém saber direito o que é direito (e o que é dever) dos músicos, devido a desregulamentação da profissão, está pronta a confusão: o músico fica à mercê de um mercado cultural ainda incipiente e imaturo para da-lhe o devido valor.

A visão romântica da figura do músico - a do ser que anda por aí com seu violão debaixo do braço, tocando nos bailes da vida em troca de pão, sem lenço sem documento - ainda é uma realidade. Vide os atuais debates na Câmara ds Deputados, no Senado e no Supremo Tribunal Federal, instâncias que querem modificar a regulamentação da profissão de músico - ou até mesmo acabar com ela -, que é atualmente regida pela Lei 3.857/60, que criou a afamada Ordem dos Músicos do Brasil (OMB) nos anos 60, no governo de Juscelino Kubitschek.

A discussão e os argumentos envolvem diversos aspectos: lei contra a obrigatoriedade da carteira de músico para realização de apresentações musicais, lei para a regulamentação de apresentações com cobrança de couvert artístico, lei para regulamentação da atividade de compositor, nova legislação trabalhista para músicos. No meio do debate surgem as diferentes visões sobre o que é esse negócio de música, que envolve os profissionais em uma verdadeira rede de negócios: aulas, composição, direção musical, gravação, realização de eventos e shows, apresentaçõs, gravações, entre muitas outras (quem quiser entender um pouco do que é a profissão de músico, aqui tem uma breve história).

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O MPF entrou com ação no ano passado dizendo que a existência da OMB é imcompatível com a Constituição Federal, que garante o livre exercício de atividade artística e expressiva de qualquer natureza, não podendo ser "policiada" por nenhum órgão fiscalizador. Assim como aconteceu com a imprensa, a regulação da profissão será comprometida.

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Em São Paulo, o governador José Serra já promulgou uma lei em 2007 que dispensa os músicos de apresentarem a carteira da OMB em apresentações. Um debate realizado em julho do ano passado na MTV, com o apresentador Lobão e convidados, também mostrou como o papel fiscalizatório da instituição é inadequado, visto que deveria funcionar como órgão de classe - em prol dos profissionais, como um sindicato - e não como regulador. Essa outra matéria aqui dá um pequeno panorama de como está sendo discutida a questão.

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Na Câmara dos Deputados já há um texto conclusivo em tramitação nas comissões de Trabalho e Constituição e Justiça, desde 2007, retirando das atribuições da OMB a fiscalização das condições de trabalho do músico, estabelecendo diretrizes para que as Delegacias do Trabalho (ligadas ao Ministério do Trabalho) façam a devida fiscalização, estabelecendo diferentes jornadas de trabalho e multas para quem desrespeitar as mínimas condições de trabalho para os profissionais.

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No Senado, uma audiência pública realizada em dezembro do ano passado com compositores, pedindo a regulamentação dessa profissão, deu origem a diferentes propostas para futuros projetos de lei. Uma senadora sugeriu que se fizesse como na Bélgica, onde músicos têm seguro-desemprego. Outro senador propôs que o governo comprasse e distribuísse CDs - assim como faz com livros didáticos - para escolas e bibliotecas públicas. Outro senador gostaria que o governo só renovasse a concessão de rádios e TVs para aqueles que comprovassem que pagam direitos autorais, enquanto outro gostaria de abrir uma CPI para investigar a "caixa-preta" da distribuição desses direitos.
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O couvert artístico é tema de um projeto de lei aprovado pela comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados em setembro de 2009. O projeto estabelece que o músico poderá combinar um cachê com o dono do bar, ou então poderá receber o valor integral do valor pago pelos clientes a título de couvert artístico. Um advogado tem um artigo interessante sobre a existência do couvert: já que as casas o cobram, será que não deveria existir então o "meio-couvert" para estudantes e aposentados, como manda a legislação relativa a entrada em eventos de entretenimento e diversão como cinemas e shows?

09 julho 2009

Comunicação é curso, jornalismo é especialização













Do blog "Escrevinhamentos": sátira com o cartaz da Federação Nacional dos Jornalistas

Além dos escândalos do Senado, do "brilho" de Ronaldo no Corinthians e da morte infeliz de Michael Jackson, outro assunto que dominou a pauta de discussões nos botecos foi a decisão do Superior Tribunal Federal de acabar com a obrigatoriedade do diploma de jornalismo para o exercício da profissão.

Acho que exercer a profissão de jornalista requer sim um diploma. Mas não obrigatoriamente de jornalismo. Sempre afirmei que o canudo de jornalismo não valia muita coisa. Pra mim, jornalismo não é uma área de conhecimento humano, é uma prática especializada. A ciência da Comunicação sim, é um ramo do saber. E se hoje os jornalistas reclamam que sua profissão foi desvalorizada com a decisão do STF, que fiquem sabendo que a culpa é totalmente deles próprios. Quem mandou não quererem serem chamados de bacharéis em Comunicação, como são conhecidos os advogados antes de prestarem um exame de aptidão para exercer o ofício?

O ministro Gilmar Mendes, pelo qual não tenho a mínima simpatia, até que fez uma comparação interessante da profissão de jornalista com a de cozinheiro - que despertou a ira de muitos, mas que achei correta. Quem pede diploma para o chefe de cozinha quando senta na mesa do restaurante? O diploma do cozinheiro não interfere na qualidade da comida, assim como, no caso do jornalista, na qualidade da informação (que já anda muito baixa há anos, até mesmo nas redações mais estruturadas, como da Folha de S. Paulo ou Estadão).

Mas o papel aceita tudo. O estômago, não. Discutir a qualidade dos profissionais do jornalismo é um pouco mais difícil que falar sobre os chefs de cozinha e seus pratos. Aqui sim, há muito o que se debater. O próprio STF, ao abrir um edital para a contratação de jornalista, estava decidindo se exigiria ou não a apresentação de diploma para os candidatos ao concurso. Pois vejam que enrascada: se para ser advogado há que se ter uma "validação" do diploma - a famosa prova da Ordem dos Advogados -, no caso do jornalismo nem o diploma em si agora tem validade, quanto mais a prática dos que o possuem. Tudo ficou mais subjetivo.

Trabalhando como assessor de imprensa, atendi os mais variados tipos de jornalistas. Nunca perguntei se tinham diploma, mas afirmo que a maioria não sabia muito o que estava fazendo. Alguns agindo como garotos de recados, outros como meros "filhos da pauta", outros mal-intencionados. Muito poucos sabiam fazer perguntas, ou argumentar, ou perceber um novo gancho para tratar do assunto que se propunham a investigar. Aliás, fazer perguntas é coisa que se deveria ter aprendido na escola - questionar o mundo com curiosidade é o princípio do saber e também do jornalismo - e na faculdade também não ensinam.

Então, precisamos do diploma?

Entender de Comunicação significa estar a par do estado da arte de todas as questões que envolvem este campo de conhecimento. É coisa de cientista, que debruça-se sobre a informação, a recepção, a produção, o entendimento, a ética, o campo de trabalho, as interfaces com a cultura, novas mídias, assim como um biólogo examina material genético no microscópio eletrônico para a pesquisa de usa tese. É coisa grande e importante.

Entender de Jornalismo - pauta, reportagem, lead, edição, diagramação, off, link, sonora - é basicamente dominar um modo de dizer aliado a um modo de fazer. É manipular um discurso pré-moldado, tentando fazer com que a mensagem passe por um processo de produção e chegue o mais intacta possível à audiência ou público. Coisa pequena, de gestores, burocratas e peões numa linha de montagem.

Mas isso não significa que não é preciso ter cursos para saber como atuar nessa linha de montagem dos veículos de comunicação. Jornalismo de verdade é onde se põem em prática ferramentas e técnicas aliadas a uma bagagem cultural que se desenvolve em todos os campos da vida, e não só da comunicação.

Por isso, não só o jornalista, mas TODOS os que se dispuserem a atuar na área da comunicação, deveriam ter uma diploma sim. Mas de especialização. Na minha visão, Informação é um artigo de valor. Deve ser tratada com respeito. Por quem entende. E, infelizmente, os jornalistas - como são formados hoje - entendem pouco de qualquer outra coisa que não seja o ralo currículo de humanidades e comunicação que tiveram na faculdade. Por isso, defendo sim que não seja preciso ter diploma de jornalista, mas uma ESPECIALIZAÇÃO em jornalismo.

O jornalista aprende teorias da comunicação, semiótica, filosofia, história, português, antropologia, sociologia, mas acaba por não conseguir aplicar essas disciplinas no dia-a-dia da profissão. E também não adianta saber apenas como se escreve uma notícia, como se faz a paginação de um jornal, como se faz um stand-up na tv. Para isso há manuais, que ensinam como usar essas ferramentas. E esse é o foco de muitos cursos de jornalismo por aí. Não é isso que dá direito a um diploma. Pessoas que só sabem manuais são técnicos. É preciso mais que isso.

Permitir que qualquer outro tipo de profissional atue no jornalismo - mesmo sem ter o diploma do curso - é um avanço, pois garante uma melhor pluralidade de idéias e qualidade de conteúdo (pelo menos quero crer que os médicos que se interessarem por atuar em jornais vão falar sobre saúde ou ciência, e não vão começar a escrever sobre cultura ou política). Porém, dispensar que haja algum tipo de preparo para lidar com a ética, a deontologia e o cotidiano da profissão é um erro.

06 junho 2009

A arte e o trabalho tangencial



Trabalhar com arte significa manter o mínimo de disciplina para exercitar a técnica que leva a boa execução da obra criada. É aprender a gerenciar o tempo, dividido entre a dedicação à criação de um trabalho artístico próprio e à "produção" dos novos trabalhos que aparecem com outros artistas, gigs eventuais, projetos paralelos - que exigem um número absurdo de ensaios, reuniões, passagens de som, agendamento de horários... e lá se vão domingos e feriados. Estar envolvido em diversos trabalhos é importante para se manter no mercado, mas prescinde de um planejamento e jogo de cintura muito grandes.

Por isso, em intervalos de tempo entre um ensaio e uma gravação, entre uma apresentação e uma passagem de som, o ideal é que o artista encontre tempo para reflexões, leituras, exercícios e aulas para enriquecer sua técnica ou elaborar seus projetos artísticos autorais. Mas não é isso que acontece. Ao se deparar com atividades que se relacionam diretamente com o seu crescimento artístico, muitos tremem na base e acabam deixando pra depois. Nessa hora, aparece uma preguiça enorme e logo os seriados de televisão, a internet, o Nintendo GameCube e as sonecas vespertinas se tornam opções que podem parecer mais interessantes...

Ao invés do ócio criativo, o que verdadeiramente se passa é uma certa "vagabundagem depreciativa", que resulta em mais cansaço e uma tremenda culpa por não ter feito nada a favor de si. Era exatamente sobre isso que eu conversava com minha amiga e cantora Mariana Amaral há uns tempos atrás. Ela reclamava da enooooorme preguiça que tinha de organizar seu repertório - e eu obviamente concordava por sofrer da mesma doença - e dei uma dica a ela que costumava usar comigo mesmo. Batizei de "trabalho tangencial".

Trabalho tangencial é basicamente escolher realizar uma atividade que seja produtiva que possa substituir aquela que está te dando preguiça. Assim, você acaba não alcançando o alvo principal, mas sai pela "tangente" e fica um pouquinho mais próximo de realmente fazer o que é necessário. Se tem que transcrever umas músicas e está com preguiça, organize os arquivos antigos que estão há tempos esperando por uma melhor ordem. Se tem que escrever um arranjo e está sem forças, escute alguns discos para se inspirar.

A má notícia é que, no geral, o trabalho tangencial não traz resultados práticos tão valiosos. Pois se você tem prazos a cumprir, os perderá. Afinal, não terá realizado o trabalho principal, só rodeado o suficiente para não sentir culpa por não ter se mexido. A boa notícia é que, no mundo da arte, todo mundo sofre dessa preguiça. Mas não são todos que tentam superá-la.