O primeiro disco do baterista e compositor Paulo Almeida está gravado e sendo mixado. O trabalho tem a cara da geração atual da música instrumental brasileira, fartamente marcada pelas raízes rítmicas nacionais (não se podia esperar menos de um baterista tão estudioso e ex-aluno de Cleber Almeida), com improvisos e harmonias que variam num amplo espectro de influências - de Hermeto Pascoal a Wayne Shorter, do hard-bop ao forró.
O time de músicos convidados por ele para essa gravação tem na base Vinicius Dorin (Saxofones e Flauta), Beto Correa (Piano e Rhodes), Fi Maróstica (Baixo) e Diego Garbin (Trompete), contando com participações eventuais Fábio Leal (Guitarra), Jota P (Sax tenor), Vanessa Moreno (Voz) e Marcos Moraes (Violinha e Violão). O clima é de muita improvisação, com arranjos que destacam a capacidade técnica dos músicos. Dá pra ver que, com apenas 25 anos de idade, Paulo Almeida criou um trabalho autoral que promete grandes vôos, com cacife pra sustentar as suas "Constatações". Confira.
Enquanto isso, ele cumpre uma agenda intensa de shows e workshops por todo o Brasil ao mesmo tempo em que tenta captar recursos pra pagar seu disco. Já preencheu editais de patrocínio, concursos culturais e festivais. E não fica parado esperando resultado - acaba de lançar na internet seu projeto na plataforma Catarse, um site que permite que apoiadores do mundo todo ajudem o projeto com cotas de patrocínio personalizadas, adquiridas online.
Com o projeto de financiamento coletivo, que pode ser acessado nesse link, Paulão pretende captar uma quantia necessária apenas para a finalização do trabalho, já que ele mesmo já gastou quase R$ 4 mil para as gravações. Quem ajudar com o valor mínimo (R$ 30) já garante um CD, e há cotas até para empresas que quiserem apoiar o disco.
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03 julho 2013
17 julho 2011
Caminhos da harmonia
No jazz só há uma regra: seguir a forma da música. Mesmo quando não há forma, segue-se uma direção comum, um rumo, ditado pela sensação, pelo clima, pela vibração do momento. Ouve-se como um reflexo, reflete-se sobre o que se ouve, um contexto se desenha, então responde-se. A música então nasce, e nesse processo já amadurece e cresce, e continua nascendo até morrer.
A Garota de Ipanema, de Jobim e Vinícius, tem uma forma conhecidíssima (AA-B-A) e progressões harmônicas maravilhosas. Porém, quase 50 anos após sua composição, seus acordes já foram autopsiados em vários livros e manuais de análise musical. Até por isso, muitas de suas interpretações em jam sessions ou mesmo gravações de música popular soam enfadonhas, desinteressantes, por ser muito difícil fazer algo novo com ela - no máximo, obtém-se alguma interpretação elegante.
Para uma grande parte de músicos que improvisam sobre o tema da Garota, não há desafios técnicos ou harmônicos. Os acordes vão acontecendo de forma mais que previsível e, compasso após compasso, muitos não conseguem mais ouvir atrativos nas harmonias mais que repisadas e acabam tocando sem pensar muito, criando solos burocráticos ou apenas corretos.
Nem por isso o guitarrista Fábio Leal deixou a música de fora de seu repertório. Ao contrário, propôs um novo arranjo para a Garota, com uma rearmonização ousada, densa, inovadora e interessantíssima. Não que Tom Jobim precise de correção; são nossos ouvidos que precisam de novos desafios, e o genial Fábio percebeu isso. Em seu arranjo, cada um dos "A" tem uma harmonia diferente, e a parte "B" se inicia com um acorde menor [Bbm7(b13) em vez de Gbmaj7] que parece dar um significado mais sombrio à letra (talvez o "Ah, porque estou tão sozinho" soasse com muito mais "solidão" desse jeito...).
O arranjo realmente inspira. O resultado, após um ensaio e uma jam session, foi registrado nesse vídeo abaixo, gravado no último Janela Jazz - evento realizado no Instituto Cultural Janela Aberta, em São Carlos (SP) - com Fabiano Nunes no baixo, Paulo Almeida na bateria e eu no teclado.
07 novembro 2010
Fabio Leal Quarteto ao vivo
Prestem atenção no som desse quarteto do guitarrista Fabio Leal. Misturando standards brasileiros e composições próprias, esse grupo faz um som límpido, fluente, que leva a música instrumental um passo adiante, sem se prender a tendências ou escolas - é jazz, é Brasil, é música. Nesse vídeo, que está com um áudio de excelente qualidade, gravado ao vivo no bar Jazz nos Fundos, dá pra ver que o grupo toca com muita consciência e se aventura em improvisos complexos sem a menor hesitação.
As composições de Fabio são muito melódicas, soam como pequenas suítes gismontianas, cheias de variações rítimicas e de dinâmica. Os arranjos para os standards são arrojados (o samba "Luz Negra", de Nelson Cavaquinho, virou um groove moderno em 10/8). O grupo é muito entrosado, com a bela interação do baixo de Felipe Maróstica com o baterista Paulo Almeida (com certeza esse é o Brian Blade brasileiro, toca com atenção voltada completamente à melodia, mantendo um groove indissolúvel, apesar de abstrato). O pianista André Grella reveste as belas canções de Fabio com extremo bom gosto nos voicings.
O grupo já tem um disco, lançado em 2005 pelo selo Unwritten.
As composições de Fabio são muito melódicas, soam como pequenas suítes gismontianas, cheias de variações rítimicas e de dinâmica. Os arranjos para os standards são arrojados (o samba "Luz Negra", de Nelson Cavaquinho, virou um groove moderno em 10/8). O grupo é muito entrosado, com a bela interação do baixo de Felipe Maróstica com o baterista Paulo Almeida (com certeza esse é o Brian Blade brasileiro, toca com atenção voltada completamente à melodia, mantendo um groove indissolúvel, apesar de abstrato). O pianista André Grella reveste as belas canções de Fabio com extremo bom gosto nos voicings.
O grupo já tem um disco, lançado em 2005 pelo selo Unwritten.
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