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08 fevereiro 2012

Ouvidos e História*

Um pesquisador musical do século XX, o francês Pierre Mariétan, disse: “a música acontece no ouvido de quem escuta”. Tal afirmação, nos dias de hoje, nos faz pensar nas consequências de um fenômeno bastante corriqueiro, que é o fato de a música “bater à porta” dos ouvidos constantemente, chegando pelos mais diversos meios: carros de som passando na rua, televisão ligada, mp3 players, celulares, internet.

Com tanta música disponível, é importante refletir sobre o “como ouvir”, pois isso determina também o “o quê” e o “por quê” ouvir. Tentemos entender isso em uma breve história da tecnologia musical e sua relação com a escuta.

O antigo hábito de ouvir rádio proporcionava que os sons produzidos por grupos musicais eliminassem a distância até os ouvintes. Antes disso – e antes mesmo dos discos –, música só se ouvia em shows, bailes, ou em lares onde alguém tocava algum instrumento, por meio de uma partitura escrita – a música tinha que ser “lida”, num papel!

A indústria musical dos anos 50 até os 90 apostou no ouvido “sedentário” – ouça seu ídolo em sua própria casa - e fez de tudo para garantir altas vendagens de seu principal produto: o disco de vinil. A preocupação era de encantar o ouvido, mas também vender música, por meio de um suporte plástico chamado disco. O long-play levou aos bares, casas noturnas (quem não se lembra das jukeboxes que tocavam vinis a troco de uma moeda) e lares o fascínio da música gravada.

Possuir uma vitrola era um luxo, pois dava ao ouvinte o poder de tocar sua música preferida a qualquer hora. O rádio, principal veículo de comunicação de massa até os anos 50,  amplificava essa escuta, com programas musicais que veiculavam teatro, radionovelas e shows ao vivo – que mais tarde foram substituídos pela execução dos próprios LPs pelos recém-surgidos disc-jockeys.

Os discos evoluiram com novas tecnologias, e surgiram as fitas K-7, depois os CDs. Nos anos 2000, a digitalização pulverizou a indústria fonográfica com uma nova possibilidade: substituir o plástico pelo virtual, com o simples download de músicas. A principal consequência para a escuta é a explosão de consumo musical, pois temos a música em nossos bolsos, dentro de players digitais, celulares, e até acompanhada do videoclipe lançado na MTV, depois baixado do Youtube.

Música lida, música ouvida, música comprada, música baixada. Em meio século de história, os jeitos de se ouvir música foram mudando, pois os suportes foram se transformando. A pergunta é: nesses cinquenta anos, será que assumimos o papel de ouvintes ativos ou fomos apenas consumidores passivos de música? Escute o que te diz o seu ouvido.

*publicado na revista Perfil Araraquara, edição 20, janeiro de 2012. Versão integral, difere do publicado.

12 dezembro 2011

Cadências improvisadas


Impressionante como a improvisação jazzística empresta vida nova às cadências de Mozart, compositor sensível, alegre, luminoso, que foi um virtuose do teclado e escreveu belíssimos improvisos para seus concertos - as famosas cadenzas, interpretadas geralmente com rigor pelos instrumentistas mundo afora. Mas a pergunta que faço, e que muitos já fizeram também, é: será que Mozart, que tinha fama de grande improvisador, tocaria suas cadenzas nos concertos ou as improvisaria, criando-as durante a execução da peça?

O vídeo acima mostra uma apresentação ao vivo no Japão, onde Corea divide o palco com Makoto Ozone e orquestra. A interpretação não é tão certinha - parece que os dois não puderam ensaiar muito as dinâmicas e os fraseados -, mas os improvisos são arrebatadores. Ozone é um pianista quase perfeito, de som extremamente organizado, sensível, com toucher primoroso. Mesmo tocando de improviso, demonstra técnica ímpar, limpidez, e é avesso a qualquer digressão ou floreio desnecessário. Ou seja, vai direto ao ponto. Chick Corea lança mão de sua harmonia extremamente dissonante, sempre com toques de flamenco, meio monkiano, meio evansiano, meio "budpowelliano", criando uma atmosfera única para suas frases cortantes. Mozart aplaudiria.

Chick Corea já vem há alguns anos encarando o desafio de solar esses trechos, criando cadências totalmente improvisadas nas músicas de Mozart. Ainda que mantendo uma linguagem harmônica e melódica mais ajustada para a sonoridade da orquestra, seus improvisos nesses concertos parecem dar um novo fôlego para as obras, encantando o público e eletrizando os próprios músicos.

Um exemplo é o belo disco "The Mozart Sessions" (Sony Classical, 1996), gravado na Áustria sob regência do cantor Bobby McFerrin, que também improvisa com a voz alguns prelúdios antes dos Concertos K. 488 (n. 23 em Lá Maior) e K. 466 (n. 20 em Ré Menor). Ainda tem um número onde apenas os dois fazem uma rápida improvisação sobre a Sonata n. 2 em Fá Maior, K. 280, rebatizada com o título "Song For Amadeus". Um disco que ajuda a entender a visão libertária e ilimitada de Corea sobre o jazz e a música em geral.


"The Mozart Sessions" (Sony Classical, 1996)

Piano – Chick Corea
Conductor, Vocals – Bobby McFerrin
Orchestra – Saint Paul Chamber Orchestra, The

*Concerto For Piano And Orchestra No. 23 In A Major, K. 488     
1. Prelude (A Capella Vocal & Piano Improvisation) + Allegro (14:09); 2. Adagio (7:11); 3. Allegro Assai (8:16);  
*Concerto For Piano And Orchestra No. 20 In D Minor, K. 466
4.Prelude (A Capella Vocal & Piano Improvisation) + Allegro (16:15); 5.Romance (8:59); 6. Rondo (8:46); 7. "Song For Amadeus" - Improvisation On Mozart's Sonata No. 2 In F Major, K.280/189e: II. Adagio (2:29).



01 março 2011

Parem as máquinas!! Keith Jarrett no Brasil!!

Desculpem as exclamações no título. Contra todas as recomendações dos manuais de redação e estilo jornalísticos, o sinal é imprescindível na frase para representar a importância dessa bela notícia. Keith Jarrett, esse alienígena que finge ser um humano normal, fará um concerto na Sala São Paulo no dia 16 de abril desse ano.

Fiquei sabendo hoje cedo pelo Facebook, que linkou essa notícia do IG. Entrei no site para comprar ingressos e os mais baratos (R$ 200) já se foram. Comprei um de R$ 350, mais a escabrosa "taxa de conveniência" de R$ 63. Mas acho que vale.

Estou curtindo o som desse pianista há anos, desde que me deparei com um disco do Standards Trio "Live in Norway" (acho que é de 1992). Fiquei hipnotizado pelo fraseado límpido, objetivo, suingado, combinado com um toucher surpreendentemente erudito, sobriamente romântico. Pirei. Corri atrás de tudo o que podia, achava pouquíssimos CDs pra comprar, consegui ver os DVDs "Standards" I e II na casa de amigos. Um pianista inacessível, parecia. A internet banda larga logo reverteu esse problema, e agora não me canso de ouvir o clássico "The Köln Concert", de 1975.

Com essa gravação, Jarrett se tornou uma referência pianística tanto no mundo erudito quanto no universo do jazz, com ecos até mesmo nos círculos do rock. As improvisações desse concerto remetem a grooves de funk, impressionismo francês, sonatas românticas, arroubos chopanianos, polifonia barroca, gospel, stravinsky e dezenas de outras referências musicais, todas muito bem dosadas e equilibradas com incrível técnica. Em sua música há apenas motivos, sendo apresentados sobre acordes simples, seguidos de variações, ornamentos, recriações, fluindo com precisão, guiando a audição para o núcleo de sua expressividade, revelando a alma vívida e ilimitada desse artista único. 

A notícia desse show no Brasil coincidiu justamente com o momento em que estou redescobrindo esse concerto de Köln, em uma edição em que tudo foi remasterizado com altíssima qualidade de áudio. Estou acompanhando a audição com a partitura transcrita, publicada há alguns anos na Europa.

 "The Koln Concert" (1975) (HF) (FS)

piano - Keith Jarret;

1. "Part I" (26:01); 2. "Part IIa" (14:54); 3. "Part IIb" (18:13); 4. "Part IIc" (6:56)


"Piano Transcription"  
(pass: http://themusicianslibrary.blogspot.com/)

12 novembro 2010

Bebop fingers

Dedos de bebop. Significa a capacidade de articular uma frase musical quase como se o cara estivesse falando, gritando, dando bronca, perguntando, respondendo, murmurando, resfolegando, rindo, gaguejando. Não importa quais as notas, qual a harmonia, qual a letra; importa é o arco, a linha, o ponto, a trama que a melodia do solista desenha no ar, rabiscando as segundas intenções, cravadas no suíngue corrente, dialogando com o vai e vem do baixo, pique-escondendo com a bateria, indo e ficando nas ondas da harmonia, cortando o caminho, achando a porta do céu da expressão.

O bebop do pianista Stefano Bollani fala italiano, que nem ele. Frases correntes, mas cheias de altos e baixos, risonhas e chorosas, bocachiusas ou desbocadas, estrondosas ou delicadas. No show que ele fez em 2006 no Tim Festival, com um quinteto de músicos italianos, quase roubou a noite que era de Ahmad Jahmal e Herbie Hancock, pois mostrou uma abordagem originalíssima, quase selvagem, mas musicalmente e tecnicamente impecável.

No disco "I´m in the mood for love" (2007), Bollani mostra que tem o swing do jazz americano na veia, mas também a irreverência bruta, a comédia farsesca e o drama teatral que os italianos têm. Assim, o disco é romântico como o título sugere, mas também cômico, poético, trágico, vigoroso e sublime.

Formando um trio mais do que arrojado com o baixista Ares Tavolazzi e o soberbo baterista Walter Paoli, Bollani ataca um repertório de "músicas de amor" com uma dose extra de criatividade e virtuosismo. Os arranjos transformam os já repisados standards da dor de cotovelo chic em uma fonte inesgotável para os vibrantes contorcionismos fraseológicos do bebop. Os tempos e contratempos soltam faíscas com as intervenções do baixo e da bateria no fluxo "one-TWO-three-FOUR", enquanto as melodias de Bollani correm fluidas pelo teclado.

Stefano Bollani Trio - I'm in the mood for love (2007) (1) (2)

Stefano Bollani (piano); Ares Tavolazzi (baixo); Walter Paoli (bateria) 

1. Makin' Whoopee; 2. Cheek To Cheek; 3. I'm In The Mood For Love; 4. Puttin' On The Ritz; 5. How Long Has This Been Going On?;. 6. Margie; 7. Moonlight Serenade; 8. It's Only A Paper Moon; 9. A Kiss To Build A Dream On; 10. Honeysuckle Rose; 11. But Not For Me

05 novembro 2010

A bossa suingada


Doralice - Canja com Bia Mestriner

Murilo Barbosa | Myspace Music Videos


Nesse show da querida amiga e grande cantora Bia Mestriner, realizado no SESC Ribeirão Preto no começo de 2010, tive a honra de ser convidado pra "dar uma canja". O combinado era que fosse em "Desafinado" (Jobim/Newton Mendonça), mas no embalo do show ela se esqueceu de me chamar... Então me convocou na próxima, que foi o gracioso sambinha "Doralice" (Dorival Caymmi). Fiquei feliz de ter tocado essa música com a Bia e do momento ter sido registrado, pois a banda estava muito afiada: Carlinhos Machado na guitarra, Tiago Alves no baixo e Paulinho Vicente na bateria.

Doralice é um samba, mas virou um marco da bossa nova por causa da releitura sóbria, minimalista e requintada de João Gilberto no disco Getz/Gilberto (tá lá embaixo pra quem quiser). Pra mim, é o encontro absoluto do jazz com um dos melhores gêneros da música brasileira, a bossa. Dois mundos se complementando, se reconfigurando.

Sempre gostei do improviso do Stan Getz nesse tema, ele tem um som redondo, lúcido, tão meticulosamente estruturado como a bossa tem que ser: simples e despojada, mantendo a eficiência da cadência do samba sem a "gordura" da marcação exagerada. E a Bia tem a voz da bossa, econômica na emissão e ricamente ornamentada na melodia e divisão. Como o sax de Stan Getz, como a batida de João.


Getz/Gilberto feat. Antonio Carlos Jobim (1964)
João Gilberto: violão, voz; Stan Getz: sax tenor; Antonio Carlos Jobim: Piano, violão; Astrud Gilberto: voz; Milton Banana: bateria; Sebastião Neto: baixo (no crédito original vem erroneamente denominado Tommy Willians...)
01 - The Girl From Ipanema; 02 - Doralice; 03 - Para Machuchar Meu Coracao; 04 - Desafinado (Off Key); 05 - Corcovado (Quiet Night of Quiet Stars);
06 - So Danco Samba; 07 - O Grande Amor; 08 - Vivo Sonhando (Dreamer)

16 outubro 2010

Canções para alguém (ou "stravinskianismos jazzísticos")

A abertura do disco "10 Songs for Anyone", de Chris Potter, soa como se fosse composta por Scriabin, uma abertura sinfônica tensa e moderadamente dramática. Flauta, clarinete, fagote, violino e viola criam texturas sedosas para o sax tenor encorpado de Potter, que logo se vê acompanhado de uma seção rítmica discreta, concisa e muito arrojada formada por guitarra, baixo e bateria. Logo de cara se percebe que esse não é um disco de jazz comum, e consegue ser mais surpreendente que o que se espera de uma gravação de jazz.

O saxofonista produziu os arranjos quase camerísticos para essas suas dez composições, obtendo uma sonoridade grandiosa e elegante que não perde a fluência nem mesmo nos momentos em que a dinâmica do grupo sacode as paredes dos temas labirínticos de Potter.

Momentos mais introspectivos são harmonizados como pequenas serenatas debussianas, enquanto alguns temas ganharam arranjos já beirando o atonalismo lírico de Stravinsky (a pequena "cadenza" no meio de "Cupid & Psique" lembra até mesmo a eficiência serial de um quarteto de cordas shoenberguiano). E os improvisos nunca perdem o caráter jazzístico, sempre ampliando a gama de materiais sonoros utilizados e contando com extrema intercomunicação entre os músicos. Solos de violino, viola e flatua também estão presentes em alguns dos temas.

Com certeza o jazz que se escuta nesse disco é material para alguns anos de audição atenta, como requerem as grandes obras clássicas na qual esse gênio norteamericano obviamente se inspirou para criar esta obra-prima.

Albumcoverchrispotter-songforanyoneChris Potter - Songs for Anyone (2007)

Chris Potter (tenor sax), Erica Von Kleist (flute), Greg Tardy (clarinet), Michael Rabinowitz (bassoon), Mark Feldman (violin), Lois Martin (viola), David Eggar (cello), Steve Cardenas (guitar), Scott Colley (acoustic bass), Adam Cruz (drums, percussion)


1.Absence, The; 2.Against the Wind; 3.Closer to the Sun; 4.Family Tree; 5.Chief Seattle; 6. Cupid and Psyche; 7.Song for Anyone; 8. Arc of a Day, The; 9. Estrellas del Sur; 10.All by All

21 agosto 2010

Kenny Barron, o Sr. Elegância

O pianista norteamericano Kenny Barron (Filadélfia, 1943) tem o dom de irradiar elegância por onde passa. Seja no grupo post-bop do falecido Stan Getz, seja na big band de Dizzy Gillespie (onde começou a fazer seu nome, em 1962), seja em um simples dueto, ele sempre traz na manga acordes e fraseados de deixar qualquer Diana Krall de queixo caído.

O estilo dele pode ser resumido, talvez, em um belo domínio de acordes. Barron sabe aplicar a textura correta no momento de acompanhar, de improvisar ou de simplesmente dialogar com outros músicos, sempre usando acordes precisos, voicings bem definidos e frases enxutas. Sabe como ninguém o som que pode tirar do piano quando precisa. 

No disco "Kenny Barron Trio - The Perfect Set" (2005), ele demonstra ter plena consciência de como construir belas melodias, principalmente ao se ouvir a deliciosa bossa "Twilight Song", de enorme delicadeza. Mas a prova final de sua bem definida estética está em suas interpretações de Thelonious Monk.

Considerado um pianista hermético, dissonante, Monk soa sofisticadamente doce através das mãos de Barron. ele mostra virtuosismo ao interpretar sozinho a estranha "Shuffle Boil", composta pelo mestre novaiorquino. Ele ainda recria o tema "Well you needn't" com uma leveza e precisão impressionantes, mantendo o sabor malandro de Monk. O solo aqui vai às alturas, atingindo rapidez impressionante, sem perder a criatividade na construção de motivos rítmicos contagiantes, principalmente durante a seção de improvisos trocados entre ele, o baterista (o exímio e discreto Ben Riley) e o baixista (o notável Ray Drummond).

Kenny Barron Trio - The Perfec Set, Live at Bradley's


Kenny Barron - piano; Ray Drummond - baixo; Ben Riley - bateria


1. House Introduction (0:34); 2. You Don't Know What Love Is (15:12); 3. The Only One (12:50); 4. Twilight Song (11:01); 5. Shuffle Boil (6:23); 6. Well You Needn't (14:05)

25 julho 2010

Monk com as cores de Debussy

Se Thelonius Monk tivesse tido umas aulas com Debussy de composição impressionista, provavelmente soaria como Martial Solal (Algéria, 1927). Esse veterano pianista de jazz tem um estilo criativo e colorido, diferente da maioria dos músicos do chamado "estilo europeu" - mais introspectivo e escuro. No disco "Balade du 10 Mars" (1998), ele mostra como a arte do jazz pode evoluir quando se une o domínio da linguagem com um vasto repertório de sutilezas sonoras e técnicas requintadas.

Solal, filho de um cantor lírico e de uma professora de piano, tem o sol no nome e no som. Mesmo obscuros e nostálgicos standards, como "Round About Midnight", ganham pinceladas iluminadas, revelando novos ângulos de intepretação, novos cantos inexplorados. Sua versão da batida "Night and Day" pode ser facilmente considerada uma das mais ousadas que já se fizeram. 

Solal utiliza block chords sobre harmonias superestruturadas, como se buscasse novos caminhos para a melodia. Seu timing é monkiano, seu voicing é pós-moderno, sua técnica é abismal. Seu toque é sutil e denso, naturalmente perfeito para um prelúdio de Debussy, assim como sua paleta harmônica.

O som do trio é inovador, dinâmico, e assombra pela qualidade das reinterpretações de standards como "Softly as a morning sunrise" e "The Lady is a Tramp". O improviso é coletivo, com um grau de sensibilidade e integração fantástico. Enquanto o baixo de Marc Johnson salpica notas em um walking bass desconstruído, a condução despojada da bateria de Paul Motian conjuga o tempo à sua própria maneira. Mas não soa agressivo ou hermético - nem mesmo vago. 

A extrema liberdade e abstração do grupo é também coesa e integrada, como se todos andassem por estradas sonoras paralelas que se cruzam - ou se sobrepõem, como um quebra-cabeças sonoro que se encaixa em várias dimensões ocultas, que aparentemente não se pode perceber. Som de vanguarda. Coisa de "francês metido a besta", mas com uma boa dose de swing e criatividade.

Martial Solal Trio - Balade du 10 Mars


Martial Solal - piano; Marc Johnson - baixo acústico; Paul Motian - bateria



1. Night and day (5:47); 2. Gang of Five (6:39); 3. Softly as a morning sunrise (4:53); 4. Round About Midnight (7:08); 5. Almost like being in love (7:19); 6. Balade du 10 Mars (3:18); 7. The lady is a tramp (6:16). 8. My old Flame (4:22); 9. The newest old jazz (2:52)

20 julho 2010

"Reunion", marco da "miami salsa"

O latin jazz com sabor de praia, ensolarado, levemente adocicado e ácido como uma piña colada: esse é o estilo "miami salsa", cujos maiores ícones são o clarinetista e saxofonista Paquito D'Rivera e o trumpetista Arturo Sandoval. Em comum eles têm o fato de serem cubanos, virtuoses em seus instrumentos e terem sido descobertos e apoiados por uma das maiores lendas do jazz, o trumpetista Dizzy Gillespie.

"Reunion" foi gravado em 1990, na Alemanha, e marcava o primeiro encontro dos dois músicos em estúdio, momento em que os dois gênios deixavam claras suas profundas influências jazzísticas e o estilo leve e funky de suas interpretações.

Há uma espécie de brilho no latin jazz que esses dois amigos produzem. Parece que a condução de baixo elétrico, bateria (do excelente Mark Walker, americano que aprendeu tudo o que podia sobre música latina e brasileira) e guitarra deixa o clima um pouco mais picante e alegre, permitindo que o fraseado impecavelmente preciso e vibrante do trumpete e do clarinete soe quase sorridente. O piano malandro de Danilo Perez (pianista panamenho que também foi um dos protegidos de Dizzy Gillespie) deixa o som ainda mais moderno. As congas do virtuoso Giovanni Hidalgo são a âncora que segura o time todo no território latino.

O repertório escolhido é a perfeita definição do estilo de tocar dos dois cubanos - virtuoso, exuberantemente rítmico, romântico e moderno. Após uma breve introdução, em que o tema "Mambo influenciado" é apenas rapidamente exposto, o grupo entra em groove latino para destrinchar "Tanga", do mestre Dizzy. Além dessa música, a todo momento os dois fazem referências ao velho jazzman citando em pequenas frases algumas de suas mais famosas melodias.

O bolero "Cláudia" é a peça mais sentimental do disco, seguida pela contemporânea "Friday Morning". É a vez então de Paquito solar sobre a "Latin American Suite", apresentada em três curtos e variados movimentos. "Body and Soul" é o standard do disco, sendo executado com introspecção pelo trumpete e pelo piano. O disco termina com uma espécie de carnaval latino, "Caprichosos de la Habana", onde todos cantam e tocam ao estilo "raízes de Cuba".




Arturo Sandoval & Paquito D'Rivera - Reunion (1991)

Paquito D'Rivera: sax alto, clarinete; Arturo Sandoval: trumpete, flugelhorn, percussão, vocais, assobio, whistle; Danilo Perez: piano;
Fareed Haque: guitarra, violão, vocais; David Finck: baixo, vocais; Mark Walker: bateria, percussão, vocais; Giovanni Hidalgo: percussão, bongos, vocais; Uwe Feltens: vocais; Götz A. Worner: vocais; 


01.Prologo: Mambo Influenciado (Chucho Valdés)/00:25 - 02.Reunion (Paquito D'Rivera)/04:59 - 03.- Tanga (Dizzy Gillespie)/09:19 - 04.Claudia (Chucho Valdés)/07:12 - 05. Friday Morning (Danilo Perez)/06:33 - 06- Latin American Suite - Venezuelan Waltz No. 1 (Antonio Lauro)/00:50 - Introduction (Fareed Haque)/01:34 - Part III Chorizinho (Fareed Haque)/03:00 - 07. Body & Soul (Green, Hayman)/03:51 - 08. Caprichosos De La Habana (Arturo Sandoval)/04:14 - 09. Epilogo: Mambo Influenciado (Chucho Valdés)/00:21

09 julho 2010

“Já Volto”, de Thiago Carreri

O violonista e guitarrista são-carlense Thiago Carreri – não por acaso também meu amigo – acaba de lançar seu primeiro CD instrumental, com nome que anuncia que já veio pra ficar: “Já volto”, disco que conta com oito singelas músicas, mostrando influências fortes da canção brasileira e do jazz fusion.

Músico de mão cheia, daqueles que acompanham qualquer música em qualquer tom, com suíngue e musicalidade à flor da pele, Thiago busca um caminho diferente no jazz brasileiro. Um jeito manso, inocente, de buscar a melodia essencial em cada uma de suas composições. Dosando os improvisos com parcimônia, investindo na força das linhas melódicas e nos contornos harmônicos, o guitarrista acaba criando uma obra delicada e sutil, que resulta em um disco gostoso de escutar.

Dá pra ouvir algumas influências guitarrísticas de George Benson, Helio Delmiro e Mike Stern; e a mão violonística lembrando Romero Lubambo e Raphael Rabelo. A identidade de Thiago surge das superposições de todas essas e outras sonoridades, somadas à experiência de anos tocando nas mais diversas formações musicais. Um “nego véio”, que já bebeu de várias fontes e domina a “malandragem” de fazer música que agrada desde a primeira nota.

Canção brasileira, com gosto de terra e cheiro de samba; valsa americana, com sofisticado tecido de saudade blues; violão de roda, envolto pelo colorido do choro; groove de funk, jeito de baião, um tango-rock. Mistura que agrada como uma notícia boa, uma canção de ninar, uma nuvem serena, um sonho feliz. Tudo com a sonoridade da pureza, simplesmente música, puramente som.

Tive a felicidade de participar de duas músicas do disco, assim como a honra de ser convidado para participar da banda que fará os shows de lançamento do CD. O primeiro acontece agora em julho, no SESC Araraquara, dia 23. Além de mim, participam do quarteto o baixista Ricieri Nascimento e o baterista Bruno Bernini.


Thiago Carreri (guitarra, violão); Ricieri Nascimento (baixo); Bruno Bernini (bateria); Murilo Barbosa (piano, 2,6); Maurício Ribeiro (teclado 3,4); Gustavo Camillo (teclado, 8); Fernando Mumu (trombone, 3); Emílio Martins (percussão, 3); Thadeu Romano (sanfona, 4); Lucas Melo (bandolim, 5); Ailton de Jesus (Flügelhorn e trumpete, 3)

1. Nina; 2. Já Volto; 3. Primeiro Filho; 4. Bango; 5. Para o bandolim; 6. Valsa n1; 7. Partido; 8. Chão

24 junho 2010

O jazz saiu pra passear com Herbie Hancock e...

Neste mês de junho de 2010 saiu o novo disco do pianista de jazz mais importante ainda vivo. Herbie Hancock (Chicago, 1940) é o elo perdido - ou achado - entre o jazz tradicional, a música contemporânea e o universo pop. Se há algum músico no mundo hoje capaz de dizer que toca funk, música eletrônica, música erudita, world music, música improvisada e jazz, é ele.

Hancock fez de sua música um reflexo de sua vida: livre, sem preconceitos, aberta, mas sempre objetiva, plena de caráter e personalidade. Quando criança, aos onze anos foi solista da Sinfônica de Chicago tocando Mozart por puro divertimento. Na adolescência, aprendeu a linguagem do jazz sem professores, apenas ouvindo discos de Bill Evans, George Shearing e os arranjos de Clare Fischer para grupos vocais. Ou seja, absorveu o melhor da música sem se importar com a fonte.

Neste último trabalho, "The Imagine Project", Hancock convidou vários artistas dos cinco continentes para, em cada faixa, criar uma concepção, um arranjo, uma abordagem para as canções - algumas icônicas da "mensagem global de paz" que o disco quer passar, como "Imagine" (Jonh Lennon) e "The Times, They Are A'Changin" (Bob Dylan). Improvisos sobre ragas indianas, tablas e cítaras; percussão malinesa, ritmos afrocaribenhos, vozes do oriente, guitarras distorcidas. Canção pop com harmonia outside. Improvisos sobre acordes básicos de rock. O resultado é interessantíssimo, até porque soa estranho pra quem gosta de jazz e estranho também para quem curte música pop. Um "estranho bom".


Não sei se são os solos tortos de Hancock em cima da harmonia certinha das composições, ou se é o clima cool com ritmos mais complexos e abstratos emoldurando as vozes mais comerciais, mas tudo nos faz ouvir o disco com um pouco mais de cuidado do que os críticos - a patrulha do jazz -, que se "horrorizaram" com o trabalho anterior de Hancock que seguia essa mesma linha ("Possibilities", de 2005, que trazia duetos com os mais variados artistas). Até porque as possibilidades abertas por este novo projeto são mais ousadas que a do anterior.

Apesar das misturas, a personalidade de Herbie Hancock prevalece, dando unidade ao trabalho. Personalidade que ele mostra desde que despontou na cena do jazz, no começo dos anos 60, quando tocava em clubes de bebop e destacava-se no grupo de Donald Byrd. Logo o legendário trumpetista Miles Davis convidou-o para integrar seu grupo - o maravilhoso quinteto que contava ainda com Wayne Shorter (tenor), Ron Carter (baixo) e Tony Willians (bateria).

Com Miles, o grupo perseguia um tipo novo de improvisação, sem se importar com as mudanças de acordes dos temas, e sim com o fluxo rítmico e melodias subliminares. Foi também com Miles que Hancock entrou em contato com o piano elétrico Fender Rhodes. Começava sua navegação pelo jazz experimental, funk elétrico e África. Ao sair do grupo de Miles, começou a explorar mais os sons eletrônicos de sintetizadores, produzindo discos com improvisação livre e técnicas eletroacústicas de composição.

No início dos anos 70, passou a procurar uma sonoridade mais simples, em que conseguiu sintetizar toda a sua experiência de improvisação, conhecimento dos ritmos e da cultura negra em um disco pop conceitual: "Head Hunters", lançado em 73, que causou um verdadeiro abalo nas estruturas do que até então se chamava jazz. Se a fusion de Miles Davis havia desafiado as hostes mais conservadoras do jazz, "envenenando-a" com sonoridades elétricas, ela agora parecia "bagunça" perto dessa versão mais "funkeada" criada por Hancock, que atingiu em cheio a cultura pop norte-americana.

Hancock criou ainda nos anos 70 seu grupo V.S.O.P., em que explorava a linguagem jazzística post-bop com verve e criatividade impressionantes. Portanto, passeava tranquilamente pelas veredas mais obscuras e vanguardistas do jazz, enquanto também chacoalhava o gênero com suas incursões pelo funk e música pop. Não foi à toa que, nos anos 80, após o lançamento de "Future Shock" (1983), Hancock tenha se tornado o primeiro artista de jazz a ter um videoclipe premiado na MTV (quem lembra desse hit, "Rockit", em que os robôs é que são os personagens?).

Seguiu ganhando Grammys, produzindo trilhas sonoras (inclusive aquela do inesquecível "Por volta da meia-noite", em que tudo é tocado ao vivo), jingles (a pérola "Mayden Voyage" foi criada para um comercial de perfume, acreditem se quiser) e gravando de tudo. Discos experimentais, duetos de piano, saxofone, guitarra, música eletrônica, música pop... até chegar a discos como este "The Imagine Project", que simplesmente passeiam por todos os territórios da música e, no caminho, derrubam algumas cercas.


Herbie Hancock - The Imagine Project (2010)


1. Imagine (apresentando India.Arie, Jeff Beck, Pink e Seal); 2. Don´t Give Up (com Pink e John Legend); 3. Tempo de Amor (com Céu); 4. Space Captain (com Susan Tedeschi e Derek Trucks); 5. The Times, They Are A'Changin' (com The Chieftans e Lisa Hannigan); 6. La Tierra (com Juanes); 7. Tamitant Tilay/Exodus (com K'Naan, Los Lobos e Tinariwen); 8. Tomorrow Never Knows (com Dave Matthews Band); 9. A Change is Gonna Come (com James Morrison); 10. The Songs Goes On (com Chaka Kahn, Anoushka Shankar e Wayne Shorter).

07 junho 2010

Gonzalo, tocando Jobim

A homenagem pra Tom Jobim no último Free Jazz Festival, em 1994, deu aos standards da Bossa Nova uma cara mais novaiorquina. Mais post-bop. O cubano Gonzalo Rubalcaba era um dos convidados. Assim, os improvisos ganharam também um sotaque latino, com o fraseado potente e assertivo do pianista contagiando todo o time.

No teclado, Herbie Hancock mediu bem os acordes, sem correr o risco de interferir na abordagem exótica e quase "ceciltayloriana" de Rubalcaba, cuja (piro)técnica rouba a cena - mas não a música. Ao contrário, a selvageria do pianista só faz elevar ainda mais a temperatura e deixa a geralmente morninha "Água de Beber" (Jobim/Vinícius de Moraes) praticamente em ebulição.

 

Nos anos 90, Gonzalo foi tão festejado na cena jazzística quanto a queda de um meteoro de ouro em plena Wall Street. E a primeira impressão que causou foi a de um furacão pianístico, de técnica exuberante e musicalidade indômita. Um cubano "caliente", renovando a vanguarda jazzística com imbatível rítmica afro e rajadas de montunos sobre compassos compostos. Mas não era só isso. Rubalcaba é inesquecível também pela interpretação impressionista, mínima e pungente, de baladas complexas, transformando-as em delicados poemas sonoros. É quando seu toque romântico, envernizado por harmonias surpreendentes, transcende o rótulo latin jazz e passa ser simplesmente música.


Essa sua faceta mais introspectiva e poética foi aproveitada pelo baixista e bandleader Charlie Haden no disco "Nocturne" (Verve, 2001), em que convidou o pianista cubano e outros músicos que tinham alguma relação com a música latina para criar uma atmosfera densa e charmosa ao interpretar canções da cultura afrocaribenha (boleros como "Contigo en la distancia", "Noche de Ronda" e "Tres palabras", por exemplo). Uma obra-prima, em que a linguagem jazzística refina as melancólicas e dolorosas melodias hispânicas, enquanto o colorido das canções dá fôlego a este soberbo noturno jazzístico.

Nocturne (2001) (pt.1) (pt.2)
 


Gonzalo Rubalcaba (piano); Ignacio Berroa (bateria); Joe Lovano, David Sanchez (tn sax); Pat Metheny (violão); Frederico Ruiz (violino)
1. En la Orilla del Mundo; 2. Noche de Ronda; 3. Nocturnal Marroquin; 4. Moonlight; 5. Yo Sin Ti;  6. No Te Empeñes Mas; 7. Transparence; 8. El Ciego; 9. Nightfall; 10. Tres Palabras; 11. Contigo en la Distancia 

02 junho 2010

A sétima verdade do jazz

O pensamento jazzístico é maior do que o jazz. Aspectos da linguagem do jazz - tema, improviso, forma, blue note, swing, instrumentação, arranjo característico - se ampliam quando sobrepostas a novos materiais musicais, novas culturas, novos territórios sonoros.

A pianista e cantora azerbaidjana Aziza Mustafa Zadeh, 40, traz as escalas exóticas do sudeste europeu para os palcos do jazz, mesclando improvisações ao estilo mugam (música tradicional do Azerbaidjão, de origem persa) a standards como Take Five (Paul Desmond) ou Manhã de Carnaval (Luis Bonfa).




Sua técnica vocal e habilidade pianística fazem dela uma força única no jazz, alimentando-o de novas possibilidades expressivas. Saindo das escalas dóricas, passeia pelos semitons da música oriental, pelos modos tristes e dançantes da música mugam, atacando em uníssino com o piano, criando assim um instrumento único, capaz de nos levar à longínqua Pérsia, à Alemanha de Bach, ou à Nova York multicultural de um Chick Corea. Tudo em menos de um compasso.

World Music? Música étnica? Sim, mas com marcas do jazz, presentes em detalhes como performance (a atitude "jazzmen cool", explicada por Carlos Calado). Aziza chama seus shows de concertos. Geralmente é só ela e o piano. Em um vestido chique, porém simples, a silhueta magra só se movimenta de acordo com as tensões e sobressaltos de seu próprio improviso. Com fraseado suingado, cria contracantos ou mesmo dobras harmônicas com seu scat singing, criando melodias com alto grau de liberdade (onde a improvisação modal, feita sobre uma tonalidade única, se encontra com o free jazz), entre outras.

Aziza mora na Alemanha desde os 18 anos, quando a mãe cantora a ajudou a assumir sua carreira musical e a levou para disputar o famoso concurso de talentos do Thelonious Monk Institute, nos EUA, no qual ficou em terceiro lugar. Três anos depois, em 1991, lançou seu primeiro disco e hoje já vendeu 15 milhões de cópias de seus nove álbuns.

No disco Seventh Truth (1996), Aziza toca piano, canta e também toca percussão, assistida apenas por um percussionista indiano. Jazz não-ortodoxo, para ouvidos não-ortodoxos.


 Seventh Truth (1996)
Aziza Mustafa Zadeh: piano , piano, vocals & congas [1-4-10-11-12]; Ramesh Shotam: drums [4], indian percussion [1-4-11]
01. Ay Dilber (5:25); 02. Lachin (3:43); 03. Interlude I (2:06); 04. Fly with Me (7:07); 05. F# (4:18); 06. Desperation (6:21); 07. Daha... (Again) (4:53); 08. I am Sad (4:55); 09. Interlude II (00:27); 10. Wild Beauty (4:34); 11. Seventh Truth (4:40); 12. Sea Monster (8:12);

26 maio 2010

A volta do romântico

Keith Jarrett (1945, Allentown, EUA) é um pianista cuja assinatura musical é o toque romântico, sutil, extremamente suingado e elegante. Sua interpretação é sempre delicada, destacando nuances jazzísticas em sua divisão, recriando os temas e sugerindo novos caminhos harmônicos com inteligência e extrema criatividade.

Jarrett é lírico. Seus improvisos sempre contam histórias simples, melodiosas, que se tornam complexas mas não herméticas. É sua alma que soa. E sua capacidade de envolver a música é tão marcante que ele chega a fazer isso com o próprio corpo. São notórias as apresentações ao vivo do artista, em que ele se contorce, levanta, debruça-se sobre o teclado, cantarolando e gemendo durante os solos.

Mesmo com tamanha entrega e superexpressividade, o som de Jarrett resulta paradoxalmente cristalino, de timbre impecável, coberto de texturas harmônicas sedosas que se sobrepõem às frases absolutamente límpidas de sua mão direita. Muitas vezes a extrema velocidade com que toca faz com que as notas soem ainda mais nítidas, quando se esperava que saíssem atropeladas.
 
Sempre muito exigente quanto à qualidade de seu som, Jarrett não toca em qualquer piano: tem que ser Steinway & Sons, de fabricação alemã (ultimamente o músico tem preferido o som dos Steinways americanos, e mandou modificar todos os martelos do piano que tem em seu estúdio caseiro). Também exige máximo silêncio da platéia, e já mandou parar concertos porque muitos espectadores tossiam na sala.

Jarrett superou uma doença que quase fez com que parasse de tocar. Em 1996, foi diagnosticado portador da Síndrome da Fadiga Crônica (SFC), que o deixava exausto só de pensar em música. Incapacitado para tocar, encontrou a cura dois anos depois e lançou um disco solo com canções simples que gravou durante o período de recuperação.  Desde então, voltou a produzir e já lançou vários discos com seu célebre Standards Trio (Jack DeJohnette na bateria e Gary Peacock no baixo). Deixo aqui o link para "Yesterdays", lançado em 2001, gravado ao vivo no Japão. A receita é a mesma: o pianista reinventa grandes temas do jazz e do cancioneiro americano ao seu estilo "romântico". Detalhe: a última faixa, "Stella By Starlight", resultou da passagem de som de um outro concerto, realizado dias antes. 



Keith Jarrett - Yesterdays (2001)

1.Strollin' (8:12); 2.You Took Advantage Of Me (10:12); 3.Yesterdays (8:55); 4.Shaw'nuff" (6:10); 5.You've Changed (7:55); 6.Scrapple From The Apple (9:01); 7.A Sleepin' Bee (8:17); 8.Intro / Smoke Gets In Your Eyes (8:47); 9.Stella By Starlight (8:04)

05 abril 2010

Richie Beirach e o piano corajoso























O pianista novaiorquino Richie Beirach (1962) poucas esteve em destaque em seus mais de 35 anos de carreira no mundo do jazz. Assim como McCoy Tyner esteve inicialmente encoberto pelo mestre John Coltrane, e só ganhou mais destaque depois de deixar o saxofonista, Beirach ficou anos à luz do saxofonista Dave Liebman. Mas seu trabalho como líder de seu trio (com George Mraz no baixo e Billy Hart na bateria) ou como solista revela um talento raro não só para a improvisação, mas também para a criação de arranjos inusitados e corajosos.

Neste trabalho solo, gravado ao vivo em 1992, Beirach leva ao extremo sua expressividade na recriação de standards. Com influências de Art Tatum, Bill Evans e munido de boa técnica pianística, adquirida em anos de estudos eruditos e como aluno da famosa escola Berklee, utiliza linhas de condução rítmicas claras, porém complexas, na mão esquerda, em aberturas de quinta que soam brilhantes e imponentes. Dinâmica sempre variando entre o mezzo-piano e forte, com uso de texturas mais rascantes na mão esquerda e notas seguras e vibrantes na mão direita. Criatividade e sofisticação harmônica. Improvisos fortemente baseados na rearmonização, sugerindo caminhos inauditos. Coragem para perseguir sonoridades inovadoras.

Beirach não tem medo de inventar. Utilizando recursos inteligentes e complexos, como a modalização harmônica no caso do clássico "On Green Dolphin Street", sua interpretação tenta dar a impressão de que a música tem um acorde só, utilizando uma nota "bordão" para modalizá-la. Outra surpresa harmônica vem em "All the things you are" que, apesar de já desgastado, aparece totalmente revitalizado, com acordes ousados que fazem valer a pena ouvi-la mais uma vez. Outro clássico que foi totalmente reconfigurado é "All Blues", que se torna quase um boogie-woogie em tempo ternário.

"Some Other Time" exibe a mesma sobriedade e elegância com que Bill Evans gravou o tema, acrescida de um lirismo quase gospel. A expressividade de "Spring is Here" é dramaticamente aumentada com o uso de glissandos, escalas sobrepostas, pedais harmônicos, que ele também utiliza em "'Round Midnight" e "Over  the Rainbow".
 
A gravação termina com a interpretação de "Elm", canção em estilo bolero composta pelo próprio Beirach e que já se tornou referência no repertório jazzístico (a partitura aí em cima, retirada do The New Real Book, comprova). O CD também comprova que o piano inventivo e majestoso de Beirach com certeza tornou-se também referência no mundo da música.

 Richie Beirach - Live at Maybeck Hall (1992)

Richie Beirach (piano)
1 Introductory Announcement; 2 All the Things You Are; 3 On Green Dolphin Street; 4 Some Other Time; 5 You Don't Know What Love Is; 6 Spring Is Here; 7 All Blues; 8 Medley: Over the Rainbow/Small World/In the Wee Small Hours of the Morning; 9 'Round Midnight; 10 Remember Berlin; 11 Elm

24 março 2010

Mozart no jazz, o jazz em Mozart


A maior prova de que o jazz é uma forma de pensamento musical e não um ritmo ou estrutura pré-definida são as gravações de jazzistas que releem os clássicos eruditos à luz do gênero jazzístico. 

Obviamente não basta improvisar sobre um tema de Mozart para se tornar jazz. Vários concertos do músico austríaco continham passagens improvisadas, chamadas cadenzas (cadências), em que o intérprete pode optar por seguir o que está escrito ou criar novas frases sobre a harmonia. O mestre Chick Corea improvisou todas as cadências no Concerto para Piano e Orquestra em Ré menor (K.466) e no Concerto para Piano e Orquestra em Lá maior (K.488) no disco "The Mozart Sessions". Continou sendo uma gravação maravilhosa, mas de música clássica. 

No disco "Jazz Mozart", o pianista novaiorquino John di Martino seguiu um caminho diferente. Acompanhado do baixista Boris Kozlov e do baterista Ernesto Simpson, Martino deixa a orquestra clássica de lado e dá um interpretação jazzística a músicas conhecidas de Mozart. Toques latinos, valsas sofisticadas, baladas serenas e incrível abordagem moderna das belas melodias mozartianas (como a Sinfonia #40) tornam o disco irresistível. 

Heitor Villa-Lobos utiliza a canção tradicional "Ciranda-Cirandinha" para escrever o "Polichinelo", uma das mais difíceis execuções pianísticas. John di Martino recria as obras de Mozart com um moderno trio de jazz. A genialidade não se encontra no material musical, mas em como se trabalha. O jazz é assim.

O que define o jazz? Discos como esse nos fazem pensar. "Jazz é tudo o que tem improviso". Será? Não pode ser, pois há músicas de origem judaica, africana e asiáticas que são puramente improvisadas e não têm nada da carga expressiva do jazz. Por outro lado, a adoção de uma instrumentação estilosa (piano-baixo acústico-bateria-guitarra acústica-saxofone) também não quer dizer nada se não há improviso, como é o caso de Norah Jones, uma boa cantora com um approach mais cool, mas que acrescenta pouco suíngue às canções. Ser negro - herdeiro das tradições negras devido à herança étnica - também não é condição sine qua non, ou os saxofonistas Michael Brecker e Joe Lovano - brancos como talco - não poderiam ser considerados os herdeiros naturais do trono de John Coltrane. 

Talvez uma das chaves para se compreender (e se fazer) o jazz esteja no blues. "You gotta get the blues", baby. O blues é uma das mais paradoxais formas de expressão artísticas. O bluesman canta a tristeza, o luar frio, a dor de cotovelo, o amor impossível, em melodias de indefínivel caráter. Ora soam tristes, ora soam alegres, devido à presença da famosa terça menor que veio das escalas pentatônicas africanas,  que não se afinam de acordo com a escala ocidental. Parecem sempre um pouqinho fora do tom, fora do contexto, trazem um elemento desconhecido, caótico, para o universo "quadrado" da harmonia tonal. Isso empresta um sabor sofisticado, nostálgico, pungente, energético e vital à música, e é a principal via de acesso para a compreensão do jazz. 

Toda uma forma de improvisação que foi sendo criada e moldada sobre esta sonoridade. A linguagem do jazz: essa se molda e se modifica desde então. Mais de 100 anos de história. Em alguns períodos dessa trajetória, vários artistas perceberam a possibilidade de reexaminar o repertório clássico europeu com as sonoridades fornecidas pelo jazz. Gunther Schuller, o alemão que inventou a Third Stream; Claude Bolling, o pianista que criou "jazz-concertos" para piano e flauta, piano e violão, piano e trumpete; o Modern Jazz Quartet, que abordava standards de jazz com tamanha delicadeza que só realizava shows em palcos de teatro; o pianista Keith Jarrett, que escreveu concertos para cordas e saxofone improvisado; o pianista Joe Sample, que fez versões disco para temas barrocos; e uma infinidade de outras aventuras semelhantes. 

A verdade é: se ninguém dissesse que é Mozart, você iria ouvir o disco como se fosse um excepcional disco de jazz moderno - ponto para di Martino, que caprichou nos arranjos. Só iria se surpreender com a extrema qualidade das melodias - ponto para o eterno Mozart.



 Jazz Mozart - John di Martino's Romantic Jazz Trio (Venus Records, 2007)


John di Martino (piano); Boris Kozlov (baixo);  Ernesto Simpson (bateria)



1. The Fire of Passion (Piano Concerto #24 in C minor, K491); 2. Soft, Like the Petals of a Rose (Piano Concerto #21 in C Major, K467); 3. Desert Journey; 4. I've Lost Her (The Marriage of Figaro, K492); 5. Fantasy in D minor, K397; 6. My Heart Needs to Know (Piano Concerto #27 in Bb Major, K595); 7. Lacrymosa (Requiem, K696); 8. The Willows Song (Concerto for Clarinet and Orchestra in A Major, K622); 9. Dance of the Wind (Symphony #40 in G minor, K550); 10. Arc of Love (Piano Concerto #23 in A Major, K488)

14 março 2010

Milagre do Jazz

Milton Nascimento, no auge de sua carreira, se apresentando no Festival de Jazz de Montreal (Canadá). A música é a primorosa "Milagre dos Peixes" - milagre de complexidade e singeleza que só os gênios atingem em suas composições.




No show, gravado em 1990, o convidado especialíssimo Wayne Shorter destila notas inimagináveis ao sax soprano (aos 2'20'' ele começa o solo na mesma nota aguda que Milton emite no final de seu canto, e vai acrescentando elementos de grande expressividade até o final da música).

Shorter gravou o disco "Native Dancer", em 1974, ao lado do mineiro, improvisando e arranjando quase somente as canções de Milton (o pianista era Herbie Hancock, imagine o som...). Não há palavras para descrever as possibilidades. As composições oníricas, épicas, sensoriais de Milton (e sua voz sobre-humana) com o sax post-bop de Shorter. Só ouvindo pra crer.

O disco já fazia minha cabeça há anos, quando o encontrei numa das obtusas (e quase sempre surpreendentes) gôndolas das Lojas Americanas, custando uma merreca. "Tarde", "Ponta de Areia", "Milagre dos Peixes", além de composições funkeadas de Shorter e Hancock. Delírio tropical, de dois gênios americanos se arriscando na gruta azul mineira que é o universo poético de Milton. Não dá pra saber se resulta em um disco de música brasileira ou de jazz, pois os melhores elementos desses dois mundos se mostram de forma inseparável - seja nos ritmos intensos, seja na espontaneidade da interpretação.

Native Dancer (1974)

Wayne Shorter (soprano & tenor saxophones); Milton Nascimento (vocals); Herbie Hancock (piano, rhodes); Airto Moreira (percussão); Dave McDaniel (baixo), Robertinho Silva (bateria), Wagner Tiso (piano), Jay Graydon e Dave Amaro (guitarra & violão).


1. Ponta De Areia; 2. Beauty And The Beast; 3. Tarde; 4. Miracle Of The Fishes; 5. Diana; 6. From The Lonely Afternoons; 7. Ana Maria; 8. Lilia; 9. Joanna's Theme

18 fevereiro 2010

Charles Lloyd, o doce xamã do post-bop













As várias tardes quentes em Memphis ao som das gravações do elegante e melodioso Lester Young, a viagem musical para Los Angeles aos 18 anos durante o florescimento do jazz "west coast", os sons misteriosos da cítara indiana e as múltiplas camadas rítmicas das tablas que invadiam o cenário nos loucos anos 60; tudo isso converge para a formação da personalidade musical de um dos mais importantes saxofonistas do jazz: Charles Lloyd, 72, músico que fez fama nos anos 60, passou por uma fase de obscuridade nos anos 70 e voltou lentamente aos holofotes desde os anos 80.

O toque aveludado e intenso de Charles Lloyd, aliado à sua atitude totalmente hipnótica no palco, confere uma aura lírica à audaciosa música produzida por ele. Apesar de ser tão intenso quanto Coltrane, tão caótico como Ornette Coleman, tão denso quanto Steve Lacy, a abordagem de Lloyd é de extrema sensibilidade quanto à dinâmicas, fraseados e climas. Isso torna suas interpretações verdadeiras jóias, transformando cachoeiras de acordes, rufos de tambores e sforzandos em lagoas de contemplação, planícies de frescor e deleite para os ouvidos.

Seu sopro no sax tenor é sereno, redondo, soa como condensações quentes de ar musical em todas as diferentes ondas e freqüências que emanam do banda que o acompanha: seja apenas um delicado contrabaixo, seja um quarteto arrojado, seja uma orquestra de sopros, seu som é sempre bem desenhado e intenso. Destaca-se também sua abordagem "etérea" da flauta transversal, que transforma-se num instrumento exótico em suas mãos.

Lloyd tem ainda uma certa predileção por ritmos caribenhos e africanos, flertando ainda com o rock progressivo e o funk de estirpe setentista. Por isso, seus concertos - que vão das baladas mais sentimentais ao free jazz mais aberto e vibrante - sempre apresentam nuances mais alegres e envolventes do que um show "comum" de jazz post-bop. Mesmo assim, suas composições não deixam de ter certa complexidade e desafiam os músicos a tocarem com grande precisão e senso de expressividade coletiva. Peças como "Prometheus" e "Migration of spirit" soam como se fossem pequenas suítes feitas para grande orquestra, com movimentos distintos e momentos de tensão que exigem atenção da banda.

Nos anos 60, seu quarteto formado com Keith Jarrett (piano), Ron McClure (baixo) e Jack DeJohnette (bateria) alcançou alta popularidade devido às adaptações de canções de rock e pop da época para a linguagem do jazz. LLoyd vestia batas coloridas e empunhava maracas, dançando como se estivesse possuído por espíritos xamânicos; um Keith Jarrett jovem e franzino, com cabelo à la black power, se aventurava no sax soprano e no pandeiro, balbuciando alguns sons enquanto se contorcia em solos mais exaltados (uma de suas marcas registradas, até hoje); enquanto isso, DeJohnette imprimia alguns grooves mais funkeados ao seu toque geralmente mais solto e requintado, em total sintonia com o baixo às vezes errático de McClure.

Em 2008, Charles Lloyd montou um novo quarteto e gravou um disco chamado "Rabo de Nube" (ECM), onde toca composições novas e antigas. Não faltam exemplos de sua veia funkeira, como a suingadíssima "Booker´s Garden", que conta com um groove de baixo e bateria contagiante. Assim como também há improvisações livres extremamente interessantes, como na introdução do hit de Jarrett "Sweet Georgia Bright". O momento de suave latinidade e grande introspecção é a composição "Rabo de Nube", bolero do cubano Silvio Rodrigues, que fecha o disco. O CD é uma boa mostra de como a música de Lloyd é extemporânea e, ao contrário de muitas gravações mais vanguardistas, soa como novidade extremamente agradável.


Rabo de Nube (ECM, 2008)


Charles Lloyd (sax tenor, flauta, taragato)
Jason Moran (piano)
Reuben Rogers (baixo)
Eric Harland (bateria)

14 fevereiro 2010

Pianista chumbo-grosso

Alfred McCoy Tyner, 71, é um dos pianistas mais geniais do jazz. Seu estilo de tocar é expressivo e adiciona um colorido especial a qualquer música. Um simples blues se transforma rapidamente num tema hard-bop devido a sua capacidade de explorar a rítmica e aplicar harmonia modal a qualquer peça usando acordes quartais - característica que influenciou profundamente os pianistas modernos como Chick Corea e Herbie Hancock.

Além disso, o som amplo e forte de seu piano foi fundamental no quarteto de John Coltrane, do qual participou de 1960 a 1965. Seu som poderoso, com dinâmicas fortes, abusando de trêmolos pesados nos acordes de mão-esquerda, criavam climas e ambientações perfeitas para as notas rascantes do sax de Coltrane.

E quando solava, McCoy seguia a contramão de todos os improvisadores - primeiro parecia recortar os temas agressivos do grupo com frases rápidas de mão direita, cheias de notas em staccatto baseadas na escala pentatônica - geralmente sobrepostas à tonalidade original, com fraseados extremamente modernos e ousados. O clímax de seus improvisos chegava quando ele diminuía a velocidade das frases, mas aumentava a dinâmica dos acordes, com ataques violentos das mãos ao teclado, explorando toda a extensão de graves e agudos com rítmicas complexas.

O professor de piano norte-americano Roger Friedmann mostra neste vídeo aqui como desenvolver o "estilo" McCoy no piano.



Tomei contato com Tyner ouvindo um disco dele lançado em 1991 chamado "Remembering John", onde ele lembrava dos temas de Coltrane tocando apenas em trio com o baixista Avery Sharpe e o baterista Aaron Scott. Conservando seu estilo exuberante e técnica impecável, McCoy soa nessa gravação como uma orquestra completa, com acordes elegantes nas baladas ("Good Morning Heartache" e "Like someone in Love") e extrema "selvageria" nas composições mais arrojadas ("India", "Pursuance" e "Giant Steps").

E disponibilizo aqui para download uma gravação mais recente de McCoy, com um quarteto de estrelas atuais do estilo. O grupo recria algumas das principais composições de Tyner, como "Passion Dance" e "Blues on the corner", em uma gravação ao vivo cheia de solos brilhantes e extrema energia (links do excelente blog Pintando Música).


McCoy Tyner Quartet - parte 1
McCoy Tyner Quartet - parte 2

Joe Lovano - sax tenor
Christian McBride - baixo 
Jeff Watts - bateria

02 fevereiro 2010

Monkeando a música

















Thelonious Monk é um dos pianistas mais arrojados de todas as épocas do jazz. Seu estilo despojado, exótico, sujo, direto e aparentemente caótico de tocar conferiu ao bebop uma identidade harmônica ousada e colorida. Suas notas pareciam fortalecer as melodias intrincadas com notas de sustentação muito calcadas nas alterações da escala (b2, b3, b5, b6, b7). Seus acordes sempre soam secos, cortantes, angulosos - mas encaixam perfeitamente nos escassos vãos entre as centenas de notas dos temas do bebop.

Monk levou adiante seu estilo em suas composições, em que experimentou diferentes abordagens do espectro harmônico ao criar melodias com grandes saltos ou pequenos cromatismos. Nesse contexto, sua "arma secreta" era o uso da escala de tons inteiros - usada por Debussy e outros impressionistas no âmbito da composição erudita - nos acordes dominantes de suas criações, gerando improvisos bem-humorados e irreverentes devido à sonoridade peculiar dessa escala.

Seus temas são poucos - cerca de 70 - e quase sempre fazem referência ao blues, seja na forma estrita de 12 compassos e 3 acordes - que ele modificou, usando estruturas como I7 - IIb7 - I7 - V, ou I7 - VIb7 - II7 - V7 ao invés do clássivo I7 - IV7 - I7 - V7 - seja na expressão direta e límpida do conteúdo. Poucas notas, mas organizadas de forma a criar pequenos universos expressivos únicos e inesquecíveis. Pequenas jóias jazzísticas, que falam sobre o Bronx, o Queens, o metrô, os clubes da rua 52, as noites mal-iluminadas, os passeios sobre as calçadas úmidas e becos sombrios de Nova Iorque.

Foi em um disco do pianista panamenho Danilo Perez que pude entender a irreverência da música de Monk. Em Panamonk (1996), Perez usou abordagens semelhantes às do mestre nova-iorquino e recriou algumas das pérolas do repertório monkiano em um novo contexto rítmico, usando ritmos caribenhos para improvisar sobre as canções. Ou seja, emprestou de Monk seus tempos e fraseados exóticos para elevar a um novo nível de complexidade seus próprios temas. Além disso, Perez também compôs canções seguindo o estilo "desengonçado" de Thelonious, deixando o disco simplesmente delicioso de ouvir.

Panamonk (1996)
Danilo Perez - Piano; Terri Lyne Carrington, Jeff Watts - Batería; Avishai Cohen - baixo; Olga Román - Voz  (01) Monk's mood 1 (02) Panamonk (03) Bright Mississippi (04) Think of One (05) Mercedes' mood (06) Hot Bean Strut (07) Reflections (08) September in Rio (09) Everything happens to me (10) 'Round Midnight (11) Evidence and Four in One (12) Monk's mood 2