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17 julho 2011

Caminhos da harmonia
















No jazz só há uma regra: seguir a forma da música. Mesmo quando não há forma, segue-se uma direção comum, um rumo, ditado pela sensação, pelo clima, pela vibração do momento. Ouve-se como um reflexo, reflete-se sobre o que se ouve, um contexto se desenha, então responde-se. A música então nasce, e nesse processo já amadurece e cresce, e continua nascendo até morrer.

A Garota de Ipanema, de Jobim e Vinícius, tem uma forma conhecidíssima (AA-B-A) e progressões harmônicas maravilhosas. Porém, quase 50 anos após sua composição, seus acordes já foram autopsiados em vários livros e manuais de análise musical. Até por isso, muitas de suas interpretações em jam sessions ou mesmo gravações de música popular soam enfadonhas, desinteressantes, por ser muito difícil fazer algo novo com ela - no máximo, obtém-se alguma interpretação elegante.

Para uma grande parte de músicos que improvisam sobre o tema da Garota, não há desafios técnicos ou harmônicos. Os acordes vão acontecendo de forma mais que previsível e, compasso após compasso, muitos não conseguem mais ouvir atrativos nas harmonias mais que repisadas e acabam tocando sem pensar muito, criando solos burocráticos ou apenas corretos.

Nem por isso o guitarrista Fábio Leal deixou a música de fora de seu repertório. Ao contrário, propôs um novo arranjo para a Garota, com uma rearmonização ousada, densa, inovadora e interessantíssima. Não que Tom Jobim precise de correção; são nossos ouvidos que precisam de novos desafios, e o genial Fábio percebeu isso. Em seu arranjo, cada um dos "A" tem uma harmonia diferente, e a parte "B" se inicia com um acorde menor [Bbm7(b13) em vez de Gbmaj7] que parece dar um significado mais sombrio à letra (talvez o "Ah, porque estou tão sozinho" soasse com muito mais "solidão" desse jeito...).

O arranjo realmente inspira. O resultado, após um ensaio e uma jam session, foi registrado nesse vídeo abaixo, gravado no último Janela Jazz - evento realizado no Instituto Cultural Janela Aberta, em São Carlos (SP) - com Fabiano Nunes no baixo, Paulo Almeida na bateria e eu no teclado.

23 junho 2011

Festival Paralelo, força independente do jazz









Demorou para os bons músicos se juntarem para criar público para seus shows. Muitos reclamam que não há espaço para o jazz ou gêneros instrumentais como o choro, mas poucos fazem algo para mudar essa realidade. A turma do Sindicat's Cultural, formada por músicos conhecidos no meio instrumental, é uma das iniciativas mais sólidas até agora. Tanto é que estão lançando a primeira edição de um festival, o Festival Paralelo, com shows que acontecem paralelamente ao Painel Instrumental do Conservatório de Tatuí. 
Os shows acontecem de 3 a 9 de julho, no bar Capital da Música (Av. Cel. Firmo Vieira de Camargo, 161, Tatuí, SP). Os shows começaram logo após os espetáculos do Painel Instrumental, a partir das 23 horas. A entrada será apenas R$ 3. A programação confirma: será da pesada.

08/07 - Jota P (João Paulo Barbosa)


02 junho 2011

Não há notas erradas

Jam sessions são sempre momentos onde tudo está por um fio. A alegria do encontro de músicos diferentes, a vibração de fazer um som imprevisível e, ao mesmo tempo, coletivo. Tocar com o coração, mas sob controle da mente. Mas há sempre a possibilidade da ansiedade fazer nublar o tempo e tornar as coisas um pouco mais complicadas...

Nessa noite no Blue Note, o pianista McCoy Tyner fazia uma intro para seu tema "Blues on the corner", composição que já se tornou standard, e o monstruoso Joe Lovano se atrapalhou e entrou antes... ele fica sempre algumas notas à frente da banda, e no final do tema todo mundo dá um jeito de emendar o soneto e tudo acaba bem. Pode ser que nem todos da platéia tenham percebido, tamanha é a sinceridade e o drive de Lovano. É como dizem, "no jazz não tem nota errada, só nota mal colocada". Taí a prova.


24 novembro 2010

Veneno antimonotonia





















Design: Pedro Bó



O espaço cultural "Jazz na Coisa" já se tornou um evento conhecido em Ribeirão Preto, terra que já estava ficando saturada dos sons sertanejos e similares. A festa reúne pessoas com ouvidos abertos às inusitadas e inesperadas sonoridades que só uma jam session pode proporcionar. Nem palco tem: os músicos tocam cercados pelo público, que aprecia o som e as performances bem de pertinho, curtindo cada nota, vibrando a cada chorus.

A iniciativa é dos próprios músicos da cidade, que fizeram uma parceria com os administradores do espaço para divulgar o evento. Criaram um quarteto formado com a melhor "prata da casa" pra recepcionar o público e trazer eventuais convidados para uma jam, enquanto a casa vende comidas e bebidas. Nos intervalos, o jornalista, pesquisador musical e DJ Rodrigo Kcond traz um som de qualidade. Nessa sexta, 26/11, será minha vez de ter a honra de ser a atração principal, tocando junto com Duda Lazarini (bateria), Bruno Barbosa (baixo) e Marcelo Toledo (sax). Diversão pra mim, e espero que para o público também.

Futuramente postaremos o bootleg resultante. Estão todos convidados. Custa R$ 10 (a casa não aceita cartões). Fica na Rua Amador Bueno, 1300.

02 agosto 2010

O que odiar no jazz

Achei muito engraçado ler isso no blog de um dos maiores trumpetistas de jazz, o americano Nicholas Payton (New Orleans, 1973): "o que odeio no jazz". Seu blog tem um humor negro e uma sabedoria impressionantes. Pra ler, tem que ter algum distanciamento, dispensar julgamentos ou preconceitos.

O cara é fera no trumpete e nas letras. Nesse post, que traduzo aqui livremente, ele brinca com uma série de fatos que acontecem em qualquer jam session do mundo (percebi que é do mundo meeesmo, porque algumas das gafes que ele cita acontecem em jams por aqui também...).

"Por favor, não leve a mal quando digo isso, mas eu ODEIO JAZZ!!! Me deixe dizer porque:
EU ODEIO acordes de nona aumentada...
EU ODEIO caras no palco olhando em volta tentando saber qual é o próximo tema...
EU ODEIO saxofonistas que gostam de tocar igual John Coltrane...
EU ODEIO pianistas que adoram tocar uma intro em cada tema...
EU ODEIO trumpetistas que param de tocar nos últimos 8 compassos só pra não tocar as notas agudas no final...
EU ODEIO jam sessions. A hora de ir embora é quando alguém começa "Blue Bossa"...
EU ODEIO versões funk de qualquer standard...
EU ODEIO cantores que sempre querem cantar "Summertime"...
Eu não sei o que odeio mais: a cara "raivosa" dos bateristas ou a clássica "cara de orgasmo" dos guitarristas...
Mesmo com todas essas coisas que EU ODEIO no jazz, é um mistério porque ainda assim eu o amo tanto..."


Depois de ler isso, fui procurar uns vídeos dele na internet e vejam o que eu achei - justamente uma jam session em que ele é convidado por dois guitarristas para dar uma canja. Pelo vídeo, dá pra ver porque Payton "odeia" tanto assim o jazz. Ele tenta tocar com os dois caras, que não são do ramo (ficam um tanto quanto inseguros e tímidos nas cordas), e é só na hora que Payton ataca que tudo acaba fazendo sentido. Ele é a cola que junta tudo num conjunto mais ou menos coeso. Uma furada, que só não ficou feia por causa da extrema competência do trumpetista (a música começa no 1'49"):

16 abril 2010

Memórias de um pianista melômano


















Eu busco incessantemente saber porque gosto de jazz. É algo inusitado, pois uns 90% dos meus amigos não-músicos em torno dos trinta anos apenas conhecem "de longe" o estilo, ou o toleram, ou não dão a mínima. Não consigo me lembrar um motivo específico que me tenha tornado um amante de uma música tão peculiar.

Mas persigo as memórias como aquele personagem do romance "A misteriosa chama da rainha Loana", de Umberto Eco. O homem tem uma amnésia grave e se esquece de quem é. Ele vê fotos antigas, ouve discos, lê livros, mas não se recorda de como se relacionava com aqueles objetos. Imerso em um mar de informações desconexas, só resta ao desmemoriado ir à casa onde passou a infância e buscar rastros de sua personalidade, de sua formação, de seu lugar no mundo.


Que eu me lembre, a música entrou na minha vida pelo toca-discos do meu pai, que tinhas umas bolachonas do Roberto Carlos (lembro de uma capa em que ele tinha uma pena em cima da orelha... ou isso acontecia em todas as capas?!), outras da Beth Carvalho, da Clara Nunes e umas trilhas sonoras de novelas. A música instrumental vinhas pelos vinis de orquestras como Românticos de Cuba e cassetes de Billy Vaughn.

Arranjos majestosos, alguns melosos, outros elegantes de tão simples e funcionais. Eu lembro de adorar as dinâmicas, cordas se revezando com o piano, solos de trumpete. Na adolescência vieram os CDs de Ray Conniff, que fui comprando às baciadas. Me apaixonei pelos suingados temas da Broadway, pelos boleros universais, pelos classicões de Tchaikovsky arranjados à moda "that 70's show"... ah, as melodias, que paixão. Eu era um melômano.

Adorava Richard Clayderman. Quem não lembra de “Ballade pour Adeline”? Até hoje me pedem pra tocar essa música em casamentos e restaurantes (a melomania é um mal da humanidade). Em seguida veio o Kenny G, com seu sax soprano de som lavado, mas que já tinha um pé no terreno “perigoso” do improviso. Apareciam pra mim, pela primeira vez, os solos de bateria, de percussão, de baixo. Eu estava encantado com todas aquelas possibilidades de exploração da linguagem musical.

Enquanto isso, aos doze anos já participava de rodinhas de violão com meu pai e amigos. Eu já sentia o prazer de fazer a música em grupo só de pegar uma caixinha de fósforos pra acompanhar. Minhas primeiras jam sessions.

Lembro da noite em que minha performance no tique-tique da caixinha foi tão boa que me deixaram tocar um par de bongôs desafinados no lugar de um dos bêbados que esfacelava o andamento. Fiquei com a mão inchada de tanto estapear os danados (os bongôs, não os bêbados). Os elogios no fim da noite me arrebataram. Até esqueci a dor nos dedos. Acho que até hoje esqueço. E só lembro de que fui me construindo na música enquanto ouvia e tocava.

*publicado na coluna ETC & Jazz do jornal A Folha de São Carlos, no caderno "Moitará", em 16/04.

14 agosto 2009

Londrina Jazz Trio (2001 - 2005)

Rafael Reina

Alguém já disse que não se vive se não fizer um filho, escrever um livro e plantar uma árvore. Eu já plantei uma árvore, a idéia de filho ainda não entra na minha cabeça e, em lugar do livro, fiz um CD.

Em abril de 2004 entrei no Áudio Sonora Estúdio junto com Gilberto de Queiroz (na época trombonista e baixista) e Paganini (o batera mais louco que há) para gravar o "Misturada", primeiro e único disco do saudoso Londrina Jazz Trio. O disco está à disposição para download gratuito aqui no blog (veja aí ao lado).

O Londrina Jazz Trio agitou o cenário londrinense da música instrumental de 2001 a 2005 apostando em composições próprias que chegaram até mesmo a ficar conhecidas pelo público que acompanhava as apresentações. O disco é uma bela fotografia do momento pelo qual passava o grupo, tendo amadurecido as diversas composições em dezenas de shows por Londrina e região. Foram apresentações em duas edições do Festival de Música de Londrina, em duas edições do Londrina Jazz Festival - numa delas abrimos um show de Hermeto Pascoal, noite inesquecível -, uma no Festival Internacional de Teatro de Londrina (dessa foto aí em cima, em plena Concha Acústica lotada, quando ainda se podia fazer shows à noite por lá...), participação em discos de artistas regionais e criação de uma jam session que acontecia às quartas-feiras no bar Valentino, onde vários outros artistas apareciam para mostrar o trabalho de música instrumental, que crescia na cidade.

O mais empolgante do som desse trio era a imensa vontade de improvisar, de tocar apenas sabendo o começo das músicas, com poucos arranjos, mas muita abertura para o imprevisível, para o som que vinha do outro. Isso transparece em "Misturada". Muitas vezes abusávamos das introduções ad libitum, em que eu criava um clima e os outros tinham que saber o momento certo de começar. E quase sempre Paganini tinha um groove quebrado pra colocar na condução, ignorando tempos fortes e fracos e aumentando a vibração e o desafio. Gilberto sempre contornava a harmonia com notas que abriam novas possibilidades, parecendo que adivinhava as rearmonizações que eu ia fazer no teclado. Era um exercício constante de improviso, no limite entre o free-jazz e o mainstream.

O interessante é que, mesmo sendo muito livre, o improviso não era pesado ou barulhento. O grupo tinha um senso de espaço que lembra às vezes, o jazz mais introvertido dos discos da gravadora ECM, cheio de silêncios que provocam, insinuam, questionam. Uma vez um repórter de uma revista de música, não me lembro qual, nos entrevistou justamente sobre isso, e perguntou porque usávamos tanto o silêncio nos improvisos. Estranhei a pergunta, porque só fui perceber isso depois que ouvi atentamente ao "Misturada".

Talvez isso aconteça porque, apesar das influências das músicas latina e brasileira serem óbvias, a forma como os improvisos são abertos, livres, dão uma cara mais americanizada para o som, que foge um pouco da forma como o jazz brasileiro e o jazz latino costumam soar. O disco mostra bem essa identidade múltipla do trio, com 8 composições de diferentes estilos.

1) Misturada (Gilberto de Queiroz) - essa música explora os ritmos nordestinos como ijexá (ou afouxé), calango e baião. Os improvisos acabam trazendo elementos da música latina e são bem dinâmicos.

2) Para Cima (Gilberto de Queiroz) - antes da introdução, Gilberto decidiu na hora fazer um improviso, onde o baixo toca a melodia nas regiões agudas e o piano elétrico rearmoniza o tema. em seguida, entra a bateria, tocando uma bossa-nova "quebrada", em 11 tempos. Durante os improvisos a bossa-nova vai sendo "implodida" pelos ataques de bateria e piano em tempos incomuns.

3) Samba pra Junior (Murilo Barbosa) - espécie de samba latino que sempre foi uma das mais pedidas nas apresentações do LJT. Talvez porque nessa música o grupo conseguisse fazer improvisos mais ousados, e também pelas performances impressionantes de Paganini, que tocava esse samba com muita técnica e musicalidade. A versão do disco tem um solo de bateria de mais de cinco minutos.

4) Little Mom' (Gilberto de Queiroz) - uma balada inspirada na harmonia de Miles Davis, com abstrações de ritmo e harmonia em um nível absurdo, beirando a dissolução total. Minha preferida.

5) Sinfonia Valentino (Murilo Barbosa) - composição quase minimalista, feita para tocar nas jam sessions de quarta-feira. Já estava virando hit no bar, pois tem estilo progressivo, com baixo em ostinato que dá o tom dos improvisos, feitos de forma mais solta.

6) Peto (Gilberto de Queiroz) - sambinha estilo partido alto, uma homenagem do Gilberto ao filho dele, que faz uma participação especial cantando "Marcha Soldado" na abertura. Um erro na edição fez com que ele cantasse duas vezes...

7) Vardom Waltz (Gilberto de Queiroz) - composição do Gilberto com harmonia moderna e um tempo composto, espécie valsa hard-bop que é um desafio para improvisar. A marca é a condução da bateria, bem ao estilo "Paganini" de tocar, cheio de grooves variados e fills em momentos inauditos.

8) La Calle Esmeraldas (Gilberto de Queiroz) - levada caribenha com toques de hard-bop e fusion, com longo improviso de piano e shout chorus com improviso de bateria, fecha o disco em alta.

20 julho 2009

Piano e violão, uma nova aventura



Algumas gigs eventuais podem dar origem a trabalhos mais sólidos. Foi o que aconteceu comigo ao tocar com o guitarrista são-carlense Thiago Carreri , que me convidou para fazer um som com ele em um coquetel. O contratante pediu músicas na linha César Camargo Mariano & Romero Lubambo, assim como alguém pede gelo e limão na coca-cola. Numa segunda-feira, pra tocar na quarta. Num estalar de dedos, assim, fácil. Como ele é meio louco e eu também, topamos o desafio.

Quem já ouviu as gravações da dupla, inclusive em DVD, sabe que de fácil a tarefa não tem nada. César Camargo dosa a expressividade de cada nota do piano, deixando os sambas mais ardentes de Djavan com cara de cool jazz, mas sem perder uma gota de suíngue. Ou reencontra a chama latina de um standard de jazz americano aplicando-lhe alguma síncope de samba. Redistribui o ritmo, desdobra o andamento, e às vezes o dobra, mistura boogie-woogie com partido alto e obtém um resultado surpreendente, que destaca o fraseado limpo e refinado do violão de Romero Lubambo. Dois mestres tocando juntos, recriando temas de jazz, sucessos da MPB e também composições próprias com as belas e amadeiradas tintas harmônicas de seus instrumentos, ambos de cordas.

Apesar de parecer simples e despojado, o dueto de piano e violão pede alguns cuidados. São dois instrumentos praticamente completos, que disponibilizam, sozinhos, múltiplas possibilidades de ritmo, melodia e harmonia. Imagine se combinados. Percebi isso quando sentamos, eu e Thiago, para o primeiro (e único) ensaio. Quem toca o tema? Quem acompanha o quem? Entrar de sola no samba ou fazer uma exposição em rubato? Usar os timbres mais agudos ou explorar os graves - pra não embolar tudo na região média, onde tanto o piano como o violão têm ótimo rendimento? Melhor deixar as dúvidas de lado e começar logo a tocar, e ver o que acontece. E não é que resultou em um ótimo dueto?

A expressividade é a marca do trabalho. Após buscarmos um repertório leve, bem brasileiro, mesclado com standards de jazz e sucessos da MPB, passamos a desenvolver uma história - um pequeno arranjo - pra cada um deles. Thiago é muito sensível e improvisa com ótimo senso de espaço, respirando entre frases, aproveitando cada deixa do acompanhamento para responder com um novo motivo. E sabe o momento certo de deixar de ser o solista para acompanhar o solo de piano, mudando para as regiões mais graves do violão. Isso permitiu um instantâneo entrosamento, criando um senso de cumplicidade entre os sons que transmite a alegria de cada acorde, a felicidade das notas certas, a gratidão pelas deixas provocativas que cada um lançava sobre o outro. Apesar de bem livre, o som tinha melhor acabamento que um simples jam session.

Durante a apresentação no coquetel, que aconteceu no SESC São Carlos, o técnico de som disse que ia tentar gravar com um aparelho de MD (Mini-Disc) que ele tinha sobrando, mas não demos muita bola. No final, ele nos entregou o disquinho, com quase 2 horas de som. Pra nossa surpresa, o áudio ficou muito bom. Um ótimo bootleg (termo utilizado pelos audiófilos para nomear gravações feitas ao vivo, sem a qualidade ideal de um estúdio móvel).

Divido com vocês essas 13 músicas, disponíveis para download (podem copiar e distribuir à vontade, contanto que citem a fonte), com todos os defeitos e virtudes que apresentam. Os defeitos, claro, estarão sempre presentes em trabalhos fechados assim de última hora, sem muito ensaio (é só notar como alguns temas como "A Paz" e "Tristeza do Jeca" apresentam algumas "notas na trave" bem aparentes). Nem se compara ao feito de CCM & RL. Mas também as virtudes se destacam, como a máxima espontaneidade dos improvisos, as inesperadas rearmonizações, algumas dinâmicas muito expressivas, que mostram que os músicos estavam se provocando, se comunicando, descobrindo juntos as possibilidades do novo trabalho.

A paz (João Donato)

All Blues (Miles Davis)

As rosas não falam (Cartola)

Chovendo na Roseira (Tom Jobim)

Encontros e Despedidas (Milton Nascimento/Fernando Brant)

Fotografia (Tom Jobim)

In a Sentimental Mood (Duke Ellington)

Nanã [Coisa n 5] (Moacir Santos)

Samba de uma Nota Só (Tom Jobim)

Stella by Starlight (Victor Young)

The Nearness of You (Hoagy Carmichael)

Tristeza do Jeca (Angelino de Oliveira)

Watermelon Man (Herbie Hancock)

07 abril 2009

Memórias musicais




Eu busco incessantemente saber porque gosto de jazz. É algo inusitado, pois uns 90% dos meus amigos não-músicos em torno dos trinta anos apenas conhecem "de longe" o estilo, ou o toleram, ou não dão a mínima. Não consigo me lembrar um motivo específico que me tenha tornado um amante de uma música tão peculiar.

Umberto Eco, em "A misteriosa chama da rainha Loana", cria um personagem que perde a memória após um acidente e precisa reconstruir sua história pessoal por meio de diários, livros, discos, fotos, revistas e anúncios antigos, guardados na casa de seus pais no interior da Itália. Tudo o que ele guarda no cérebro são informações objetivas como datas, nomes, trechos de poesias, mapas, mas sem conseguir relacioná-los a nenhum acontecimento afetivo - ele sabe, por exemplo, o nome de sua filha, mas não sabe porque lhe deu um apelido. Lembra do rosto de sua esposa, mas não sabe se fazia sexo com ela. Seus netos o chamam de "vovozinho", e ele só se sente aparentado porque sabe que são filhos de sua filha.

Na busca por informações do passado, velhas fotos de revista apenas provocam mais perguntas: reconhece a imagem de Flash Gordon em velhos gibis de aventuras, mas não lembra porque colecionava as revistas. Será que o herói o encantava porque tinha uma namorada bonita, ou porque empunhava um revólver e era violento? O que sentiu quando o olhar de Bette Davis no cartaz de "A malvada" o olhou fixamente envolto na lânguida fumaça de sua piteira? Tesão? Medo? Os signos diziam (e dizem) tudo, armadilhas que escondem inúmeros significados, mas qual significado fazia realmente sentido para o desconectado personagem?

Imerso em um mar de informações desconexas, só resta ao desmemoriado perseguir a origem de suas lembranças, indo buscar na casa onde passou a infância rastros de sua personalidade, de sua formação, de seu lugar no mundo.

Que eu me lembre, a música entrou na minha vida via toca-discos de vinil do meu pai, que tinhas umas bolachas do Roberto Carlos (lembro de uma capa em que ele tinha uma pena em cima da orelha... ou isso acontecia em todas as capas?!...), outras da Beth Carvalho, da Clara Nunes, umas trilhas sonoras de novelas, e um monte de discos da Turma do Balão Mágico. Quando tinha 7 anos, o toca-discos quebrou e fiquei um tempão sem me interessar por música.

Quando consertaram a radiola, eu já tinha uns 9 anos e começava a ouvir música instrumental, que vinha com os vinis de orquestras como Românticos de Cuba e cassetes de Billy Vaughn. Arranjos majestosos, alguns melosos, outros elegantes de tão simples e funcionais. Eu lembro de adorar as dinâmicas, cordas se revezando com o piano, breaks de bongos e congas, solos de trumpete. Depois vieram os discos de Ray Conniff, que fui comprando às baciadas. Me apaixonei pelos suingados temas da Broadway, pelos boleros universais, pelos classicões de Tchaikovsky arranjados à moda "that 70's show"... ah, as melodias, que paixão. Eu era um melômano.

Richard Clayderman era então um ícone do piano, aquele grande instrumento branco tendo as escalas escandidas em todas as oitavas nos arranjos do produtor e compositor Paul de Seneville (quem não lembra de Ballade pour Adeline? Até hoje me pedem pra tocar essa música nos restaurantes da vida...). Então caiu na minha mão o CD "Live", do Kenny G. Pronto, estava entrando no terreno perigoso do improviso. Entre lamuriosos solos de sax (os de soprano hoje me soam terríveis...), apareciam pra mim pela primeira vez os chorus de solo de bateria, de percussão, de baixo (com os slaps intermináveis de Nathan East), de teclado, e eu encantado com a possibilidade de fazer música daquele jeito. Como eles conseguiam?

Pelos discos, a música ia me mostrando um universo de possibilidades. Enquanto isso, aos doze já participava de rodinhas de violão com meu pai e amigos - o pandeiro de Ditinho dava o ritmo para os violonistas que se revezavam, e eu e já sentia o prazer de fazer a música em grupo só de pegar uma caixinha de fósforos pra acompanhar. Minhas primeiras jam sessions.

Lembro da noite em que minha performance no tique-tique-tique da caixinha foi tão boa que me deixaram tocar um par de bongôs desafinados no lugar de um dos bêbados que esfacelava o andamento. Fiquei com a mão inchada de tanto estapear os danados. Naquele momento não me lembro se queria ser Paulinho da Costa ou apenas tocar tão bem quanto Ditinho, mas os elogios no fim da noite me arrebataram. Até esqueci a dor nos dedos. Acho que até hoje esqueço. E só lembro de que fui me construindo na música enquanto ouvia e tocava.


21 março 2009

Acordes de palavras















[Jazz ritornello

o som descascava
no centro, um ponto só
dentro de quem ouvia
uma rara sinfonia

no claro rarefeito
notas de efeito raro
de escura e fugaz harmonia
torcidas pelo eco surdo das paredes

sentidas na carne e nas têmporas
como um frenesi vulcânico
no espantoso silêncio dos olhares
na maré baixa dos copos vazios

eram quantas horas da manhã
de uma alegria amarga
de uma coda de aplausos sorridentes depois da aventura vivida
pelo saxofone feroz]

Duas jam sessions em Londrina na semana passada - uma no Estação Café Brasil, outra na casinha do Valentino - ajudaram a matar a saudade de alguns amigos e a curtir o doce sabor de aventura de apenas sentar no teclado e tocar por duas horas sem respirar, apenas jogando com os sons dos instrumentos. O que me levou a pensar que, talvez, um blog sobre jazz deveria ser escrito apenas em jam sessions. Durante.
Seria uma tentativa de "jazzificar" a escrita. Música imprevisível, texto idem. Cada palavra comentando cada acorde, cada sentença parafraseando uma frase de improviso, o ritmo do texto se alternando com o pulso da banda. Temas expostos e reexpostos, como argumentos de um roteiro, sendo construídos de forma livre porém coesa. De repente, pontes entre solos - intromissões do compositor na espontaneidade do tocar, como um texto entre travessões -, pausas freqüentes, feito vírgulas ou dois pontos; fortíssimos (!!!) e pianíssimos (...) pontuados com exagerada denotação ortográfica. Será?
A impossibilidade se verifica já no pensar, antes mesmo do simples ato de tentar escrever: a velocidade da comunicação entre os músicos seria muito maior do que a minha tacanha capacidade de compreensão das novas idéias sendo postas em prática a cada compasso. Os sons se espalhando pela sala de acústica perfeita, enchendo as três dimensões (há quem diga que o som é a quarta dimensão) com ondas provocantes, excitando os ouvidos, sendo reelaboradas nos labirintos do cérebro, ganhando formas e cores infinitas, enquanto as letras no papel seguem uma chata fila que termina na quebra de página, primeiro enfileirando-se, depois empilhando-se, num preto e branco terrivelmente frio e sem graça.
Mas o exercício de emular os mecanismos de produção de sentido do jazz em outro meio de expressão, como num texto, já foi realizado. Bem o fizeram os beatniks. Hunter Thompson e seus textos jornalísticos errantes, quase aleatórios, lembram bem os picos de euforia e silêncios introspectivos que transcorrem numa jam - ou numa viagem lisérgica. "Round About Midnight", filme-ícone do jazz do diretor Bertrand Tavernier, também contou com o improviso dos atores-músicos em várias cenas.
Criar um texto jazzístico, com técnicas jazzísticas? Quem sabe. Podemos tentar nos próximos posts. Ou nas próximas jam sessions.