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01 junho 2011

ETC & Jazz - Programa 36



Essa edição do ETC & jazz trouxe novas vinhetas, gravadas aqui em casa mesmo no teclado, usando overdubs - como se houvesse dois pianistas tocando ao mesmo tempo, a quatro mãos. A voz é da minha amada queridíssima Alessandra Kuba. Aos poucos o programa vai ganhando novos sons.
No repertório tem o grupo Gravity! - com suas oito tubas improvisadoras -, o pianista Bill Charlap e seu septeto, Art Farmer e seu sexteto, Milton Nascimento e um quinteto com os "top five" do jazz, além do encontro de Thelonious Monk e John Coltrane e o latin jazz de Ray Barretto tocando "Serenata", uma de minhas canções favoritas. Você pode ouvir no player acima ou baixar nesse link aqui.

27 março 2011

ETC & Jazz - Programa 26



Nessa edição abrimos com o som de Brad Mehldau nos teclados eletrônicos, em sua versão menos ortodoxa e bem ousada de Wave (Jobim). Apresentamos também a gravação clássica de Corcovado com João Gilberto (e sua então esposa Astrud nos vocais) e Stan Getz, além do grupo do baixista John Patitucci, o pós-coltraneano Stefano di Battista, o trio new-bopper do veterano Stanley Clarke, o latin jazz de Ray Barretto, o latin fusion do Pat Matheny Group e a intérprete Natalie Cole. Ouça no player acima ou baixe o programa aqui.

16 junho 2010

Serenata, em várias versões

Todas as nações têm seu cancioneiro básico, espécie de arcabouço de sons e melodias a que todos os compatriotas se referem com saudosismo ou ternura. Músicas que, apesar de terem sido compostas por gente de carne e osso, parecem fazer parte do próprio ar, trazidas por vento, soando em tardes de carnaval, no assobio do guarda em noturnas boemias, perdidas no alto-falante de algum radinho AM em alguma rodoviária.

Essas músicas estão sempre nos trazendo emoções que nos são familiares, constituindo ilhas de terra firme em meio a oceanos de sons caóticos e muitas vezes agressivos da vida urbana. Essas canções parecem sempre ter feito parte de nossa existência, já estavam lá antes que Cabral pusesse os pés por aqui, sambas-enredo prontinhos antes mesmo de inventarem o Carnaval, bossas-novas falando da Garota de Ipanema antes que ela tivesse nascido, como trilha sonora difusa entre as cenas cotidianas vividas por cada um de nós.

"Brasil, meu brasil brasileiro", "Isso aqui ô ô", "Não posso ficar, nem mais um minuto com você, cas cari gudum, cascarigudum", "Felicidade, fooooooi simbora..." (respectivamente: "Aquarela do Brasil", "Isso aqui o que é" ambas de Ari Barroso; "Trem das onze", de Adoniram Barbosa; e "Felicidade", de Lupicínio Rodrigues). Canções que tiramos da cartola quando queremos embalar uma roda de cantoria, mesmo sem saber direito a letra, mas com a melodia mais do que decorada.

A mesma coisa fazem os artistas. Quantas versões já ouvimos pra "Lamentos" ou "Carinhoso" (ambas de Pixinguinha). Nos EUA também os cantores, instrumentistas, compositores e arranjadores recorrem a este cancioneiro onipresente e eterno para elaborar novas possibilidades de interpretação. Há uma canção, chamada "Serenata", composta por um desses autores prolíficos e universais, chamado Leroy Anderson (1908 - 1975).

Famoso por criar pequenas obras orquestrais, leves e com melodias inesquecíveis, Anderson foi o primeiro artista da música instrumental a vender 1 milhão de cópias, tamanha era a popularidade de suas peças.


A famosa cena do comediante Jerry Lewis datilografando foi elaborada sobre a música "The typewriter", de Leroy Anderson

Suas músicas tinham esse caráter simples, de extrema elegância e bom gosto, com aquela qualidade de "grudar" e não sair mais da cabeça. Ou então de parecer como uma dessas canções eternas, que sempre existiram antes mesmo de alguém ter pensado em compô-las. Resultado de uma sensibilidade para dar à melodia contornos surpreendentemente inovadores e belos dentro de uma estruturação harmônica por vezes previsível, mas nunca pobre ou simplista.

Uma de suas composições mais famosas - e mais tocadas por artistas de diferentes estilos nos EUA - é "Serenata", criada originalmente como um bolero de matiz espanhol em 1947. A música recebeu letra de Mitchell Parish em 1949. Desde que a ouvi pela primeira vez, há uns cinco anos, tocada por Wayne Shorter em um belíssimo arranjo para sopros, fiquei apaixonado por sua melodia. Fiz então um pequeno apanhado de várias 16 diferentes interpretações dessa canção por diferentes de artistas do jazz - com exceção da presença da cantora popularesca Julie Joy que, apesar do nome, é brasileira e canta a letra em uma versão romântica, em português -, mostrando como o arranjo pode ser modificado de mil maneiras diferentes, mas sempre destacando a força da melodia de Anderson.O arquivo contém ainda uma partitura do tema (lead sheet, retirada do livro "Jazz Ltd."), em formato PDF.

1) Leroy Anderson ("The Leroy Anderson Collection", 1988), regendo a versão original, com introdução e final que lembram um pasodoble espanhol, em tom menor;
2) Joe Pass ("Eximious", 1982), em versão trio, com muito suingue num arranjo meio "pseudobossa", mais rápido;
3) Nat King Cole ("Nat King Cole Sings, George Sharing Plays", 1962), acompanhado do lendário George Sharing ao piano, cantando em ritmo de bossa-bolero, com sua nitidez e elegância de sempre;
4) Quincy Jones e sua "Big Band Bossa Nova" (1962), puxando o tema num samba-canção com direito a pandeiro. Ele cita num interlúdio os acordes "espanhóis" da introdução original de Anderson;
5) Cannonball Adderley ("Takes Charge, vol.6", 1959), tocando o tema como um bom standard merece: com introdução estilosa, tema suingado e improvisações virtuosísticas;
6) Earl Klugh ("Naked Guitar", 2005), tocando o tema no violão, em versão solo. A clareza de cada nota, o timbre impecável do violão e as surpresas harmônicas que Klugh introduz na canção tornam essa gravação uma das melhores da seleção;
7) Stanley Turrentine e Shirley Scott ("Soul Shoutin'", 1963) tocam o tema com muita ginga - Stanley no tenor, Shirley no órgão Hammond B-3 são uma dupla imbatível no quesito suíngue;
8) George Sharing ("Latin Affair", 1958) tocando o tema com uma levada latina. Um pouco desconcertada, mas destacando os famosos "block chords" de Sharing na improvisação;
9) Larry Goldings ("Caminhos Cruzados", 1994) traz o tema novamente para o universo do órgão Hammond, passeando pela bossa-nova com sutileza impressionante;
10) Julie Joy ("Jóias de Julie Joy", 1958) foi uma das últimas cantoras da época de ouro do rádio a atingir algum sucesso. Nessa interpretação estilo "rumba" pra terceira idade, fica bem clara a intenção dramática, estética dominante na época pré-bossa nova. Vale pela curiosidade de ver a música cantada em português;
11) Alan Broadbent ("Round Midnight", 2005) faz um estrago na música. No bom sentido, é claro. Seu piano tem os voicings mais dignamente bem-executados desde Bill Evans, e seu improviso é tão límpido quanto a estética jazzística permite sem perder a essência "malandra" do jazz;
12) Cal Tjader ("A Fuego Vivo", 1981) imprime a latinidade nessa versão em que modifica a métrica (toca o tema num afro 6/8). Latin jazz fino;
13) Art Farmer e Benny Golson ("Meet the Jazztet", 1960) dão uma interpretação hard-bop ao tema, começando com um tipo de batida afro 12/8 e improvisando num andamento 4/4 rápido, típico da época;
14) Ray Barretto ("Contact!", 1997) transforma o tema em uma verdadeira explosão de latinidade, com a percussão e o arranjo de metais típico dos "conjuntos" cubanos;
15) Harold Vick e Herbie Hancock ("Watch What Happens", 1967), com sax tenor e rearmonização típica do mestre do piano. A levada de bossa-nova e o "corinho" na introdução deixam a gravação com uma cara meio brega, mas logo o jazz aparece nas improvisações;
16) Wayne Shorter ("Alegria", 2003) faz a melhor reinterpreção do tema, deixando-o com uma harmonia modal que impressiona pela beleza. O arranjo é, de longe, o mais elaborado de todos, com uma introdução de cair o queixo, usando o mesmo motivo da introdução "espanhola" de Anderson, porém num tempo desdobrado e nova moldura harmônica. O piano logo introduz um riff de acordes quartais que dá nova estrutura à música, que soa enigmática, fragmentada, leve e delicada. 

Serenata (Leroy Anderson) - 16 versões (arquivo .rar, 122Mb)

03 dezembro 2009

Latin Jazz, fusão de felicidade

Mongo Santamaria, Ray Barretto e Tito Puente


Da mistura do soul jazz mais acentuado e divertido, chamado boogaloo, com os temperos rítmicos picantes da América Central, surgiu o latin jazz, estilo que predominou na cena instrumental norte-americana nos anos 60 e se consagrou de vez nos anos 90 do século passado.

Percussionistas latinos como os porto-riquenhos Ray Barreto (1929-2006), Tito Puente (1923-2000) e o cubano Mongo Santamaria (1917-2003) formaram incríveis parcerias com os boppers e hard-boppers da época, pois tinham a capacidade de tocar os ritmos afro-caribenhos mas também dominavam a linguagem jazzística complexa dos norte-americanos. 

Assim que aparecerem na cena musical, todos eles já foram recrutados pelos "grandes", como o saxofonista Cannonball Adderley, o guitarrista Kenny Burrell, os trumpetistas Lou Donaldson e Dizzy Gillespie (este último já era parceiro do percussionista cubano Chano Pozo e nunca mais foi o mesmo depois de experimentar o balanço latino) além dos pianistas Horace Silver, Count Basie e o então ascendente Herbie Hancock. Todos esses músicos experimentaram a fusão da improvisação jazzística com o balanço do guaganco, cha-cha-cha e mambo, o que foi o primeiro grande passo que o jazz deu para fora de seus sisudos limites. Logo em seguida, o disco "Acid" (1968, selo Fania), de Ray Barreto, marcava também uma nova fusão da música latina e do jazz com o funk, adicionando mais "acidez" à mistura.  

  Para celebrar a consagração do estilo latin jazz, vários artistas reuniram-se em Miami, Flórida, em 18 de maio de 2000, para um show inesquecível. O concerto aconteceu alguns dias antes do falecimento do percussionista Tito Puente, que estava internado por problemas do coração e não participou do concerto. Mesmo sem sua bem-humorada presença, o show foi estrondosamente soberbo, com improvisos quentíssimos e alto nível de virtuosismo.

O staff é impecável: o vocalista venezuelano Oscar D'Leon cercado dos músicos Ed Calle (sax tenor), Arturo Sandoval (trumpete, flugelhorn), Claudio Roditi e Ray Vega (trumpete), Steve Turre (trombone e concha), Nestor Torres e Dave Valentin (flautas), Dave Samuels (vibrafone), Hilton Ruiz (piano) e Chick Corea (piano Rhodes), além da detonadora bateria de Horacio Hernandez e percussão dos lendários Poncho Sanchez (congas) e Pete Escovedo (timbales). O grupo Origin, de Chick Corea, também toca: Steve Wilson (sax alto), Tim Garland (sax tenor), Steve Davis (trombone), Avishai Cohen (baixo) e Jeff Ballard (bateria e percussão). Cada música tem uma formação diferente, veja quem são os solistas*:

1. Guachi guaro (Soul sauce)
Chick Corea/Dave Samuels/Poncho Sanchez/Pete Escovedo/Eddi Resto/Dave Valentin/Arturo Sandoval
2. A night in Tunisia 
Arturo Sandoval/Claudio Roditi/The Latin Jazz All Stars Big Band
3. Medley para Tito: Ran kan kan/Oye como va
Dave Valentin/Ray Vega/Pete Escovedo/Arturo Sandoval/Ray Vega
4. Ican 
Chick Corea/Arturo Sandoval/Ed Calle/Steve Turre/Poncho Sanchez/Pete Escovedo/Avishai Cohen
5. Wigwam
Steve Wilson/Steve Davis/Tim Garland/Jeff Ballard/Avishai Cohen/Chick Corea/Horacio Hernandez...
6. Ven morena 
Oscar D'Leon/Nestor Torres/Steve Turre/Pete Escovedo/Poncho Sanchez/Arturo Sandoval/Dave Valentin
7. Poncho con su tambor
Poncho Sanchez
8. Bésame mama
Poncho Sanchez/Ray Vega/Pete Escovedo/Oscar D'Leon/Arturo Sandoval/Dave Valentin
9. A mis abuelos
Chick Corea/Horacio Hernandez/Arturo Sandoval/The Latin Jazz All Stars Big Band
10. Theme from "I Love Lucy" 
Ed Calle/Claudio Roditi/Steve Turre/Dave Samuels/Dave Valentin/Chick Corea...

Disponibilizo para baixar aqui (obrigado ao blog Regálame Esta Noche).

* os solos de Chick Corea, como sempre, estão matadores. O cara tem a "espanholidade" no sangue, consegue usar harmonias coloridas e um fraseado impecavelmente "torto", é a cereja no bolo que deixa esse disco mais latin jazz do que nunca...