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24 novembro 2010
Veneno antimonotonia
Design: Pedro Bó
O espaço cultural "Jazz na Coisa" já se tornou um evento conhecido em Ribeirão Preto, terra que já estava ficando saturada dos sons sertanejos e similares. A festa reúne pessoas com ouvidos abertos às inusitadas e inesperadas sonoridades que só uma jam session pode proporcionar. Nem palco tem: os músicos tocam cercados pelo público, que aprecia o som e as performances bem de pertinho, curtindo cada nota, vibrando a cada chorus.
A iniciativa é dos próprios músicos da cidade, que fizeram uma parceria com os administradores do espaço para divulgar o evento. Criaram um quarteto formado com a melhor "prata da casa" pra recepcionar o público e trazer eventuais convidados para uma jam, enquanto a casa vende comidas e bebidas. Nos intervalos, o jornalista, pesquisador musical e DJ Rodrigo Kcond traz um som de qualidade. Nessa sexta, 26/11, será minha vez de ter a honra de ser a atração principal, tocando junto com Duda Lazarini (bateria), Bruno Barbosa (baixo) e Marcelo Toledo (sax). Diversão pra mim, e espero que para o público também.
Futuramente postaremos o bootleg resultante. Estão todos convidados. Custa R$ 10 (a casa não aceita cartões). Fica na Rua Amador Bueno, 1300.
16 outubro 2010
Canções para alguém (ou "stravinskianismos jazzísticos")
A abertura do disco "10 Songs for Anyone", de Chris Potter, soa como se fosse composta por Scriabin, uma abertura sinfônica tensa e moderadamente dramática. Flauta, clarinete, fagote, violino e viola criam texturas sedosas para o sax tenor encorpado de Potter, que logo se vê acompanhado de uma seção rítmica discreta, concisa e muito arrojada formada por guitarra, baixo e bateria. Logo de cara se percebe que esse não é um disco de jazz comum, e consegue ser mais surpreendente que o que se espera de uma gravação de jazz.
O saxofonista produziu os arranjos quase camerísticos para essas suas dez composições, obtendo uma sonoridade grandiosa e elegante que não perde a fluência nem mesmo nos momentos em que a dinâmica do grupo sacode as paredes dos temas labirínticos de Potter.
Momentos mais introspectivos são harmonizados como pequenas serenatas debussianas, enquanto alguns temas ganharam arranjos já beirando o atonalismo lírico de Stravinsky (a pequena "cadenza" no meio de "Cupid & Psique" lembra até mesmo a eficiência serial de um quarteto de cordas shoenberguiano). E os improvisos nunca perdem o caráter jazzístico, sempre ampliando a gama de materiais sonoros utilizados e contando com extrema intercomunicação entre os músicos. Solos de violino, viola e flatua também estão presentes em alguns dos temas.
Com certeza o jazz que se escuta nesse disco é material para alguns anos de audição atenta, como requerem as grandes obras clássicas na qual esse gênio norteamericano obviamente se inspirou para criar esta obra-prima.
Chris Potter - Songs for Anyone (2007)
Chris Potter (tenor sax), Erica Von Kleist (flute), Greg Tardy (clarinet), Michael Rabinowitz (bassoon), Mark Feldman (violin), Lois Martin (viola), David Eggar (cello), Steve Cardenas (guitar), Scott Colley (acoustic bass), Adam Cruz (drums, percussion)
1.Absence, The; 2.Against the Wind; 3.Closer to the Sun; 4.Family Tree; 5.Chief Seattle; 6. Cupid and Psyche; 7.Song for Anyone; 8. Arc of a Day, The; 9. Estrellas del Sur; 10.All by All
O saxofonista produziu os arranjos quase camerísticos para essas suas dez composições, obtendo uma sonoridade grandiosa e elegante que não perde a fluência nem mesmo nos momentos em que a dinâmica do grupo sacode as paredes dos temas labirínticos de Potter.
Momentos mais introspectivos são harmonizados como pequenas serenatas debussianas, enquanto alguns temas ganharam arranjos já beirando o atonalismo lírico de Stravinsky (a pequena "cadenza" no meio de "Cupid & Psique" lembra até mesmo a eficiência serial de um quarteto de cordas shoenberguiano). E os improvisos nunca perdem o caráter jazzístico, sempre ampliando a gama de materiais sonoros utilizados e contando com extrema intercomunicação entre os músicos. Solos de violino, viola e flatua também estão presentes em alguns dos temas.
Com certeza o jazz que se escuta nesse disco é material para alguns anos de audição atenta, como requerem as grandes obras clássicas na qual esse gênio norteamericano obviamente se inspirou para criar esta obra-prima.
Chris Potter - Songs for Anyone (2007)Chris Potter (tenor sax), Erica Von Kleist (flute), Greg Tardy (clarinet), Michael Rabinowitz (bassoon), Mark Feldman (violin), Lois Martin (viola), David Eggar (cello), Steve Cardenas (guitar), Scott Colley (acoustic bass), Adam Cruz (drums, percussion)
1.Absence, The; 2.Against the Wind; 3.Closer to the Sun; 4.Family Tree; 5.Chief Seattle; 6. Cupid and Psyche; 7.Song for Anyone; 8. Arc of a Day, The; 9. Estrellas del Sur; 10.All by All
23 abril 2010
Jazz, uma poética
Joe Lovano, Diane Reeves, Cassandra Wilson
Me perguntam de vez em quando que tipo de música eu toco. Hesito um pouco, mas acabo dizendo “jazz”. “E MPB”, acrescento. “E bossa nova também”, digo. “Ah, uns sambas também, e músicas bonitas, com uns improvisos, vai”, arremato. Pra não perder o trabalho, falo que o repertório é de “música de noite”, ou “música de casamento”, “ou música ambiente”. Às vezes arrisco um “toco música instrumental”, mas aí complica.
O nome “jazz” assusta. Traz um estigma. Tem uma história por trás. Tem um lance de blues, de negro, de inferninho. Tem uma alma atormentada, de músico indo de bar em bar pra tocar notas difíceis e estridentes. Rola um negócio de algazarra, de platéia assoviando entre solos de um baterista tresloucado, cintilando os dentes de ouro num sorriso de esgar, o coração, as mãos, o suor, tudo a mil por hora. Tem bebops rimando com “on the rocks”, “on the road”, onde um pássaro saxofonista trafega entre as mesas e cadeiras de um bar numa noite na Tunísia, balouçando entre o último chorus de “Scrapple from the apple” e a primeira picada de heroína. Jack Kerouac, Jack Daniels. Tudo por volta da meia-noite.
Mas cabe tudo num retrato em preto e branco de Jimmy Katz. Criatividade e sofrimento, na cara de um Lester Young lânguido em fumaça. Poesia, como uma lágrima de Billy Holiday, um falsete de Sarah Vaughn, um inocente be-bap-boo-loo-bee de Ella Fitzgerald e a bochecha inflada de Louis Armstrong. O jazz também toca no lado ensolarado da rua. Tem vida. Tem caráter. Um joir de vivre. Tem Duke Ellington, um maestro negro e tão dândi quanto um Sinatra, magnífico no pôster autografado. Sim, o jazz tem também um glamour.
Uma estirpe de socialite. Sangue azul, de músicos de smoking tocando em coquetel regado a champanhe. Até uma dor de cotovelo amarga, no imprescindível balcão polido de um bar, é a coisa mais chique quando refletida no fundo de um copo de Johnny Walker, ao som de Chet Baker. Tem um eco de brilho gelado, azul, de um trumpete ao longe, e o tão desejado beijo de uma loira estonteante em vestido de gala. “You must remember this, a kiss is still a kiss”. Uma elegância de vinheta de Supercine.
O jazz, com suas ideias, conceitos e preconceitos, é mais que uma música. É um jeito de pensar a música. É uma poética, resultante de uma história social, econômica, intelectual – do século passado e deste. Música com cacife, pai certo, certidão de nascimento. No século XIX já havia resquícios dele no ragtime dos salões burgueses e nas bandinhas de rua de New Orleans, mas só foi se batizar mesmo nos anos 20, dos primeiros dixielands gravados. Tem os anos 30, das big bands e seus crooners. Tem os anos 40, com o pós-guerra e o bebop. Tem os anos 50, do cool jazz. Tem os anos 60, com Coltrane, ilimitado, free jazz. Tem os anos 70, lisérgicos, delirantes com a fusão de Miles Davis, funk, rock, Cuba e bossa nova. Tem os anos 80, da eletrônica e do videoclipe. Tem os anos 90, que vai do hip-hop à world music. E tem o século XXI, onde está tão diluído que está difícil dizer onde ele está (ou não está).
Eu continuo dizendo que toco jazz. Mas só quando não tem esse dilema de ter que explicar o que é jazz antes de tocar. Senão é muita coisa.
*publicado no dia 22/4, na Folha de São Carlos, na coluna ETC&Jazz do caderno de cultura "Moitará".
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