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02 julho 2010

Universos paralelos: jazz e Copa do Mundo















Estamos presenciando um dos campeonatos mundiais de futebol mais disputados dos últimos anos, com vários times que desequilibram a tradicional guerra entre seleções européias – que criaram e amadureceram o esporte e suas táticas – e os times sul-americanos – que deram ao mundo craques com extrema audácia e destreza no trato com a bola. A Copa do Mundo traz atuações surpreendentes de equipes que, há alguns anos, nem acreditaríamos ver em uma competição tão dura e difícil: Japão, Gana, Estados Unidos, África do Sul, entre outras, deram trabalho aos adversários mais tradicionais.

O futebol é um esporte global. Suas regras descomplicadas e objetivos simples permitem sua prática com poucos recursos técnicos, favorecendo o entrosamento dos participantes e proporcionando o florescimento de talentos individuais como uma vantagem competitiva. Sem desmerecer o treinamento profissional, que é tão duro como em qualquer esporte, é fácil aprender a jogar, e a brilhar jogando futebol. Seja um exímio armador de jogadas, um forte defensor ou talentoso atacante, o que conta é o contexto em que o jogo se desenrola. Se o time ganha com jogo feio, o trabalho de equipe é valorizado; se o time perde com jogo bonito, quem brilha são os que mostram talento com a bola, e a torcida aplaude a coragem e o “futebol-arte”.

Assim como o futebol não é mais o “esporte bretão” ou especialidade tupiniquim, o jazz também não é mais um gênero musical hegemônico norte-americano. Tornou-se uma linguagem musical praticada em todos os continentes, que influencia praticamente todas as culturas musicais de massa no planeta. Por motivos análogos aos do futebol.

A “equipe” do jazz também precisa de entrosamento, mas há espaço de sobra para os talentos individuais. Solistas brilham com facilidade, enquanto a cozinha acompanha, reagindo a cada nota, a cada frase, a cada gesto musical. As regras são simples: basta concentrar-se sobre o tema, rodeando-o, abstraindo-o, enfeitando-o, mas sempre caminhando para a mesma direção, em direção à meta, no caminho do solo perfeito, no rumo da expressão bem acabada. Ouvir o outro, antecipar “jogadas”, conhecer o repertório de frases e solos que os grandes mestres do passado já criaram.

Atribui-se o status de “arte” aos gols magistrais de Pelé - “uma pintura”, dizem – e aos dribles astutos de Garrincha ou Robinho. Parece ser algo naturalmente universal. Será inteligência, ação puramente reflexa, ou total consciência do momento preciso? Poesia? Não dá pra definir exatamente como o jogador age ao se aproximar do gol e dar um chute preciso. Ou então como supera a marcação de três zagueiros com um único movimento de corpo, um toque na bola, um olhar enganador. No jazz, o músico simplesmente cria a música ao mesmo tempo em que a toca, compõe enquanto improvisa, arrisca-se a cada compasso. Conduz o jogo para novos caminhos, como se desejasse fazer gols cada vez mais bonitos e difíceis.

Novos pólos de disseminação do jazz, fora dos EUA, surgem com força de “seleções” de primeira linha: Portugal, com experiências na música improvisada e o jazz de vanguarda; Espanha, com fusões com o flamenco; Polônia, com o renascimento da tradição bebop; Brasil, com a moderna música instrumental brasileira e a música “universal” de Hermeto Paschoal e seus seguidores; Noruega e Suécia, com grupos de jazz-rock; países do norte da África, com novas vertentes do “afrobeat”; Índia, com músicos cada vez mais ocidentalizados e dispostos a criar pontes entre a tradicional cultura do país com o jazz de vanguarda.

A surpresa causada por esses novos sons do jazz global é tão gratificante para os ouvidos quanto o futebol-arte praticado pelas novas potências esportivas é aos olhos. Sinal de que o prazer de encontrar o espírito humano a se reproduzir e se superar nas diversas formas de arte – seja na música, seja no futebol – é cada vez mais comum às diversas culturas humanas.

*publicado na coluna ETC&Jazz do caderno de cultura Moitará, no jornal A Folha de São Carlos, no dia 1/7 

21 junho 2010

Couvert artístico: cliente paga, músico não recebe



Um bar é um local de convivência, sociabilidade, confraternização, encontro. Para se diferenciar, alguns deles preferem atrair clientes com o música ao vivo. Isso acontece há anos. Mas já faz tempo que os músicos estão muito insatisfeitos com a remuneração que recebem, devido à mudança na forma como os bares vêm pagando (ou não) os profissionais.

Em um primeiro momento, um bar que quisesse ter um músico tocando ao vivo tinha que pagar um cachê. Há inclusive sindicatos que estabelecem uma tabela para esses valores. Com o passar dos anos, o cachê foi ficando “caro” para os bares, e surgiu um tipo de remuneração diferenciada, chamada “couvert artístico”. Nesse tipo de cobrança, o dono do bar não paga o cachê, mas recebe dos clientes um valor pequeno que é destinado exclusivamente para o músico. Ou seja, quanto mais gente no bar, mais o músico ganha (e também o dono do bar, pois é maior o número de clientes).

Na teoria, funciona assim: os bares ganham um ar diferente, conseguem emular assim um clima de uma casa de shows, criando um novo “apelo” para chamar clientes, enquanto os artistas conseguem ampliar o alcance de seu trabalho, divulgando seu nome para um público seleto e com o qual pode interagir. Uma parceria que funciona para os dois lados.

Porém, esse modelo de negócio se deteriorou ao longo dos anos, por inúmeros motivos: concorrência entre bares, concorrência entre músicos, etc. Por isso, os bares passaram a praticar um novo tipo de cobrança: exigem o valor dos clientes, mas não repassam para os músicos – pagam, obviamente, um cachê menor do que o valor arrecadado. Uma “esperteza” possibilitada pelo extremo estado de desorganização dos músicos, que já não sabem mais quais são seus direitos e como exigi-los. Mas a situação também é permitida pela desinformação dos clientes, que não sabem que estão pagando para encher o bolso do dono do bar, e não do músico.

Couvert artístico é como se o músico “passasse o chapéu” entre os clientes com a permissão do dono do estabelecimento. É uma parceria, em que o músico atrai frequentadores para o bar, e ganha uma pequena gorjeta de cada um. É justo, portanto, que receba o valor integral.

Já há projetos de lei em alguns estados regulamentando a cobrança de couvert artístico, já que essa é uma forma de remuneração que altera inclusive as normas da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Na Câmara dos Deputados já tramita um projeto, aprovado na Comissão de Trabalho, Administração e Serviço Público, que disciplina a cobrança. Pela proposta, a contratação do músico profissional por parte dos bares poderá seguir dois modelos: existência de contrato de remuneração por horas de trabalho, ou contrato de remuneração variável, no qual o músico é ganha o valor integral pago pelos clientes que frequentarem o local durante a apresentação musical.

* publicado na coluna ETC&Jazz da Folha de São Carlos, no caderno de cultura Moitará, do dia 17/6.

04 junho 2010

Arroz com feijão... e mais o quê?


















Arroz e feijão é a base da alimentação da grande maioria de nós, brasileiros. Combinação do arroz, trazido pelos portugueses, com o feijão dos índios e a feijoada dos escravos africanos, a mistura se consolidou na mesa das famílias. É aprovada por nutricionistas, que elogiam a presença de ferro, vitaminas e aminoácidos importantes no prato.

É uma comida tão popular que virou adjetivo para coisa corriqueira, simples, sem “dor de cabeça”. Como música “arroz com feijão” - aquela que não tem grandes surpresas, tem letra simples, refrão fácil, trata de assuntos afetivos não muito complexos ou só faz dançar.
O cotidiano prato de arroz com feijão tem a função de fornecer a energia, a “substância” para o dia a dia. A música “arroz com feijão” exerce papel semelhante: estabiliza e dá suporte às inúmeras e pequenas variações emocionais que sofremos durante o dia, mantendo o humor e o bem-estar psicológico ao cantarolar, assobiar ou mesmo dançar ao som dessas canções. Canções que ouvimos no rádio, na TV, no aparelho celular e outros meios, que nos causam comoção e algum efeito positivo.
Só que os médicos advertem: apenas arroz com feijão não é um alimento completo. Faltam dezenas de complementações minerais, de vitaminas e de proteínas que só são encontrados em outros alimentos. O cardápio tem que variar. Da mesma forma, o “menu” musical dos indivíduos precisa conter mais opções, pois o arroz e feijão musical que nos é servido hoje não é só insuficiente - é nocivo, faz mal à saúde, porque vem na forma do exagero. Overdose de duplas sertanejas, de danças baianas, de pagodes lacrimosos, de calcinhas pretas. É preciso “comer” música de outras origens, outras influências, para balancear a “dieta”. Como? 

O chef de cozinha inglês Jamie Oliver, 35, é uma celebridade no mundo gastronômico por popularizar os segredos da boa comida. Numa entrevista nas páginas amarelas de Veja, ele desfaz o mito de que só se alimenta bem quem entende de alta gastronomia e frequenta restaurantes caros. “Cozinhar e comer bem é para todos”, diz ele. Basta um pouco de paciência e boa vontade para aprender sobre ingredientes, técnicas simples de preparo e temperos. O resultado é sentido na forma de melhora do bem-estar, saúde e da própria satisfação em desfrutar de um bom prato. 

Música boa, que vai além do arroz com feijão, não é para poucos. É para todos que quiserem. Assim como quem come coisas diferentes, quem ouve o diferente amplia sua base de referência e percebe que pode ir além daquilo que é sempre igual. Só não é tão fácil quanto na cozinha, pois mudar hábitos de escuta não traz tantos benefícios imediatos ou práticos quanto mudar as preferências culinárias. 

Ir além da música “arroz com feijão” significa expandir a sensibilidade para um mundo de possibilidades expressivas, questionadoras, revolucionárias, iluminadoras. Experiência nem sempre agradável. Novos sabores sonoros – gostosos ou não, mas passíveis de ser experimentados. Novos temperos, temperamentos. Música não só como distração, consolo, trilha sonora romântica, ou como dança, mas como vivência. Aprender a extrair vida das diferentes músicas do mundo. Aprender a ouvir na música as muitas vidas, filosofias, comportamentos e culturas que existem. 

Arroz e feijão é bom, mas tem que ir além. Porém não adianta radicalizar: comer lagosta todos os dias também enjoa.

*publicado no jornal A Folha, de São Carlos, no caderno de cultura Moitará, na coluna ETC&Jazz, no dia 3/6.

31 maio 2010

Jazz, carnaval para os ouvidos

















O jazz nasceu de dia, numa terça-feira gorda de carnaval em New Orleans, acordando a vizinhança com seu choro de trumpete rebrilhando no calor úmido das ruas cheirando a maresia e esgoto. Nasceu no cais do Mississipi, entre carregadores de fardos de milho, pescadores bêbados e prostitutas sorridentes, acompanhado dos gritos eufóricos de trombones roucos, tubas retumbantes, clarinetes histéricos e um tambor repicando marchas, habaneras e valsas crioulas então esquecidas.

Ao meio-dia das paixões entorpecidas e olhos de ressaca, o jazz se punha de pé antes que todos tivessem sequer sonhado em dormir. Os músicos atacavam em cima de carroças, bancos de praça, latas de lixo – tudo virava coreto, e logo seguia como um bloco carnavalesco, invadindo esquinas, calçadas, atrapalhando o tráfego e ensurdecendo a tarde. Acabavam de acompanhar o cortejo fúnebre do último folião, enterrado ainda meio bêbado, tocando solenes gospel songs e spirituals, e logo voltavam a por os instrumentos em brasa, cortando os ares densos das ruas do comércio com os tropéis alegres dos improvisos coletivos sobre ragtimes, dixies e blues.

 Até que chegavam a Storyville, o bairro pagão, loteado por vagabundos, habitado por operários, freqüentado por aventureiros em busca de prazer: música, álcool e mulheres. Pianola, baixo acústico, banjo, tambores e sopros faziam a algazarra no palco, enquanto a “platéia” se divertia ouvindo aquilo tudo à a sua própria maneira, na pista de dança sempre abarrotada, nos balcões dos bares, nas camas esfalfadas de quartos abafados. O jazz vibrava na mesma frequência que os personagens da noite.

O jazz trazia o brilho das ruas ensolaradas para dentro da noite, tornado a madrugada menos solitária. Sentado sozinho na mesa de um cabaré, encarando uma dose de bourbon, com os ombros pesados de responsabilidades, o velho jazzmen sorri quando ouve um solo de Louis Armstrong. Aquele negro bonachão em cima do palco, de olhos esbugalhados, beiços trêmulos e voz impagavelmente rouca toca notas sorridentes ao trumpete, é o mestre da expressão equilibrada entre dor e felicidade. Faz sorrir “de nostalgia”, como diria Noel Rosa.

O jazz nos seus primeiros anos era uma festa da música improvisada. Criação induzida pela diversão, vontade de tocar coisas que ainda não se ouviram, de ouvir coisas que ainda não foram tocadas. Ao vivo e a cores, o jazz fazia dançar, emocionar, se fazia ouvir. O jazz era uma cena – e bem carnavalesca, por sinal.

Hoje o jazz é um rótulo. E colocado na prateleira num setor bem distante de carnaval, outro rótulo. A diversão contida no jazz foi fracionada, pasteurizada, bem empacotada, envernizada, precificada (encarecida). Porém, continua lá, a espera dos foliões para ouvi-la, curti-la, vivê-la. Os rótulos é que nos dizem “não, isso não é para qualquer um”. Os rótulos são colocados sobre os discos, mas acabam é tampando nossos ouvidos.

* publicado na coluna ETC & Jazz da Folha de São Carlos, no caderno de cultura Moitará, no dia 27/5. 

21 maio 2010

Música e precariedade













Há algumas semanas atrás, um bar de São Carlos cancelou o show de uma banda da cidade poucos dias antes da data combinada para os músicos se apresentarem no local. Como foi desmarcado em cima da hora, a banda não teve a chance de marcar um novo show no mesmo dia em algum outro lugar. Ficaram sem tocar, sem a chance de mostrar o trabalho para os fãs, sem dinheiro no bolso.

O respeito a agenda é um direito que nem se cogita discutir em determinadas profissões. Se alguém cancela uma consulta médica na última hora, pelo motivo que for, tem que pagar a consulta. Na música, esse parece ser um direito não reconhecido. Tanto é que o episódio deu origem a uma troca de e-mails fervorosa entre vários músicos e profissionais da arte da cidade comentando o caso. “Não é a primeira vez que isso acontece”, “não é o único bar onde isso acontece”, “os músicos sempre perdem quando dependem de lugares pra tocar”, disseram muitos.

Há décadas que a atuação dos músicos em casas noturnas, bares e até mesmo festas particulares vem sendo cada vez mais marcada pela precarização das relações de trabalho. Os supostos contratantes dos serviços musicais parecem ter perdido a noção de que têm certos deveres como patrões.

Deveres básicos, como a simples garantia das condições materiais para a realização do show: tomadas elétricas devidamente posicionadas (vejam só, nem isso às vezes o músico encontra), equipamento de som funcionando, fornecimento de água e alimentação se necessário; compromisso com a realização da apresentação agendada e o cumprimento das condições de pagamento combinadas (se for couvert artístico, que o valor seja revertido integralmente aos músicos; se for cachê com base na entrada, que sejam transparentes na hora de fazer o “racha” da portaria).

Essa precariedade não é novidade no show business brasileiro. No livro “A Moderna Tradição Brasileira”, o sociólogo Renato Ortiz relata como as rádios, as televisões e o próprio mercado cultural tupiniquins se formaram nas décadas de 40 e 50 do século passado com base na improvisação, falta de profissionalismo e oportunismo.

Os artistas, sempre a postos para produzir e criar, conseguiram trabalhar e aprender muito nos novos empreendimentos culturais que surgiam (novidades como a criação de jingles publicitários, atuação em “filmes sem imagens” para rádio (!), adaptação de roteiros de teatro para a então recém-chegada televisão), mas também ficaram sujeitos a negociações salariais incertas, contratações irregulares, demissões sem justa causa. A “modernidade” da então emergente e poderosa burguesia brasileira contrastava com as tradicionais práticas paternalistas na relação patrão-empregado.

Hoje ainda é assim, mas já houve avanços. Nos grandes centros, a grande maioria dos artistas minimizou os efeitos maléficos do predatório mercado de trabalho da cultura com a criação de sindicatos e entidades de classe, que tentaram preservar os direitos mínimos dos trabalhadores, criando uma cultura de respeito ao artista. Tabelas de preço mínimo para determinados serviços, definição das atribuições de contratantes e contratados, clareza nas condições de pagamento, respeito a condições de trabalho, com um mínimo de segurança jurídica.

É lógico que isso não criou uma classe extremamente sindicalizada ou unida – aliás, muitos artistas nem conhecem seus respectivos sindicatos representantes – mas isso forçou o reconhecimento da existência desses trabalhadores da cultura, com direitos a serem garantidos. Direitos que nem se discutem, como o direito de ter a agenda respeitada, por exemplo.

*publicado na Folha de São Carlos, no dia 20/5, na coluna ETC & Jazz do caderno de cultura Moitará

07 maio 2010

Improvisando caminhos


















Um quadro esquemático da evolução do jazz, por Joachim Berendt (1975, "Jazz, do Rag ao 
Rock").
 

Uma definição de jazz é sempre complicada. Alguns preferem enquadrar o jazz num certo período, num certo país, centrado em determinados personagens-chave. Mais precisamente, dizendo que o gênero nasceu nos anos 1890 nas esquinas de New Orleans, se cristalizou no sucesso comercial das big bands dos anos 1930, se complicou nos anos 40 com o bebop e acabou no começo dos anos 70, quando se diluiu (ou se despurificou) com a mistura com o funk, o rock, a música latina e brasileira.

Outros preferem pensá-lo como uma cultura que não pode ser separada dos embates sociais, raciais e históricos norte-americanos – como faz o renomado crítico Stanley Crouch, que considera que a expressividade do jazz é fruto da luta dos negros para encontrar um caminho estético no turbulento e segregado showbizz american, e que os críticos brancos apoiam músicos brancos que não têm o mesmo valor que os negros.

Como música, o jazz absorveu as principais correntes da música popular e da música erudita de diversas culturas e países distintos, dando origem a novos “jazzes”, novas músicas, novas formas de interpretar, compor, ouvir. Mas alguns elementos musicais perduram nesses cruzamentos de estilos e gêneros. A presença do improviso – individual ou coletivo – por exemplo, é uma constante.

Apesar de existirem várias maneiras de improvisar, o jazz apresenta uma “fórmula” bastante comum. Com algumas exceções, os músicos apresentam uma sucessão de melodias que formam um todo coerente, geralmente dividido em partes, uma A e outra B. Em seguida, começam a improvisar sobre esse tema, criando novas melodias, mas seguindo a forma dada pelo tema original (a forma AA-B-A é a mais comum).

Sobre esse fundo sugerido pelo tema, os solistas se orientam e sabem quando a música está numa parte e não em outra. Isso acontece também com outros gêneros musicais, como o choro. Em outros estilos de jazz, é diferente: no free jazz, por exemplo, surgido na década de 60, os temas passaram a ter uma forma livre, não vinham mais acompanhados de harmonias pré-determinadas pelo compositor, ou nem mesmo existiam – como no disco em que o saxofonista Ornette Coleman colocou dois pianos, duas baterias, dois contrabaixos e dois sopros separados em dois grupos e pediu simplesmente que os músicos tocassem, sem nenhum tipo de partitura ou som-guia.

Algo que lembra a música africana e oriental, onde os músicos realizam o acompanhamento rítmico ao mesmo tempo em que cantam variações sobre a melodia principal. Já no flamenco, música de origem espanhola, é diferente: os músicos que acompanham o cantor nunca sabem quando ele vai parar de improvisar sobre um motivo e partir para outro – coisa que Miles Davis fez em algumas faixas do clássico disco “Kind of Blue”, de 1959.

No hip hop, o ritmo bem marcado e envolvente serve de base para um cantor improvisar letras em algum momento qualquer da música (o chamado “rap”). No jazz, o estilo “scat singing”, criado por Louis Armstrong e elevado à enésima potência por cantoras como Ella Fitzgerald e Sarah Vaughn, parece dar ao canto uma força semelhante. Na música klezmer, de origem judaica, os instrumentos improvisam coletivamente quase o tempo todo, geralmente sobre um acorde só (o chamado “modo”). O improviso coletivo é outra marca do jazz, principalmente nas primeiras bandas de rua de New Orleans.

Portanto, talvez o sucesso e o destaque que o jazz conseguiu no cenário cultural mundial seja o de, justamente, empregar este elemento presente nas mais diversas culturas musicais – o improviso – como uma força imanente ao gênero, resultado da habilidade individual dos solistas e da capacidade de comunicação em alto nível de ideias musicais entre os músicos e a plateia. Para quem toca, é um desafio; para quem ouve, significa o reforço da presença do elemento humano, que transcende a todo o momento os limites da música e da expressão.

* publicado no jornal A Folha de São Carlos, no caderno de cultura "Moitará", na coluna semanal ETC & Jazz, no dia 6/5.

30 abril 2010

Músicos, a ordem é: "liberdade!"












Por muitos tempo, ignorei-a. Mas a partir do ano passado, não pude mais. A OMB - Ordem dos Músicos do Brasil - passou a ser um problema, um entrave, um obstáculo na minha vida. Comecei a atuar profissionalmente na música desde 2009, após mais de 18 anos tendo-a apenas como hobby ou atividade secundária. E então surgiram convites pra tocar em SESCs, onde há certos procedimentos contratuais mais complexos. Um dos documentos pedidos é o "número da carteirinha da OMB". Nunca tive.

Pra minha salvação - e a de muitos músicos de São Carlos - é que o Ministério Público Federal da cidade processou o Conselho Regional da OMB em 2005. A decisão, em primeira instância, saiu em 2008, com resultado favorável aos músicos, que ficaram desobrigados de se filiarem à ordem para atuar profissionalmente em shows artísticos. A OMB recorreu, mas perdeu em segunda instância também.

A quem interessar, a ação civil pública que protege os músicos da cidade é a de número 2005.61.15.001047-2. O acórdão (decisão de tribunal) que estabelece a desobrigação com a OMB está disponível para download, bastando acessar o site do Tribunal Federal Regional da 3a Região (www.trf3.jus.br) e pesquisar pelo número do processo.

O MPF de São Carlos seguiu um caminho semelhante a dezenas de outras localidades. Amapá, Alagoas, Mato Grosso, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Paraná e Santa Catarina são estados onde, por ação de seus Ministérios Públicos Estaduais, a justiça permite a atuação como músico sem a necessidade de filiação à OMB.

A existência da OMB é um desvario. Uma ideia romântica: criar uma entidade que padronizasse a atividade musical, legitimando-a. É como dar ao músico um atestado de qualidade. Mas o que é qualidade? Um tocador de pífaro de Caruaru precisa saber História da Música pra tocar? Um cantor de banda de rock precisa ler partituras para saber o que está cantando (ou gritando?). Só podemos exigir um certo conjunto de conhecimentos dos músicos que se disponham a ensinar música, ou pesquisá-la, ou daqueles que estejam disputando uma vaga em algum concurso (vestibular, concurso público, orquestras, etc). Fora isso, cada um que saiba o quanto de conhecimento lhe é necessário para que possa fazer sua música com verdade, autenticidade e liberdade.

A OMB se propõe a proteger o músico e garantir condições de trabalho adequadas. Isso é maravilhoso, mas não é atribuição de uma ordem, e sim, de um sindicato - cuja filiação é de livre e espontânea vontade dos trabalhadores da classe, e não uma obrigação. Músicos unidos sim, o que é justo e necessário, mas não como escravos.

A OMB se propõe também a fiscalizar quem pode ou não tocar. "Com base em quê?". Conferindo o pagamento das anuidades, que deve estar em dia. "Com que objetivo se paga essa anuidade?". Manter a OMB funcionando, lógico. "Mas pra que manter a OMB funcionando?". Para fiscalizar quem toca. Entendeu?

Eu não entendo. Eu não me filio a uma entidade assim. Ainda bem que me mudei pra São Carlos, que tem liminar.

*publicado no jornal A Folha de São Carlos, no caderno de cultura Moitará, na coluna ETC & Jazz, no dia 29/4.

23 abril 2010

Jazz, uma poética

 









Joe Lovano, Diane Reeves, Cassandra Wilson

Me perguntam de vez em quando que tipo de música eu toco. Hesito um pouco, mas acabo dizendo “jazz”. “E MPB”, acrescento. “E bossa nova também”, digo. “Ah, uns sambas também, e músicas bonitas, com uns improvisos, vai”, arremato. Pra não perder o trabalho, falo que o repertório é de “música de noite”, ou “música de casamento”, “ou música ambiente”. Às vezes arrisco um “toco música instrumental”, mas aí complica.

O nome “jazz” assusta. Traz um estigma. Tem uma história por trás. Tem um lance de blues, de negro, de inferninho. Tem uma alma atormentada, de músico indo de bar em bar pra tocar notas difíceis e estridentes. Rola um negócio de algazarra, de platéia assoviando entre solos de um baterista tresloucado, cintilando os dentes de ouro num sorriso de esgar, o coração, as mãos, o suor, tudo a mil por hora. Tem bebops rimando com “on the rocks”, “on the road”, onde um pássaro saxofonista trafega entre as mesas e cadeiras de um bar numa noite na Tunísia, balouçando entre o último chorus de “Scrapple from the apple” e a primeira picada de heroína. Jack Kerouac, Jack Daniels. Tudo por volta da meia-noite.

Mas cabe tudo num retrato em preto e branco de Jimmy Katz. Criatividade e sofrimento, na cara de um Lester Young lânguido em fumaça. Poesia, como uma lágrima de Billy Holiday, um falsete de Sarah Vaughn, um inocente be-bap-boo-loo-bee de Ella Fitzgerald e a bochecha inflada de Louis Armstrong. O jazz também toca no lado ensolarado da rua. Tem vida. Tem caráter. Um joir de vivre. Tem Duke Ellington, um maestro negro e tão dândi quanto um Sinatra, magnífico no pôster autografado. Sim, o jazz tem também um glamour.

Uma estirpe de socialite. Sangue azul, de músicos de smoking tocando em coquetel regado a champanhe. Até uma dor de cotovelo amarga, no imprescindível balcão polido de um bar, é a coisa mais chique quando refletida no fundo de um copo de Johnny Walker, ao som de Chet Baker. Tem um eco de brilho gelado, azul, de um trumpete ao longe, e o tão desejado beijo de uma loira estonteante em vestido de gala. “You must remember this, a kiss is still a kiss”. Uma elegância de vinheta de Supercine.

O jazz, com suas ideias, conceitos e preconceitos, é mais que uma música. É um jeito de pensar a música. É uma poética, resultante de uma história social, econômica, intelectual – do século passado e deste. Música com cacife, pai certo, certidão de nascimento. No século XIX já havia resquícios dele no ragtime dos salões burgueses e nas bandinhas de rua de New Orleans, mas só foi se batizar mesmo nos anos 20, dos primeiros dixielands gravados. Tem os anos 30, das big bands e seus crooners. Tem os anos 40, com o pós-guerra e o bebop. Tem os anos 50, do cool jazz. Tem os anos 60, com Coltrane, ilimitado, free jazz. Tem os anos 70, lisérgicos, delirantes com a fusão de Miles Davis, funk, rock, Cuba e bossa nova. Tem os anos 80, da eletrônica e do videoclipe. Tem os anos 90, que vai do hip-hop à world music. E tem o século XXI, onde está tão diluído que está difícil dizer onde ele está (ou não está).

Eu continuo dizendo que toco jazz. Mas só quando não tem esse dilema de ter que explicar o que é jazz antes de tocar. Senão é muita coisa.

*publicado no dia 22/4, na Folha de São Carlos, na coluna ETC&Jazz do caderno de cultura "Moitará".

16 abril 2010

Memórias de um pianista melômano


















Eu busco incessantemente saber porque gosto de jazz. É algo inusitado, pois uns 90% dos meus amigos não-músicos em torno dos trinta anos apenas conhecem "de longe" o estilo, ou o toleram, ou não dão a mínima. Não consigo me lembrar um motivo específico que me tenha tornado um amante de uma música tão peculiar.

Mas persigo as memórias como aquele personagem do romance "A misteriosa chama da rainha Loana", de Umberto Eco. O homem tem uma amnésia grave e se esquece de quem é. Ele vê fotos antigas, ouve discos, lê livros, mas não se recorda de como se relacionava com aqueles objetos. Imerso em um mar de informações desconexas, só resta ao desmemoriado ir à casa onde passou a infância e buscar rastros de sua personalidade, de sua formação, de seu lugar no mundo.


Que eu me lembre, a música entrou na minha vida pelo toca-discos do meu pai, que tinhas umas bolachonas do Roberto Carlos (lembro de uma capa em que ele tinha uma pena em cima da orelha... ou isso acontecia em todas as capas?!), outras da Beth Carvalho, da Clara Nunes e umas trilhas sonoras de novelas. A música instrumental vinhas pelos vinis de orquestras como Românticos de Cuba e cassetes de Billy Vaughn.

Arranjos majestosos, alguns melosos, outros elegantes de tão simples e funcionais. Eu lembro de adorar as dinâmicas, cordas se revezando com o piano, solos de trumpete. Na adolescência vieram os CDs de Ray Conniff, que fui comprando às baciadas. Me apaixonei pelos suingados temas da Broadway, pelos boleros universais, pelos classicões de Tchaikovsky arranjados à moda "that 70's show"... ah, as melodias, que paixão. Eu era um melômano.

Adorava Richard Clayderman. Quem não lembra de “Ballade pour Adeline”? Até hoje me pedem pra tocar essa música em casamentos e restaurantes (a melomania é um mal da humanidade). Em seguida veio o Kenny G, com seu sax soprano de som lavado, mas que já tinha um pé no terreno “perigoso” do improviso. Apareciam pra mim, pela primeira vez, os solos de bateria, de percussão, de baixo. Eu estava encantado com todas aquelas possibilidades de exploração da linguagem musical.

Enquanto isso, aos doze anos já participava de rodinhas de violão com meu pai e amigos. Eu já sentia o prazer de fazer a música em grupo só de pegar uma caixinha de fósforos pra acompanhar. Minhas primeiras jam sessions.

Lembro da noite em que minha performance no tique-tique da caixinha foi tão boa que me deixaram tocar um par de bongôs desafinados no lugar de um dos bêbados que esfacelava o andamento. Fiquei com a mão inchada de tanto estapear os danados (os bongôs, não os bêbados). Os elogios no fim da noite me arrebataram. Até esqueci a dor nos dedos. Acho que até hoje esqueço. E só lembro de que fui me construindo na música enquanto ouvia e tocava.

*publicado na coluna ETC & Jazz do jornal A Folha de São Carlos, no caderno "Moitará", em 16/04.

09 abril 2010

Sobre a profissão de músico


















“O que você faz?”. “Sou músico”, respondo. Logo vem a réplica: “Tá, mas quero saber no que você trabalha...”. Emudeço. De tristeza, de vergonha, de medo.

O mito de que músico tem “vida fácil” está relacionada com a visão romântica da profissão – a do ser que anda por aí com seu violão debaixo do braço, tocando nos bailes da vida em troca de pão, sem lenço sem documento. Por isso, é bom esclarecer alguns ditos atribuídos aos músicos:

1) - “Como toca bonito. Pra ele é tão fácil. Ser músico é um dom divino". É parcialmente correto. Talento é o começo de tudo. Mas saber desenvolvê-lo, e ter as condições materiais e técnicas para se atingir bons resultados, é importante. Assim, muitos ignoram que o músico profissional gasta muitas horas fazendo estudos teóricos e técnico-musicais, organização de repertório, ensaios em grupo, produção de shows, contatos comerciais, gestão de carreira e projetos. É trabalhoso.

2) - “Músico ganha bem: toca só umas horinhas por noite e já sai com o bolso cheio”. A frase é totalmente inverídica. Além do show propriamente dito, geralmente o músico teve que montar o equipamento de som (que muitos locais não oferecem, e às vezes nem uma tomada elétrica decente é encontrada no local), providenciar um controle de portaria (que muitos locais não oferecem), realizar a divulgação e chegar na hora certa pra começar o show com roupa bonita, penteado e perfumado. Quanto custa tudo isso? Resposta: em geral, muito mais do que uma noite movimentada no barzinho que cobra R$ 3 de couvert artístico consegue pagar. E olha que ninguém recolheu o INSS nem gerou benefício trabalhista algum para o músico.

3) - “Ser músico deve ser muito prazeroso e relaxante... sentar-se lá e tocar por horas e horas, se deliciando”. Depende. Há uma espécie de “vácuo” comportamental em certas situações que envolvem música nos dias de hoje que podem gerar desgaste para os artistas e, claro, para o público. Se estamos num bar com música ao vivo, qual é o comportamento esperado? Aplausos no fim de cada número? Ou um suspiro de alívio quando o som alto para e podemos conversar? Devemos pagar o couvert como um serviço de que desfrutamos, ou não devemos, assim como nos negamos a dar gorjeta para os flanelinhas que apareceram pra cuidar do carro sem ser requisitados? Se estamos em um show em local público, como praça ou clube, o músico deve parar o show a cada buzina ou grito de crianças correndo? Ou apenas aumentar o som do equipamento para se fazer ouvir a todo custo?

No entanto, o show deve continuar.

* publicado na Folha de São Carlos, no dia 8/4, na coluna ETC & Jazz do caderno "Moitará"

02 abril 2010

Ouvidos de moitará


















Moitará” é o nome escolhido para o caderno de cultura da Folha. É palavra indígena que designa um encontro de diferentes tribos para a realização de trocas. Trocas de bens materiais, mas também de conhecimentos e afetividades. Significa o momento de baixar armas, abrir a guarda, dar guarida a novas possibilidades.

Essa coluna convida os leitores a fazerem ouvidos de moitará. Por que os ouvidos? Porque são portas abertas de nossa mente ao universo dos sons. “Os ouvidos não têm pálpebras”, diria um pesquisador francês. Significa que estamos a todo momento dando entrada grátis a qualquer tipo de som que nos acosse. Isso é bom e ruim.

Permitimo-nos ter aulas em escolas barulhentas, que nos tiram a concentração. Permitimo-nos ter alarmes de carros e casas disparados por horas a fio, nos embalando a insônia. Permitimo-nos andar em ruas com lojas que gritam as ofertas como uma bofetada ao pé da orelha. Permitimo-nos deixar a TV ligada em casa a todo o momento, para que o zum-zum nos dê a impressão de que não estamos sós. Até mesmo nos bares, local propício à sociabilidade, permitimo-nos música de fundo atrapalhando o bom andamento da conversa, que ficou entrecortada pelos “hã, não estou ouvindo”, “fale mais alto”.

Não, não quero o silêncio total e absoluto – porque isso seria a morte, a ausência total de sons –, mas parece que nos acostumamos com o barulho. Por outro lado, quando tentamos nos proteger desse inferno sonoro, fechamo-nos a novas possibilidades. Usamos o iPod como escudo protetor no trajeto do ônibus, colocando nossos ouvidos sempre à disposição dos nossos artistas favoritos. Mantemos o rádio no mesmo dial, na estação que só toca a mesma música de ontem, que é a nova de hoje que será igual a de amanhã.

Os sons que nos rodeiam se tornaram opressores. Desse modo, acabamos inevitavelmente fechando os ouvidos com as “pálpebras” do preconceito, da ignorância, da soberba. “Só escuto o que gosto”. “Só escuto música boa”, argumentarão. Esquecem-se de estão escutando, na verdade, sempre a mesma coisa. Sempre a si mesmos. Sozinhos.

Ouvidos de moitará. Por um mundo mais suportável, mais sensível, onde os sons possam nos surpreender, e não nos escravizar.

*publicado no caderno Moitará, do jornal A Folha de São Carlos, em 01/04/2010


29 março 2010

ETC & Jazz agora no jornal













Helvio Tamoio (www.paracatuzum.com.br)

A partir da primeira semana de abril, esse humilde blog passará a ter um espaço físico no mundo real da informação, e será publicado semanalmente na coluna homônima no caderno de cultura do jornal A Folha, de São Carlos (SP).

O caderno foi lançado no dia 18 de março desse ano e é coordenado pelo ator, ex-cortador de cana e ex-bã-bã-bã da Funarte Helvio Tamoio, um maluco que pilota a cultura como se fosse uma kombi a 300 por hora. Faz parte de vários núcleos culturais da região como o Núcleo de Fazimento da Cena e o Grupo de Estudos Independente da Cultura Paulista.

No meio de tanta cultura e loucura, me encontrou na rua, depois num show, depois numa mesa de bar, e me intimou: "Sabe quem vai fazer o próximo artigo para o meu caderno de cultura? Você!", no que retruquei, no ato: "Só se me der 2 mil caracteres toda a semana". Ele topou, e assim virei colunista de jornal. Já tinha o blog, agora tenho um louco que me dá espaço pra escrever toda a semana. Legal, né?