Ainda sem data de estréia, o ETC&Jazz já teve um piloto gravado no estúdio da Rádio UFSCar 95,3 FM. Eu é que serei o apresentador e, apesar de não gostar muito da minha voz, achei até que a narração ficou legal. Compus vinhetas de abertura, divulgação e assinaturas, todas usando overdubs de teclado - como se dois pianistas gravassem.
A idéia é que, em cada edição, logo após a chamada de abertura, toque uma composição radiofônica especialmente criada com a fusão, justaposição ou interpolação de todas as músicas que tocarão no programa do dia - uma espécia de "índice" do que o ouvinte vai encarar.
É um tipo de composição que é muito prazerosa de se fazer, pois possibilita a criação de uma nova música a partir de gravações já existentes. Há infinitas maneiras de se editar os sons - assim como são infinitas as maneiras de se ouvi-los -, mas aqui cumprem o propósito simples de atrair a atenção do ouvinte por meio do cruzamento de fluxos sonoros, estruturas, texturas e genealogias várias, na tentativa de criar um novo tecido sonoro que proporcione uma certa coerência às mais díspares tendências, escolas e tipos de jazz.
Talvez seja parecido com a idéia de "rádio rizomático" que a pesquisadora Janete El Haouli vem desenvolvendo - uma trança de sons que se cruzam sem hierarquias, dependências, intencionalidades, enovelando-se simplesmente ao tocarem (e se tocarem) nos limites dos tímpanos de cada ouvinte, sugerindo novas tramas e caminhos a cada segundo. Um desafio para a escuta.
Achei que o resultado da primeira ficou interessante. Na ordem em que aparecem, estão contidas aí as seguintes músicas: "Shapes", com Tom Harrell; "Jitney", com Cecil Taylor; "Captain Crunch (meets the Cereal Killer)", com Nicholas Payton; "Gota Serena", com Vinícius Dorin; "Song X Duo", com Pat Metheny e Ornette Coleman, sobreposta com incrível perfeição em "L. A. Scenes", com Chick Corea e Origin; "Conjunto", de Arturo Sandoval, que serve de base para a voz de Louis Armstrong e Billie Holiday em "You Can't Lose a Broken Heart". A sensual "Popsicle Toes", com Diana Krall, vai sendo pontilhada em algumas brechas.
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27 agosto 2010
13 julho 2009
Rádio sem tempo para escutar

Vê se encontra um tempo
pra me encontrar sem contratempo
durante algum tempo
José Miguel Wisnik / Jorge Mautner
pra me encontrar sem contratempo
durante algum tempo
José Miguel Wisnik / Jorge Mautner
O rádio FM de hoje é um retrato sonoro da falência da escuta. É feito para ouvir entre tarefas, alimentar-nos de sons afinados com as máquinas políticas, culturais e sociais hegemônicas. O rádio é como o som do nosso "inconsciente maquínico", conceito de Felix Guattari para explicar como a linguagem, o pensamento, o desejo e o self se interpenetram de acordo com sistemas que estão "fora" do indivíduo - o capitalismo, a gramática, a política, a ética.
O cérebro cria a linguagem, ou a linguagem cria o cérebro? O homem obtém seus objetos de desejo e consumo por meio dos negócios da economia capitalista, ou é a economia capitalista quem consome homens e negocia desejos em troca de sua existência infinita? Até que ponto o inconsciente pode ser entendido apenas pelos mecanismos descritos por Freud ou Lacan e não por Nietzsche, John Stuart Mill ou Hollywood?
Guattari nos mostra que a linguagem - por fim, o próprio pensamento e o inconsciente - recorre a signos ou significados que fluem em uma economia de poderes simbólicos, distribuídos na sociedade. Poderes do inconsciente, poderes da mídia, poderes da ciência, poderes da religião, cada um dominando partes da estrutura da linguagem, até que não se saiba mais o que pensa ("o que ou quem em mim pensa?") de forma independente.
O rádio FM é a materialização deste conceito de dominação da linguagem em forma de som. O rádio FM nos mostra um mundo sonoro vibrante, ágil, que tenta esticar sua dimensão linear ao máximo, elevando ao quadrado os volumes, massas, andamentos, fortíssimos, criando a ilusão da rapidez da informação. É som - conceito puro e abrangente -, porém marcado pelos signos do capitalismo pragmático ("time is money", cada segundo é cobrado pelo anunciante), da falsa objetividade jornalística (na voz pura e limpa do disc-jóquei que apresenta as notícias do showbizz com uma velocidade frenética), do consumo voraz (escute hoje o novo sucesso da hit parade que amanhã será esquecido). Sem silêncios.
Se o rádio FM apela para tais artifícios e jamais rompe essa estrutura - disc-jóquei, música, notícia, apresentador, vinheta, anúncio, "as dez mais" e etc -, é porque a palavra rádio que se reproduz no "inconsciente maquínico" de todos nós já se consolidou como tal. O rádio, que sempre teve a função de nos conectar, de nos religar (como a religião, que vem do latim religare) a todos por meio de seus sons, também passou a nos usar. Música? Claro, mas sempre com "um oferecimento de sabonetes Palmolive". Sempre nos dizendo o que está no topo das paradas. Informação? Lógico, pois sempre entre um anúncio e outro, entre a casa e o trabalho, entre o térreo e o décimo andar, dá tempo de ouvir a última fofoca sobre Any Winehouse.
Segundo Janete El Haouli, pesquisadora incasável do rádio, persiste a dúvida se precisamos limpar o rádio ou limpar a escuta. Assim como o inconsciente maquínico se refere ao rádio como uma "grade" de programas de música, anúncios, vozes sem corpo, também entende muito pouco de escuta. Inconscientemente, pensamos a escuta como um sentido menor, subordinado à visão.
O educador e filósofo Rubem Alves propõe oficinas de "escutatória" como medida para resgatar o sentido da escuta, em oposição às oficinas de oratória que ensinam todos apenas a falar.
Liberar a escuta pode liberar o rádio, fazer com que o religare passe a funcionar não apenas dessa maneira opressiva e barulhenta das FM´s, mas que traga novos afetos para a prática de ouvir/produzir rádio. Religare como valorização da reconexão entre os sons e seus territórios (desterritorializar e re-territorializar, como quer Guattari, deslocando sentidos para criar novos conceitos, artes, filosofias). Religare como a infantil brincadeira de “ligar os pontos” entre sons provocativos do rádio, descobrindo aos poucos um grande desenho infinito entre um tracinho e outro, um universo inteiro cabendo entre dois sons. Religare como religião (ou quase), como uma liturgia da escuta, transformando o ato de ouvir em ritual para os ouvidos, recuperando um certo sentido do sagrado que os sons perderam na sociedade pós-industrial. Religare como o reencontro entre o tempo da música, o tempo do poema, o tempo circular do rádio (ou seu tempo eterno), com o tempo do relógio, do cotidiano, como um reajuste de contas entre o tempo do ouvir e o tempo do viver.
27 março 2009
O mundo pede socorro e meus ouvidos também

(www.juniao.com.br)
Na noite de hoje, dia 28 de março, às 20h30, a campanha "Uma hora pelo planeta" conclama a todos os cidadãos da Terra a ficar pelo menos uma hora com luzes desligadas, num ato simbólico que tem o objetivo de chamar a atenção para a causa ecológica. A página brasileira da ONG World Wide Fund for Nature (WWF, Fundo Mundial para a Natureza) traz mais detalhes.
Me parece um tempo muito longo para ficar na escuridão, pois encarei o desafio ontem (hoje a noite vou estar tocando) e vi que realmente não é tão fácil. Mas não porque deixei de ver televisão, ou porque fiquei sem computador, ou porque tive que tomar água morna da torneira pra não abrir a porta do refrigerador. Foi porque comecei a escutar demais.
Sem o estímulo visual, passei a dar mais atenção para o ambiente sonoro. E fiquei incomodado com o que ouvia. Televisões em volume alto, o constante "vruuummm" do trânsito da cidade, alguns gritos de crianças brincando fora de hora. Não ouvi grilos, água, estrelas - só ruidos de gente e máquinas.
Me parece um tempo muito longo para ficar na escuridão, pois encarei o desafio ontem (hoje a noite vou estar tocando) e vi que realmente não é tão fácil. Mas não porque deixei de ver televisão, ou porque fiquei sem computador, ou porque tive que tomar água morna da torneira pra não abrir a porta do refrigerador. Foi porque comecei a escutar demais.
Sem o estímulo visual, passei a dar mais atenção para o ambiente sonoro. E fiquei incomodado com o que ouvia. Televisões em volume alto, o constante "vruuummm" do trânsito da cidade, alguns gritos de crianças brincando fora de hora. Não ouvi grilos, água, estrelas - só ruidos de gente e máquinas.
Pessoas e seus cortadores de grama, DVD players portáteis, antenas parabólicas, caminhonetes movidas a diesel, freneticamente ocupando todos os espaços e encobrindo todos os silêncios. Enquanto isso, a TV do apartamento ao lado exibia o anúncio em que algumas celebridades "cool" pediam pra desligar as luzes. "Pare de consumir energia, seu, seu... consumidorzinho de merda", era isso que eu ouvia, já me sentindo culpado por ter ligado o notebook (usando a bateria, não a tomada...ufa!).
Sim, o mundo está esquentando. Geleiras derretendo, baleias encalhando, pingüins perdidos, chuvas excessivas em Santa Catarina, seca e incêndios na Austrália, nevascas na Espanha, furacões em New Orleans, conseqüências diretas ou não do aquecimento global causado pela ação humana. Tudo isso me assusta e me faz pensar que já não estamos mais em sintonia com nosso planeta. Mudamos o meio ambiente, e já não nos sentimos mais em casa. E eu, na minha própria casa, com um calor danado no escuro (porque Araraquara é quente mesmo e não liguei o ventilador para não desperdiçar energia elétrica), ouvia um mundo que já não parecia amigável.
Irritado, pensei em formas de mudar esse panorama. Ligar para a prefeitura e pedir que fiscais multassem todos os carros com escapamentos furados? Chamar a polícia para dar uma dura no vizinho com o som alto? Não, não sou encrenqueiro. Então, como "salvar" o ambiente sonoro? Corrijo: salvar o meu ambiente sonoro? Pensei em John Cage: "pare de tentar o mudar o mundo, você só tornará as coisas piores", sempre citado pela minha amiga-guru Janete El Haouli. Pensei então em mudar pequenas coisas ao meu redor. Não posso parar a poluição do mar, do ar, a queima da Amazônia, o buraco na camada de ozônio (há quanto tempo não se fala nele né?...). Mas posso tentar parar o excesso de barulho ao meu lado.
Criei a minha campanha. "Uma hora pelos ouvidos", com o objetivo simples de desligar, impedir, abafar, minimizar todas as fontes sonoras das casas por uma hora, em data a combinar. E isso inclui até as lâmpadas, pois fazem um barulho danado (no escuro se percebe). Pois alguns fatos mostram que, se o planeta está pegando fogo e precisamos parar de desperdiçar recursos naturais, os seres humanos estão à beira da loucura de tanto ruído que produziram:
- A escala decibel, que mede a intensidade sonora, é logarítmica - o que significa que, a cada aumento de 10dB, a força do som é multiplicada dez vezes. Assim, o menor som audível (quase que silêncio total) é de 0 dB. Um som 10 vezes mais forte tem 10 dB (10¹). Um som 100 vezes mais forte do que o próximo ao silêncio total tem 20 dB (10²), e assim por diante. Uma conversa tem 60dB. Qualquer som acima de 85 dB pode causar perda de audição, dependendo do tempo de exposição ao som.
- pesquisa de um engenheiro curitibano mostra que o nível de ruído dentro de ônibus urbanos pode chegar a 81 dB. Em São Paulo, os níveis de ruído em algumas das principais ruas ficam entre 88 e 104 dB. Nas áreas residenciais, variam de 60 a 63 dB, superiores portanto aos 55 dB dados como limite pela lei de Silêncio daquela cidade.
- um iPod ou walkman podem produzir um volume máximo equivalente ao de uma britadeira, algo em torno de 120 dB (só pra lembrar, isso é 10¹² vezes mais forte que uma sala silenciosa).
- uma pesquisa da Universidade do Califórnia, mostrou que diversos brinquedos americanos emitem sons que, aos ouvidos de uma criança, correspondem ao de um aspirador de pó (mais de 100 dB).
- Outra pesquisa, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, mostra que fetos submetidos a um som forte aumentou-lhes a freqüência cardíaca de 140 para até 170 batimentos por minuto. Na mesma linha, pesquisadores canadenses verificaram que crianças cujas mães trabalharam em lugares muito ruidosos durante a gestação ouvem três vezes pior do que outras crianças.
- Rio de Janeiro e São Paulo são, nessa ordem, as metrópoles mais barulhentas do mundo, principalmente devido ao intenso tráfego de veículos, responsáveis por 80% dos ruídos.
-Tóquio ocupava a primeira posição no ranking do barulho há dez anos. Mas os japoneses (sempre eles) começaram uma campanha de bom senso pedindo para que todos diminuíssem a produção de ruídos a partir das 22 horas. Isso desencadeou uma "convivência silenciosa" - e civilizada - que coloca a cidade hoje no décimo lugar entre as metrópoles mais barulhentas.
- a Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma categoricamente: o barulho faz 210.000 vítimas de infarto por ano no mundo. Não é de se estranhar, pois nosso organismo é afetado or qualquer som acima dos 60 decibéis (o equivalente a uma conversa). Como defesa, o cérebro dispara ordens para que as glândulas supra-renais liberem doses de cortisol e adrenalina, os hormônios do stress. Por isso sons altos estão no terceiro lugar no ranking de problemas ambientais que mais afetam populações do mundo inteiro.
- há barulho demais que chega a causar assombração. Um relato de um engenheiro inglês é curioso: perseguido por uma suposta aparição freqüente de fantasmas em seu laboratório na cidade de Coventry (Inglaterra), ele descobriu após uma série de investigações que as silhuetas cinzas que constantemente via eram resultado de uma exposição involuntária a uma frequência subgrave de um aparelho exaustor recém-instalado no local. Uma vibração de 18,9 Hz (um pouco abaixo do limiar de nossa escuta, de 20Hz) causava alterações visuais devido ao "tremor" do globo ocular exposto ao imperceptível som do aparelho.
- pesquisas mostram que os níveis de ruído no Reino Unido triplicaram desde o início de 1980. Imagine quantos fantasmas não estão aparecendo por lá...
Desligar a luz me fez realmente ver muita coisa. Não diminuí a temperatura global, mas consegui começar esse texto. Desligarei as luzes mais vezes. Novamente não provocarei nenhum milagre que restaure o equilíbrio ambiental, mas terei começado a modificar meus hábitos, na linha "troque sua novela por um livro", ou Seinfeld por um blog, e talvez isso já resulte em uma vida mais produtiva e ativa - e me faça menos culpado por gastar energia elétrica escrevendo enquanto derrubam a Mata Atlântica e meu vizinho usa seu George Foreman Grill para fazer churrasquinhos regados a funks e pagodes no último volume.
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