A música encontrou um novo jeito de ser tocada quando foi experimentada pelos primeiros jazzistas. Eram negros roucos debatendo suas gargantas em field hollers nos campos de algodão do sul; pianistas ingênuos que trocaram as sisudas polcas e mazurcas pelo sapeca ragtime que invadia os salões de dança; eram trovadores que entoavam suas canções blues pelas linhas tortas das escalas tristes e versos tragicômicos; cornetistas sátiros que enterravam seus mortos com melodias sentimentais e logo explodiam em síncopes coletivas junto aos clarinetistas e trombonistas de plantão.
Um pequeno conjunto de atitudes, gestos, sensibilidades, em meio a um quadro histórico e cultural efervescente do início do século XX, que marcava a formação da moderna sociedade industrial norteamericana, então em pleno desenvolvimento econômico e começando sua transição de valores racistas e puritanos para valores igualitários e liberais, sem ignorar todos os impactos que as mudanças econômicas e sociais causaram nas artes. Tudo isso foi determinante para fazer germinar uma estética, uma nova expressão artística, que evoluiu em inúmeras outras formas musicais dentro de um novo gênero chamado jazz.
O gênero também foi impulsionado pela própria estrutura social norteamericana, que confere ao indivíduo a plena liberdade de iniciativa - pelo menos em sua Constituição, na famosa emenda do "direito à busca da felicidade" -, reconhecendo e premiando a da presença do "self made man", esse indivíduo mítico que vence por seus próprios méritos, disciplina, dedicação e ousadia. O artista de jazz é sempre um "self made man", em diferentes graus e figurações. Seja o músico estudioso, o gênio incompreendido, seja o excluído, o pobre, o negro, o bêbado, os jazzistas são sempre metáforas de suas próprias superações. São "vencedores" da arte, por realizarem-se ou como criadores, ou improvisadores, produtores, entertainers, estetas, professores, bandleaders, entre outros títulos.
Nos EUA, o jazz é talvez o patrimônio imaterial - termo que alguns estudiosos da cultura tanto empregam atualmente no Brasil - mais cultuado no país, que proporciona dezenas de prêmios, bolsas de estudos, cursos de formação ou apoio institucional aos grandes músicos que se destacam no gênero, ajudando a desenvolver e a manter viva essa música por meio de suas personalidades criativas.
Esse é o motivo pelo qual o pianista Dave Brubeck (Concord, Califórnia, 1920), que completou 90 anos no último dia 06/12, recebeu essa homenagem mostrada no vídeo abaixo.
Era aniversário de 89 anos de Brubeck, pianista que compôs alguns dos maiores hits do jazz chamado west coast, fazendo uma fusão da sonoridade blues com ritmos exóticos em compassos compostos - 7/4, 5/4, 6/4, 9/8. O disco "Time Out" (1959) foi um sucesso de público, sendo um dos discos de jazz mais vendidos até hoje, mas a crítica chegou a acusar o disco de "anti-swing" devido ao uso ostensivo de figuras rítmicas inovadoras.
As obras de Brubeck sobreviveram às críticas e encantam até hoje. No vídeo, músicos do primeiro escalão do jazz contemporâneo interpretam uma espécie de suíte das principais composições que marcaram a carreira do pianista: "Unsquare Dance", "Blue Rondo à la turk" e "Take Five". Brubeck se delicia ao escutar suas peças interpretadas lindamente arranjadas e interpretadas pelas feras Bill Stewart (bateria), John Faddis (trumpete), Bill Charlap (piano), Christian McBride (baixo) e Miguel Zenón (sax tenor). Justo ele, que teve seus arranjos para big band enxovalhados por Schoenberg, que acusou o pianista de "não saber o porquê de cada nota em sua pauta".
"As tradições são inventadas", segundo o historiador Eric Hobsbawn. Prefiro dizer que as tradições são vivenciadas. Uma tradição pode até ser inventada para servir ou legitimar um sistema ou um modo de vida, mas é preciso lembrar que antes de inventar, o homem vivencia suas tradições, seus sonhos, suas narrativas. O patrimônio imaterial - que pode muito bem servir a tradições inventadas, conveninentes ao status quo - se reinventa quando se materializa em homenagens assim, onde o patrimônio é colocado frente-a-frente com sua história, seu presente e seu futuro.
Time Out - The Dave Brubeck Quartet (1959)
Dave Brubeck – piano; Paul Desmond – alto saxophone; Eugene Wright – double bass; Joe Morello – drums
1. "Blue Rondo à la Turk" (6:44); 2. "Strange Meadow Lark" (7:22); 3. "Take Five" (5:24); 4. "Three to Get Ready" (5:24); 5. "Kathy's Waltz" (4:48); 6. "Everybody's Jumpin' "(4:23); 7. "Pick Up Sticks" (4:16)
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27 dezembro 2010
06 outubro 2010
Crítica do jazz, uma linguagem em transformação
O jazz é elástico. O termo ganhou definitivamente o poder de conferir ao objeto denominado por ele o status de música de nível, música cabeça, música boa. E é elástico porque cabe em muitas músicas. Os limites entre um gênero e outro estão cada vez mais tênues, e os críticos vêm tendo dor de cabeça para enquadrar certas bandas ou músicos neste ou naquele estilo de jazz.
Sim, sempre houve os guetos, rótulos como progressive jazz, easy-listening jazz, soul jazz, NUjazz, etc, mas estão cada vez mais dispensáveis (ou inúteis) para certas frentes do jazz. Aliás, "frentes" é um termo mais adequado devido ao próprio caráter de transformação que parece ser inerente ao gênero, sempre em movimento rumo a novas formas de expressividade musical, como gramáticas e sintaxes que se vão imiscuindo em uma linguagem.
Fazer a resenha de um CD de jazz significa avaliá-lo dentro de alguns aspectos que dizem respeito às especificidades e qualidades que uma gravação de jazz deve ter. A pergunta é: quais são elas? Improviso? Sonoridade pessoal? Padrão "pergunta-resposta"? Forma? Escala blues? Swing? Devoção à tradição? Creio que tudo isso junto, e mais o senso de que se "o que se quer fazer é jazz", uma intencionalidade, uma certa tendência a querer unir todos esses aspectos em um estilo musical e buscar uma voz expressiva que se aproxime de todos esses conceitos.
Escrevo isso após ouvir meu quarto programa que acabou de ir ao ar agora. Tentando traçar uma certa linha "evolutiva" na escolha do repertório, selecionei na seqüência dois artistas que se enquadrariam no que pode se chamar de jazz fusion: "Westchester Lady" (de Bob James, do álbum "Two"), seguida de "The song goes on" (de Herbie Hancock, de seu último "The Imagine Project", com Wayne Shorter, Chaka Khan e Anoushka Shankar). E ao ouvir as duas canções, fiquei pasmo. Como pode ser? Duas músicas tão díspares, com concepções estéticas tão distintas, sendo "engolidas" pelo mesmo rótulo?
As "vozes" musicais de Bob James e Herbie Hancock (ambos pianistas, ambos encantados pela instrumentação eletroacústica, ambos cheios de influências da black music e do funk) são nitidamente a maior diferença. Enquanto Bob James filtra a intensidade do black e do funk pelo seu toque leve e seus arranjos magistrais para cordas e orquestra - atenuando o calor da expressão e chamando atenção para as sutilezas e interações entre groove e fraseado - Herbie Hancock potencializa a expressividade pura, importando-se apenas em interagir com o sax de Shorter e com as vozes de Khan e Shankar, sob uma "pseudo" raga indiana produzida por tablas e cítaras mixadas a programação eletrônica. Se fôssemos levar em conta os aspectos acima citados, teríamos uma tabela assim:
Bob James Herbie Hancock
Improviso? OK OK
Sonoridade? OK OK
Pergunta e resposta? OK OK
Forma? OK OK
Swing? OK OK
Blue note? OK OK (e outras "notes" também...)
Tradição? ? ? (qual tradição?...)
Se formos pensar na tradição como uma seqüência do jazz pós-Coltrane, pós-Miles, e na devoção aos cânones do bebop, swing era ou hard-bop, aí fica difícil... mas se pensarmos na tradição da black music, do funk, da música pop, acho que também é um "OK" pros dois. E é tudo fusion. Tudo jazz.
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