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03 outubro 2012

Era da Mediocridade (para Eric Hobsbawn)



















Sem graça e sem vontade,
revestida de platitudes brilhantes,
imbuída de uma modéstia quase beatificante,
mas com a ferocidade das verdades de vestibular,
A Mediocridade
há de se espalhar
em plena majestade.

Quando, no apagar das luzes,
não resta mais do que sombra 
e nem se vê fagulha de pensamento,
é aí então que ela ensandece e fermenta-se, borbulhante;
sentada nos fins de tarde dos cafés bem frequentados,
entreolhada nos sinais fechados,
recitada no conforto dos lares dos bem nascidos,
caceteada no confronto entre os abastados e os mal-morridos;
a Mediocridade não se apresenta, mete o pé na porta, 
grita-se, dita-se, desdita-se, desnuda-se, justifica-se,
promulgada em decretos, legalizada, homenageada,
reverenciada e noticiada
no Jornal Nacional, 
em plena sala de estar, 
mastigada durante o jantar, e resmungada
enquanto escovamos os dentes e a encaramos 
de frente.

A Mediocridade nos pega de calças curtas 
com nossas caras de bobo,
na hora do fim da festa
de pernas bambas e decotes fáceis,
exibindo sorrisos Luminous White,
onde as almas bêbadas
de idéias trôpegas
e irresistivelmente perfeitas, fáceis,
celebram, jactantes,
sua mediocridade.

Sem vergonha e sem autocrítica,
a Mediocridade bate no peito e escreve livros,
que poderiam ser reduzidos a um "tuíte"; 
afinal, a Mediocridade é humilde:
qualquer linha, qualquer versículo, parágrafo, qualquer arroto,
já lhe serve. 
Na sua simpleza e singelicidade,  
a Mediocridade dispensa diplomas, títulos, efemérides,
outorgas, comendas, obituários, acrósticos, deferências - apesar de tê-las todas, sempre, em abundância -,
nem precisa de padrinho ou Q.I.;
a Mediocridade é uma autarquia que se basta, como uma atividade-fim,
na livre-concorrência consigo mesma,
sustentada pelas velhas tábuas da Lei do Mercado:
"Entre duas ou mais mediocridades,
que vença a mais competitiva";
e assim ela há de se multiplicar,
mesmo com a queda das Bolsas e o crash da Europa.

A Mediocridade é uma malária,
que apreguiça os debates,
que dá febres de fé,
que dispara surtos correcionais,
que provoca comichões de sabedoria,
geralmente acompanhados
das convicções higienizadoras,
das convenções engessadas,
das tradições empoeiradas,
das reações recalcadas;
é uma maleita dos afetos,
um torpor dos intelectos,
uma pirraça dos perceptos,
que monologa os diálogos, 
que apregoa delírios de certezas;
a Mediocridade é a doença que mata seu portador
por encolhimento da alma,
mas mata também tudo ao redor
por asfixia, ressecamento, degeneração;
mata por feíura mesmo.
O feio é a própria Mediocridade,
que odeia o belo, o que pode vir a ser belo, e por retroatividade, o que já foi belo,
e há de continuar escondendo o mundo,
encobrindo-o com arquiteturas nababescas cheias de vazio,
como Dubai, Las Vegas e Brasília.

a Mediocridade é o poeta do Supremo,
é o imortal do Senado,
é o analfabeto da Câmara,
é o homem santo do Planalto
é o candidato do centro,
é o dono da terra, capitão do mato,
é o ladrão da terra, pau mandado,
é o destruidor da terra, carvão queimado,
é a classe mediana, de um tipo ultrapaulistano
de ser humano,
que tem carro do ano,
que rouba mas faz,
que estupra mas não mata,
que educa no grito, reivindica no tapa
e dá o troco na bala,
arrotando trechos da Bíblia ou
do livrinho de Richard Dawkins,
para justificar por quê precisam acordar no dia seguinte
e defender a pátria, a família e a propriedade,
ou Deus,
ou a ciência.
Não veem que a Mediocridade está além dessas questões,
está abaixo, está acima, ela é a própria questão: filosofiza-se,
de boca cheia,
nos seminários ou nas salas de aula,
de algum telecurso ou faculdade.

Porque a Mediocridade é o próprio Deus,
o Eleito das massas consumidoras,
seduzidas pelo brilho em alta resolução do televisor de LED,
apalermadas pelo poder da grana,
pagando dízimos via MasterCard, ou
perdidas nos corredores infinitos de algum duty-free,
graças a São Luis Vuitton, Prada e Santa Bulova.
Como uma verdade toffleriana malcheirosa,
a Mediocridade é a própria Terceira Onda,
instalada nos microchips de telefones espertos,
das máquinas lava-louças, dos carros híbridos que falam,
codificados com míseros zeros e uns que são
mais comunicantes que seus medíocres donos,
que felicitam-se pela aterrissagem segura no aeroporto Charles DeGaulle,
contentes com o cheiro das jóias Hermès e o padrão Apple de qualidade
made in China.

A Mediocridade se globaliza, se civiliza, é o novo chic;
idiomatiza-se, dicionariza-se, neologizada, youtubizada em nova língua universal,
pós-era dos Extremos, urrada repetidamente até os confins de Urano;
uma língua assintática,
amnésica,
amoral,
acéfala,
anódina,
amorfa, na forma de uma diva travesti,
enfeitadérrima com suas próprias verdades de abano,
uma tautologia viva, pulsante - "sou porque sou foda" -,
delirante em seu orgasmo antierótico, eunuco, assexuado,
que se vale de um pênis postiço para estuprar toda a Inteligência,
ensanguentada e caída no chão,
encharcada em gasolina
e incendiada,
cercada por um pelotão de voyeurs andróginos neonazistas,
frequentadores de raves babacas e shopping-centers lisérgicos,
donos de bocas do ensino fundamental e milicos de Santa Tereza,
universitários linha-dura e policiais vista-grossa,
padres-celebridade e roqueiros caretas,
ex-big brothers e prostitutas ascetas,
dominatrixes e traficantes de auto-estima;
todos quebrando os dentes de tanto rir
daquela mera cena de soap opera
pós-Glória Perez.
A Inteligência morre,
a Mediocridade dá pulinhos na chuva.

Como este poema,
a Mediocridade se organiza de qualquer jeito,
dispensando versos alexandrinos,
epopéias gregas, sonetos,
quadras, decassílabos, rondós;
prescinde de qualquer forma-sonata,
minueto, melodia, libreto ou mesmo uma canção;
como este poema,
a Mediocridade se esvai em blá-blá-blás enjoativos,
corriqueiros, pueris e até mesmo grudentos,
como qualquer rima pobre
de um refrão de rádio,
que neste momento, rapidamente,
quase imperceptivelmente,
sepulta-se,
na sua
Mediocridade.

06 agosto 2012

Brasil para exportação. E daí? *

Meses atrás, um escândalo (mais um) era alardeado pela TV: contêineres de lixo hospitalar chegavam dos Estados Unidos, comprados por comerciantes do norte do Brasil e transformados em bolsos para calças jeans, revendidas a todo o País. Esse é apenas um lado perverso da economia global e sua lei simples: a mercadoria chega, pelo menor preço possível, aonde há procura – mesmo que seja lixo. A cultura de massa do século XXI segue a mesma lógica.

A música americana é consumida na Europa desde o fim da 2a Guerra Mundial. No pós-guerra, o jazz – o melhor produto cultural americano – lá encontrou sua plateia mais encorajadora. Os beboppers eram vistos como malucos nos EUA, mas o existencialismo francês e sua filosofia de liberdade radical adoraram as experimentações harmônicas do jazz moderno.

Já o mercado cultural brasileiro sempre foi um grande fã das tendências francesas – desde 1900 a 1960, tudo era copiado de Paris. Mas passamos a consumir música popular americana desde que Elvis Presley chegou pela TV e conquistou a juventude bossa-nova. Do rock da Jovem Guarda nos anos 60 ao hip-hop e às bandas indies nos anos 2000, consumimos por anos a fio a música de massa dos EUA,  superproduzidíssima para aparecer bem na telinha do canal jovem de videoclipes. E mesmo assim, as rádios, as novelas de TV e os programas de auditório nunca deixaram de tocar música feita aqui. Talvez isso mostre a força da nossa cultura, mas ao custo de uma certa perda da inocência, da criatividade, e do elã antropofágico e tropicalista exibido por grupos baianos, mutantes, secos e molhados – haja visto o surgimento de estilos de origem regional que foram adaptados à grandiloquência da cultura de massa, como o axé, o pagode romântico e o sertanejo universitário.

As técnicas para se produzir um sucesso, entretanto, continuaram tão antigas como a das marchinhas de carnaval: basta criar uma dancinha, um trocadilho de apelo sexual, um refrão-pílula, que pode ser um “tchê”, um “tcha”, e esperar que a música pegue. Apesar de achar que a música pode ser mais que um eterno baile de carnaval regado a “vou te pegar” e “dar uma fugidinha”, não vejo problema algum nesse tipo de diversão ligeira. A perversidade está mesmo é no aparato de comunicação e marketing voltado a espalhar essa música, oferecendo a nossos ouvidos apenas um canto monótono de vibratos em terça e rebolismos vulgares.

A verdade é que, de tanto consumir fast-foods culturais, hoje o Brasil aprendeu a fazer sua própria cultura enlatada. Os megashows brasileiros não devem nada ao showbusiness americano – igualmente povoado por artistas apelativos e cheios de rimas fáceis. Por isso, agora somos nós que mandamos para o mundo contêineres cheios de “produtos” musicais. E a Europa, em plena crise econômica, canta e dança ao som do vanerão brasileiro dos neo-sertanejos Gustavo Lima e Michel Teló – música bem mais leve e divertida que o jazz refinado do pós-guerra.

As plateias mais requintadas dos Estados Unidos e Japão até que consumiam a música brasileira, com suas sofisticadas composições da bossa-nova, chorinho e samba-jazz. O que não se via – desde Carmem Miranda, mantidas as proporções – era um artista brasileiro bombando nas pistas, nos programas de auditório, em aeroportos, rádios e até em escolas, como acontece com Michel Teló e Gustavo Lima – feito digno de uma Shakira ou Ricky Martin, artistas latinos que conquistaram as paradas mundiais.

Ok, então somos “exportadores” de cultura. Os americanos, que começaram toda essa história de globalização econômica, serão os próximos a receber nossos contêineres. Mas eles têm um patrimônio cultural protegido e valorizado: o jazz, ensinado em faculdades e até em escolas públicas. Na Europa, a arte de Mozart e Beethoven é tratada como disciplina escolar há séculos. Esses povos sabem a diferença entre música de verdade e mero entretenimento. Enquanto isso, no Brasil, o lixo cultural importado encontra ouvidos despreparados e um mercado consumidor em franco crescimento. A continuar assim, seremos apenas uns infelizes orgulhosos vendedores de nosso refugo musical, mas dançando ao som do baile americano e vestindo nossas calças jeans com bolsos feitos de lixo.

* texto originalmente publicado pela revisa Bleit (Boa Leitura), edição n1, julho/2012.

12 abril 2012

30 de abril, Dia Internacional do Jazz















A lenda pianística Herbie Hancock completa hoje - 12 de abril - 72 anos e mostra que não é só na música que ele continua na vanguarda do jazz. Atuando como embaixador da boa vontade pela Unesco (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura), ele anunciou no mês passado a criação do Dia Internacional do Jazz, a ser celebrado pela primeira vez em 30 de abril com grandes shows em Paris, New Orleans e diversos países.

A música de Herbie sempre se pautou pela transcendência de fronteiras. Sua passagem pelo famoso quinteto de Miles Davis deixou marcas profundas em sua personalidade musical, que transforma e molda os sons à sua própria maneira irreverente, sem limites entre música popular, erudita, étnica, jazz, rock ou eletrônica. Para ele, o jazz depende apenas de uma "percepção criativa" da música - qualquer música.

Aos 72 anos, Herbie não precisa de promoção, e usa com inteligência sua credibilidade para dar ao mundo uma data oficial para lembrar a importância do jazz como uma música de caráter universal. Apesar de não ser unanimidade entre os jazzistas mais ferrenhos - muitos o acusam de demagogo ou superficial -, uma visão assim não poderia ser mais apropriada para alguém que tem o cargo de embaixador - um ponto de vista amplo, democrático, algo oportunista, mas sempre em sintonia com as tradições mais profundas que o definem como um jazzista - e não de um político.



06 março 2012

O caso dos celulares sem fone de ouvido*



 















Estimo que já fiz o trajeto Araraquara-Londrina de ônibus cerca de 150 vezes em 10 anos. Posso dizer tranquilamente que, nesse período, observei uma modificação nos tipos de som que escutamos dentro do ônibus.

Antes havia mais barulho sendo produzido por pessoas do que por coisas. Conversas de madrugada, malas sendo acomodadas, pacotes abrindo, o terrível amassamento dos sacos de salgadinho, crianças gritando – todos ruídos incômodos, mas que interrompiam o silêncio por pouco tempo, até que alguém pedisse para baixar a conversa, que controlasse a criança, etc. Mas percebo que hoje há nos ônibus mais sons eletrônicos do que de gente, devido aos notebooks, videogames portáteis, mp3 players e devido a eles, os famigerados celulares sem fone de ouvido.

O celular mudou a forma das pessoas se comunicarem. É um aparelho que propicia um elo individual, atomizado, ultrapessoal do indivíduo com o resto do mundo. E essa extrema personalização parece ter mudado também a percepção dos seus usuários em relação às outras pessoas que estão em volta. Se antes o toque do celular só atrapalhava concerto de música clássica, hoje são suas músicas em formato mp3 que causam estrago.

Aposto que, com a exceção dos boomboxes (aqueles sound-systems portáteis que algumas turmas usavam no final dos anos 80 para levar suas músicas para a rua), você nunca viu ninguém ouvindo rádio em público sem fone do ouvido (desconte os radinhos de pilha em dias de futebol). Pois é, o celular que toca músicas é o novo boombox. O povo está à vontade para usufruir de suas canções favoritas e dividi-las com todos em volta, sem se preocupar o gosto musical alheio. E mesmo quando o repertório é de nosso agrado, quem quer ouvir um Beethoven, um samba de Paulinho da Viola ou um solo frenético de John Coltrane às duas da manhã num elevador? Ou num avião? Ou ônibus?

Cada estilo musical tem seu público específico, mas já fiz viagens inteiras sendo “platéia forçada” de música sertaneja, pagode, música eletrônica, música evangélica, e outras mais, via celular. O triste é que poucas vezes vi outras pessoas reclamando disso. Se uma criança chora, imediatamente há pessoas fazendo queixas. Se alguém ronca, sempre há alguém para dar cotoveladas. Mas, por incrível que pareça, são poucos os que se incomodam com os terríveis agudos da música dos celulares. O que está acontecendo com os ouvidos dessas pessoas?

Poderíamos arriscar várias explicações para esse fenômeno. Poderíamos brigar por nosso direito ao silêncio no ônibus, mas quase todas as tentativas que levei a cabo não surtiram efeito (aliás, nunca conte com o motorista como um árbitro justo nestas questões de convivência civil). Prefiro aqui dar uma dica valiosa. Contra a invasão dos celulares sem fone de ouvido, me armei com um aparelho eletrônico muito eficaz: um celular, com fone de ouvido. Afinal, meu gosto musical não é melhor do que o de ninguém, mas é só meu e eu respeito o ouvido do outro. Mesmo que o outro não respeite o dele próprio.

*Texto publicado na Revista Perfil Araraquara (fev/2012)

27 janeiro 2012

O jazz e a competição musical





















Um aspecto importante da sociedade norteamericana é a competitividade, na qual homens e mulheres têm que provar que conquistarão o mundo com seu trabalho duro, talento e dedicação, e honrarão a "terra dos bravos e da liberdade" mostrando que são os melhores em suas áreas. Há os winners e os losers. Vencer é a meta. Todos escolhem seu alvo, cada um em sua área, e saem todos em busca do objetivo. A criança é colocada na melhor escola, para que possa ter as melhores notas no SAT (exame igual ao Enem) e poder entrar na melhor faculdade, que os pais terão de pagar com economias que fizeram a vida toda pensando na educação do filho - afinal, é assim que se cria vencedores.

No processo educacional, mais competição. Competem para ver quem será a rainha do baile, quem será o presidente do grêmio estudantil, quem é o mais popular, quem soletra melhor, quem vende mais chocolates na gincana. As escolas competem para definir quem tem o melhor time (de vários esportes), quem tem a melhor equipe de cheerleaders, quem tem a melhor banda. Sim, há educação musical nas escolas, que eventualmente formam bandas, que sempre competem. Competição musical.

O filme "Drumline" (EUA, 2002, Charles Stone III), ao qual assisti dia desses numa sessão da tarde (sim, janeiro é meio parado para a música então, que diabos!, assisti mesmo), mostra bem esse clima de disputa que há na música no meio escolar. Traz cenas incríveis como essa abaixo, onde as bandas de duas faculdades se desafiam num duelo de baquetas. As coreografias e a sincronicidade são incríveis, mas há músicos que dizem que, na vida real, essas bandas fazem coisas ainda mais impressionantes do que o filme mostrou. Mas vale a pena conferir:


Nos EUA, os músicos do jazz passam por esse processo tentando ingressar em boas escolas, fazendo provas para ganhar bolsas de estudo em instituições como New England Conservatory, Berklee, Julliard. Estudam para ganhar concursos de saxofone, piano, guitarra, violino, performance, etc. Portanto, jazzistas - em sua maior parte - são resultado da soma de talento, um ambiente positivamente carregado de música, e competitivade.

Juntando talento nato e muito, muito trabalho duro, o estudante de música têm ao seu dispor inúmeras escolas, bandas e cursos de verão para aprimorar seu talento. Oportunidades disponíveis, concorrência dura, esperando a livre-iniciativa dos candidatos ao sucesso: é a própria essência do capitalismo industrial, a mão invisível do mercado exercendo a seleção "natural" e separando os bons dos muito bons, onde vencem os dedicados - típicos "self-made man" da música, que constroem suas carreiras artísticas à custa de muito sacrifício e trabalho. 

Após enfrentar anos de estudos, inúmeros testes, provas e audições, horas e horas de prática, ensaio e preparação, o jazzista está pronto. Ironicamente, uma das artes mais livres e espontâneas depende de uma disciplina estrita e compromissos sérios com grades curriculares e notas. Para os jazzistas, principalmente os que surgiram desde os anos 80, quando explodiu o número de escolas de jazz e performance nos EUA, estar no palco de um jazzclub é, em grande parte, receber os louros pela vitória que conquistaram antes de estar ali.




09 janeiro 2012

Michel Teló pegou os editores da Época

Já falaram muito sobre o assunto, mas eu também não podia deixar de me manifestar sobre algo que envolve música e jornalismo, justamente um dos pilares que sustentam esse blog, se é que se sustenta.





















A capa da revista Época da primeira semana de janeiro foi, no mínimo, equivocada. Confundiram a superexposição na mídia do cantor (e compositor também??? não sei...) Michel Teló com a emergência de um novo símbolo cultural nacional, que representa o gosto musical de toda uma classe social brasileira. Se isso fosse a verdade, a falsa capa abaixo, satirizando Beethoven e sua presença marcante nos caminhões de gás e esperas telefônicas do Brasil inteiro, poderia muito bem ser publicada.





















Adorei o raciocínio dos humoristas de plantão nas redes sociais. Não importa se é Michel Teló. Não importa se é Beyoncé, Lady Gaga ou se é Beethoven. Apenas espanta o fato de jornalistas confundirem todo o turbilhão midiático em torno de uma música (que vai passar, assim como passou o "Rebolation" e o "Créu", lembram?) com uma nova ordem social, merecedora de análises antropológicas sobre o Brasil e sua nova classe trabalhadora emergente. Para os editores elitistas da Época, Michel Teló é o carimbo que lhes faltava para atestar, de boca cheia, que o povão não sabe mesmo nada de música - "não falei que essa nova classe C não tinha gosto? Michel Teló é o máximo que eles têm pra nos mostrar."

E também nem vou falar do uso errôneo da expressão "cultura popular" no subtítulo, em lugar de algo mais apropriado para definir a música de Teló, "cultura de massa". A chamada foi uma pegadinha. O fenômeno Michel Teló "pegou" os editores. Afinal, se uma música está tocando em tudo que é lugar, pode até ser adjetivada como "popular", mas isso não é o mesmo que dizer que é fruto da cultura popular.

Cultura popular é justamente o lugar das manifestações espontâneas, ligadas a uma tradição oral, a um folclore e a priori não mediatizadas (com algumas exceções, pois eventos como o Carnaval e o Bumba-meu-boi já se tornaram produtos culturais de massa em certa medida). O termo é usado, portanto, com parcimônia. Nem Rolando Boldrin, que tem um programa na TV educativa paulista há décadas sobre músicas, literaturas e manifestações culturais populares, se dá o direito de dizer o que é ou não cultura popular. Ou os editores da Época acham que Beethoven é cultura popular porque é o hit dos caminhões de gás do Brasil?

16 setembro 2011

A vida anda e a preguiça também




















Este blog não está sendo atualizado por pura preguiça. Preguiça do mundo. Preguiça da internet. Preguiça de fazer login. Preguiça de estar conectado. Preguiça de estar atualizado. Preguiça até de coisa boa, como ouvir novos discos, pesquisar novos lançamentos, redescobrir velhos CDs. Preguiça de me perder nos sons.

Preguiça de informação. Preguiça de fatos inúteis, como saber que Gerard Depardieu urinou no corredor de um avião. Preguiça dos fatos tristes, como lembrar que Joe Morello morreu nesse ano. Preguiça dos fatos que importam na música, como ouvir falar quem é a última nova grande estrela do jazz americano de acordo com a Downbeat (o trumpetista Ambrose Akinmusire foi o escolhido), ou de ouvir o bootleg da apresentação do Trio Corrente com Paquito d'Rivera, ou de ouvir o solo que Seamus Blake fez no disco de um grande guitarrista brasileiro em ascenção, Oliver Pellet.

Preguiça dos livros. Preguiça de ler em "O triunfo da Música" (Companhia das Letras, 2011, 424) que Mozart foi despedido por seu patrão príncipe a pontapés - mostrando que músico sempre foi uma profissãozinha ingrata. Preguiça de discutir essa tal profissãozinha, com suas OMBs, currículos escolares obrigatórios e coletivos alternativos. Preguiça de discutir coisas sérias, como os debates sobre a nova lei de Direitos Autorais, ou de dar opinião sobre a chamada "crise" no MinC - deflagrada por gente que tem interesses mais do que culturais nos "eixos" das rodas artísticas desse País.

Preguiça da televisão, preguiça do rádio, preguiça dos shows - dos que fiz, dos que não fui, dos que tenho que fazer -, preguiça até do meu programa de rádio - que já foi reprisado nas últimas duas terças-feiras por pura preguiça de gravar os roteiros, que já estão prontos desde o mês passado. A preguiça me pegou nos últimos tempos. Me deu preguiça mesmo até de postar aqui um texto decente, ou coisa que o valha.

17 abril 2011

O lugar da arte (2)











Aniversário de um ano do evento "Jazz na Coisa"


 O Espaço A Coisa foi criado para ser um catalisador da vida cultural de Ribeirão Preto. Grupos de teatro, artistas plásticos e músicos que não têm tido chance de se apresentar em locais públicos apresentam-se na Coisa. A Coisa é uma alternativa para a existência artística de grupos com idéias inovadoras, com pouca visibilidade no mercado cultural.

O jazz é uma delas, e vêm tendo êxito as apresentações quinzenais com o nome "Jazz na Coisa", capitaneadas pelo Pó de Café Quarteto (Marcelo Toledo no sax, Bruno Barbosa no baixo, Leandro Cunha no piano e Duda Lazarini na bateria) juntamente com o DJ Kcond. Os shows têm lotação total e um clima alucinante de "inferninho" do jazz, com muita vibração em torno da música. Já tive a oportunidade de me apresentar lá, o vídeo abaixo mostra.



O Espaço A Coisa foi fechado e lacrado por uma fiscalização do Corpo de Bombeiros e da Polícia Militar após denúncias - não verificadas no local - de que haveria menores frequentando os eventos. Pediram identidade até para os músicos que estavam tocando. Não encontrando nada, os bombeiros então fecharam o local por não estar em exibição na parede algum alvará de funcionamento. O documento existe, mas estava no escritório do contador, e não poderia ser encontrado às 23 horas. O local foi reaberto logo depois, pois houve muita gritaria pelo Facebook, e até a prefeita da cidade tomou conhecimento da situação e declarou seu "apoio" ao funcionamento do local.

O fato tem várias interpretações - e fornece também várias lições -, mas a que eu prefiro é a de que a cultura sem governos, realizada pura e simplesmente por iniciativa livre e sustentada apenas pelas leis de mercado - a cultura preconizada pelos liberais de plantão -, é pura ideologia. Simplesmente porque cultura que se faz sem governos é território perigoso, insubmisso a controles, portanto nociva à própria noção de Estado (liberal ou não, pois Estado existe para justificar uma estrutura de poder e desigualdade). O Estado, mesmo que mínimo, quer estar presente nos espaços em que se faz cultura, ainda que apenas como ordenador jurídico ou regulador.

Assim, para o Estado, o problema do Espaço A Coisa não foram os motivos até legalmente pertinentes, como falta de estrutura anti-incêndio adequada, saída de emergência inexistente, entre outros. O problema era a falta de chancela de algum órgão de governo sobre aquele espaço, sobre a arte que se faz ali. E isso tem a ver com o post anterior.

Ninguém do Espaço A Coisa foi pedir ajuda ou beijar a mão de nenhum burocrata responsável pela cultura. Nenhum órgão de Estado havia permitido a existência da Coisa. Não houve inauguração oficial com corte da fita pelo governador ou pelo secretário da Cultura. Não tinha placa nenhuma na frente constando que aquilo era mais uma obra do "Brasil Para Todos". Não houve licitação fraudulenta pra contratação de serviços, estrutura ou equipamento superfaturado. Por isso a Coisa foi fechada.

A questão então, é outra: por que foi reaberta?

Em tese, o artista não precisa de governos para existir. A arte existe e os artistas estão sempre cheios de idéias. O que falta é espaços em boas condições de uso disponíveis para que os artistas possam realizar suas obras. Teatros, auditórios, anfiteatros ou salas em que o artista possa desenvolver seus trabalhos. Criar e manter espaços culturais para a arte, disponíveis para artistas locais, é coisa que não dá retorno financeiro muito menos rende votos. Por isso, o "apoio" demagógico dado ao espaço após o ocorrido mostra muito mais uma disposição para não criar inimigos do que efetivamente apoiar o local com ações concretas, como ajudar em uma reforma para adequar o local de acordo com as normas vigentes, por exemplo.

O que estava em jogo no ato do fechamento não era a segurança dos frequentadores, o controle dos níveis de barulho ou a suposta degeneração moral dos supostos menores presentes. O que estava em jogo era a ameaça do sistema de controle da cultura, de um estrutura oficial de poder de decidir quem pode e quem não pode fazer arte. A Coisa mostrou que a arte pode ir além dos assistencialismos culturais dos governos, que tendem a compreender a arte apenas como um instrumento de controle social (oficinas de hip hop e capoeira nas periferias, oficinas de artesanato para idosos), uma ótima moeda de troca para votos. E só foi reaberta para tentar afirmar o contrário.

05 abril 2011

Novos talentos do jazz em festival





















São raros os incentivos a músicos dedicados ao jazz no Brasil, pois geralmente o estilo sofre preconceito - e duplo. Por um lado, jazz é considerado coisa de rico, cultura de burguês, modismo importado da elite - por isso não merece incentivos fiscais ou econômicos por parte de governo algum abaixo do equador, pois não se enquadra nas manifestações populares, comunitárias ou folclóricas que os dirigentes preferem apoiar com base na demagogia da "cultura popular legítima".

Por outro lado, o jazz é o primo pobre no meio musical brasileiro. Não é filho do mundo erudito, não é um clássico europeu que mereça alguma atenção dos conservatórios ou academias. E nem é parente da música popular brasileira, portanto está fora da "linha evolutiva" da MPB ou mesmo da música instrumental nacional  (mais dominada por choros, sambas, ritmos regionais ou hermetismos pascoais). Nacionalismo e preconceito juntos tornam quase impossível um bom instrumentista de jazz ser reconhecido no País, mesmo entre seus pares.

Mas há iniciativas que tentam mudar esse quadro. Uma delas é o Savassi Festival 2011, que revela novos talentos do jazz por meio de um concurso anual. Neste ano as bandas podem se inscrever até 10 de abril. Os 12 escolhidos farão parte do line-up e se apresentarão em shows realizados em São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. No ano passado, 85 bandas se inscreveram. Oito foram escolhidas, e o vídeo abaixo mostra quatro delas (Tiago Barros Quarteto, Drrovind Jazz, Diz que é Trio e Labanca).

31 março 2011

O lugar da arte (1)














Espaço: uma delimitação de área que pode conter algo ou não. Espaços culturais surgiram como alternativas à falta de prédios especializados para a promoção de atividades culturais. Faltavam teatros para a música - também para a dança e para o próprio teatro -, faltavam salas de cinema, faltavam galerias e museus para as artes visuais. O que fazer?

Criaram-se então dezenas de salas, galpões, barracões, porões, mezaninos, sótãos, estações de trem, caixas d´água, túneis, entre outras arquiteturas públicas várias, para se abrigar shows, obras e performances. Com baixo investimento, inteligência e boas intenções, o Poder Público "salvou" as artes de ficar debaixo de chuva, sem platéia, no escuro. Qual a verdadeira política cultural aqui? Gastar pouco e iludir o contribuinte de que as míseras esmolas do orçamento destinadas à cultura estão sendo utilizadas na "democratização" da arte e diversificação dos "equipamentos culturais" do patrimônio da cidade. Investir em educação artística, construção de teatros, auditórios, cinemas - de verdade, não de lona - dignos para uso de toda a população, disso nem se fala.

Os governos passaram a oferecer arte ao público em suas repartições públicas mofadas e prédios sem a mínima adequação. Como um desdobramento desse pensamento, diversos espaços privados também passaram a adaptar suas dependências para as artes. Restaurantes com "foyer", bares com intervenções teatrais, clínicas médicas com galerias, supermercados e até padarias com palcos para músicos. Sob a chancela do marketing cultural ("eu promovo a arte, portanto sou um bom empresário"), uma miríade de artistas novos à disposição, loucos por uma oportunidade de mostrar seus trabalhos, não deixaram faltar pinturas, esculturas, grupos teatrais e músicos de primeira viagem a encher esses espaços.

O empresário esperto passou a ter facilmente a sua disposição uma nova "mais-valia cultural", espécie de diferencial competitivo com verniz de mecenato - a virtuosa boa intenção de acolher e apoiar as artes. Também surgiram pessoas, ligadas às artes de alguma maneira (nem sempre de forma profissional), se oferecendo como "curadores culturais freelancer", que organizam os tais eventos artísticos nesses novos espaços.

Em uma primeira análise, tendemos a ver como positivas essas transformações na forma como se oferece a arte - "democratização" do acesso à cultura. Mas, pensando melhor, será que essa verdadeira "pulverização" da cultura por todos os lugares não parece fazer com que a arte fique igual a qualquer banalidade que nos apareça no cotidiano? Lembram os banners de propaganda piscando na tela do computador enquanto navegamos na internet, os anúncios barulhentos que irrompem na programação televisiva, jingles tocados a máxima velocidade no rádio. Tudo misturado, tudo a mesma coisa (qualquer relação com a tese do desencantamento da arte de Walter Benjamin é mera coincidência...).

À parte obras de arte que são pensadas para se intrometer mesmo no dia a dia e causar algum espanto no incauto cidadão que flana pela cidade no piloto automático, não há mais lugar para apreciação ou fruição estética. Nem mesmo há o prazer do artista na elaboração de suas obras em casos assim. Tudo é entretenimento, apenas. Vá ao dentista e arranque um dente ouvindo um violinista tocando ao vivo. A espera no consultório médico é longa e humilhante, mas você está cercado de agradáveis quadros e esculturas de algum novo grande artista anônimo. Logo cedo tome um café na padaria enquanto piano e gaita tocam um blues como se a noite ainda não houvesse acabado. Um poeta intervém e declama um decassílabo que você já ouviu ontem na entrada do cinema. Faça as compras no supermercado ouvindo algum tecladista desfiar os últimos sucessos sertanejos que você já ouviu por osmose de alguma rádio que tocava em algum alto-falante em frente a alguma loja em alguma rua do centro da cidade.

Não há mais lugar para a arte. Lugar físico e mental para a arte. Como artistas, somos todos malabares desesperados tentando ganhar nosso mirrado cachê em sinais de trânsito. Como respeitável público, estamos todo no circo. E aos artistas que perceberam todo esse estado de coisas - artistas não reconhecidos e marginais, diante de um público atônito e maltrapilho - o poder público oferece a opressão como forma de evitar que a classe artística se aproprie de outros lugares que não aqueles designados pelos caciques da cultura.

Teatro Municipal sendo convertido em salão de baile de formatura? Pode, com alvará e tudo, carimbado e assinado em três vias pelos burocratas das secretarias afins. Porão de prédio sendo utilizado para uma infinidade de eventos culturais - a maioria com lotação esgotada - por coletivos de marginais (ops, de artistas) sem espaços disponíveis para mostrar sua arte? Não, não pode. E o resto da história virá no próximo post...

27 dezembro 2010

Dave Brubeck, patrimônio cultural do jazz

A música encontrou um novo jeito de ser tocada quando foi experimentada pelos primeiros jazzistas. Eram negros roucos debatendo suas gargantas em field hollers nos campos de algodão do sul; pianistas ingênuos que trocaram as sisudas polcas e mazurcas pelo sapeca ragtime que invadia os salões de dança; eram  trovadores que entoavam suas canções blues pelas linhas tortas das escalas tristes e versos tragicômicos; cornetistas sátiros que enterravam seus mortos com melodias sentimentais e logo explodiam em síncopes coletivas junto aos clarinetistas e trombonistas de plantão.

Um pequeno conjunto de atitudes, gestos, sensibilidades, em meio a um quadro histórico e cultural efervescente do início do século XX, que marcava a formação da moderna sociedade industrial norteamericana, então em pleno desenvolvimento econômico e começando sua transição de valores racistas e puritanos para valores igualitários e liberais, sem ignorar todos os impactos que as mudanças econômicas e sociais causaram nas artes. Tudo isso foi determinante para fazer germinar uma estética, uma nova expressão artística, que evoluiu em inúmeras outras formas musicais dentro de um novo gênero chamado jazz.

O gênero também foi impulsionado pela própria estrutura social norteamericana, que confere ao indivíduo a plena liberdade de iniciativa - pelo menos em sua Constituição, na famosa emenda do "direito à busca da felicidade" -, reconhecendo e premiando a da presença do "self made man", esse indivíduo mítico que vence por seus próprios méritos, disciplina, dedicação e ousadia. O artista de jazz é sempre um "self made man", em diferentes graus e figurações. Seja o músico estudioso, o gênio incompreendido, seja o excluído, o pobre, o negro, o bêbado, os jazzistas são sempre metáforas de suas próprias superações. São "vencedores" da arte, por realizarem-se ou como criadores, ou improvisadores, produtores, entertainers, estetas, professores, bandleaders, entre outros títulos.  

Nos EUA, o jazz é talvez o patrimônio imaterial - termo que alguns estudiosos da cultura tanto empregam atualmente no Brasil - mais cultuado no país, que proporciona dezenas de prêmios, bolsas de estudos, cursos de formação ou apoio institucional aos grandes músicos que se destacam no gênero, ajudando a desenvolver e a manter viva essa música por meio de suas personalidades criativas.

Esse é o motivo pelo qual o pianista Dave Brubeck (Concord, Califórnia, 1920), que completou 90 anos no último dia 06/12,  recebeu essa homenagem mostrada no vídeo abaixo.





Era aniversário de 89 anos de Brubeck, pianista que compôs alguns dos maiores hits do jazz chamado west coast, fazendo uma fusão da sonoridade blues com ritmos exóticos em compassos compostos - 7/4, 5/4, 6/4, 9/8. O disco "Time Out" (1959) foi um sucesso de público, sendo um dos discos de jazz mais vendidos até hoje, mas a crítica chegou a acusar o disco de "anti-swing" devido ao uso ostensivo de figuras rítmicas inovadoras. 

As obras de Brubeck sobreviveram às críticas e encantam até hoje. No vídeo, músicos do primeiro escalão do jazz contemporâneo interpretam uma espécie de suíte das principais composições que marcaram a carreira do pianista: "Unsquare Dance", "Blue Rondo à la turk" e "Take Five". Brubeck se delicia ao escutar suas peças interpretadas lindamente arranjadas e interpretadas pelas feras Bill Stewart (bateria), John Faddis (trumpete), Bill Charlap (piano), Christian McBride (baixo) e Miguel Zenón (sax tenor). Justo ele, que teve seus arranjos para big band enxovalhados por Schoenberg, que acusou o pianista de "não saber o porquê de cada nota em sua pauta". 

"As tradições são inventadas", segundo o historiador Eric Hobsbawn. Prefiro dizer que as tradições são vivenciadas. Uma tradição pode até ser inventada para servir ou legitimar um sistema ou um modo de vida, mas é preciso lembrar que antes de inventar, o homem vivencia suas tradições, seus sonhos, suas narrativas. O patrimônio imaterial - que pode muito bem servir a tradições inventadas, conveninentes ao status quo - se reinventa quando se materializa em homenagens assim, onde o patrimônio é colocado frente-a-frente com sua história, seu presente e seu futuro.

Time Out - The Dave Brubeck Quartet (1959)

Dave Brubeck – piano; Paul Desmond – alto saxophone; Eugene Wright – double bass; Joe Morello – drums

1. "Blue Rondo à la Turk" (6:44); 2. "Strange Meadow Lark"  (7:22); 3. "Take Five" (5:24); 4. "Three to Get Ready" (5:24); 5. "Kathy's Waltz" (4:48); 6. "Everybody's Jumpin' "(4:23); 7. "Pick Up Sticks" (4:16)

02 julho 2010

Universos paralelos: jazz e Copa do Mundo















Estamos presenciando um dos campeonatos mundiais de futebol mais disputados dos últimos anos, com vários times que desequilibram a tradicional guerra entre seleções européias – que criaram e amadureceram o esporte e suas táticas – e os times sul-americanos – que deram ao mundo craques com extrema audácia e destreza no trato com a bola. A Copa do Mundo traz atuações surpreendentes de equipes que, há alguns anos, nem acreditaríamos ver em uma competição tão dura e difícil: Japão, Gana, Estados Unidos, África do Sul, entre outras, deram trabalho aos adversários mais tradicionais.

O futebol é um esporte global. Suas regras descomplicadas e objetivos simples permitem sua prática com poucos recursos técnicos, favorecendo o entrosamento dos participantes e proporcionando o florescimento de talentos individuais como uma vantagem competitiva. Sem desmerecer o treinamento profissional, que é tão duro como em qualquer esporte, é fácil aprender a jogar, e a brilhar jogando futebol. Seja um exímio armador de jogadas, um forte defensor ou talentoso atacante, o que conta é o contexto em que o jogo se desenrola. Se o time ganha com jogo feio, o trabalho de equipe é valorizado; se o time perde com jogo bonito, quem brilha são os que mostram talento com a bola, e a torcida aplaude a coragem e o “futebol-arte”.

Assim como o futebol não é mais o “esporte bretão” ou especialidade tupiniquim, o jazz também não é mais um gênero musical hegemônico norte-americano. Tornou-se uma linguagem musical praticada em todos os continentes, que influencia praticamente todas as culturas musicais de massa no planeta. Por motivos análogos aos do futebol.

A “equipe” do jazz também precisa de entrosamento, mas há espaço de sobra para os talentos individuais. Solistas brilham com facilidade, enquanto a cozinha acompanha, reagindo a cada nota, a cada frase, a cada gesto musical. As regras são simples: basta concentrar-se sobre o tema, rodeando-o, abstraindo-o, enfeitando-o, mas sempre caminhando para a mesma direção, em direção à meta, no caminho do solo perfeito, no rumo da expressão bem acabada. Ouvir o outro, antecipar “jogadas”, conhecer o repertório de frases e solos que os grandes mestres do passado já criaram.

Atribui-se o status de “arte” aos gols magistrais de Pelé - “uma pintura”, dizem – e aos dribles astutos de Garrincha ou Robinho. Parece ser algo naturalmente universal. Será inteligência, ação puramente reflexa, ou total consciência do momento preciso? Poesia? Não dá pra definir exatamente como o jogador age ao se aproximar do gol e dar um chute preciso. Ou então como supera a marcação de três zagueiros com um único movimento de corpo, um toque na bola, um olhar enganador. No jazz, o músico simplesmente cria a música ao mesmo tempo em que a toca, compõe enquanto improvisa, arrisca-se a cada compasso. Conduz o jogo para novos caminhos, como se desejasse fazer gols cada vez mais bonitos e difíceis.

Novos pólos de disseminação do jazz, fora dos EUA, surgem com força de “seleções” de primeira linha: Portugal, com experiências na música improvisada e o jazz de vanguarda; Espanha, com fusões com o flamenco; Polônia, com o renascimento da tradição bebop; Brasil, com a moderna música instrumental brasileira e a música “universal” de Hermeto Paschoal e seus seguidores; Noruega e Suécia, com grupos de jazz-rock; países do norte da África, com novas vertentes do “afrobeat”; Índia, com músicos cada vez mais ocidentalizados e dispostos a criar pontes entre a tradicional cultura do país com o jazz de vanguarda.

A surpresa causada por esses novos sons do jazz global é tão gratificante para os ouvidos quanto o futebol-arte praticado pelas novas potências esportivas é aos olhos. Sinal de que o prazer de encontrar o espírito humano a se reproduzir e se superar nas diversas formas de arte – seja na música, seja no futebol – é cada vez mais comum às diversas culturas humanas.

*publicado na coluna ETC&Jazz do caderno de cultura Moitará, no jornal A Folha de São Carlos, no dia 1/7