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06 março 2012

O caso dos celulares sem fone de ouvido*



 















Estimo que já fiz o trajeto Araraquara-Londrina de ônibus cerca de 150 vezes em 10 anos. Posso dizer tranquilamente que, nesse período, observei uma modificação nos tipos de som que escutamos dentro do ônibus.

Antes havia mais barulho sendo produzido por pessoas do que por coisas. Conversas de madrugada, malas sendo acomodadas, pacotes abrindo, o terrível amassamento dos sacos de salgadinho, crianças gritando – todos ruídos incômodos, mas que interrompiam o silêncio por pouco tempo, até que alguém pedisse para baixar a conversa, que controlasse a criança, etc. Mas percebo que hoje há nos ônibus mais sons eletrônicos do que de gente, devido aos notebooks, videogames portáteis, mp3 players e devido a eles, os famigerados celulares sem fone de ouvido.

O celular mudou a forma das pessoas se comunicarem. É um aparelho que propicia um elo individual, atomizado, ultrapessoal do indivíduo com o resto do mundo. E essa extrema personalização parece ter mudado também a percepção dos seus usuários em relação às outras pessoas que estão em volta. Se antes o toque do celular só atrapalhava concerto de música clássica, hoje são suas músicas em formato mp3 que causam estrago.

Aposto que, com a exceção dos boomboxes (aqueles sound-systems portáteis que algumas turmas usavam no final dos anos 80 para levar suas músicas para a rua), você nunca viu ninguém ouvindo rádio em público sem fone do ouvido (desconte os radinhos de pilha em dias de futebol). Pois é, o celular que toca músicas é o novo boombox. O povo está à vontade para usufruir de suas canções favoritas e dividi-las com todos em volta, sem se preocupar o gosto musical alheio. E mesmo quando o repertório é de nosso agrado, quem quer ouvir um Beethoven, um samba de Paulinho da Viola ou um solo frenético de John Coltrane às duas da manhã num elevador? Ou num avião? Ou ônibus?

Cada estilo musical tem seu público específico, mas já fiz viagens inteiras sendo “platéia forçada” de música sertaneja, pagode, música eletrônica, música evangélica, e outras mais, via celular. O triste é que poucas vezes vi outras pessoas reclamando disso. Se uma criança chora, imediatamente há pessoas fazendo queixas. Se alguém ronca, sempre há alguém para dar cotoveladas. Mas, por incrível que pareça, são poucos os que se incomodam com os terríveis agudos da música dos celulares. O que está acontecendo com os ouvidos dessas pessoas?

Poderíamos arriscar várias explicações para esse fenômeno. Poderíamos brigar por nosso direito ao silêncio no ônibus, mas quase todas as tentativas que levei a cabo não surtiram efeito (aliás, nunca conte com o motorista como um árbitro justo nestas questões de convivência civil). Prefiro aqui dar uma dica valiosa. Contra a invasão dos celulares sem fone de ouvido, me armei com um aparelho eletrônico muito eficaz: um celular, com fone de ouvido. Afinal, meu gosto musical não é melhor do que o de ninguém, mas é só meu e eu respeito o ouvido do outro. Mesmo que o outro não respeite o dele próprio.

*Texto publicado na Revista Perfil Araraquara (fev/2012)

08 fevereiro 2012

Ouvidos e História*

Um pesquisador musical do século XX, o francês Pierre Mariétan, disse: “a música acontece no ouvido de quem escuta”. Tal afirmação, nos dias de hoje, nos faz pensar nas consequências de um fenômeno bastante corriqueiro, que é o fato de a música “bater à porta” dos ouvidos constantemente, chegando pelos mais diversos meios: carros de som passando na rua, televisão ligada, mp3 players, celulares, internet.

Com tanta música disponível, é importante refletir sobre o “como ouvir”, pois isso determina também o “o quê” e o “por quê” ouvir. Tentemos entender isso em uma breve história da tecnologia musical e sua relação com a escuta.

O antigo hábito de ouvir rádio proporcionava que os sons produzidos por grupos musicais eliminassem a distância até os ouvintes. Antes disso – e antes mesmo dos discos –, música só se ouvia em shows, bailes, ou em lares onde alguém tocava algum instrumento, por meio de uma partitura escrita – a música tinha que ser “lida”, num papel!

A indústria musical dos anos 50 até os 90 apostou no ouvido “sedentário” – ouça seu ídolo em sua própria casa - e fez de tudo para garantir altas vendagens de seu principal produto: o disco de vinil. A preocupação era de encantar o ouvido, mas também vender música, por meio de um suporte plástico chamado disco. O long-play levou aos bares, casas noturnas (quem não se lembra das jukeboxes que tocavam vinis a troco de uma moeda) e lares o fascínio da música gravada.

Possuir uma vitrola era um luxo, pois dava ao ouvinte o poder de tocar sua música preferida a qualquer hora. O rádio, principal veículo de comunicação de massa até os anos 50,  amplificava essa escuta, com programas musicais que veiculavam teatro, radionovelas e shows ao vivo – que mais tarde foram substituídos pela execução dos próprios LPs pelos recém-surgidos disc-jockeys.

Os discos evoluiram com novas tecnologias, e surgiram as fitas K-7, depois os CDs. Nos anos 2000, a digitalização pulverizou a indústria fonográfica com uma nova possibilidade: substituir o plástico pelo virtual, com o simples download de músicas. A principal consequência para a escuta é a explosão de consumo musical, pois temos a música em nossos bolsos, dentro de players digitais, celulares, e até acompanhada do videoclipe lançado na MTV, depois baixado do Youtube.

Música lida, música ouvida, música comprada, música baixada. Em meio século de história, os jeitos de se ouvir música foram mudando, pois os suportes foram se transformando. A pergunta é: nesses cinquenta anos, será que assumimos o papel de ouvintes ativos ou fomos apenas consumidores passivos de música? Escute o que te diz o seu ouvido.

*publicado na revista Perfil Araraquara, edição 20, janeiro de 2012. Versão integral, difere do publicado.

01 janeiro 2012

Happy New Ears















Ouvi do novo
norte
um sentido
cantado
 
ouvir de novo
a sorte
do silêncio
calado
 
tal o tao
movente, pulsante
silente, estanque
ouvivente

basta um sentido
um senso, um tino
todo ouvidos
e tudo sente

enfrente o novo
em frente, escutai
que a porta que te abrirá a percepção
para a vida sem negação,
para os sons do perdão,
lá está

ouvi, moveis
confiai
que os ouvidos permitirão
que as palavras não sejam mais muros
que as ideias não mais absurdos
que um deus não seja só castigo

24 dezembro 2011

Música e concretude





















Às vezes me pego sendo enganado pela música. Na televisão, filmes, na rua, no rádio. A música, sendo nada mais que uma organização de sons, barulhos, ruídos, vozes, etc, às vezes investe-se também de uma intencionalidade. Um construto que tem um fim além de ser apenas belo, apenas agradável, apenas arte -, tornando-se um conceito aplicado, uma mensagem, até mesmo uma arma. Armadilha. Armação.

O autor, o compositor, o produtor, qualquem um deles pode agir como um manipulador. Assim como a propaganda de perfume tenta traduzir um aroma por meio de imagens e sons (tradução intersemiótica, já que a televisão ainda não tem a capacidade de estimular o olfato), a música tem a propriedade de sinalizar uma coisa que não existe literalmente, ou de emprestar um significado a algo, ou de simular uma ação - como se narrasse sem palavras. Drama. Comédia. Aventura. Farsa.


O tempo para ou corre. Eterniza o beijo. Emoldura o encontro. Quem assiste a seriados americanos como "Friends" ou "Seinfeld" entende a capacidade da música de marcar a cena - quando, por exemplo, aparece o exterior do prédio, a fachada do restaurante, a panorâmica noturna de Nova York, sempre acompanhadas de uma curta e bem característica vinheta, antes dos atores começarem os diálogos. Prelúdios.

A música também acelera o fluxo da vida, faz tudo acontecer mais rápido. Rocky Balboa ("Rocky", 1976) se prepara para a luta decisiva, que o confirmará campeão mesmo contra um inimigo aparentemente imbatível - a aberração russa Drago ou o negro impiedoso Apollo. Enfrenta a rotina pesada de exercícios e o descrédito da mulher. Mesmo assim, pontuando as cenas de sofrimento, suor e dor, o famoso "Rocky Theme" dá esperança de vencer. Tudo passa rápido. Basta a música, e três meses passam em três minutos. Interlúdios.

Quando a música entra no lugar de alguma coisa, vemos a música "sendo", "existindo" concretamente. Figurando. Lembro do filme "Contatos imediatos em terceiro grau" ("Close encounters of the third kind", 1977) e a famosa sequência de notas usada pelos alienígenas para se comunicar com os humanos. Alguém já ouviu algum som extraterrestre? E música de outro planeta? A verdade é que o compositor John Willians inventou para os ETs uma assinatura sonora, usando notas de uma escala pentatônica. E não deve ter sido por acaso: com sua força ancestral, telúrica, sendo uma das mais antigas escalas musicais utilizadas por vários povos humanos, a escolha produziu um efeito primal, estabelecendo uma poderosa ponte sonora que dá um sabor especial a este filme de ETs (e olhe que eu morro de medo desses bichos verdes...). Desenvolve-se a trama, a música é a própria personagem. Coda.




Além de ter a capacidade de concretizar algo que teoricamente nem existe - afinal, ainda não provaram que os tais homenzinhos verdes estão de fato entre nós - a música também tem o poder de representar sonoramente algo que não tem som. Como o gás de cozinha (preciso comentar?). Ou então bancos. Sim, bancos, essas instituições que nos pedem dinheiro para guardá-lo pra gente. Bancos fazem propaganda. Muita. E não sei se repararam, mas todos encerram seus vídeos promocionais com um pequeno jingle - uma assinatura, uma audiomarca - que ajuda na identificação e fixação do nome do dito-cujo. Tem até gente fazendo cover de jingle de banco. Finale.

03 junho 2011

A música e a desnecessidade do homem





















Há todo um conjunto de coisas, atos, fatos, afetos e percepções que nos levam a acreditar que, no mundo de agora, acabaram-se as grandes narrativas. Dizem que tudo se funde em pequenas conectividades banais. Lemos na internet uma notícia sobre um tsunami de proporções catastróficas, ao mesmo tempo acompanhamos o twitter do Ashton Kutcher dizendo alguma bobagem sobre o mesmo assunto, ao mesmo tempo em que um vídeo supercomentado na internet também vira pauta pro telejornal, que fecha o dia com o resumo da tragédia ou o comentário sobre a mais "nova banda na internet". Pronto, página virada, esperamos amanhã para flanar pela web mais uma vez, flutuando sobre os acontecimentos mais comezinhos e os mais aterradores enquanto aguardamos que alguém faça um comentário no tópico que abrimos no Facebook.

Alguns dizem que isso se chama comunicação na era pós-moderna. E há ainda alguns que dizem que, por trás de milhares narrativas despretensiosas e sem-graça como essa, a grande narrativa que resta é a que descreve a desnecessidade do homem. Não frente à natureza, mas frente a seu próprio desejo. De tanto desejar expandir-se, ultrapassou-se. O homem descreveu, criou, modificou, intensificou, reordenou, atualizou tantas coisas que, em meio delas, tornou-se obsoleto.

Sendo assim, o mote agora é: o que não tem utilidade é descartável. A jovem britânica que se matou por não conseguir emprego percebeu (e não suportou) sua obsolescência em um mundo onde as pessoas devem ter um apelo comercial semelhante ao de um produto - prático, rápido, agradável e, de preferência, barato. O fato (que querem nos fazer acreditar) é que o homem se tornou obsoleto. Fazer música pra quê, então?

A escuta musical, fonte do prazer da música, segue a mesma tendência decadente. A música do século XX, radicalmente diferente das músicas anteriores, nos mostrou que não interessa o que se faz na partitura, no palco, nos instrumentos: a música acontece no ouvido de quem escuta (acho que quem disse isso foi o Pierre Mariétan). Todo o jogo estrutural, de silêncios, contrapontos, harmonias ou ruídos presente numa composição só se realiza um único momento: quando está na cabeça do compositor e viaja até a cabeça do ouvinte. Fora isso, só há "teatro" musical, que nos ajuda a absorver a música por outros buracos do corpo, como a pele e os olhos, mas não é o essencial.

Acho que naquele livrinho simples e interessante  "O que é música?", daquela coleçãozinha "Primeiros Passos", o pianista Jota Moraes fala sobre os três jeitos de ouvir - ouvir com o corpo, ouvir com o coração, ouvir com o cérebro - e como essas três escutas se integram no sujeito (por via da educação musical, talvez). Talvez hoje, na teia complexa de relações entre mídias e sujeitos, onde a informação musical praticamente invade nossos corpos por vários meios disponíveis, esses três "ouvires" tenham se convertido numa coisa só, plana e desintegrada, focada seletivamente apenas na utilidade da música e em sua identificação com um gosto musical acanhado ou subdesenvolvido. "Essa é pra dançar, então eu gosto", dirão alguns. "Essa outra é pra cantar junto e chorar, então acho bonito", talvez, ou ainda, "essa é pra pensar", portanto "não gosto muito".

Na música popular, a percepção musical foi sendo paulatinamente desviada para o "teatro" da música. Porque todo o prazer da escuta - de desvendar conexões entre sons, compreender conceitos por trás das redes de sons das composições e permitir uma imersão completa na música -, foi sendo acompanhado e, aos poucos, substituído pelo refrão fácil, pelo megashow, pelo videoclipe (primeiro na MTV, agora é direto no youtube, como é o caso da tal Banda Mais Bonita da Cidade e sua música de seis minutos de um refrão só). Tudo o que foi criado para reforçar a experiência musical acabou ultrapassando-a. Portanto, escutar hoje já não basta - tem que ver, sentir, interagir. O homem, para ver-se reconhecido na arte, precisa ser parte da obra, e não mais um ouvinte ou espectador.

Ver, ver de novo, fazer download, cantar junto. A música se realiza no ter ("baixei" no iPod), no twittar ("linkei" o vídeo), e no seu gesto corporal, no dançar, no "tira o pé do chão". Voltamos aos primórdios, quando só havia o homem, sua voz e seu tronco de árvore, fazendo sons pra outros homens com seus troncos e vozes - nenhuma linguagem envolvida, nenhuma arte, nada a dizer, só criar movimento.

Talvez essa nova postura frente à arte seja a forma de reagir à presença quase agressiva da tecnologia, como se as "extensões" do homem (como descreveu brilhantemente McLuhan as novas tecnologias comunicacionais) tivessem se tornardo tentáculos com vontade própria. Talvez essa nova escuta seja uma reação para tentar afirmar a função ritualística e social que a música tinha na era das cavernas e ainda tem nas tradições musicais folclóricas. Talvez seja apenas uma simples fuga e busca de consolo em uma arte fácil, descompromissada, despojada, pronta também para consumo, como um capuccino quentinho numa noite fria ou um tarja preta "light" pra permitir o sono.

Seja o que for, é sinal de que a tecnologia produziu um efeito contrário à promessa que nos havia feito. Em vez de nos levar ao crescimento e desenvolvimento como humanidade, nos encaminhou à barbárie, à vida compartimentada, corrida e sem graça que busca o mero utilitarismo imediatista para satisfazer suas demandas de prazer, até mesmo quando se fala em arte. Para esquecer a dor, rave. Para enganar a dor, sertanejo. Para pular, axé. Pra cantar junto, pagode. Pra seduzir, funk. Pra ajudar a pensar, estudar ou malhar, iPod. Música igual remédio. Tudo o que se construiu na arte musical nos últimos dez séculos foi jogado no lixo em nome de quê?

Se não há mais grandes narrativas, jogue-se fora toda a música nova, música de invenção, música improvisada, jazz, vanguardas estéticas, barroco, neoclassicismo, e todas as outras linguagens, estéticas ou gêneros musicais que ativam a "escuta com o cérebro", e passemos a consumir somente a música de agora, entregue via internet acompanhada de videoclipes caseiros e refrões desafinados. A teoria da não-existência das grandes narrativas - e da narrativa que diz que o homem é obsoleto - só serve para justificar esse estado pobre e caótico de coisas, onde o homem é apenas mais um objeto que interage com outros objetos esperando alguma retribuição, carinho ou consolo.

Começou a guerra entre o homem dito "obsoleto" e o pós-humano. Solução (utopia)? Ainda acho o homem necessário. Talvez só tenhamos que descobrir como usar as tecnologias para promover o humanismo, e não usar o homem para promover a tecnologia.

15 setembro 2010

ETC & Jazz - Programa 01



Pessoal, estreou a primeira edição do ETC & Jazz na Rádio UFSCar. Quem quiser baixar, esse é o link, ou escute aí em cima. Trazendo sons de várias frentes do jazz, das várias fronteiras do estilo - fronteiras territoriais, harmônicas, conceituais, rítmicas, etnoculturais. No programa, proponho a confrontação das bordas, das cercas que dividem (teoricamente) as músicas, mostrando que a mistura e integração são a melhor forma de perenização. A meu ver, o jazz segue exatamente esse caminho - misturar-se para continuar existindo, dando origem inclusive a novas linguagens e enriquecendo a sua própria essência.

A primeira música do programa, uma pequena composição feita da colagem e sobreposição de todas as músicas que tocam na edição, ressalta justamente essa capacidade que o jazz tem de reconfigurar-se. Mesmo que tudo na música já tenha sido tocado, criado, repisado até se tornar linguagem, o ato jazzístico reside justamente na reterritorialização desses elementos musicais. Se John Coltrane já tocou todos os chorus possíveis, efervescentes e densos, vamos tocá-los de novo com guitarras, ou com um vibrafone minimalista, ou então solfejá-los acompanhados de uma cítara e uma tabla. Senão se pode mudar o código, mudamos o contexto, e acabamos por produzir uma nova mensagem, um novo conceito, dando origem assim a novas possibilidades interpretativas.

O rádio é sempre um ponto de partida para novas experiências auditivas. Pode-se ser estritamente informativo, objetivo, sisudo, e ainda assim nós ouvintes tentaremos imaginar a cara do apresentador a ler as notícias com seu tom monótono. E quando estão propostas novas configurações sonoras, a tendência é que os ouvidos estranhem - afinal, reconfigurações sonoras acabam por eliminar ou minimizar as referências territoriais, históricas, estéticas que trazemos no ouvido.

É como perder a bússola interna, ficar sem norte no meio de uma floresta a noite. Tudo o que resta é tentar guiar-se pelos instintos, e isso talvez seja o grande desafio cultural da contemporaneidade - voltar a ouvir como ouvíamos no tempo das cavernas, vulneráveis, frágeis, expostos aos perigos da escuridão. Ouvir jazz como se não tivéssemos fogo, como se estivéssemos na idade da Pedra Lascada, tateando a linguagem, dependendo da audição para enxergar a noite. Encontrar sentidos nos sons que vêm do escuro, que nascemvivemorrem apenas enquanto ainda está escuro e temos ouvidos para vê-los, sentir seu gosto, ferir-se com suas arestas, segurá-los como batatas quentes e soltá-los como labirínticos vagalumes, respingando luzes aqui e ali em nossos devaneios de escuta.

09 julho 2010

“Já Volto”, de Thiago Carreri

O violonista e guitarrista são-carlense Thiago Carreri – não por acaso também meu amigo – acaba de lançar seu primeiro CD instrumental, com nome que anuncia que já veio pra ficar: “Já volto”, disco que conta com oito singelas músicas, mostrando influências fortes da canção brasileira e do jazz fusion.

Músico de mão cheia, daqueles que acompanham qualquer música em qualquer tom, com suíngue e musicalidade à flor da pele, Thiago busca um caminho diferente no jazz brasileiro. Um jeito manso, inocente, de buscar a melodia essencial em cada uma de suas composições. Dosando os improvisos com parcimônia, investindo na força das linhas melódicas e nos contornos harmônicos, o guitarrista acaba criando uma obra delicada e sutil, que resulta em um disco gostoso de escutar.

Dá pra ouvir algumas influências guitarrísticas de George Benson, Helio Delmiro e Mike Stern; e a mão violonística lembrando Romero Lubambo e Raphael Rabelo. A identidade de Thiago surge das superposições de todas essas e outras sonoridades, somadas à experiência de anos tocando nas mais diversas formações musicais. Um “nego véio”, que já bebeu de várias fontes e domina a “malandragem” de fazer música que agrada desde a primeira nota.

Canção brasileira, com gosto de terra e cheiro de samba; valsa americana, com sofisticado tecido de saudade blues; violão de roda, envolto pelo colorido do choro; groove de funk, jeito de baião, um tango-rock. Mistura que agrada como uma notícia boa, uma canção de ninar, uma nuvem serena, um sonho feliz. Tudo com a sonoridade da pureza, simplesmente música, puramente som.

Tive a felicidade de participar de duas músicas do disco, assim como a honra de ser convidado para participar da banda que fará os shows de lançamento do CD. O primeiro acontece agora em julho, no SESC Araraquara, dia 23. Além de mim, participam do quarteto o baixista Ricieri Nascimento e o baterista Bruno Bernini.


Thiago Carreri (guitarra, violão); Ricieri Nascimento (baixo); Bruno Bernini (bateria); Murilo Barbosa (piano, 2,6); Maurício Ribeiro (teclado 3,4); Gustavo Camillo (teclado, 8); Fernando Mumu (trombone, 3); Emílio Martins (percussão, 3); Thadeu Romano (sanfona, 4); Lucas Melo (bandolim, 5); Ailton de Jesus (Flügelhorn e trumpete, 3)

1. Nina; 2. Já Volto; 3. Primeiro Filho; 4. Bango; 5. Para o bandolim; 6. Valsa n1; 7. Partido; 8. Chão

29 junho 2010

O paradoxo do bar com música ao vivo















O papel da música na sociedade mudou. As mudanças culturais e tecnológicas transformaram a experiência musical. Se antes só havia música em ocasiões ritualísticas ou comunitárias, onde ela ocupava lugar central – ritos sagrados em torno de uma fogueira, noites de viola e causos, concertos em cortes ou teatros, bailes populares, festas típicas, reuniões em botecos, capoeiras, carnavais – hoje a música disputa espaços cotidianos onde ninguém pensaria em ouvi-la: estações de metrô, esquinas de cidades, palcos improvisados em shopping centers, mezzaninos de padarias, portarias de prédio, supermercados e... bares.

O leitor pode estranhar a inclusão dos bares entre os estabelecimentos considerados “amusicais” que hoje abrigam manifestações musicais, mas há uma razão simples para tal classificação: bar é lugar de encontro, não de música. De encontros musicais às vezes, sim, mas apenas algumas vezes. Alguém trazia um pandeiro, um violão, um acordeon, ou tinha um bom cantor que se exibia para as outras mesas, mas nada planejado. Tinha um piano no canto esperando por um tocador. Via de regra, bar é lugar para consumir bebidas e jogar conversa fora, e tudo o mais que acontecer a partir daí. Música no bar costumava ser consequência de um encontro – entre uma conversa e outra, surgiam as afinidades para tocar, as disposições para ouvir. E pronto.

A sistematização desses “encontros” musicais pelos bares gerou a demanda pela contratação de artistas para se apresentar regularmente – pianobares, por exemplo. Novos palcos para os artistas, novos espaços disponíveis para o público. Mas o modelo “bar com música ao vivo” se banalizou, e levou a uma situação lamentável: clientes que entram no bar e não sabem quem está tocando, e artistas executando o mesmo repertório que já ouvimos em outro bar na semana passada. Ao invés de acontecer uma retomada das velhas formas de se vivenciar a música – como artigo de ritual, de celebração, de senso de comunidade -, o bar promoveu apenas a música como um produto, um acessório na noite, assim como serviço de manobrista. O encanto do encontro da arte com a platéia já não existe.

Só há música se alguém escuta. No bar, alguém realmente escuta alguma coisa que não seja a conversa? O modelo “bar com música ao vivo” surgiu de um equívoco, pois os bares abandonaram o conceito de show. O show é um momento mágico, em que a arte nasce a partir de uma confluência de disposições, interesses comuns, trocas. Para ser mágico, o show precisa ter um contorno. Um início, um meio, um fim – o que significa que tem que ter roteiro, produção, estrutura, senão não tem força, não tem fôlego.

Pra começar, a maioria dos bares não tem palco. Quando tem, não tem som (o artista leva). Se tem som, não tem luz (e o artista não leva porque não tem dinheiro pra bancar essa produção). E quando tem tudo isso, o bar não coloca nem uma placa na frente para informar aos clientes o que vai acontecer por ali. O artista sobe no “palco” e tem que se virar para chamar a atenção. O show começa com total desconhecimento da platéia, e o único recurso pra chamar a atenção é aumentar o som do P.A. Mas também não pode, porque atrapalha a conversa e incomoda os vizinhos do bar.

O paradoxo começa: músicos tocando alto, platéia conversando mais alto. Ninguém se escuta. No final saem todos infelizes com o resultado, pois tem gente que sai do bar sem pagar – alegando que não foi ao bar pra ouvir música, e sim pra comer ou beber – e o músico vai embora sem ouvir nem um aplauso, porque teve que impor sua música aos ouvidos dos clientes, sem conseguir estabelecer empatia nem com o garçom.

Sou contra a música ao vivo? Negativo. O que precisa mudar urgentemente é o formato desse tipo de apresentação. Afinal, todos os músicos têm o objetivo de vender sua música e receber reconhecimento, assim como os bares querem agradar seus clientes e oferecer novidades. O que falta é arriscar novos modelos. Infelizmente, o público ainda suporta as apresentações “meia-boca”, por isso os donos de supermercados, shoppings, padarias e bares não investem em outros tipos de apresentação musical mais séria em seus estabelecimentos. E nem os músicos mudam sua postura. Tudo segue meio “acochambrado”, limitado a esse paradoxo do “eu finjo que toco e vocês fingem que escutam”, banalizando a arte, desrespeitando o público, ignorando a música.

* publicado no dia 24/6, na coluna ETC&Jazz do caderno de cultura Moitará, da Folha de São Carlos.

04 junho 2010

Arroz com feijão... e mais o quê?


















Arroz e feijão é a base da alimentação da grande maioria de nós, brasileiros. Combinação do arroz, trazido pelos portugueses, com o feijão dos índios e a feijoada dos escravos africanos, a mistura se consolidou na mesa das famílias. É aprovada por nutricionistas, que elogiam a presença de ferro, vitaminas e aminoácidos importantes no prato.

É uma comida tão popular que virou adjetivo para coisa corriqueira, simples, sem “dor de cabeça”. Como música “arroz com feijão” - aquela que não tem grandes surpresas, tem letra simples, refrão fácil, trata de assuntos afetivos não muito complexos ou só faz dançar.
O cotidiano prato de arroz com feijão tem a função de fornecer a energia, a “substância” para o dia a dia. A música “arroz com feijão” exerce papel semelhante: estabiliza e dá suporte às inúmeras e pequenas variações emocionais que sofremos durante o dia, mantendo o humor e o bem-estar psicológico ao cantarolar, assobiar ou mesmo dançar ao som dessas canções. Canções que ouvimos no rádio, na TV, no aparelho celular e outros meios, que nos causam comoção e algum efeito positivo.
Só que os médicos advertem: apenas arroz com feijão não é um alimento completo. Faltam dezenas de complementações minerais, de vitaminas e de proteínas que só são encontrados em outros alimentos. O cardápio tem que variar. Da mesma forma, o “menu” musical dos indivíduos precisa conter mais opções, pois o arroz e feijão musical que nos é servido hoje não é só insuficiente - é nocivo, faz mal à saúde, porque vem na forma do exagero. Overdose de duplas sertanejas, de danças baianas, de pagodes lacrimosos, de calcinhas pretas. É preciso “comer” música de outras origens, outras influências, para balancear a “dieta”. Como? 

O chef de cozinha inglês Jamie Oliver, 35, é uma celebridade no mundo gastronômico por popularizar os segredos da boa comida. Numa entrevista nas páginas amarelas de Veja, ele desfaz o mito de que só se alimenta bem quem entende de alta gastronomia e frequenta restaurantes caros. “Cozinhar e comer bem é para todos”, diz ele. Basta um pouco de paciência e boa vontade para aprender sobre ingredientes, técnicas simples de preparo e temperos. O resultado é sentido na forma de melhora do bem-estar, saúde e da própria satisfação em desfrutar de um bom prato. 

Música boa, que vai além do arroz com feijão, não é para poucos. É para todos que quiserem. Assim como quem come coisas diferentes, quem ouve o diferente amplia sua base de referência e percebe que pode ir além daquilo que é sempre igual. Só não é tão fácil quanto na cozinha, pois mudar hábitos de escuta não traz tantos benefícios imediatos ou práticos quanto mudar as preferências culinárias. 

Ir além da música “arroz com feijão” significa expandir a sensibilidade para um mundo de possibilidades expressivas, questionadoras, revolucionárias, iluminadoras. Experiência nem sempre agradável. Novos sabores sonoros – gostosos ou não, mas passíveis de ser experimentados. Novos temperos, temperamentos. Música não só como distração, consolo, trilha sonora romântica, ou como dança, mas como vivência. Aprender a extrair vida das diferentes músicas do mundo. Aprender a ouvir na música as muitas vidas, filosofias, comportamentos e culturas que existem. 

Arroz e feijão é bom, mas tem que ir além. Porém não adianta radicalizar: comer lagosta todos os dias também enjoa.

*publicado no jornal A Folha, de São Carlos, no caderno de cultura Moitará, na coluna ETC&Jazz, no dia 3/6.

31 maio 2010

Jazz, carnaval para os ouvidos

















O jazz nasceu de dia, numa terça-feira gorda de carnaval em New Orleans, acordando a vizinhança com seu choro de trumpete rebrilhando no calor úmido das ruas cheirando a maresia e esgoto. Nasceu no cais do Mississipi, entre carregadores de fardos de milho, pescadores bêbados e prostitutas sorridentes, acompanhado dos gritos eufóricos de trombones roucos, tubas retumbantes, clarinetes histéricos e um tambor repicando marchas, habaneras e valsas crioulas então esquecidas.

Ao meio-dia das paixões entorpecidas e olhos de ressaca, o jazz se punha de pé antes que todos tivessem sequer sonhado em dormir. Os músicos atacavam em cima de carroças, bancos de praça, latas de lixo – tudo virava coreto, e logo seguia como um bloco carnavalesco, invadindo esquinas, calçadas, atrapalhando o tráfego e ensurdecendo a tarde. Acabavam de acompanhar o cortejo fúnebre do último folião, enterrado ainda meio bêbado, tocando solenes gospel songs e spirituals, e logo voltavam a por os instrumentos em brasa, cortando os ares densos das ruas do comércio com os tropéis alegres dos improvisos coletivos sobre ragtimes, dixies e blues.

 Até que chegavam a Storyville, o bairro pagão, loteado por vagabundos, habitado por operários, freqüentado por aventureiros em busca de prazer: música, álcool e mulheres. Pianola, baixo acústico, banjo, tambores e sopros faziam a algazarra no palco, enquanto a “platéia” se divertia ouvindo aquilo tudo à a sua própria maneira, na pista de dança sempre abarrotada, nos balcões dos bares, nas camas esfalfadas de quartos abafados. O jazz vibrava na mesma frequência que os personagens da noite.

O jazz trazia o brilho das ruas ensolaradas para dentro da noite, tornado a madrugada menos solitária. Sentado sozinho na mesa de um cabaré, encarando uma dose de bourbon, com os ombros pesados de responsabilidades, o velho jazzmen sorri quando ouve um solo de Louis Armstrong. Aquele negro bonachão em cima do palco, de olhos esbugalhados, beiços trêmulos e voz impagavelmente rouca toca notas sorridentes ao trumpete, é o mestre da expressão equilibrada entre dor e felicidade. Faz sorrir “de nostalgia”, como diria Noel Rosa.

O jazz nos seus primeiros anos era uma festa da música improvisada. Criação induzida pela diversão, vontade de tocar coisas que ainda não se ouviram, de ouvir coisas que ainda não foram tocadas. Ao vivo e a cores, o jazz fazia dançar, emocionar, se fazia ouvir. O jazz era uma cena – e bem carnavalesca, por sinal.

Hoje o jazz é um rótulo. E colocado na prateleira num setor bem distante de carnaval, outro rótulo. A diversão contida no jazz foi fracionada, pasteurizada, bem empacotada, envernizada, precificada (encarecida). Porém, continua lá, a espera dos foliões para ouvi-la, curti-la, vivê-la. Os rótulos é que nos dizem “não, isso não é para qualquer um”. Os rótulos são colocados sobre os discos, mas acabam é tampando nossos ouvidos.

* publicado na coluna ETC & Jazz da Folha de São Carlos, no caderno de cultura Moitará, no dia 27/5. 

18 abril 2010

CATcerto, ou o retorno da orquestra

Esses caras malucos por gatos sempre postam videos de seus bichinhos fazendo arte. A gata Nora faz sucesso há alguns anos na web por seu vídeo no Youtube, onde toca piano (mal e porcamente, diga-se de passagem).

O compositor e maestro lituano Mindaugas Piečaitis criou em 2009 um concerto para orquestra de câmara no qual a tal gata pianista é a solista. A singela peça, chamada "Catcerto", dura cerca de cinco minutos e lembra composições de Stravinsky, de uma beleza poética, delicada e de sonoridade exótica.



A peça estreou com sucesso no ano passado e foi notícia em redes internacionais de televisão - BBC de Londres e First Baltic Channel, da Rússia. E logicamente é um vídeo muito popular no Youtube. E é esse justamente o aspecto que nos faz pensar: orquestras sendo sucesso?

Talvez na Europa ainda haja um certo fulgor, uma certa mobilização de ânimos em conversas, ao se falar em certas orquestras, maestros ou músicos eruditos: A Filarmônica de Berlim, o inglês maestro-revelação dos anos 90, Simon Rattlle, ou a violonista-prodígio alemã dos anos 80 Anne-Sophie Mutter. Provavelmente fora desse contexto - como no Brasil -, falar em orquestra é o mesmo que falar em museu ou conversar sobre latim - assuntos jurássicos.

Para que uma orquestra (e sua música) voltasse a ser o assunto do dia, o maestro teve uma idéia genial - um novo solista "fenômeno", uma nova celebridade, uma nova diva. E compôs para ela uma música especial, perfeita para destacar seus dotes artísticos e sensibilidade interpretativa fora do comum para a espécie: um gato. Um gato concertista.

Sim, um gato nos fez novamente ouvir as possibilidades sonoras de uma orquestra, nos causando impacto emocional com sua interpretação elegante, melodia cristalina e postura de total entrega à música, deitando-se sobre o teclado nos momentos mais pungentes da canção, embalados sobre os fluxos telúricos das cordas e sopros. Nos trechos de maior tensão, notas repetidamente tocadas sobre acordes dominantes, como se o pianista sentisse que é a hora certa de aumentar a dose de suspense e intensidade das dissonâncias propostas pelo compositor.

Um gênio. Um virtuose, nos dando um show de poesia e lirismo, nos trazendo de volta o sentimento perdido (ou roubado) de satisfação ao ouvir o espírito humano a interagir, modificar, transcender, transparecer através de melodias, harmonias, instrumentação. Satisfação ao se sentir participante da linguagem musical.

Quando a música de orquestra parou de nos encantar? Quando perdemos a vontade de tentar ouvir o que se passa naquele palco cheio de músicos e um doido balançando os braços na frente? As respostas fáceis logo aparecem, e sempre repetidas: televisão demais, trabalho demais, escola de menos, imposição do lixo pela mídia, música erudita cada vez mais hermética e chata, etc.

Todos esses motivos são, na verdade, sintomas de um único mal: a diluição do conceito de escuta desde o século XIX até os dias de hoje. A escuta é bombardeada constantemente por uma série de sons oriundos do sistema de coisas que inventamos para nos sustentar como seres humanos: fábricas, carros, sirenes, tiros, bombas, zumbidos, chiados, dessensibilizando o ouvido para os silêncios de outros contextos. Na escola, o professor grita para atingir os alunos. Em casa, gritamos para superar o barulho da TV. Na fila do banco, aprendemos a direcionar nossos ouvidos para o som da campainha que indica que temos a próxima senha. Nos restaurantes, a mesma prática defuntória, de aguardar mansamente o apito enquanto nosso prato ainda não ficou pronto, e qualquer tentativa de apreciar uma conversa atrapalha a iminente hora de encher a barriga.

Dezenas de outras situações assim nos mostram, inegavelmente, que nossos ouvidos se tornaram, assim como pinças, chaves de fenda, alicates, meras ferramentas de sobrevivência. Meros apetrechos que, ainda por cima, não estão a nossa disposição, mas sim prontos a responder a estímulos mecânicos produzidos por um sistema, uma sociedade, uma complexidade. Ouvidos assim não sabem mais a diferença entre o som de um oboé e de uma chaminé de fábrica. Ouvidos assim não sentem necessidade de orquestras, pois se contentam em reconhecer o toque do celular, a buzina apressada, a campainha burocrática da fila do açougue...

02 abril 2010

Ouvidos de moitará


















Moitará” é o nome escolhido para o caderno de cultura da Folha. É palavra indígena que designa um encontro de diferentes tribos para a realização de trocas. Trocas de bens materiais, mas também de conhecimentos e afetividades. Significa o momento de baixar armas, abrir a guarda, dar guarida a novas possibilidades.

Essa coluna convida os leitores a fazerem ouvidos de moitará. Por que os ouvidos? Porque são portas abertas de nossa mente ao universo dos sons. “Os ouvidos não têm pálpebras”, diria um pesquisador francês. Significa que estamos a todo momento dando entrada grátis a qualquer tipo de som que nos acosse. Isso é bom e ruim.

Permitimo-nos ter aulas em escolas barulhentas, que nos tiram a concentração. Permitimo-nos ter alarmes de carros e casas disparados por horas a fio, nos embalando a insônia. Permitimo-nos andar em ruas com lojas que gritam as ofertas como uma bofetada ao pé da orelha. Permitimo-nos deixar a TV ligada em casa a todo o momento, para que o zum-zum nos dê a impressão de que não estamos sós. Até mesmo nos bares, local propício à sociabilidade, permitimo-nos música de fundo atrapalhando o bom andamento da conversa, que ficou entrecortada pelos “hã, não estou ouvindo”, “fale mais alto”.

Não, não quero o silêncio total e absoluto – porque isso seria a morte, a ausência total de sons –, mas parece que nos acostumamos com o barulho. Por outro lado, quando tentamos nos proteger desse inferno sonoro, fechamo-nos a novas possibilidades. Usamos o iPod como escudo protetor no trajeto do ônibus, colocando nossos ouvidos sempre à disposição dos nossos artistas favoritos. Mantemos o rádio no mesmo dial, na estação que só toca a mesma música de ontem, que é a nova de hoje que será igual a de amanhã.

Os sons que nos rodeiam se tornaram opressores. Desse modo, acabamos inevitavelmente fechando os ouvidos com as “pálpebras” do preconceito, da ignorância, da soberba. “Só escuto o que gosto”. “Só escuto música boa”, argumentarão. Esquecem-se de estão escutando, na verdade, sempre a mesma coisa. Sempre a si mesmos. Sozinhos.

Ouvidos de moitará. Por um mundo mais suportável, mais sensível, onde os sons possam nos surpreender, e não nos escravizar.

*publicado no caderno Moitará, do jornal A Folha de São Carlos, em 01/04/2010


22 março 2010

A crítica
















Adorno

 É muito difícil fazer críticas. A disposição para criticar não deve ser confundida com vontade de destruir. A crítica deveria estender a possibilidade de pensamento sobre o objeto criticado, e não aniquilá-lo. O assunto veio à tona após ler uma coluna do Zé Geraldo Couto na Folha sobre "como destruir um filme" - obviamente tratando da crítica de cinema.

No campo musical, isso me lembra a postura ranzinza do filósofo alemão Theodor Adorno quanto ao jazz americano dos anos 40, considerado por ele um lixo comercial que intoxicava o gosto musical dos ouvintes, infantilizando-os e, por fim, alienando-os da situação de exploração capitalista em que se encontravam. Sua crítica era contra o sistema, mas ele conseguiu encontrar na música argumentos para sustentar as teses sobre a dominação imposta pela Indústria Cultural, mostrados principalmente no texto "Filosofia da Nova Música".

O resultado, para ele, é que tanto músicos como público estavam irremediavelmente isolados um do outro: os compositores, devido à adesão extrema aos métodos vanguardistas seriais e atonais de composição; o público, devido à destruição da esctua pela massificação da música comercial por discos, rádios, filmes e televisões, levando à incompreensão de novas estruturas musicais que pudessem romper o ciclo de dominação cultural. Adorno não queria levar em conta que o ser humano ouve música com o corpo e com a emoção além do cérebro. Adorno não queria se permitir conceder ao jazz comercial dos anos 40 o status de "boa diversão", e espinafrava o clarinete melodioso e suingante de Benny Goodman (um dos maiores gênios do instrumento que já pisou neste planeta).

Adorno preferia analisar o fenômeno como uma consequencia do avanço do sistema capitalista sobre a cultura - o que não está totalmente errado. O erro é voltar-se contra o artista, contra a música, contra a expressão - destruindo o objeto para comprovar a tese.

Ao comparar a escuta de um concerto num teatro com a escuta de um disco 78 rpm na sala de jantar, Adorno frisava que a "compreensão" e "fruição" da música como conhecíamos fora modificada. Ele não soube separar a facilidade tecnológica - que é consequencia do próprio espírito empreendedor humano - da complexificação das relações entre informação-cultura-capitalismo, que "colocou preço" na música e na forma como adquirimos contato com ela. Seu materialismo dialético não permite que ele reconheça o status democratizador dos novos suportes musicais. Ele não percebe que o poder de dominação não se exerce pela presença ou não desses objetos, mas sim pelo estímulo exacerbado do consumo dos mesmos.

A música de Benny Goodman, definitivamente, não é a culpada pela infantilização da escuta, e sim a sua superexploração comercial. Foi música da moda sim, mas isso jamais ofuscou a grandeza do toque genial de Goodman (e de vários outros artistas do gêneno à época). O estímulo ao modismo sim, é a grande chave da questão - e aí suas análises da "Indústria Cultural" vêm a calhar, quando descrevem a onipresença do entretenimento nos momentos de lazer dos trabalhadores.

"Onipresença", aliás, é o status de certas canções em todas as mídias - fenômeno comum e, hoje, mais forte do que nunca, devido à miríade de conexões entre suportes tecnológicos, meios de comunicação de massa e internet - que verdadeiramente promove o nivelamento "por baixo" das condições de fruição estética. Portanto, caberia muito mais a crítica ao consumo - e às várias formas espúrias de apreciação musical como os histéricos fã-clubes, os diletantes colecionadores de discos, revistas, fotos de artistas, o culto à fama - do que ao artista em si, pois "esconder-se" na composição de vanguarda ou participar do mercado da música comercial (com dignidade, obviamente) não são mais do que estratégias que o artista tem para expressar sua verdade. Batalhar contra o sistema não é criticar a música, e sim mudar a escuta.

20 dezembro 2009

Zen e Nietzsche, notas para uma teoria da escuta


"Aos seus questionamentos
oferece-lhes apenas o silêncio.
O silêncio,
e um dedo apontando o caminho"
(verso anônimo)


Zen = eliminação de todas as barreiras entre a experiência e a mente, como uma consciência estendida, desdobrada, que vive, sente, modifica, É o mundo.

Não existe a experiência de "estar" no mundo - não há como "estar" em outro lugar. Não há como "ser em si", isso já é fato. Dar esses nomes à ideia de viver foi o que fizeram Heidegger, Sartre, Kant, entre outros metafísicos que se debruçaram sobre o problema da barreira entre o homem e a percepção do mundo. Ser, estar, aparecer, são conceitos que levam capítulos inteiros para serem definidos.

Ter consciência do mundo, ter consciência de que se tem consciência, poder tocar num objeto sabendo que aquele objeto - o outro - também nos toca, nos explora, nos usa. São questões filosóficas fascinantes, porém cansativas e, todas elas, baseadas no princípio helênico do homocentrismo.

Por isso gosto da filosofia nietzscheana: nada gira em torno do homem, o homem é que gira em torno das coisas, como um tonto, procurando uma brecha na superfície esférica e inviolável da realidade, sem saber que, na verdade, não há nada que procurar, nada que achar, nada para descobrir, senão traçar seu próprio destino, lutar por suas escolhas, peitar as adversidades, fazer valer a própria natureza desnaturada, animal, gregária, vicária e ilusória do homem.

O conceito de zen preenche essa lacuna metafísica do mesmo modo que Nietzsche rejeita toda a noção de dualidade ou fratura do real - como os pares dialéticos que Aristóteles usava para explicar a complementaridade de tudo, essência X aparência, peso X leveza, unidade X multiplicidade. Na concepção zen, todo o pensamento se coloca entre o homem e o mundo. A percepção se engana com as sutilezas do raciocínio, assim como para Nietszche o homem perde tempo demais criando teorias para acreditar em sua existência e justificar sua fé em dogmas religiosos e científicos.

Quando a mente entra em cena, nossa relação com o mundo se torna mais complexa do que deveria ser, deixando-se guiar por silogismos, moralismos, éticas, preconceitos e pré-julgamentos que interferem em nossa relação com tudo a nossa volta. Aqui, zen e Nietzsche se completam. Para o alemão, a mente - o próprio homem - é livre, solta, capaz de aceitar seus limites mas também de expandi-los, marcadamente com um élan que manifesta simplesmente o desejo de dominar (a famosa vontade de potência). Para a filosofia zen, uma mente assim deve ter o único intuito de se auto-dominar, auto-conhecer, auto-examinar-se, para que sua passagem pelo mundo seja plena de troca com a realidade. Desejo e consciência dominando-se mutuamente.

Consciência do mundo pelo toque das mãos, pelas vibrações sonoras, pela voragem de criar, pela sutileza do olhar, pelo orgasmo, pelos pelos dos braços, pelo livre pensar, pela conversa que vai fluindo noite adentro, pelo sonho noite afora, pela orgia dos sabores, pelo frescor dos temperos, pelo sangue nas têmporas, pelo frigir do ovos. Cabeça para o mundo, o mundo na cabeça, o corpo mergulhado em sensações, a alma leve. Só assim se está pronto para escutar o mundo.

16 dezembro 2009

Limites para o jazz ou... cadeia neles! (2)

Vejam aqui a apresentação que quase "deu cadeia na Espanha", no festival de Sigüenza.



Do site FreeJazz

O "criminoso" em questão é o saxofonista americano Larry Ochs, liderando um grupo com Satoko Fujii ao piano, Natsuki Tamura ao trumpete e a dupla de bateristas Scott Amendola e Donald Robinson (talvez esteja aí a base da discórdia, "como pode haver um quinteto de jazz sem contrabaixo e duas baterias, meu deus???").

Escutem bem o trecho. Não é nada assustador. Percebam que há uma espécie de ritmo "shuffle", um certo espírito de rock'n'roll em tempo 6 por 8, o que dá uma bela base rítmica para a improvisação e alta dose de expressividade. As notas ríspidas do saxofone são entrecortadas pelos ataques do trumpete, num diálogo fervoroso, mas inteligível. A pianista acompanha tudo apenas com os olhos, liberando os músicos de qualquer compromisso com a harmonia. É bem contemporâneo, mas é também bem espontâneo e vivo - característica que sempre prevaleceu nas apresentações de jazz desde que o estilo foi "inventado", digamos assim.

É duro dizer quais são as características do jazz, mas é realmente tão difícil defini-lo? Aliás, é realmente necessário? Para o infeliz espectador espanhol que se valeu do chamado da "otoridade" para arbitrar sobre a música que estava ouvindo, saber se aquilo que ele ouvia era jazz ou não era mais que necessário - era a própria essência de sua diversão, de sua satisfação.

Sentir-se satisfeito com o que se escuta é simplesmente atender a uma expectativa do ouvido. É ganhar uma gratificação por ter se disponibilizado a ouvir quietinho aquilo que se queria ouvir. É um ato bem egoísta. Não tem nada de errado nisso, mas é pouco. Dar aos ouvidos o que se quer ouvir é locupletar-se com o já sabido, como ir a um banquete e repetir três vezes o mesmo prato. E são poucos os que se sentem realmente satisfeitos apenas em escutar - seja aquilo música contemporânea, jazz, música clássica, música popular, o que seja. Dar-se ao luxo de uma escuta nova, atenta, contemplativa, inovadora, é um ato de coragem, auto-conhecimento, crescimento, generosidade, humildade, respeito.

Ao deparar com um jazz mais voltado para as tendências vanguardistas da música, o infeliz espanhol entrou em parafuso. Pois um show de jazz acontece no palco, mas acontece também na cabeça de quem escuta. Infelizmente, algumas cabeças ainda acham que jazz trata-se de negros tocando para negros (sim, o crítico americano Stanley Crouch já disse isso, e é respeitadíssimo nos EUA), ou então músicos de smoking branco tocando swing para um salão de baile, ou então um som extremamente rápido e exótico sendo tocado para poucos seres humanos num inferninho esfumaçado em algum porão novairoquino. Estereótipos substituem a realidade com tanta eficiência que a fruição da escuta, da arte, da vida, pode se tornar caso de polícia.

13 julho 2009

Rádio sem tempo para escutar






Vê se encontra um tempo
pra me encontrar sem contratempo
durante algum tempo

José Miguel Wisnik / Jorge Mautner

O rádio FM de hoje é um retrato sonoro da falência da escuta. É feito para ouvir entre tarefas, alimentar-nos de sons afinados com as máquinas políticas, culturais e sociais hegemônicas. O rádio é como o som do nosso "inconsciente maquínico", conceito de Felix Guattari para explicar como a linguagem, o pensamento, o desejo e o self se interpenetram de acordo com sistemas que estão "fora" do indivíduo - o capitalismo, a gramática, a política, a ética.

O cérebro cria a linguagem, ou a linguagem cria o cérebro? O homem obtém seus objetos de desejo e consumo por meio dos negócios da economia capitalista, ou é a economia capitalista quem consome homens e negocia desejos em troca de sua existência infinita? Até que ponto o inconsciente pode ser entendido apenas pelos mecanismos descritos por Freud ou Lacan e não por Nietzsche, John Stuart Mill ou Hollywood?

Guattari nos mostra que a linguagem - por fim, o próprio pensamento e o inconsciente - recorre a signos ou significados que fluem em uma economia de poderes simbólicos, distribuídos na sociedade. Poderes do inconsciente, poderes da mídia, poderes da ciência, poderes da religião, cada um dominando partes da estrutura da linguagem, até que não se saiba mais o que pensa ("o que ou quem em mim pensa?") de forma independente.

O rádio FM é a materialização deste conceito de dominação da linguagem em forma de som. O rádio FM nos mostra um mundo sonoro vibrante, ágil, que tenta esticar sua dimensão linear ao máximo, elevando ao quadrado os volumes, massas, andamentos, fortíssimos, criando a ilusão da rapidez da informação. É som - conceito puro e abrangente -, porém marcado pelos signos do capitalismo pragmático ("time is money", cada segundo é cobrado pelo anunciante), da falsa objetividade jornalística (na voz pura e limpa do disc-jóquei que apresenta as notícias do showbizz com uma velocidade frenética), do consumo voraz (escute hoje o novo sucesso da hit parade que amanhã será esquecido). Sem silêncios.

Se o rádio FM apela para tais artifícios e jamais rompe essa estrutura - disc-jóquei, música, notícia, apresentador, vinheta, anúncio, "as dez mais" e etc -, é porque a palavra rádio que se reproduz no "inconsciente maquínico" de todos nós já se consolidou como tal. O rádio, que sempre teve a função de nos conectar, de nos religar (como a religião, que vem do latim religare) a todos por meio de seus sons, também passou a nos usar. Música? Claro, mas sempre com "um oferecimento de sabonetes Palmolive". Sempre nos dizendo o que está no topo das paradas. Informação? Lógico, pois sempre entre um anúncio e outro, entre a casa e o trabalho, entre o térreo e o décimo andar, dá tempo de ouvir a última fofoca sobre Any Winehouse.

Segundo Janete El Haouli, pesquisadora incasável do rádio, persiste a dúvida se precisamos limpar o rádio ou limpar a escuta. Assim como o inconsciente maquínico se refere ao rádio como uma "grade" de programas de música, anúncios, vozes sem corpo, também entende muito pouco de escuta. Inconscientemente, pensamos a escuta como um sentido menor, subordinado à visão.
O educador e filósofo Rubem Alves propõe oficinas de "escutatória" como medida para resgatar o sentido da escuta, em oposição às oficinas de oratória que ensinam todos apenas a falar.

Liberar a escuta pode liberar o rádio, fazer com que o religare passe a funcionar não apenas dessa maneira opressiva e barulhenta das FM´s, mas que traga novos afetos para a prática de ouvir/produzir rádio. Religare como valorização da reconexão entre os sons e seus territórios (desterritorializar e re-territorializar, como quer Guattari, deslocando sentidos para criar novos conceitos, artes, filosofias). Religare como a infantil brincadeira de “ligar os pontos” entre sons provocativos do rádio, descobrindo aos poucos um grande desenho infinito entre um tracinho e outro, um universo inteiro cabendo entre dois sons. Religare como religião (ou quase), como uma liturgia da escuta, transformando o ato de ouvir em ritual para os ouvidos, recuperando um certo sentido do sagrado que os sons perderam na sociedade pós-industrial. Religare como o reencontro entre o tempo da música, o tempo do poema, o tempo circular do rádio (ou seu tempo eterno), com o tempo do relógio, do cotidiano, como um reajuste de contas entre o tempo do ouvir e o tempo do viver.