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12 novembro 2010

Bebop fingers

Dedos de bebop. Significa a capacidade de articular uma frase musical quase como se o cara estivesse falando, gritando, dando bronca, perguntando, respondendo, murmurando, resfolegando, rindo, gaguejando. Não importa quais as notas, qual a harmonia, qual a letra; importa é o arco, a linha, o ponto, a trama que a melodia do solista desenha no ar, rabiscando as segundas intenções, cravadas no suíngue corrente, dialogando com o vai e vem do baixo, pique-escondendo com a bateria, indo e ficando nas ondas da harmonia, cortando o caminho, achando a porta do céu da expressão.

O bebop do pianista Stefano Bollani fala italiano, que nem ele. Frases correntes, mas cheias de altos e baixos, risonhas e chorosas, bocachiusas ou desbocadas, estrondosas ou delicadas. No show que ele fez em 2006 no Tim Festival, com um quinteto de músicos italianos, quase roubou a noite que era de Ahmad Jahmal e Herbie Hancock, pois mostrou uma abordagem originalíssima, quase selvagem, mas musicalmente e tecnicamente impecável.

No disco "I´m in the mood for love" (2007), Bollani mostra que tem o swing do jazz americano na veia, mas também a irreverência bruta, a comédia farsesca e o drama teatral que os italianos têm. Assim, o disco é romântico como o título sugere, mas também cômico, poético, trágico, vigoroso e sublime.

Formando um trio mais do que arrojado com o baixista Ares Tavolazzi e o soberbo baterista Walter Paoli, Bollani ataca um repertório de "músicas de amor" com uma dose extra de criatividade e virtuosismo. Os arranjos transformam os já repisados standards da dor de cotovelo chic em uma fonte inesgotável para os vibrantes contorcionismos fraseológicos do bebop. Os tempos e contratempos soltam faíscas com as intervenções do baixo e da bateria no fluxo "one-TWO-three-FOUR", enquanto as melodias de Bollani correm fluidas pelo teclado.

Stefano Bollani Trio - I'm in the mood for love (2007) (1) (2)

Stefano Bollani (piano); Ares Tavolazzi (baixo); Walter Paoli (bateria) 

1. Makin' Whoopee; 2. Cheek To Cheek; 3. I'm In The Mood For Love; 4. Puttin' On The Ritz; 5. How Long Has This Been Going On?;. 6. Margie; 7. Moonlight Serenade; 8. It's Only A Paper Moon; 9. A Kiss To Build A Dream On; 10. Honeysuckle Rose; 11. But Not For Me

23 abril 2010

Jazz, uma poética

 









Joe Lovano, Diane Reeves, Cassandra Wilson

Me perguntam de vez em quando que tipo de música eu toco. Hesito um pouco, mas acabo dizendo “jazz”. “E MPB”, acrescento. “E bossa nova também”, digo. “Ah, uns sambas também, e músicas bonitas, com uns improvisos, vai”, arremato. Pra não perder o trabalho, falo que o repertório é de “música de noite”, ou “música de casamento”, “ou música ambiente”. Às vezes arrisco um “toco música instrumental”, mas aí complica.

O nome “jazz” assusta. Traz um estigma. Tem uma história por trás. Tem um lance de blues, de negro, de inferninho. Tem uma alma atormentada, de músico indo de bar em bar pra tocar notas difíceis e estridentes. Rola um negócio de algazarra, de platéia assoviando entre solos de um baterista tresloucado, cintilando os dentes de ouro num sorriso de esgar, o coração, as mãos, o suor, tudo a mil por hora. Tem bebops rimando com “on the rocks”, “on the road”, onde um pássaro saxofonista trafega entre as mesas e cadeiras de um bar numa noite na Tunísia, balouçando entre o último chorus de “Scrapple from the apple” e a primeira picada de heroína. Jack Kerouac, Jack Daniels. Tudo por volta da meia-noite.

Mas cabe tudo num retrato em preto e branco de Jimmy Katz. Criatividade e sofrimento, na cara de um Lester Young lânguido em fumaça. Poesia, como uma lágrima de Billy Holiday, um falsete de Sarah Vaughn, um inocente be-bap-boo-loo-bee de Ella Fitzgerald e a bochecha inflada de Louis Armstrong. O jazz também toca no lado ensolarado da rua. Tem vida. Tem caráter. Um joir de vivre. Tem Duke Ellington, um maestro negro e tão dândi quanto um Sinatra, magnífico no pôster autografado. Sim, o jazz tem também um glamour.

Uma estirpe de socialite. Sangue azul, de músicos de smoking tocando em coquetel regado a champanhe. Até uma dor de cotovelo amarga, no imprescindível balcão polido de um bar, é a coisa mais chique quando refletida no fundo de um copo de Johnny Walker, ao som de Chet Baker. Tem um eco de brilho gelado, azul, de um trumpete ao longe, e o tão desejado beijo de uma loira estonteante em vestido de gala. “You must remember this, a kiss is still a kiss”. Uma elegância de vinheta de Supercine.

O jazz, com suas ideias, conceitos e preconceitos, é mais que uma música. É um jeito de pensar a música. É uma poética, resultante de uma história social, econômica, intelectual – do século passado e deste. Música com cacife, pai certo, certidão de nascimento. No século XIX já havia resquícios dele no ragtime dos salões burgueses e nas bandinhas de rua de New Orleans, mas só foi se batizar mesmo nos anos 20, dos primeiros dixielands gravados. Tem os anos 30, das big bands e seus crooners. Tem os anos 40, com o pós-guerra e o bebop. Tem os anos 50, do cool jazz. Tem os anos 60, com Coltrane, ilimitado, free jazz. Tem os anos 70, lisérgicos, delirantes com a fusão de Miles Davis, funk, rock, Cuba e bossa nova. Tem os anos 80, da eletrônica e do videoclipe. Tem os anos 90, que vai do hip-hop à world music. E tem o século XXI, onde está tão diluído que está difícil dizer onde ele está (ou não está).

Eu continuo dizendo que toco jazz. Mas só quando não tem esse dilema de ter que explicar o que é jazz antes de tocar. Senão é muita coisa.

*publicado no dia 22/4, na Folha de São Carlos, na coluna ETC&Jazz do caderno de cultura "Moitará".

02 fevereiro 2010

Monkeando a música

















Thelonious Monk é um dos pianistas mais arrojados de todas as épocas do jazz. Seu estilo despojado, exótico, sujo, direto e aparentemente caótico de tocar conferiu ao bebop uma identidade harmônica ousada e colorida. Suas notas pareciam fortalecer as melodias intrincadas com notas de sustentação muito calcadas nas alterações da escala (b2, b3, b5, b6, b7). Seus acordes sempre soam secos, cortantes, angulosos - mas encaixam perfeitamente nos escassos vãos entre as centenas de notas dos temas do bebop.

Monk levou adiante seu estilo em suas composições, em que experimentou diferentes abordagens do espectro harmônico ao criar melodias com grandes saltos ou pequenos cromatismos. Nesse contexto, sua "arma secreta" era o uso da escala de tons inteiros - usada por Debussy e outros impressionistas no âmbito da composição erudita - nos acordes dominantes de suas criações, gerando improvisos bem-humorados e irreverentes devido à sonoridade peculiar dessa escala.

Seus temas são poucos - cerca de 70 - e quase sempre fazem referência ao blues, seja na forma estrita de 12 compassos e 3 acordes - que ele modificou, usando estruturas como I7 - IIb7 - I7 - V, ou I7 - VIb7 - II7 - V7 ao invés do clássivo I7 - IV7 - I7 - V7 - seja na expressão direta e límpida do conteúdo. Poucas notas, mas organizadas de forma a criar pequenos universos expressivos únicos e inesquecíveis. Pequenas jóias jazzísticas, que falam sobre o Bronx, o Queens, o metrô, os clubes da rua 52, as noites mal-iluminadas, os passeios sobre as calçadas úmidas e becos sombrios de Nova Iorque.

Foi em um disco do pianista panamenho Danilo Perez que pude entender a irreverência da música de Monk. Em Panamonk (1996), Perez usou abordagens semelhantes às do mestre nova-iorquino e recriou algumas das pérolas do repertório monkiano em um novo contexto rítmico, usando ritmos caribenhos para improvisar sobre as canções. Ou seja, emprestou de Monk seus tempos e fraseados exóticos para elevar a um novo nível de complexidade seus próprios temas. Além disso, Perez também compôs canções seguindo o estilo "desengonçado" de Thelonious, deixando o disco simplesmente delicioso de ouvir.

Panamonk (1996)
Danilo Perez - Piano; Terri Lyne Carrington, Jeff Watts - Batería; Avishai Cohen - baixo; Olga Román - Voz  (01) Monk's mood 1 (02) Panamonk (03) Bright Mississippi (04) Think of One (05) Mercedes' mood (06) Hot Bean Strut (07) Reflections (08) September in Rio (09) Everything happens to me (10) 'Round Midnight (11) Evidence and Four in One (12) Monk's mood 2