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16 setembro 2011
A vida anda e a preguiça também
Este blog não está sendo atualizado por pura preguiça. Preguiça do mundo. Preguiça da internet. Preguiça de fazer login. Preguiça de estar conectado. Preguiça de estar atualizado. Preguiça até de coisa boa, como ouvir novos discos, pesquisar novos lançamentos, redescobrir velhos CDs. Preguiça de me perder nos sons.
Preguiça de informação. Preguiça de fatos inúteis, como saber que Gerard Depardieu urinou no corredor de um avião. Preguiça dos fatos tristes, como lembrar que Joe Morello morreu nesse ano. Preguiça dos fatos que importam na música, como ouvir falar quem é a última nova grande estrela do jazz americano de acordo com a Downbeat (o trumpetista Ambrose Akinmusire foi o escolhido), ou de ouvir o bootleg da apresentação do Trio Corrente com Paquito d'Rivera, ou de ouvir o solo que Seamus Blake fez no disco de um grande guitarrista brasileiro em ascenção, Oliver Pellet.
Preguiça dos livros. Preguiça de ler em "O triunfo da Música" (Companhia das Letras, 2011, 424) que Mozart foi despedido por seu patrão príncipe a pontapés - mostrando que músico sempre foi uma profissãozinha ingrata. Preguiça de discutir essa tal profissãozinha, com suas OMBs, currículos escolares obrigatórios e coletivos alternativos. Preguiça de discutir coisas sérias, como os debates sobre a nova lei de Direitos Autorais, ou de dar opinião sobre a chamada "crise" no MinC - deflagrada por gente que tem interesses mais do que culturais nos "eixos" das rodas artísticas desse País.
Preguiça da televisão, preguiça do rádio, preguiça dos shows - dos que fiz, dos que não fui, dos que tenho que fazer -, preguiça até do meu programa de rádio - que já foi reprisado nas últimas duas terças-feiras por pura preguiça de gravar os roteiros, que já estão prontos desde o mês passado. A preguiça me pegou nos últimos tempos. Me deu preguiça mesmo até de postar aqui um texto decente, ou coisa que o valha.
22 fevereiro 2010
Free Ragtime ou Ragged Jazz?
Achava que "Mostly other people do the killing" fosse o nome de mais uma dessas bandinhas indies sem muito conteúdo que surgem às pencas no cenário do rock hoje em dia. Mas lendo as últimas Downbeats percebi que os caras são a nova febre sim, mas do jazz. Há várias referências ao quarteto, que foi considerado o "melhor grupo em ascenção" (rising star ensemble) pelos leitores da revista em 2009 e acaba de lançar seu quarto disco, Forty Fort (HotCupRecords, 2010).
Peter Evans no trumpete é virtuosístico e lógico; Jon Irabagon, no sax tenor, é um dos nomes mais relevantes do instrumento nos dias de hoje, tendo vencido o famoso concurso do Instituto Thelonious Monk em 2008; Kevin Shea, na bateria, é bem conhecido na cena indie americana por ter liderado algumas bandas de rock mais experimentais; e Moppa Elliott, no contrabaixo, assina a maioria das composições e é o mentor intelectual dos "assassinatos" musicais perpretados pelo grupo, que segue matando a pau.
Tornaram-se a nova sensação do momento por três motivos: são excelentes músicos, todos tendo estudado em conservatórios e escolas importantes dos EUA; fazem uma música vibrante e inovadora, que traz de volta o espírito alegre e irreverente do jazz pré-1930; por fim, têm um dos únicos shows de jazz que dispensa fileiras de poltronas ou cadeiras nos últimos tempos, sendo tão divertido de assistir quanto um show de qualquer outro tipo de música(*).
A diversão voltou. Basicamente é isso que o grupo mostra em suas composições realmente inovadoras sob o ponto de vista estrutural - semelhante a uma série colagens de motivos de jazz, clichês e ritmos que vão de New Orleans a Bangladesh -, o que chamou a atenção da crítica. Mas também ganhou o coração do público, que reconhece melodias, interações rítmicas e as estrepolias (se é que podemos chamar assim as verdadeiras explosões de notas, rasgos harmônicos, polirritmias e síncopes) que os músicos inserem nos improvisos coletivos, criando um contexto musical familiar para suas recriações musicais mais arrojadas. Ora soa como ragtime desconstruído e recortado, ora soa como "ragged" jazz, feito em trapos e recosturado como bossa nova ou reggae - bagunça legal de ver e de ouvir.
(*) justamente por isso o grupo é bem melhor de ver do que só ouvir... preferi colocar um vídeo do que um link para o cd.
21 setembro 2009
Rádio ao cair da tarde
Enquanto vagava pela web, lendo uns blogs, achei um link interessante, para o famoso programa de rádio da pianista norte-americana Marian McPartland, PianoJazz. Ela entrevista músicos e toca junto com eles, e faz isso há mais de 30 anos. Também é colaboradora da célebre revista Downbeat. E toca lindamente. Lembro de ouvi-la pela primeira vez numa coletânea de pianistas que se chamava "Piano ao cair da tarde", quando era adolescente.

Nesse programa, de 1 hora de duração, ela conversa e toca com o pianista Matthew Shipp, um dos mais malucos a atuar hoje em dia no front do free jazz. O som de Shipp lembra o de Cecil Taylor, porém mais calmo e introspectivo, dramático. Aqui ele toca algumas composições próprias, mas seu estilo "desconstrutivo" pode ser bem compreendido quando ele reinterpreta standards como "Angel Eyes" e "Summertime". Vale a pena parar para ouvir essa aula de rádio, gravado pela rádio NPR. O programa traz:

Nesse programa, de 1 hora de duração, ela conversa e toca com o pianista Matthew Shipp, um dos mais malucos a atuar hoje em dia no front do free jazz. O som de Shipp lembra o de Cecil Taylor, porém mais calmo e introspectivo, dramático. Aqui ele toca algumas composições próprias, mas seu estilo "desconstrutivo" pode ser bem compreendido quando ele reinterpreta standards como "Angel Eyes" e "Summertime". Vale a pena parar para ouvir essa aula de rádio, gravado pela rádio NPR. O programa traz:
- "Patmos" (Matthew Shipp)
- "Angel Eyes" (Earl Brent, Matt Dennis)
- "Summertime" (George Gershwin, Ira Gershwin, Dubose Heyward)
- "Warm Valley" (Duke Ellington)
- "Naima" (John Coltrane)
- "Module" (Matthew Shipp)
- "Gamma Ray" (Matthew Shipp)
- "Portrait of Matthew" (Marian McPartland)
- "C-Jam Blues" (Barney Bigard, Duke Ellington)
25 março 2009
Os sons que eles escolheram

No jazz, a escuta é essencial. Escutar é a base do criar, abrangendo as três pontas do triângulo da fruição estética: o ouvinte/espectador, que recria os sons levado pela sensibilidade dos intérpretes; por sua vez, os intérpretes recriam as sonoridades dos compositores das canções que estão tocando; por fim, os compositores elaboram suas obras com base em referências sonoras anteriores. Escutando, compondo e criando ao mesmo tempo. Público, músico e criador interagem a cada momento. Não foi à toa que o compositor e pesquisador francês Pierre Schaeffer dizia que a música começa nos ouvidos de quem escuta.
Ao ler a Downbeat de março, tive a certeza de que todos os criadores do jazz pararam, em algum momento de suas vidas, para exercitar a escuta. A matéria de capa traz vários artistas do gênero falando sobre seus álbuns favoritos pertencentes ao catálago do legendário selo Blue Note. Legal pra conhecer os gostos e influências dos caras - o que ouviram, como traduziram o que ouviram, e como aplicaram o que compreenderam em suas obras.
A foto de capa traz o saxofonista Joe Lovano segurando o vinil "Free For All", do baterista Art Blakey e seus "mensageiros do jazz". Eu não conhecia o disco. Corri atrás (santo Google) e vi que já tinha ouvido pelo menos a faixa-título, que é uma correria só, hard-bop da pesada, tem que ouvir. E dá até pra entender de onde Joe Lovano tirou a expansividade de seu som...
Além de Blakey, citado como favorito também pelo trumpetista Randy Brecker, três artistas parecem ter dominado as preferências gerais: discos de Wayne Shorter (citados pelos saxofonistas Branford Marsalis, Greg Osby e Chris Potter, pelo trumpetista Nicholas Payton e pelo vocalista Kurt Elling), Herbie Hancock (referidos pelos trumpetistas Sean Jones e Terence Blanchard e pelos pianistas Geri Allen, Kenny Werner e Uri Caine) e Horace Silver (comentados pelo pianista Bill Charlap, trumpetista Dave Douglas e cantora Dee Dee Bridgewater).
Não é de se espantar que tantos bons músicos tenham bebido das mesmas fontes, sensíveis às novas formas de compor e improvisar apresentadas pelas inesquecíveis bolachas da Blue Note, gravadora em sua plena forma nos férteis anos 60 - pré-fusion, pós-bebop, quasi-free. Esses discos são o puro reflexo de uma época revolucionária, em que os artistas procuravam novos caminhos, novas fusões, novas cores - e Herbie, Shorter e Silver eram realmente promissores nessa alquimia de misturas sonoras.
Hoje, não é tão importante ter as gravações - seja em vinil, CD, ou DVD - para se ouvir músicas diferentes. A internet se tornou um grande "distribuidor" de informação musical, disponível para quem quiser, muitas vezes de graça. Fuçando bem, se acha desde raridades do choro brasileiro da década de 20, passando pelas canções de rituais religiosos africanos, até a música eletroacústica avant-garde composta antes-de-ontem por algum novo Stockhausen digital.
Não é mais necessário mais buscar a música - esta é que nos acessa, nos assedia, "coloca nossos ouvidos para trabalhar a seu favor" (na teoria de Giuliano Obici) em iPods, podcasts, rádios digitais, sons prêt-a-porter compactados na nova panacéia digital chamada mp3. Portanto, mudam as tecnologias, mas a questão permanece a mesma: como permanecer sensível às músicas que nos rodeiam, tendo uma enorme quantidade de sons disponíveis?
O que esses artistas da Downbeat nos ensinam, ao comentar seus bolachões, não é a ter amor pelos discos - ou pela coleção de mp3 baixados da internet, ou pelo novo iPod com milhares de gigabytes de capacidade - e sim a ter cuidado com o que se escuta. Em uma época onde milhares de vinis da então vigorosíssima indústria musical invadiam as prateleiras com "o mais novo sucesso das paradas" - traduzindo, centenas de cópias mal-acabadas de grupos musicais de sucesso -, eles souberam escolher "poucas e boas" gravações, de onde extraíram a matéria-prima para criar seus universos musicais, seus próprios discos, seus próprios oásis de sons frescos em um deserto de mau-gosto e enfadonhas repetições barulhentas das FMs comerciais.
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