Mostrando postagens com marcador Bossa-Nova. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Bossa-Nova. Mostrar todas as postagens

05 novembro 2010

A bossa suingada


Doralice - Canja com Bia Mestriner

Murilo Barbosa | Myspace Music Videos


Nesse show da querida amiga e grande cantora Bia Mestriner, realizado no SESC Ribeirão Preto no começo de 2010, tive a honra de ser convidado pra "dar uma canja". O combinado era que fosse em "Desafinado" (Jobim/Newton Mendonça), mas no embalo do show ela se esqueceu de me chamar... Então me convocou na próxima, que foi o gracioso sambinha "Doralice" (Dorival Caymmi). Fiquei feliz de ter tocado essa música com a Bia e do momento ter sido registrado, pois a banda estava muito afiada: Carlinhos Machado na guitarra, Tiago Alves no baixo e Paulinho Vicente na bateria.

Doralice é um samba, mas virou um marco da bossa nova por causa da releitura sóbria, minimalista e requintada de João Gilberto no disco Getz/Gilberto (tá lá embaixo pra quem quiser). Pra mim, é o encontro absoluto do jazz com um dos melhores gêneros da música brasileira, a bossa. Dois mundos se complementando, se reconfigurando.

Sempre gostei do improviso do Stan Getz nesse tema, ele tem um som redondo, lúcido, tão meticulosamente estruturado como a bossa tem que ser: simples e despojada, mantendo a eficiência da cadência do samba sem a "gordura" da marcação exagerada. E a Bia tem a voz da bossa, econômica na emissão e ricamente ornamentada na melodia e divisão. Como o sax de Stan Getz, como a batida de João.


Getz/Gilberto feat. Antonio Carlos Jobim (1964)
João Gilberto: violão, voz; Stan Getz: sax tenor; Antonio Carlos Jobim: Piano, violão; Astrud Gilberto: voz; Milton Banana: bateria; Sebastião Neto: baixo (no crédito original vem erroneamente denominado Tommy Willians...)
01 - The Girl From Ipanema; 02 - Doralice; 03 - Para Machuchar Meu Coracao; 04 - Desafinado (Off Key); 05 - Corcovado (Quiet Night of Quiet Stars);
06 - So Danco Samba; 07 - O Grande Amor; 08 - Vivo Sonhando (Dreamer)

07 junho 2010

Gonzalo, tocando Jobim

A homenagem pra Tom Jobim no último Free Jazz Festival, em 1994, deu aos standards da Bossa Nova uma cara mais novaiorquina. Mais post-bop. O cubano Gonzalo Rubalcaba era um dos convidados. Assim, os improvisos ganharam também um sotaque latino, com o fraseado potente e assertivo do pianista contagiando todo o time.

No teclado, Herbie Hancock mediu bem os acordes, sem correr o risco de interferir na abordagem exótica e quase "ceciltayloriana" de Rubalcaba, cuja (piro)técnica rouba a cena - mas não a música. Ao contrário, a selvageria do pianista só faz elevar ainda mais a temperatura e deixa a geralmente morninha "Água de Beber" (Jobim/Vinícius de Moraes) praticamente em ebulição.

 

Nos anos 90, Gonzalo foi tão festejado na cena jazzística quanto a queda de um meteoro de ouro em plena Wall Street. E a primeira impressão que causou foi a de um furacão pianístico, de técnica exuberante e musicalidade indômita. Um cubano "caliente", renovando a vanguarda jazzística com imbatível rítmica afro e rajadas de montunos sobre compassos compostos. Mas não era só isso. Rubalcaba é inesquecível também pela interpretação impressionista, mínima e pungente, de baladas complexas, transformando-as em delicados poemas sonoros. É quando seu toque romântico, envernizado por harmonias surpreendentes, transcende o rótulo latin jazz e passa ser simplesmente música.


Essa sua faceta mais introspectiva e poética foi aproveitada pelo baixista e bandleader Charlie Haden no disco "Nocturne" (Verve, 2001), em que convidou o pianista cubano e outros músicos que tinham alguma relação com a música latina para criar uma atmosfera densa e charmosa ao interpretar canções da cultura afrocaribenha (boleros como "Contigo en la distancia", "Noche de Ronda" e "Tres palabras", por exemplo). Uma obra-prima, em que a linguagem jazzística refina as melancólicas e dolorosas melodias hispânicas, enquanto o colorido das canções dá fôlego a este soberbo noturno jazzístico.

Nocturne (2001) (pt.1) (pt.2)
 


Gonzalo Rubalcaba (piano); Ignacio Berroa (bateria); Joe Lovano, David Sanchez (tn sax); Pat Metheny (violão); Frederico Ruiz (violino)
1. En la Orilla del Mundo; 2. Noche de Ronda; 3. Nocturnal Marroquin; 4. Moonlight; 5. Yo Sin Ti;  6. No Te Empeñes Mas; 7. Transparence; 8. El Ciego; 9. Nightfall; 10. Tres Palabras; 11. Contigo en la Distancia 

24 novembro 2009

O trumpete de Bidinho



Bidinho

Neste ano dei uma guinada na minha vida e decidi finalmente tornar-me músico profissional, mesmo sabendo que ganhar dinheiro tocando boa música é cada vez mais difícil. A grande sorte que tive neste ano foi poder tocar quase semanalmente no restaurante Os Ciprestes, em Ribeirão Preto (SP), acompanhando a cantora Bia Mestrinér e o trumpetista Bidinho.

Bidinho é um veterano da música - seu nome está no dicionário Cravo Albin de música brasileira, é mole? -, com ampla experiência musical com grandes nomes da MPB como Gal Costa, Elis Regina, Chico Buarque, Caetano Veloso, MPB-4, e Barão Vermelho. Ele concorda comigo quando o assunto é viver de música: "Você tem que topar o que aparece, fazer todo o tipo de trabalho, mas se você é bom, os caras bons vão te chamar pra tocar", diz ele, do alto de seus mais de 40 anos de carreira musical.

Começou tocando saxofones na orquestra de seu irmão, Amir Spínola, no interior de São Paulo, passando por diversas formações como a Orquestra Nélson de Tupã, Orquestra Laércio de Franca e News Boys. Natural de Pontal (30 km de Ribeirão Preto), mudou-se para o Rio de Janeiro em 1975, onde trocou os saxes pelo trompete.

Depois de anos no mercado fonográfico, voltou em 2006 para sua cidade natal e atua na noite ribeirão-pretana. E eu tenho o orgulho de poder acompanhá-lo todos os sábados tocando standards de jazz, bossas e música brasileira, juntamente com Paulinho Vieira na bateria e Zé Pereira no baixo. No último dia 14 de novembro gravei nossa apresentação usando um gravador Zoom H4n, stereo, 44,1Mhz/16 bit. O som ficou legal, então disponibilizo aqui algumas faixas para vocês escutarem este ícone do trumpete brasileiro.

Look to the Sky (Tom Jobim)



Cantaloup Island (Herbie Hancock)

20 julho 2009

Piano e violão, uma nova aventura



Algumas gigs eventuais podem dar origem a trabalhos mais sólidos. Foi o que aconteceu comigo ao tocar com o guitarrista são-carlense Thiago Carreri , que me convidou para fazer um som com ele em um coquetel. O contratante pediu músicas na linha César Camargo Mariano & Romero Lubambo, assim como alguém pede gelo e limão na coca-cola. Numa segunda-feira, pra tocar na quarta. Num estalar de dedos, assim, fácil. Como ele é meio louco e eu também, topamos o desafio.

Quem já ouviu as gravações da dupla, inclusive em DVD, sabe que de fácil a tarefa não tem nada. César Camargo dosa a expressividade de cada nota do piano, deixando os sambas mais ardentes de Djavan com cara de cool jazz, mas sem perder uma gota de suíngue. Ou reencontra a chama latina de um standard de jazz americano aplicando-lhe alguma síncope de samba. Redistribui o ritmo, desdobra o andamento, e às vezes o dobra, mistura boogie-woogie com partido alto e obtém um resultado surpreendente, que destaca o fraseado limpo e refinado do violão de Romero Lubambo. Dois mestres tocando juntos, recriando temas de jazz, sucessos da MPB e também composições próprias com as belas e amadeiradas tintas harmônicas de seus instrumentos, ambos de cordas.

Apesar de parecer simples e despojado, o dueto de piano e violão pede alguns cuidados. São dois instrumentos praticamente completos, que disponibilizam, sozinhos, múltiplas possibilidades de ritmo, melodia e harmonia. Imagine se combinados. Percebi isso quando sentamos, eu e Thiago, para o primeiro (e único) ensaio. Quem toca o tema? Quem acompanha o quem? Entrar de sola no samba ou fazer uma exposição em rubato? Usar os timbres mais agudos ou explorar os graves - pra não embolar tudo na região média, onde tanto o piano como o violão têm ótimo rendimento? Melhor deixar as dúvidas de lado e começar logo a tocar, e ver o que acontece. E não é que resultou em um ótimo dueto?

A expressividade é a marca do trabalho. Após buscarmos um repertório leve, bem brasileiro, mesclado com standards de jazz e sucessos da MPB, passamos a desenvolver uma história - um pequeno arranjo - pra cada um deles. Thiago é muito sensível e improvisa com ótimo senso de espaço, respirando entre frases, aproveitando cada deixa do acompanhamento para responder com um novo motivo. E sabe o momento certo de deixar de ser o solista para acompanhar o solo de piano, mudando para as regiões mais graves do violão. Isso permitiu um instantâneo entrosamento, criando um senso de cumplicidade entre os sons que transmite a alegria de cada acorde, a felicidade das notas certas, a gratidão pelas deixas provocativas que cada um lançava sobre o outro. Apesar de bem livre, o som tinha melhor acabamento que um simples jam session.

Durante a apresentação no coquetel, que aconteceu no SESC São Carlos, o técnico de som disse que ia tentar gravar com um aparelho de MD (Mini-Disc) que ele tinha sobrando, mas não demos muita bola. No final, ele nos entregou o disquinho, com quase 2 horas de som. Pra nossa surpresa, o áudio ficou muito bom. Um ótimo bootleg (termo utilizado pelos audiófilos para nomear gravações feitas ao vivo, sem a qualidade ideal de um estúdio móvel).

Divido com vocês essas 13 músicas, disponíveis para download (podem copiar e distribuir à vontade, contanto que citem a fonte), com todos os defeitos e virtudes que apresentam. Os defeitos, claro, estarão sempre presentes em trabalhos fechados assim de última hora, sem muito ensaio (é só notar como alguns temas como "A Paz" e "Tristeza do Jeca" apresentam algumas "notas na trave" bem aparentes). Nem se compara ao feito de CCM & RL. Mas também as virtudes se destacam, como a máxima espontaneidade dos improvisos, as inesperadas rearmonizações, algumas dinâmicas muito expressivas, que mostram que os músicos estavam se provocando, se comunicando, descobrindo juntos as possibilidades do novo trabalho.

A paz (João Donato)

All Blues (Miles Davis)

As rosas não falam (Cartola)

Chovendo na Roseira (Tom Jobim)

Encontros e Despedidas (Milton Nascimento/Fernando Brant)

Fotografia (Tom Jobim)

In a Sentimental Mood (Duke Ellington)

Nanã [Coisa n 5] (Moacir Santos)

Samba de uma Nota Só (Tom Jobim)

Stella by Starlight (Victor Young)

The Nearness of You (Hoagy Carmichael)

Tristeza do Jeca (Angelino de Oliveira)

Watermelon Man (Herbie Hancock)