Mostrando postagens com marcador vanguarda. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador vanguarda. Mostrar todas as postagens

25 julho 2010

Monk com as cores de Debussy

Se Thelonius Monk tivesse tido umas aulas com Debussy de composição impressionista, provavelmente soaria como Martial Solal (Algéria, 1927). Esse veterano pianista de jazz tem um estilo criativo e colorido, diferente da maioria dos músicos do chamado "estilo europeu" - mais introspectivo e escuro. No disco "Balade du 10 Mars" (1998), ele mostra como a arte do jazz pode evoluir quando se une o domínio da linguagem com um vasto repertório de sutilezas sonoras e técnicas requintadas.

Solal, filho de um cantor lírico e de uma professora de piano, tem o sol no nome e no som. Mesmo obscuros e nostálgicos standards, como "Round About Midnight", ganham pinceladas iluminadas, revelando novos ângulos de intepretação, novos cantos inexplorados. Sua versão da batida "Night and Day" pode ser facilmente considerada uma das mais ousadas que já se fizeram. 

Solal utiliza block chords sobre harmonias superestruturadas, como se buscasse novos caminhos para a melodia. Seu timing é monkiano, seu voicing é pós-moderno, sua técnica é abismal. Seu toque é sutil e denso, naturalmente perfeito para um prelúdio de Debussy, assim como sua paleta harmônica.

O som do trio é inovador, dinâmico, e assombra pela qualidade das reinterpretações de standards como "Softly as a morning sunrise" e "The Lady is a Tramp". O improviso é coletivo, com um grau de sensibilidade e integração fantástico. Enquanto o baixo de Marc Johnson salpica notas em um walking bass desconstruído, a condução despojada da bateria de Paul Motian conjuga o tempo à sua própria maneira. Mas não soa agressivo ou hermético - nem mesmo vago. 

A extrema liberdade e abstração do grupo é também coesa e integrada, como se todos andassem por estradas sonoras paralelas que se cruzam - ou se sobrepõem, como um quebra-cabeças sonoro que se encaixa em várias dimensões ocultas, que aparentemente não se pode perceber. Som de vanguarda. Coisa de "francês metido a besta", mas com uma boa dose de swing e criatividade.

Martial Solal Trio - Balade du 10 Mars


Martial Solal - piano; Marc Johnson - baixo acústico; Paul Motian - bateria



1. Night and day (5:47); 2. Gang of Five (6:39); 3. Softly as a morning sunrise (4:53); 4. Round About Midnight (7:08); 5. Almost like being in love (7:19); 6. Balade du 10 Mars (3:18); 7. The lady is a tramp (6:16). 8. My old Flame (4:22); 9. The newest old jazz (2:52)

16 dezembro 2009

Limites para o jazz ou... cadeia neles! (2)

Vejam aqui a apresentação que quase "deu cadeia na Espanha", no festival de Sigüenza.



Do site FreeJazz

O "criminoso" em questão é o saxofonista americano Larry Ochs, liderando um grupo com Satoko Fujii ao piano, Natsuki Tamura ao trumpete e a dupla de bateristas Scott Amendola e Donald Robinson (talvez esteja aí a base da discórdia, "como pode haver um quinteto de jazz sem contrabaixo e duas baterias, meu deus???").

Escutem bem o trecho. Não é nada assustador. Percebam que há uma espécie de ritmo "shuffle", um certo espírito de rock'n'roll em tempo 6 por 8, o que dá uma bela base rítmica para a improvisação e alta dose de expressividade. As notas ríspidas do saxofone são entrecortadas pelos ataques do trumpete, num diálogo fervoroso, mas inteligível. A pianista acompanha tudo apenas com os olhos, liberando os músicos de qualquer compromisso com a harmonia. É bem contemporâneo, mas é também bem espontâneo e vivo - característica que sempre prevaleceu nas apresentações de jazz desde que o estilo foi "inventado", digamos assim.

É duro dizer quais são as características do jazz, mas é realmente tão difícil defini-lo? Aliás, é realmente necessário? Para o infeliz espectador espanhol que se valeu do chamado da "otoridade" para arbitrar sobre a música que estava ouvindo, saber se aquilo que ele ouvia era jazz ou não era mais que necessário - era a própria essência de sua diversão, de sua satisfação.

Sentir-se satisfeito com o que se escuta é simplesmente atender a uma expectativa do ouvido. É ganhar uma gratificação por ter se disponibilizado a ouvir quietinho aquilo que se queria ouvir. É um ato bem egoísta. Não tem nada de errado nisso, mas é pouco. Dar aos ouvidos o que se quer ouvir é locupletar-se com o já sabido, como ir a um banquete e repetir três vezes o mesmo prato. E são poucos os que se sentem realmente satisfeitos apenas em escutar - seja aquilo música contemporânea, jazz, música clássica, música popular, o que seja. Dar-se ao luxo de uma escuta nova, atenta, contemplativa, inovadora, é um ato de coragem, auto-conhecimento, crescimento, generosidade, humildade, respeito.

Ao deparar com um jazz mais voltado para as tendências vanguardistas da música, o infeliz espanhol entrou em parafuso. Pois um show de jazz acontece no palco, mas acontece também na cabeça de quem escuta. Infelizmente, algumas cabeças ainda acham que jazz trata-se de negros tocando para negros (sim, o crítico americano Stanley Crouch já disse isso, e é respeitadíssimo nos EUA), ou então músicos de smoking branco tocando swing para um salão de baile, ou então um som extremamente rápido e exótico sendo tocado para poucos seres humanos num inferninho esfumaçado em algum porão novairoquino. Estereótipos substituem a realidade com tanta eficiência que a fruição da escuta, da arte, da vida, pode se tornar caso de polícia.

11 dezembro 2009

Limites para o jazz ou... cadeia neles!










Stanley Crouch, crítico de jazz

Estarrece-me uma notícia no portal UOL Música sobre um senhor que teria chamado a polícia em um festival de jazz na Espanha. O motivo: o grupo não estaria tocando jazz mas sim música contemporânea. Se fosse no Brasil, provavelmente os "homi" teriam dado risada. Mal sabem datilografar um boletim de ocorrência pra furto de galinha, quanto mais apartar piti de jazzófilo amador. Mas algum engravatadinho do Ministério Público ou velhaco do Procon - ambos sedentos por um espaço no telejornal - teria se manifestado em favor da devolução do dinheiro ou pela intimação dos produtores, músicos e promotores do evento por propaganda enganosa. Propaganda enganosa?

Existe um famoso festival de jazz chamado Montreaux Jazz Festival, que acontece há mais de trocentos anos na honestíssima Suíça. Basta checar no link acima, que traz a programação deste ano de 2009, e você perceberá o que só o senhor espanhol acima não viu: um festival de jazz não tem só jazz na programação.

A discussão vai longe, mas começa de uma pergunta simples: o que é jazz então? Na programação do Montreaux Jazz Festival, há respostas fáceis - Black Eyed Peas (descrito na página como "um concerto que promete decibéis de pura energia") diz respeito muito mais a uma banda de pop, rock, soul, funk do que exatamente jazz, certo? E o que dizer de Prince? Babyface? Seal? Todos excelentes artistas, mas que trazem pouquíssimos elementos em suas músicas que possam ser relacionados ao jazz. Seja por razões comerciais, seja porque as inúmeras misturas entre jazz, rock e funk realmente dificultaram a definição do que seja o jazz, esses artistas estavam tocando em um festival de jazz. *

O senhor espanhol reclamava de algo ainda mais inusitado: que a música era por demais contemporânea, e não jazz. Isso me lembra um certo esperneio fascista de uma das mais tradicionais correntes do pensamento musical norte-americano, liderada por críticos como Stanley Crouch . Para ele, está excluída da definição de jazz tudo o que aconteceu depois de 1969. Vanguarda? Isso é barbárie. Tradição sim, é civilização, e tudo fora disso é uma eterna luta entre bárbaros - os músicos de rock, rap, funk, e os abobalhados vanguardistas - e guardiães do templo da música - os neoconservadores do jazz.

Stanley Crouch diz que rock, rap e vanguarda não passam de expressões artísticas típicas de adolescente, que não lidam com emoções, apenas as vomitam, mal-digeridas, nas pessoas em volta. Jazz e música clássica sim, têm a ver com expressões maduras, adultas, que envolvem alguma sofisticação de linguagem, refinamento de repertório, códigos elaborados e expressividades subjetivas. Tudo isso soa lógico, tem fundamento. Portanto - no pensamento crouchiano - são mundos distintos, intocáveis, incompatíveis entre si. Fusão nem pensar.

Crouch parte de uma premissa verdadeira, mas chega a uma conclusão falsa. Bobagem de adulto quadrado. Assim como os mais sofisticados adultos têm seus "cinco minutos" de bobeira - tomando porres, contando piadas idiotas, usando fraldas e perucas em bailes de carnaval -, também os adolescentes às vezes se metem em encrencas de adultos quando decidem participar de atividades e manifestações políticas, intervenções culturais, entre outras.

Música - em especial, o jazz - tem a mesma capacidade de se desvencilhar de vez em quando de amarras culturais, ideológicas, históricas, religiosas, moralistas e etc para "enfiar-o-pé-na-jaca" da brincadeira juvenil, misturando-se com rocks, ritmos latinos festivos, funks, batidas eletrônicas. E o flerte com a vanguarda também é saudável - o jazz se torna mais introvertido, denso, posudo, até mesmo hermético - mas isso é parte da adolescência, vivenciando sentimentos adultos até pelo "excesso de intelectualismo".

Stanley Crouch não entendeu isso. O senhor espanhol que chamou a polícia também não. "Prendam o jazz! Já não se toca mais como antigamente...", gritavam os guardiães da boa música, enquanto os vanguardistas e adolescentes se divertiam ouvindo toda a balbúrdia, tão contemporânea e espontânea como um happening de John Cage.



*existe um outro festival que está "pegando" no Brasil que se chama Tudo é Jazz. É até mais purista do que o festival de Montreaux, mas trouxe na programação de 2009 a cantora Madeleine Peyroux (uma espécie de "cópia country" de Billie Holliday) junto com Mart´nália, filha de Martinho da Vila.