03 outubro 2012

Era da Mediocridade (para Eric Hobsbawn)



















Sem graça e sem vontade,
revestida de platitudes brilhantes,
imbuída de uma modéstia quase beatificante,
mas com a ferocidade das verdades de vestibular,
A Mediocridade
há de se espalhar
em plena majestade.

Quando, no apagar das luzes,
não resta mais do que sombra 
e nem se vê fagulha de pensamento,
é aí então que ela ensandece e fermenta-se, borbulhante;
sentada nos fins de tarde dos cafés bem frequentados,
entreolhada nos sinais fechados,
recitada no conforto dos lares dos bem nascidos,
caceteada no confronto entre os abastados e os mal-morridos;
a Mediocridade não se apresenta, mete o pé na porta, 
grita-se, dita-se, desdita-se, desnuda-se, justifica-se,
promulgada em decretos, legalizada, homenageada,
reverenciada e noticiada
no Jornal Nacional, 
em plena sala de estar, 
mastigada durante o jantar, e resmungada
enquanto escovamos os dentes e a encaramos 
de frente.

A Mediocridade nos pega de calças curtas 
com nossas caras de bobo,
na hora do fim da festa
de pernas bambas e decotes fáceis,
exibindo sorrisos Luminous White,
onde as almas bêbadas
de idéias trôpegas
e irresistivelmente perfeitas, fáceis,
celebram, jactantes,
sua mediocridade.

Sem vergonha e sem autocrítica,
a Mediocridade bate no peito e escreve livros,
que poderiam ser reduzidos a um "tuíte"; 
afinal, a Mediocridade é humilde:
qualquer linha, qualquer versículo, parágrafo, qualquer arroto,
já lhe serve. 
Na sua simpleza e singelicidade,  
a Mediocridade dispensa diplomas, títulos, efemérides,
outorgas, comendas, obituários, acrósticos, deferências - apesar de tê-las todas, sempre, em abundância -,
nem precisa de padrinho ou Q.I.;
a Mediocridade é uma autarquia que se basta, como uma atividade-fim,
na livre-concorrência consigo mesma,
sustentada pelas velhas tábuas da Lei do Mercado:
"Entre duas ou mais mediocridades,
que vença a mais competitiva";
e assim ela há de se multiplicar,
mesmo com a queda das Bolsas e o crash da Europa.

A Mediocridade é uma malária,
que apreguiça os debates,
que dá febres de fé,
que dispara surtos correcionais,
que provoca comichões de sabedoria,
geralmente acompanhados
das convicções higienizadoras,
das convenções engessadas,
das tradições empoeiradas,
das reações recalcadas;
é uma maleita dos afetos,
um torpor dos intelectos,
uma pirraça dos perceptos,
que monologa os diálogos, 
que apregoa delírios de certezas;
a Mediocridade é a doença que mata seu portador
por encolhimento da alma,
mas mata também tudo ao redor
por asfixia, ressecamento, degeneração;
mata por feíura mesmo.
O feio é a própria Mediocridade,
que odeia o belo, o que pode vir a ser belo, e por retroatividade, o que já foi belo,
e há de continuar escondendo o mundo,
encobrindo-o com arquiteturas nababescas cheias de vazio,
como Dubai, Las Vegas e Brasília.

a Mediocridade é o poeta do Supremo,
é o imortal do Senado,
é o analfabeto da Câmara,
é o homem santo do Planalto
é o candidato do centro,
é o dono da terra, capitão do mato,
é o ladrão da terra, pau mandado,
é o destruidor da terra, carvão queimado,
é a classe mediana, de um tipo ultrapaulistano
de ser humano,
que tem carro do ano,
que rouba mas faz,
que estupra mas não mata,
que educa no grito, reivindica no tapa
e dá o troco na bala,
arrotando trechos da Bíblia ou
do livrinho de Richard Dawkins,
para justificar por quê precisam acordar no dia seguinte
e defender a pátria, a família e a propriedade,
ou Deus,
ou a ciência.
Não veem que a Mediocridade está além dessas questões,
está abaixo, está acima, ela é a própria questão: filosofiza-se,
de boca cheia,
nos seminários ou nas salas de aula,
de algum telecurso ou faculdade.

Porque a Mediocridade é o próprio Deus,
o Eleito das massas consumidoras,
seduzidas pelo brilho em alta resolução do televisor de LED,
apalermadas pelo poder da grana,
pagando dízimos via MasterCard, ou
perdidas nos corredores infinitos de algum duty-free,
graças a São Luis Vuitton, Prada e Santa Bulova.
Como uma verdade toffleriana malcheirosa,
a Mediocridade é a própria Terceira Onda,
instalada nos microchips de telefones espertos,
das máquinas lava-louças, dos carros híbridos que falam,
codificados com míseros zeros e uns que são
mais comunicantes que seus medíocres donos,
que felicitam-se pela aterrissagem segura no aeroporto Charles DeGaulle,
contentes com o cheiro das jóias Hermès e o padrão Apple de qualidade
made in China.

A Mediocridade se globaliza, se civiliza, é o novo chic;
idiomatiza-se, dicionariza-se, neologizada, youtubizada em nova língua universal,
pós-era dos Extremos, urrada repetidamente até os confins de Urano;
uma língua assintática,
amnésica,
amoral,
acéfala,
anódina,
amorfa, na forma de uma diva travesti,
enfeitadérrima com suas próprias verdades de abano,
uma tautologia viva, pulsante - "sou porque sou foda" -,
delirante em seu orgasmo antierótico, eunuco, assexuado,
que se vale de um pênis postiço para estuprar toda a Inteligência,
ensanguentada e caída no chão,
encharcada em gasolina
e incendiada,
cercada por um pelotão de voyeurs andróginos neonazistas,
frequentadores de raves babacas e shopping-centers lisérgicos,
donos de bocas do ensino fundamental e milicos de Santa Tereza,
universitários linha-dura e policiais vista-grossa,
padres-celebridade e roqueiros caretas,
ex-big brothers e prostitutas ascetas,
dominatrixes e traficantes de auto-estima;
todos quebrando os dentes de tanto rir
daquela mera cena de soap opera
pós-Glória Perez.
A Inteligência morre,
a Mediocridade dá pulinhos na chuva.

Como este poema,
a Mediocridade se organiza de qualquer jeito,
dispensando versos alexandrinos,
epopéias gregas, sonetos,
quadras, decassílabos, rondós;
prescinde de qualquer forma-sonata,
minueto, melodia, libreto ou mesmo uma canção;
como este poema,
a Mediocridade se esvai em blá-blá-blás enjoativos,
corriqueiros, pueris e até mesmo grudentos,
como qualquer rima pobre
de um refrão de rádio,
que neste momento, rapidamente,
quase imperceptivelmente,
sepulta-se,
na sua
Mediocridade.

17 setembro 2012

A vida passa e o blog fica...

A reflexão sobre as coisas do dia a dia não acontece na mesma velocidade que as tais coisas do dia a dia. Eu tenho um monte de idéias, argumentos, histórias, causos, metáforas, discursos e homilias sobre todas essas coisas do dia a dia, mas falta o tempo para escrevê-las aqui. Eu peço desculpas a todos os que de vez em quando passam por este blog, mas é que está difícil ter tempo pra falar sobre o tempo, tá difícil ter cultura pra falar sobre cultura, tá difícil achar a música dentro da música...

Partilho com vocês minha dificuldade, mas também partilho a sublimidade deste vídeo, quem sabe pra deixar menos difícil a tarefa de parar pra admirar as boas coisas da vida.




16 agosto 2012

ETC & Jazz - Programa 61



Este programa levou ao ar o jazz de Terence Blanchard, Donald Byrd, Bill Mays e Inventions Trio, Michael Brecker, Michel Camilo, Sidney Bechet, da dupla Roberta Gambarini & Hank Jones e do Quarteto Brasil. Baixe aqui ou escute aí em cima. 


10 agosto 2012

ETC & Jazz - Programa 60



Neste programa tocamos apresentações ao vivo de Eric Dolphy, assim como da dupla heróica Max Roach & Clifford Brown. Também foram ao ar sons de Toots Thielemans, Victor Wooten, Hermeto Pascoal (em piano solo), o flamenco-jazz de Chano Dominguez e a ousada improvisação vocal da cantora Elisabeth Kontomanou. Baixe aqui ou escute aí em cima.

06 agosto 2012

Brasil para exportação. E daí? *

Meses atrás, um escândalo (mais um) era alardeado pela TV: contêineres de lixo hospitalar chegavam dos Estados Unidos, comprados por comerciantes do norte do Brasil e transformados em bolsos para calças jeans, revendidas a todo o País. Esse é apenas um lado perverso da economia global e sua lei simples: a mercadoria chega, pelo menor preço possível, aonde há procura – mesmo que seja lixo. A cultura de massa do século XXI segue a mesma lógica.

A música americana é consumida na Europa desde o fim da 2a Guerra Mundial. No pós-guerra, o jazz – o melhor produto cultural americano – lá encontrou sua plateia mais encorajadora. Os beboppers eram vistos como malucos nos EUA, mas o existencialismo francês e sua filosofia de liberdade radical adoraram as experimentações harmônicas do jazz moderno.

Já o mercado cultural brasileiro sempre foi um grande fã das tendências francesas – desde 1900 a 1960, tudo era copiado de Paris. Mas passamos a consumir música popular americana desde que Elvis Presley chegou pela TV e conquistou a juventude bossa-nova. Do rock da Jovem Guarda nos anos 60 ao hip-hop e às bandas indies nos anos 2000, consumimos por anos a fio a música de massa dos EUA,  superproduzidíssima para aparecer bem na telinha do canal jovem de videoclipes. E mesmo assim, as rádios, as novelas de TV e os programas de auditório nunca deixaram de tocar música feita aqui. Talvez isso mostre a força da nossa cultura, mas ao custo de uma certa perda da inocência, da criatividade, e do elã antropofágico e tropicalista exibido por grupos baianos, mutantes, secos e molhados – haja visto o surgimento de estilos de origem regional que foram adaptados à grandiloquência da cultura de massa, como o axé, o pagode romântico e o sertanejo universitário.

As técnicas para se produzir um sucesso, entretanto, continuaram tão antigas como a das marchinhas de carnaval: basta criar uma dancinha, um trocadilho de apelo sexual, um refrão-pílula, que pode ser um “tchê”, um “tcha”, e esperar que a música pegue. Apesar de achar que a música pode ser mais que um eterno baile de carnaval regado a “vou te pegar” e “dar uma fugidinha”, não vejo problema algum nesse tipo de diversão ligeira. A perversidade está mesmo é no aparato de comunicação e marketing voltado a espalhar essa música, oferecendo a nossos ouvidos apenas um canto monótono de vibratos em terça e rebolismos vulgares.

A verdade é que, de tanto consumir fast-foods culturais, hoje o Brasil aprendeu a fazer sua própria cultura enlatada. Os megashows brasileiros não devem nada ao showbusiness americano – igualmente povoado por artistas apelativos e cheios de rimas fáceis. Por isso, agora somos nós que mandamos para o mundo contêineres cheios de “produtos” musicais. E a Europa, em plena crise econômica, canta e dança ao som do vanerão brasileiro dos neo-sertanejos Gustavo Lima e Michel Teló – música bem mais leve e divertida que o jazz refinado do pós-guerra.

As plateias mais requintadas dos Estados Unidos e Japão até que consumiam a música brasileira, com suas sofisticadas composições da bossa-nova, chorinho e samba-jazz. O que não se via – desde Carmem Miranda, mantidas as proporções – era um artista brasileiro bombando nas pistas, nos programas de auditório, em aeroportos, rádios e até em escolas, como acontece com Michel Teló e Gustavo Lima – feito digno de uma Shakira ou Ricky Martin, artistas latinos que conquistaram as paradas mundiais.

Ok, então somos “exportadores” de cultura. Os americanos, que começaram toda essa história de globalização econômica, serão os próximos a receber nossos contêineres. Mas eles têm um patrimônio cultural protegido e valorizado: o jazz, ensinado em faculdades e até em escolas públicas. Na Europa, a arte de Mozart e Beethoven é tratada como disciplina escolar há séculos. Esses povos sabem a diferença entre música de verdade e mero entretenimento. Enquanto isso, no Brasil, o lixo cultural importado encontra ouvidos despreparados e um mercado consumidor em franco crescimento. A continuar assim, seremos apenas uns infelizes orgulhosos vendedores de nosso refugo musical, mas dançando ao som do baile americano e vestindo nossas calças jeans com bolsos feitos de lixo.

* texto originalmente publicado pela revisa Bleit (Boa Leitura), edição n1, julho/2012.